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No início eram os Genesis

Um indispensável tributo a uma banda de culto

por João Távora, em 16.06.20

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Poderia justificar estas linhas com os 50 anos da publicação do primeiro álbum de originais do Genesis, o Trespass de 1970 (From Genesis to Revelation, de Março de 1969, é na verdade uma colectânea de singles), mas a ideia veio-me à cabeça por causa de uma velha disputa entre facções musicais, que recentemente ressurgiu em pequeno comité nas redes sociais: de um lado, os puristas da pop anglo-saxónica de 4 minutos, um bom poema com um refrão repetido duas vezes; e do outro lado, os que — alegadamente — se deixaram iludir ou corromper por um estilo «burguês» e pretensioso, o do rock «progressivo» ou «sinfónico», uma moda emergente nos anos 70, durante a tremenda explosão comercial da pop juvenil consumida em rodelas de vinil divulgadas em programas de rádio em Frequências Modeladas (FM; com um som muito aceitável).

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Amarrados a preconceitos e teorias, os sectários não se permitem pensar e usufruir livremente da realidade que os ameaça, mas o pior é quando tentam impor a outros as suas próprias amarras. De resto, não é salutar dispormo-nos apenas a escrever coisas com o intuito de salvar o mundo, a pátria ou o destino em geral, tanto mais que o destino em geral, a pátria e o mundo não são de se deixar salvar assim — eu que o diga. Parti para este escrito com a noção de que ele pouco mais é do que uma insignificante homenagem aos Genesis de Peter Gabriel, Steve Hackett e Mike Rutherford, Tony Banks e Phil Collins (todos nascidos em 1950, à excepção de Phil, que é de Janeiro de 1951), na minha opinião uma das mais bem-sucedidas reuniões de talentos musicais que aconteceram na Inglaterra da primeira metade dos anos 70. Um agradecimento pelas muitas horas de puro prazer que me proporcionaram — a música que amamos escutamo-la sempre sozinhos, mesmo quando acompanhados. Acontece que foi nesta primeira fase e com esta formação que a banda publicou os seus quatro melhores álbuns: Nursery Crime de 1971; Foxtrot de 1972; Selling England by the Pound de 1973; e — a cereja no topo do bolo — The Lamb Lies Down on Broadway de 1974 (as capas destes discos davam uma outra crónica). Mas tenho a noção de que qualquer proselitismo a propósito de gostos e preconceitos musicais adquiridos na juventude é completamente inútil (o proselitismo é, aliás, sempre, uma inutilidade) — o mais que podemos ambicionar é obter de alguém muito amigo, mulher ou filho, tolerância, condescendência e às vezes simpatia para com a nossa obstinação. Então, no âmbito da música popular em que as adesões são essencialmente sensuais, instintivas e sentimentais, as nossas afeições são dificilmente transmissíveis a terceiros por via racional ou teórica, tanto mais que elas em geral se tornam um fenómeno narcísico, num processo de identificação em que o ouvinte, a obra e os artistas se misturam, tornando-se essa aderência numa forma de afirmação do indivíduo perante o grupo e a comunidade em que ele se deseja afirmar. Mas não é esse o caso da música dos Genesis, como tentarei explicar à frente. Prová-lo é desafio que reconheço perdido à partida: quem, como eu, gosta deles lendo este artigo continuará a gostar — espero que de uma forma mais sustentada; mas quem tomou partido contra (sempre se recusou a ouvi-los), pelas razões erradas continuará a fazer-lhes ouvidos moucos. Tenho sinceramente pena destes.

