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Emoções básicas (57)

por Luís Naves, em 23.05.09

 

O Independente

O final dos anos 80 e início dos anos 90 foi o período áureo do jornal Independente, que não tinha medo e na altura foi acusado de fazer jornalismo justiceiro, não me lembro se alguém usou a expressão jornalismo de sarjeta.

 Hoje, que o Independente está extinto e não incomoda ninguém, todos dizem que aquilo é que era.

 Sou jornalista e a minha escola não é aquela. Não acredito na forma demasiada agressiva e obcecada em criticar o poder. Não estou a tentar valorizar. São estilos diferentes: aquele em que me revejo tem o defeito da timidez, o outro morde imediatamente.

Daquilo que tenho visto dos jornais de sexta-feira da TVI, penso que os autores tentam reproduzir em televisão o jornalismo do estilo do Independente.

Recuso a ideia, que alguns pretendem fazer passar, de que aquilo é “jornalismo de sarjeta”, e critico o ataque ao direito de perguntar que o bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho Pinto, fez ontem em directo. Quando as pessoas se ofendem muito é porque os jornalistas tocam nos nervos de uma sociedade. O poder tentará limitar a sua acção, pondo em causa a liberdade de informar. São usadas pequenas fórmulas que desacreditam as notícias: “sarjeta”, “situacionista”, as que estão na moda. A profunda crise da imprensa também ajuda. Felizmente, no caso do jornal de sexta-feira, a técnica da contenção parece ter resultados inversos aos pretendidos: o facto é que toda a gente viu a peixeirada de ontem, portanto, toda a gente estava a ver o jornal de Manuela Moura Guedes.

 

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Emoções básicas (51)

por Luís Naves, em 05.04.09

O tempo em fuga

Perante sinais de dissolução do poder, cada vez mais visíveis, seria normal que crescesse uma alternativa. Mas a oposição continua paralisada, isto a dois meses da primeira votação do ano das três eleições. Portugal vive uma crise estranha: instalou-se o medo e ninguém tem uma ideia de como podemos sair do labirinto. As pessoas temem pelo seu futuro e a total ausência de liderança só pode agravar o estado de alma.

Este governo pensou que liderar era o mesmo que fazer propaganda. A realidade, sempre cruel, acabou por fazer uma visita macabra à maioria absoluta, que pensava controlar tudo com a magia das belas frases.

O meu caso pouco importa, mas estou bastante mais pobre do que em 2005. Na realidade, estou mais pobre do que em 1998. E trabalho mais.

O que importa é que o meu caso é idêntico ao da maior parte dos portugueses. As desigualdades agravaram-se. Além disso, no Portugal contemporâneo, a vida não é apenas mais insegura do ponto de vista económico. A insegurança é física e o futuro de cada um mais incerto. Olhe-se para os jovens de vinte e poucos anos da classe média, geração na qual o país investiu muito esforço; não têm emprego, não têm futuro nas empresas e quase não terão pensões de reforma; muitos deles terão de emigrar; muitos dos que ficarem têm diplomas inúteis. É caso para perguntar: para que serviram vinte anos de subsídios europeus equivalentes a uma média anual de 3% do PIB?

Nas classes tradicionalmente menos favorecidas, o panorama é ainda mais negro, pois são famílias mais pobres, com empregos mal pagos, que estão a sofrer os choques mais brutais da crise. Nem vale a pena falar da exclusão social. Essa será terrível nos próximos anos.

A política não oferece qualquer saída visível. A renovação da maioria absoluta é improvável e os efeitos do caso Freeport vão agravar-se para os socialistas. A oposição social-democrata não parece capaz de ganhar eleições, embora possa tirar a maioria ao PS. O Bloco de Esquerda é uma incerteza e não consegue livrar-se da retórica anti-capitalista. Devido ao calendário das presidenciais, um governo de bloco central teria de durar um mínimo de dois anos, até meados de 2011. Mesmo admitindo que há líderes com esse grau de paciência, a crise económica pode durar mais dois anos, talvez agravada por decisões que estão a ser tomadas. É demasiado tempo para esperarmos por milagres, mesmo um de natureza modesta.

 

 

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Emoções básicas (48)

por Luís Naves, em 01.03.09

 

Chumbo europeu

Tudo indica que a Cimeira de Bruxelas, a tal que não era importante, correu da pior maneira possível.

