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Há um ano foi assim

por Pedro Correia, em 31.12.08

 

 

1. "Sem pôr em causa o princípio da valorização do mérito e a necessidade de captar os melhores talentos, interrogo-me sobre se os rendimentos auferidos por altos dirigentes de empresas não serão, muitas vezes, injustificados e desproporcionados, face aos salários médios dos seus trabalhadores." Palavras de um destacado dirigente sindical? Nada disso: foi uma significativa frase do discurso de Ano Novo do Presidente da República, em 2008. Percebendo, antes de muitos outros, o que viria a passar-se. Sócrates faz mal em subestimar Cavaco Silva - sobretudo em tempos de crise social. Não admira, por isso, que até já Jerónimo de Sousa fale hoje assim.

 

2. Faz agora um ano, escreveram-se as maiores catilinárias sobre a lei que limita o fumo em espaços fechados. Pulido Valente bramou: "A lei limita o direito de propriedade e intromete-se na vida privada de cada um." António Barreto bradou: "O primeiro-ministro José Sócrates é a mais séria ameaça contra a liberdade, contra a autonomia das iniciativas privadas e contra a independência pessoal que Portugal conheceu nas últimas três décadas." Sousa Tavares espadeirou: "Qualquer 'dealer' de drogas duras tem mais credibilidade moral do que o Estado português." Azar de todos eles: a lei gozou desde o primeiro instante de um amplo consenso social. Passado um ano, ninguém a discute. Entre nós, os mais inflamados argumentos esfumam-se com a máxima facilidade.

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A máquina do tempo

por Pedro Correia, em 17.12.08

Quando Manuel Alegre merecia o aplauso de Augusto Santos Silva por "garantir melhor o debate de ideias" do que Sócrates.

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Alçada Baptista: in memoriam

por Pedro Correia, em 08.12.08

Muitos já não se lembram, outros nunca souberam, mas António Alçada Baptista foi no seu tempo um dos colunistas de maior sucesso na imprensa portuguesa. As suas crónicas, em jornais como o Diário Popular, eram lidas e citadas com imenso interesse. Havia nele uma genuína abertura às mais diversas áreas do saber e desprendia-se um toque cosmopolita dos seus escritos, suavemente confessionais, que lhe permitia estabelecer profundos elos de cumplicidade com as mais diversas camadas de leitores. Alçada, um beirão da Covilhã transplantado para Lisboa, gostava de estabelecer pontes - entre pessoas, entre ideologias, entre crenças, entre continentes. Tendo por base a fé cristã, o personalismo de Mounier, os valores da lusofonia e sobretudo o culto da amizade.

Habituei-me desde muito novo a conviver com a prosa ágil de Alçada e a admirar-lhe o talento de pintor de quadros humanos em letra de imprensa. Gostava também de um certo tom humilde da sua escrita, longe das certezas categóricas dos pregoeiros de ilusões. Era um homem que gostava de reflectir sobre a política, a cultura, o quotidiano. Não se importava de exprimir dúvidas e inquietações num país onde demasiada gente cultiva o espírito de trincheira. E era sobretudo um homem de cultura, num sentido muito lato, que não se limitava a perscrutrar o mundo, mas se envolvia nele e procurava torná-lo um pouco melhor. Por isso fundou uma revista como O Tempo e o Modo e uma editora fulcral como foi a Moraes. Aí saíram os seus livros mais importantes: Conversas com Marcello Caetano (muito incompreendido à época), O Tempo nas Palavras e sobretudo a fulgurante Peregrinação Interior, em dois volumes, um dos melhores roteiros intelectuais que a sua geração legou à posteridade.

Mais tarde viria a cultivar a ficção - faceta literária que nele nunca me interessou - e o texto memorialista, mostrando-se exímio na arte de contar histórias com personagens de carne e osso. Logo ele, que parecia conhecer toda a gente e não ter um só inimigo.

Vi-o pela última vez há cerca de dois anos, já muito alquebrado, à porta de sua casa, na zona de São Bento. Lembro-me de ter pensado, logo aí, que ficaria para sempre adiado o projecto de lhe fazer uma longa entrevista em que discorresse sobre o tempo em que viveu e o lugar que lhe coube em sorte. Ficou-me de lição: estes projectos nunca devem ser adiados. Alçada Baptista acaba de morrer, aos 81 anos. Em jeito de homenagem, vou regressar às páginas da Pegerinação Interior, essa obra hoje tão esquecida que me ajudou a incutir o gosto de pensar.