Os Genesis e o contexto musical da época. Equívocos e rótulos

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Tendo nascido em 1967 de um grupo de estudantes da Charterhouse School, um colégio interno no Surrey, fundado no século XVII, desde o início os Genesis tinham um critério muito exigente de selecção dos seus elementos e depressa deixaram de ser uma banda de amigos. Aquilo era malta que gostava de fazer boa música. À sua maneira, qualquer um dos seus cinco elementos — Peter Gabriel (voz, flauta, percussão e quase sempre o autor das letras), Steve Hackett (guitarra clássica e guitarra solo), Mike Rutherford (baixo, guitarra e coros), Tony Banks (teclas) e Phil Collins (bateria e coros) — é absolutamente brilhante, mas o resultado do conjunto era muito superior à simples soma das partes. A capacidade que tinham de compor em grupo e depois, com os arranjos e na execução, fazer sobressair o que de melhor cada um tinha para dar era o grande trunfo desta banda -isso justifica que então, a assinatura das faixas dos seus álbuns, letra e música, fosse sempre assumida pelo grupo, "by Genesis". Em palco as exibições roçavam a perfeição como se fossem resultado duma performance de estúdio, apesar da complexidade melódica dos temas.

Um aparte para fazermos referência a Anthony Philips, um dos fundadores da banda, que a tendo abandonado logo após Trespass (li algures que sofria de ataques de pânico em palco), cuja influência perdurará por muito tempo. Consta que é da sua autoria «The Musical Box», o tema de abertura do álbum Nursery Crime, uma das músicas mais emblemáticas do grupo, contribuindo muito para que os Genesis se tornassem uma banda de culto. Era uma banda de concertos, calcorreavam muita estrada e faziam sucesso entre estudantes universitários, apesar do seu PA (sistema de som) medíocre — com o tempo, extravasaram das ilhas para o continente, obtendo os seus concertos assinalável êxito em França, Itália e Alemanha. O posicionamento de cada um num local fixo do palco, cada qual concentrado no seu papel com vista a um espectáculo total e envolvente, musicalmente muito rico e minucioso, tornou-se imagem de marca. Os seus primeiros discos, que venderam mal aquando do lançamento, foram sendo descobertos retroactivamente pela legião de fãs que granjearam a partir de Foxtrot. O álbum Nursery Crime subia ao primeiro terço da tabela de vendas de LP em Itália em 1975 — quatro anos depois da sua publicação —, apesar da dificuldade das suas músicas excessivamente longas passarem nos programas populares de rádio.

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Foi de uma postura austera em palco destes artífices da música que começaram a destacar-se as irresistíveis pantominas e disfarces com que Peter Gabriel ilustrava trechos vocais e pequenas canções com histórias e sortilégios, poemas impenetráveis, quantas vezes mero pretexto para uma ilustração vocal, como defendeu certa vez Jorge Lima Barreto numa crónica. Tenho para mim que a maneira de Gabriel actuar em palco — um protagonismo que se tornou motivo de incómodo crescente para os outros —, o seu recurso que a representações e adereços aparatosos, era também um expediente para tentar disfarçar a sua timidez no centro do palco. O certo é que os espectáculos cada vez mais sofisticados avassalavam as audiências e tornaram-se emblemáticos. 

1540-1.jpgCurioso é notar que os Genesis desta formação genial raramente produziram temas românticos, ou «canções de amor»: as letras de Peter Gabriel carregadas de referências literárias, de William Blake a T. S. Eliot, eram plenas de humor, ternura, sarcasmo e ironia mas nunca de «romance». O cantor, não sendo propriamente o líder da banda, entrava no palco para representar diferentes personagens, depois saía ou escondia-se na sombra a tempos, para todos os seus colegas brilharem nas partes instrumentais em que tinham o seu papel e espaço de afirmação. Talvez o mais injustamente discreto fosse Phil Collins (é dele o único tema romântico desse período desta fase, «More Fool Me», uma canção melosa de três minutos, boa para namorar) apesar da sua bateria intensa e vigorosa nunca se cingir à estrita marcação dos ritmos. Ironicamente, Phil Collins irá substituir Peter Gabriel como vocalista e surpreendentemente revelar-se competentíssimo compositor de canções para rádio e discoteca, afirmando-se de alguma forma o novo líder da banda.