Alguns países (novos membros que não fazem parte da zona euro) saem do encontro com a corda na garganta e em grande desacordo com a posição dos grandes. A Alemanha recusou apoiar um pacote financeiro em larga escala para salvar as economias do leste, confirmando as previsões de alguns analistas que davam como certa a impossibilidade da chanceler Angela Merkel agir no exterior em ano de eleições. Não haverá, para os novos membros, uma maneira mais rápida de aceder à moeda única. Para não ser um fracasso completo, o Conselho Europeu parece ter chutado para Junho uma eventual reparação da crise das moedas do leste e dos respectivos sistemas bancários.

Ou seja, a Europa faz a tradicional navegação à vista: se nas próximas semanas, não houver desvalorizações brutais, corridas a bancos ou protestos nas ruas, então correu tudo bem; se acontecer alguma destas situações, a porta não foi inteiramente fechada a que se chame o 113. Os países grandes da UE apostam os ovos todos na cimeira do G20, como se a solidariedade global fosse mais fácil do que solidariedade no interior da União. O cenário parece ideal para os especuladores e para os cínicos.

A Europa está dividida em três grupos de países: leste, sul e grandes. O fosso tenderá a aumentar nas próximas semanas e talvez no futuro este dia seja lembrado como aquele em que começou o colapso da União Europeia. Escrevo à distância, a partir da província, e espero estar muito enganado.

 

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Emoções básicas (40)

por Luís Naves, em 07.01.09

A incerteza

A política regressou esta semana e esperam-nos pelo menos dez meses centrados nas manobras de poder. Este será o ano da incerteza.

Nos últimos dias, o Governo tentou explicar o falhanço das previsões do cenário macroeconómico no orçamento de estado. Foi ajudado pelo branqueamento da máquina de propaganda. Simplificado, o argumento é de que em Outubro não era possível prever os efeitos da crise. Mas insistir nesta tese é erro, pois suscita imediatamente uma questão: se não era possível prever antes, qual a razão de ser possível prever agora? No fundo, a realidade económica era bem pior do que admitia o Governo e talvez seja pior do que ele admite nesta fase.

Há razões para temer o pior.

 

Para vencer as legislativas (previsivelmente em Outubro), o PS tentará insistir na questão da estabilidade. Este factor parece favorável ao poder, pois o eleitorado não gosta de mudanças em tempo de crise.

Mas a maioria absoluta é um cenário cada vez mais improvável, sobretudo porque ela seria difícil em situação económica risonha. Já aqui o escrevi: António Guterres era popular e falhou a maioria absoluta com a economia a crescer quase 4%. O actual Governo enfrenta a maior contracção económica em democracia (acho que é mesmo inédito) e não conseguiu nenhum ano de convergência com a média de rendimento da UE. Esta é uma crise que apanha um país vulnerável.

As eleições europeias de Junho serão decisivas, pois vão mostrar se o partido do Governo sofre erosão eleitoral ou se, pelo contrário, resiste ao voto de protesto. O PS parece ter a iniciativa, mas acho que é ao contrário. Nos próximos seis meses, com o rápido agravamento da crise, o maior partido da oposição terá de perder a actual invisibilidade, ou arrisca-se a uma derrota nas eleições, por falta de comparência, auto-condenando-se ao desaparecimento.

A continuar tudo como está, a direita parece tender para o fracasso, o Governo ocupa o centro e a esquerda cresce, à custa da franja esquerda do PS. Isto lembra o fim do sistema do bloco central e mostra que numa situação em mudança rápida, o mais difícil é prever o que será.

 

 

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Emoções básicas (34)

por Luís Naves, em 14.11.08

 

A cimeira

Este fim-de-semana, as grandes potências vão começar a discutir com as mais pequenas a reforma do sistema financeiro mundial. Ninguém parece esperar muito da cimeira do G20, em Washington, embora se fale num processo que levará a um novo Bretton Woods. Em tudo isto, está a ser dispensada muita atenção ao que dizem os americanos, representados por uma administração Bush que falhou em toda a linha. E, ao mesmo tempo, analistas (quer da esquerda, quer da direita) estão a passar ao lado da mudança em curso na Europa. Esta já é visível e tem grandes implicações.

 

Os europeus

A União Europeia é talvez a zona do mundo que tem mais a perder nesta crise. Os países exportadores, como a Alemanha, dependem das suas vendas de material sofisticado e caro. A quebra de consumo no mercado americano será terrível para estas indústrias exportadoras. A Alemanha é também a locomotiva da economia europeia, pelo que uma travagem abrupta pode ter graves consequências para todos os outros. Em países mais frágeis, como Portugal (que atravessou um longo período de quase estagnação) estas notícias são muito preocupantes.