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O fim da inocência

por Pedro Correia, em 05.09.08

Há um antes e um depois do 11 de Setembro: percebemos isso até quando estamos a ver um filme, noite fora, na televisão. Aconteceu-me isso há dias: revia Die Hard with a Vengeance quando no ecrã surgem, destacando-se na inconfundível silhueta novaiorquina, as malogradas Torres Gémeas. E de súbito tive a sensação de que este filme com Bruce Willis, rodado em 1995, é já de um tempo em que éramos todos bastante mais inocentes. O simples facto de ver as torres ali de relance confere a este Die Hard – e a tantos outros filmes rodados em Nova Iorque entre 1972 e 2001 – uma estranha aura pré-histórica. Algo semelhante aos filmes de Berlim em que se vislumbrava o célebre Muro da Vergonha.

Ainda não passaram sete anos. Mas tudo parece ter acontecido há muito mais tempo. A era da inocência ficou definitivamente para trás.

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Uma visão neurótica do mundo

por Pedro Correia, em 01.09.08

 

Em 1946, George Kennan, número dois da embaixada americana em Moscovo, enviou ao Presidente Truman aquele que se tornou o mais famoso relatório diplomático do século XX – o célebre longo telegrama, com cerca de oito mil palavras, em que o diplomata fazia um relato extremamente lúcido da política interna soviética nesses anos finais da tirania de Estaline. Kennan desfazia as últimas ilusões que Washington pudesse alimentar no relacionamento com os soviéticos. Dizia ele que no Kremlin pairava uma visão neurótica do mundo, ditada por uma antiquíssima sensação de insegurança, muito característica da alma russa. Isto levava os soviéticos, na sua perspectiva, a manterem-se “fanaticamente agarrados” à convicção de que, a longo prazo, seria impossível toda a coexistência pacífica com o Ocidente. Para o efeito, Moscovo apostava cada vez mais em reforçar o poderio bélico – uma garantia de segurança externa para compensar a sua fraqueza interna.

Lúcida análise, a de Kennan. Tão lúcida que ainda se pode aplicar, em boa parte, à Rússia dos nossos dias.

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Saravá, Caymmi

por Pedro Correia, em 21.08.08

As músicas de Dorival Caymmi acompanham-me há muitos anos. Antes ainda de eu saber que eram dele. Quantas vezes dei por mim a trautear Marina - uma das minhas canções favoritas de todos os tempos...

Marina, morena / Marina, você se pintou / Marina, você faça tudo / Mas faça um favor / Não pinte esse rosto que eu gosto / Que eu gosto e que é só meu / Marina, você já é bonita / Com o que Deus lhe deu.

Ou o desentorpecente Samba da Minha Terra, que escutava, criança ainda, numa terra longínqua sem televisão e onde apenas os sons do habitual programa radiofónico, com discos pedidos, ajudavam a sacudir o torpor desses longos serões tropicais.

O samba da minha terra deixa a gente mole / quando se canta todo mundo bole / quando se canta todo mundo bole / Quem não gosta de samba bom sujeito não é / É ruim da cabeça ou doente do pé.

Associo-o a outra canção que me persegue: Só Louco, que escutei pela primeira vez na voz de veludo da Gal Costa, como tema de uma das melhores telenovelas da Globo - O Casarão, com Gracindo Júnior, Renata Sorrah e Paulo José.

Só louco! / Amou como eu amei / Só louco! / Quis o bem que eu quis... / Ah! insensato coração / Porque me fizeste sofrer / Porque de amor para entender / É preciso amar?

Caymmi está também presente num dos discos que mais acarinho da minha discoteca privada - o quase mítico Chega de Saudade, versão digital dos primeiros sucessos da bossa nova, na voz do João Gilberto, que o próprio cantor mandou retirar do mercado por questões de direitos autorais. Lá surge outro tema que elejo entre os meus favoritos: Doralice.

Doralice eu bem que lhe disse / Amar é tolice  É bobagem, ilusão / Eu prefiro viver tão sozinho / Ao som do lamento do meu violão.

Dorival deixou-nos em plena juventude, aos 94 anos. Foi reunir-se na galeria dos artistas do panteão celeste aos compadres Jorge Amado e Zélia Gattai, parceiros de décadas de criação e folia entre o Rio e a Bahia. Lá encontrou certamente também outro génio da cultura popular brasileira - Vinicius de Moraes, que o imortalizou no inesquecível Samba da Bênção. que também desde sempre me acompanha.

Saravá para a eternidade, mestre Caymmi: cada canção tua faz parte do património do Brasil. E da língua portuguesa, nossa pátria comum. 

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