A meu ver, os comentadores de esquerda, na blogosfera e jornais, sublinharam em excesso o papel de Gordon Brown na crise financeira, esquecendo que em Londres está o maior mercado financeiro europeu (portanto, ele tinha de agir) e que o Reino Unido está fora da zona euro, ou seja, não é um centro do poder relevante no que se vai seguir.

Na actual crise e nas suas consequências futuras, os dois líderes mais activos são ambos conservadores: Angela Merkel e sobretudo Nicolas Sarkozy. Pode até dizer-se que, na ausência da Casa Branca, esta dupla está a liderar a resposta internacional à crise (e penso que isso será visível em Washington).

Mas a ideologia cria poderosas narrativas e é difícil contrariar a lenda de que Gordon Brown está no leme.

 

Novo modelo

O que têm feito os europeus? Têm tentado construir uma gigantesca zona de comércio livre, com ampla justiça social e regras ambientais exigentes; esta zona possui uma moeda estável, inflação baixa e padrões laborais elevados; (nos países onde é mais fácil despedir, é também mais fácil reconverter trabalhadores). As sociedades europeias são bastante igualitárias, sem as desigualdades que caracterizam o modelo americano de capitalismo, que provavelmente se irá aproximar do europeu ao longo da próxima década.

Infelizmente, esta crise apanhou a União Europeia sem novo tratado, que facilitaria o ataque aos problemas. Os que aplaudiram o “não” irlandês ao Tratado de Lisboa deviam pensar nas consequências imprevistas daquela votação. Esta é uma vertente pouco compreendida em Portugal: as actuais instituições são demasiado complexas e o processo de decisão da UE possui limitações que facilitam bloqueios irresponsáveis. Na actual conjuntura, há grandes restrições à liderança política.

 

Governo económico

Para onde vão Merkel e Sarkozy, caso consigam ultrapassar este obstáculo? A resposta a esta pergunta é mais especulativa, mas penso que está à vista o famoso “governo económico” que Paris tem defendido e que a Alemanha rejeitou sempre, para não colocar em causa a independência do Banco Central Europeu. Só que o problema crucial dos próximos anos deixou de ser a inflação e passou a ser o crescimento económico e o desemprego. Esta crise pode durar uma década (isso aconteceu com o Japão) e dentro de alguns anos podemos lembrar com saudade o tempo em que havia crescimento de 2% na economia da UE.

O euro será um dos pilares da recuperação internacional, mas este hipotético “governo económico” terá poderes sobrepostos ao BCE e à Comissão Europeia. Esta última tenderá para maior irrelevância. A prioridade da UE passa a ser o combate aos efeitos do desemprego, o que exigirá dinheiro, retirado de áreas cada vez menos importantes, como a agricultura.

Os líderes terão de encontrar uma solução para o novo Tratado e, durante algum tempo, haverá tendência para directório das grandes potências. Haverá muitas reuniões de emergência, só com três ou quatro.

Com energia cara e dispendiosas ambições ambientais, talvez a questão do aquecimento global passe para segundo plano, o que será trágico.

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Emoções básicas (26)

por Luís Naves, em 14.10.08

Está a ser criada uma lenda sobre a crise financeira. Baseia-se na seguinte história: o plano europeu de salvamento foi montado com brilhantismo, mas só depois da UE ter falado a 27. Os americanos estão a ser salvos pelos europeus (leia-se UE). Portugal resistiu muito bem às tentações de directório de Sarkozy (aquela reunião a quatro foi quase ridícula). E só quando Portugal também participou nas decisões foi possível conceber um bom esquema.
Esta história é tão forte nos media tradicionais que num telejornal, ao falar da entrada dos Estados europeus no capital de bancos, um jornalista dizia a outro: “os russos e os chineses devem estar a rir-se”.
 
Uma risota
De facto, os russos parecem estar a passar um excelente momento: a bolsa local caiu 65% desde Maio, houve uma rápida fuga de capitais e o petróleo (a única fonte de rendimento) está perto de metade do valor que tinha antes da crise georgiana. Estão a abrir garrafas de champanhsky!
A China também tem fortes razões para festejar. Metade da dívida americana está nas mãos dos chineses e japoneses, que não têm outra solução senão continuarem a comprar, sob pena de perderem tudo o que investiram. Os chineses acumularam reservas de 2 biliões de dólares (milhões de milhões, triliões em inglês), mas 70% são títulos de dívida americana. As poupanças de uma década podem não valer nada. Uma crise financeira vem mesmo a calhar para esta visão conservadora!
Os europeus, por seu turno, estão agora a dar uma grande lição ao mundo: juntaram um plano financeiro cuja dimensão é superior ao dobro do plano americano.
 
Um risotto
Os americanos viviam acima das suas posses e os economistas diziam que a coisa era insustentável. Havia um rio de dívidas (casas, consumo) que se transformava em produtos financeiros fantásticos (era arroz, mas chamavam-lhe risotto para parecer mais fino). No fim da linha, alguém comprava: sabemos agora que eram os bancos europeus, que assim financiavam o estilo de vida americano. Agora, são os europeus que pagam a crise, mas isto não é uma transferência de riqueza, pois o que fica na sua posse não tem qualquer valor. Estamos num salve-se quem puder semelhante ao jogo das cadeiras, onde o último a reagir fica sem cadeira.
A lenda de que alguém tenha motivos para rir é de facto interessante, e parecida com a da “recuperação” da bolsa portuguesa. Na sexta-feira, caiu cerca de 10% e na segunda recuperou 14%. Foi considerado um excelente resultado de políticas sensatas!
Outra maneira de contar a história é que na sexta-feira os patos foram depenados pelos que ontem compraram muito barato.
 

 

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Emoções básicas (22)

por Luís Naves, em 02.10.08

Conversa de embaixada

A Europa, afinal, está numa situação semelhante à americana e os Estados membros da UE começaram uma discussão que promete. Nesta fase, circula a ideia de um fundo europeu de apoio ao relançamento do sistema bancário, para garantir os depósitos, com a França a negar a autoria, a Holanda a fazer de “lebre” da França e a Alemanha muito reticente em relação à passagem de “cheques em branco” às instituições irresponsáveis.

Tinham garantido que estava tudo bem, que isto era contágio da América, que os bancos europeus não tinham embarcado nos produtos tóxicos, mas a realidade fez uma visita.

O problema europeu é que os países não estarão todos na mesma situação, uns mais expostos, outros menos. E se os americanos podem colocar todos os contribuintes a pagar, na Europa isto tem custos políticos diferenciados. Sarkozy, por exemplo, não terá uma factura política tão pesada como a de Merkel, que enfrenta um ano eleitoral difícil, que começou com uma brutal derrota no domingo, na Baviera.

Não foi exactamente a formação de Merkel, mas o resultado foi tão mau que afecta toda a direita, indicando subida perigosa dos partidos fora do sistema. E as eleições austríacas mostram qual o preço do avanço dos populistas.

E que faz Portugal? Nós ainda estamos na discussão anterior, que é boa para disfarçar o susto. A independência do Kosovo, com a líder do PSD, Manuela Ferreira Leite, a elogiar a posição “prudente” do Governo. Pelo contrário, agora há múltiplas razões para reconhecer a independência do Kosovo, sobretudo após aquilo que a Rússia está a fazer na Abcásia e Ossétia do Sul. Setembro foi o momento para dizer a Moscovo que a sua acção na Geórgia era inaceitável e a hora certa para ajudar a Ucrânia. Mas Portugal, para variar, não existe, posição que merece o consenso do bloco central.

A nossa política faz lembrar aquelas conversas tontas de cocktail de embaixada, onde os convidados se esforçam por transmitir um interessado e risonho vazio.

 

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Emoções básicas (20)

por Luís Naves, em 29.09.08

A leitura deste texto de Miguel Sousa Tavares fez-me pensar sobre a responsabilidade dos comentadores. A opinião é do autor, mas a um leitor atento não escapará a premissa ilógica em que se baseia a prosa. O que mais me interessou neste texto não foi a sua leviandade e contradições internas, mas outros dois aspectos: o anti-americanismo primário, que conduz à conclusão (“visionária”) da Europa ser construída contra a “perigosa” América (fonte de todos os problemas); e a sensação de perigo iminente, uma espécie de hipocondria europeia, que a meu ver, está na origem do populismo que nos vai dominando.

 

Anti-americanismo primário

Há mil razões para não se gostar da administração Bush, mas penso que em muitos autores uma transição na Casa Branca não mudará o essencial: para eles, a América continuará a ser um império perigoso, agressivo e brutal. Os EUA atraíram sobre si, muito justamente, a fúria do mundo islâmico e dos anti-imperialistas. Com a sua economia de casino, criaram uma situação de fim do mundo. Segundo a mesma tese, os americanos são profundamente incultos e até um pouco estúpidos. O corolário é simples: a Europa deve separar-se deste aliado pouco confiável e assumir o seu destino de potência benévola, cujo modelo social de capitalismo bondoso constitui um farol para os outros povos. Pena que faltem, por enquanto, os líderes visionários.

 

A hipocondria europeia

A Europa nunca foi tão rica e nunca esteve tão segura. A História deste brilhante continente, que deu ao mundo a civilização mais avançada de sempre, consiste num fio de conflitos, quase sem interrupções. Entre 1914 e 1945, as potências europeias tentaram um suicídio colectivo. Durante a Guerra Fria que se seguiu, a Europa esteve dividida em duas partes e viveu em ansiedade permanente, pois seria o campo de batalha em caso de nova guerra. Essa fase terminou em 1989, quando o colapso do bloco socialista introduziu outro factor de medo, pois a leste surgiam regimes frágeis e países fragmentários.

Em 2008, os conflitos criados pela queda do Muro de Berlim estão praticamente cicatrizados. A Europa é estável, rica, e não se vislumbra nenhum perigo.

E, no entanto, dois partidos populistas de extrema-direita conseguem quase 30% dos votos na pacata Áustria (o que resta de um país que já liderou um império multi-étnico e multi-cultural que é uma das fontes de inspiração da União Europeia).

O que se passou? Não há comida nos supermercados? Não há empregos? O país está arruinado? O facto é que não se vislumbra um problema austríaco que justifique a votação.

Imagino o dilema do médico visionário: está perante uma pessoa consciente da sua doença e cujos sintomas são verdadeiros ou perante uma pessoa saudável que acredita estar doente?

 

Cânticos tribais

Em relação à Áustria, Portugal tem desvantagens, mas felizmente o nosso sistema político ainda não chegou a um impasse daqueles.

Talvez seja uma questão de tempo, pois vi uma coisa notável na televisão: uma reportagem sobre uma claque de futebol que ia assistir a um jogo e que, no caminho, entoava um grito de guerra insultando as mães dos adeptos adversários. Não protestavam contra injustiças sociais ou falta de empregos, não, era contra pessoas iguais a eles.

Acho bizarro que alguém no seu perfeito juízo insulte a família dos adeptos da equipa adversária, mas mais peculiar ainda que a televisão mostre isso como se fosse uma qualquer curiosidade antropológica, como um hábito daquelas tribos que colocam ossos no nariz ou reduzem cabeças de pessoas.

O estranho era que ninguém achasse estranho.

 

 

Em conclusão

Países onde claques de futebol ditam leis e populistas tresloucados ganham eleições parecem estar pouco preparados para cooperar uns com os outros.

Mas Portugal e Áustria são parceiros num clube que pretende ter ambições políticas compatíveis com o seu potencial económico. O debate é deprimente: alguns acham que a Europa não deve sequer unir-se, outros defendem que isso deve ser feito contra a América, embora quando se pergunta de quantos porta-aviões vamos necessitar (custo unitário, cinco mil milhões de dólares) geralmente haja compreensível hesitação.

Não sei como será na Áustria, mas em Portugal o anti-americanismo é uma ideia poderosa. Salazar detestava os americanos e o nosso regime democrático nunca morreu de amores por Washington.

A desconfiança tem talvez raízes na dificuldade com que os portugueses admitem a liberdade dos outros. Ultimamente, o anti-americanismo primário tornou-se algo esquizofrénico, pois as elites consomem todos os produtos culturais americanos, que citam em inglês no original, mas politicamente a América continua a ser uma versão actualizada da “pérfida Albion”.

Acho que este sentimento tem uma ligação directa ao oportunismo político. E penso também que Portugal e a Europa estão maduros para aceitarem as piores formas de líderes populistas. E se a Europa já tentou suicidar-se uma vez, porque não duas?

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Emoções básicas (18)

por Luís Naves, em 25.09.08

 

Capitalismo selvagem

 

Estes são dias decisivos. As eleições americanas colidem com a crise financeira e o resultado do choque pode ditar quem será o próximo presidente dos EUA. A luta entre John McCain e Barack Obama continua empatada, pois há incerteza em relação a uma dúzia de Estados que vão definir a eleição. Os debates serão cruciais, mas agora surge a questão do plano de salvamento, que retirou a iniciativa a Obama, pelo menos durante uns dias. McCain volta a subir e pode vencer.

Entretanto, o debate português é uma experiência extraordinária. Numa peça de TV sobre taxas de juro elevadas e a dificuldade das famílias em pagar os créditos, víamos imagens da Lehman Brothers e de Wall Street, misturadas com as de uma cidadã endividada. A ideia era a seguinte: pagamos muito pelos empréstimos; não por causa do custo do dinheiro decidido pelo BCE ou pela diferença entre taxas da zona euro e taxas praticadas pelos bancos portugueses (consequência da dificuldade destes em obter financiamento no mercado); não, a culpa é da crise da semana passada em Wall Street, por um qualquer efeito de contágio que ninguém percebe, ligação mágica que, obviamente, não existe.

Claro que não nos dizem que ainda não começámos a pagar por esta crise de Wall Street. O Presidente Cavaco tentou sublinhar isso mesmo, numa declaração pouco explicada pelos comentadores, mas triunfa a tese propagandística do Governo, que tenta ligar o que se passou na semana anterior na crise americana à actualidade portuguesa, para depois poder sacudir a água do capote.

Nos últimos dez anos, os portugueses obtiveram crédito com a maior facilidade e o endividamento excessivo (que os bancos e o Governo permitiram) teve numerosos avisos. Agora, as pessoas vivem no medo e não conseguem pagar as dívidas, mas não é só por causa dos especuladores da Lehman Brothers e do neo-liberalismo selvagem.

  

 

 

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Emoções básicas (14)

por Luís Naves, em 18.09.08

Manifesto anti-taxista

 

Andar de táxi em Lisboa é muito inseguro e caro.

Ontem, ao chegar ao aeroporto, já de noite, deparei com um pirata que, após me mostrar metade da cidade, reagiu com insultos e ameaças ao meu desagrado. Só não concretizou as ameaças porque saí do veículo e, no exterior, sempre tenho um metro e oitenta. Mas imagino o que não teria feito a uma mulher sozinha, por exemplo, ou a um homem mais lingrinhas.

A cidade (e sobretudo a zona de chegadas do aeroporto) está entregue a taxistas que prestam um péssimo serviço, que ameaçam a segurança dos seus passageiros e, mesmo assim, gozam de apoios públicos, subsídios disto e daquilo, direito a choradinhos constantes na comunicação social. Eles constituem um poderoso lóbi, apesar de funcionarem como um autêntico cancro.

Não se compreende o preço dos táxis em Lisboa, que é superior ou igual ao de outros países onde os salários são bem mais elevados (sendo este um serviço, a parte salarial devia ser a decisiva na criação dos preços). Mas o que se passa no aeroporto é socialmente nocivo e tem certamente impacto muito negativo no turismo.

Claro que o ministro Pinho não anda de táxi e desconhece este maravilhoso aspecto do nosso turismo de altíssima qualidade, mas o taxista português é o primeiro português que qualquer turista vê. E as impressões não podem ser as melhores: o turista sabe que está a ser roubado, que se protestar será insultado de forma agressiva, e sobretudo terá dúvidas se conseguirá chegar à segurança do seu hotel para dormir descansado a primeira noite neste paraíso que viu na brochura.

Já fui esfolado por taxistas em muitas partes do mundo. Tenho algumas histórias para contar sobre este encantador meio de transporte. Mas acho que o aeroporto de Lisboa é tão perigoso como o de Dacar, no que respeita a tomar um táxi desconhecido.

Andei de táxi em sítios onde isso não era recomendável e encontrei taxistas honestos que não tinham dinheiro para comprar comida para os filhos. Em Bissau, numa ocasião, um mandinga de um metro e noventa protegeu-me de uma turba com o corpo dele e, em Quetta, um taxista pediu a um primo para andar connosco, armado, para me proteger.

Estou cansado de aventuras e, por uns tempos, limitarei o meu uso de táxis a situações laborais e só por cooperativa.

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Emoções básicas (5)

por Luís Naves, em 28.08.08

Chegado da Europa Central, onde estive separado na nossa visão do mundo, percebo que na crise georgiana muitos blogues portugueses parecem dar razão à Rússia.

Parece-me que é um pouco como dar razão à Áustria-Hungria, na sua reacção ao assassinato do arquiduque Franz Ferdinand, em Agosto de 1914. Vivemos no século XXI, mas as duas últimas semanas pareceram tiradas de alguma novela anacrónica, do século XIX e da guerra anterior, com direito a canhoneiras e expedições punitivas.

Dar razão à Rússia, neste contexto, é fácil de fazer em Portugal, pois aqui nunca se sentiu a influência imperial russa (e é disso que estamos a falar).

Acho que esta crise terá duas consequências: Moscovo ficará mais isolada e o regime de Vladimir Putin vai entrincheirar-se ainda mais num medo policial e autoritário. A esperança da democracia ficou adiada outro década e aquele poderoso império continuará a mergulhar no seu imparável declínio político e demográfico, entretido num apagamento que julgo não ter qualquer paralelo na história recente. E para culminar o absurdo, a Rússia precisará cada vez mais do seu pior pesadelo, a China.

Como provou o caso citado acima, a política internacional não tem de ser lógica ou sequer racional. Um atentado político transformou-se num conflito que matou milhões de pessoas e os diplomatas perderam o controlo da situação numa altura em que ninguém previa que pudesse estalar um conflito. O mau exemplo foi agora lembrado por Mikhail Gorbachov. A Primeira Guerra Mundial podia ter sido evitada, mas a Europa preferiu suicidar-se. Pareceu mais importante defender a razão de Estado. A monarquia austríaca sabia que estava a lançar-se numa aventura e que não tinha capacidade para sustentar uma guerra moderna, mas atirou-se de cabeça.  

 

 

E não podia discordar mais deste post do Eduardo Pitta. Quando os europeus estão genuinamente preocupados e falam duro, como é o caso, são irrequietos; se ficam divididos, mais valia estarem calados; se ficam calados, mais valia falarem duro.

Nunca vi os europeus tão unidos e preocupados. Mas em Portugal, que não depende do gás natural russo, é mais fácil desvalorizar o perigo.

 

 

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As emoções básicas (crónica) XIII

por Luís Naves, em 17.09.07


A arma encravada


Parece que chego tarde a todas as conversas. Quando tenho alguma coisa de interessante para dizer sobre os temas do dia, já antes alguém disse algo de bem mais inteligente. Isto acontece-me tantas vezes, que me habituei a ficar calado. Vejo os outros a conversar, treinei-me nessa observação. Gosto do exercício. Estou sempre a torcer por alguém, quando há debate de ideias, e fico maravilhado como algumas pessoas têm a arte de, no tempo que demora a incendiar um fósforo, rematar com um argumento demolidor.
O gosto de ouvir os outros a falar tem certamente lados negativos: quando sei que posso ser pertinente, num determinado ponto da conversa, sinto tal desejo de dizer coisas acertadas, que interrompo os outros à bruta, para dizer essa tal frase que entretanto me escapou da ideia. E, no embaraço, levanto a voz, à qual dou uma ênfase que não queria dar à partida.
Ainda é pior quando me fazem uma pergunta: aí, ou a pergunta é certeira e dou a minha opinião ou, o que é mais normal, começo por tentar levar a conversa para o ponto que achava mais importante, mas que não estava contido na pergunta. E o exercício torna-se fútil, pois quem perguntou resiste aos meus esforços. Se, por qualquer milagre, consigo entrar no ponto que queria sublinhar, geralmente já acabou o tempo.
Era isto que eu queria escrever, não apenas chego tarde às conversas, mas parece que não tenho a inteligência social para me moldar às conversas dos outros. Anteontem, estava tão impaciente, num ambiente estranho para mim, que fui de uma brutalidade extrema com uma pessoa. Depois, nem lhe pedi desculpa. Os que me conhecem sabem que posso ser invulgarmente bruto numa banal troca de impressões. Como se aquilo que quero verdadeiramente dizer não seja formulado da maneira que pretendia, como se houvesse uma máquina na minha mente que muda todo o sentido das frases pensadas, por causa da urgência, por não haver tempo para fluir o raciocínio inicial e ser necessário entrar num programa acelerado, mais de combate do que de descontraído diálogo. E, claro, o programa transforma num turbilhão confuso o que, no meu pensamento, parecia estruturado. Enfim, há muitas conversas onde não acerto uma. Algumas pessoas pensam que é arrogância, mas é falha de outra natureza.
Por isso, muitas vezes, prefiro ficar calado e sonhar com o que diria, se as circunstâncias me permitissem. É engraçado como no silêncio todos os discursos se tornam tão perfeitos.
Na imaginação, sou um grande orador. Se estiver sozinho, sem medo, posso declamar um poema. Não me embrulho nas sílabas e o vocabulário expande-se, como que por milagre. Os erros gramaticais dissipam-se (é curioso como, em conversa, cometo tantos erros gramaticais, sobretudo quando me enervo).
E, agora, reparo: escrevi uma crónica confessional. O que querem as pessoas saber destes receios absolutamente individuais? E, tendo estado toda a tarde a meditar sobre outros assuntos, de como o mundo contemporâneo é demasiado explícito, virado para prazeres do indivíduo, esquecido da solidariedade, muito técnico e superficial, feito de fogo-de-artifício e luzes de néon, é curioso que me tenha saído esta crónica meio atabalhoada e cheia de autocomiseração, sem nenhum tema que se veja, sem uma palavra sobre os assuntos que afligem os nossos contemporâneos e que, afinal, já foram devidamente dissecados por toda a gente desta imensa conversa, a blogosfera, onde chego sistematicamente atrasado.

Uma palavra sobre a ilustração: foi tirada do filme "O Homem que Matou Liberty Valance", de John Ford, que devia ser o tema desta crónica. Como não consegui escrever sobre o filme, e na medida em que as ideias são como as cerejas, lembrei-me da importância da palavra nesta obra-prima do cinema, pois o bruto é vencido também pela força dos argumentos retóricos, que funcionam na sua qualidade de rolo compressor da História. O filme fala de um problema muito contemporâneo: a incerteza sobre o que é a verdade. Lembram-se do famoso "print the legend" que tanto nos explica sobre aquilo que nos rodeia?

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As Emoções Básicas (crónicas) II

por Luís Naves, em 08.06.07


Para efeitos de imagem, o que ficará desta cimeira do G8 será, provavelmente, aquilo que não teve influência nem importância, o desespero dos radicais, cuja visão do mundo não faz qualquer sentido. Vimos as habituais piruetas para aparecerem nos telejornais e fotos, o vandalismo descerebrado. E, claro, no meio da espuma, escapou-nos o facto deste já ter sido, provavelmente, o G8 mais importante da última década. Hoje, os líderes vão comprometer-se a uma ajuda maciça a África, para combater a SIDA e a malária.
Em política, a emoção dominante costuma ser o medo. E, no caso do primeiro dia de cimeira, houve duas ameaças a comandar os resultados, embora parte do mérito pertença, sem dúvida, a Angela Merkel, que continua a surpreender toda a gente, a conseguir acordos que pareciam impossíveis, a levar a água ao seu moinho, com paciência e liderança.
As ameaças são o possível regresso de uma mini-Guerra Fria e a alteração do clima global. Ambas susceptíveis de porem em causa a sobrevivência da espécie.
O primeiro caso constituirá menos uma ameaça real e mais uma elaborada jogada de xadrez, com bluff à mistura. Em causa, está um escudo anti-míssil americano, colocado na Europa. O sistema enerva profundamente Moscovo, que corre o risco de ver o seu arsenal estratégico transformado num brinquedo inofensivo.
Nas duas últimas décadas, os EUA esforçaram-se por transformar a Rússia numa potência de segunda linha e, por vezes, até parece que gostariam de a transformar numa potência de terceira, ignorando os perigos de tal evolução (tecnologias perigosas à solta, espaços vazios e despovoados, territórios nas mãos de fundamentalistas, recursos económicos esbanjados). O escudo poderia ser um novo empurrão no sentido do declínio, mas os presidentes russo e americano terão conseguido (essa é a interpretação que se pode extrair das afirmações crípticas que fizeram) iniciar um diálogo que acabará com o conflito à nascença. Talvez os americanos precisem dos russos nesta fase do campeonato (por causa do Irão, do Kosovo, etc.).
O segundo problema é bem mais complexo. Há provas científicas sobre o aquecimento global (o recuo do gelo é evidente), mas não existe consenso sobre a extensão do efeito de estufa ou se temos apenas o efeito de estufa na história. O clima da Terra mudou muitas vezes e as razões não são conhecidas. Deve ser considerado outro factor: este é um problema tecnológico e, portanto, económico. Há também quem diga que já podíamos ter iniciado uma nova era glaciar (as civilizações humanas beneficiaram de uma larga extensão de bom tempo, superior à média histórica, talvez cinco mil anos a mais com clima favorável, o que lhes permitiu chegar a este patamar de desenvolvimento; e a sorte pode estar a acabar).
Enfim, o medo parece ser, neste caso, bom conselheiro. Os Estados Unidos aceitaram finalmente negociar com os europeus e japoneses um acordo que poderá levar a uma redução da emissão de gases com efeito de estufa. Há ainda muitos ses, mas parece ser um caminho possível, apesar de obrigar a adiar as grandes decisões (o próximo presidente americano que resolva a questão).
Finalmente, África, o continente perdido. A confirmar-se um acordo para financiar a luta contra terríveis doenças, será um resultado sem precedentes.
Em tudo isto, não se entende para que serviu a violência dos manifestantes. Não se destinava a fazer pressão para que houvesse um determinado acordo. A violência, neste tipo de cimeiras, visa perturbar o processo de decisões e, portanto, o seu único objectivo é que não haja entendimento entre os líderes dos países ricos, criando um clima de confronto político, de rejeição social e de isolamento económico.
Parece ser uma agenda aberrante e perigosa. Não se baseia no medo, não é racional nem possui qualquer intuito construtivo. Trata-se apenas da mais pura loucura.

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