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Simplista é a tentativa dos detractores dos Genesis em rotular linearmente o período 1970-75 de «rock progressivo» ou «sinfónico», grosso modo definido por temas instrumentais longos, construídos sobre uma pequena melodia, mais ou menos «planantes» e eufóricos, com muitos sintetizadores e demais artifícios. Se quiséssemos acusar de decadência a mera pretensão da música pop se sofisticar, teríamos de recuar a SgtPepper’s Lonely Hearts Club Band dos Beatles (1967) e Pet Sounds dos Beach Boys (1966). O antepassado dos sintetizadores, o fascinante Melotron, instrumento de teclas que reproduzia acordes de orquestra ou de coros polifónicos, é utilizado pela primeira vez pelos Beatles no início de «Strawberry Fields Forever» em 1967. Poderíamos chamar pretensiosa a última fase dos Beatles em que se destaca claramente o Álbum Branco como obra-prima? Talvez, mas seria injusto. E é legítimo apelidar de pretensioso o estilo esmerado dos King Crimson, Brian Eno ou, coisa tão diferente, os primeiros álbuns dos Pink Floyd na exploração de sensações sonoras? Talvez, mas seria igualmente injusto, porque todos esses são projectos experimentais de música que expandem, confundem e baralham o conceito de música popular — pretensiosismo e ambição são coisas distintas. Claro que durante os anos 70 usou-se e abusou-se de sintetizadores e compunham-se músicas intermináveis sem grande coerência, toneladas de decibéis e fogo-de-artifício para épater les bourgeois, o mais das vezes com o seu sentido crítico diminuído por estupefacientes. É também neste sentido que os Genesis se distinguem de qualquer onda «psicadélica»: a sua performance meticulosa e fiel a composições e arranjos sofisticados, permitindo à audiência abandonar-se a experiências em moda naqueles anos, exigia aos seus elementos um grande esforço de sobriedade e tecnicidade. Os Genesis, no auge do psicadelismo e da música de intervenção, era uma banda de caretas — ora, isso hoje é para mim é um consolo. O seu produto final era apenas a música. E a verdade é que, se a maior parte dos vinis que guardo da minha juventude faço-o por sentimentalismo, poucos são os que ouço com tanto deleite quanto estas quatro obras dos Genesis.

Antes de passar àquela que considero a sua obra-prima (só comparável em mestria com o tema «Supper’s Ready» de Foxtrot), sugiro um pequeno roteiro de três músicas a título de iniciação aos Genesis, não impeditivo que se explorem outras, quase tão geniais quanto estas:

«The Musical Box» de Nursery Crime — um tema com cerca de 10 minutos, em que os solos vigorosos de Steve Hackett a roçar o hard rock contrastam com o acento erudito das teclas e a teatralidade da vocalização de Peter Gabriel. Uma história surreal sobre o amor entre duas crianças, Cynthia e Henry, e uma caixa de música enfeitiçada, inspirado nos contos de William Blake e nos contos de Lewis Carroll. 

«Supper's Ready» — ocupa praticamente o lado dois de Foxtrot, que foi a consagração da banda. Esta música, uma das mais aclamadas nos concertos ao vivo, é uma espécie de suite, com sete secções bem demarcadas onde várias canções se cruzam como árias, formando um empolgante, coeso e crescente hino, cuja letra cheia de nonsense e referências indecifráveis, resumidamente retrata uma batalha do Bem contra o Mal, terminando numa apoteótica citação do Livro do Apocalipse.

«Firth of Fifth» — um dos temas mais «progressivos» dos Genesis, onde se destacam as teclas de Tony Banks e um dos mais emblemáticos solos de guitarra de Steve Hackett. Um tema melancólico, uma espécie de pastoral com 9 minutos de puro deleite e poucas palavras (de Tony Banks). 

«The Lamb Lies Down on Broadway»: o culminar da excelência

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«Os Genesis cumpriram tudo o que uma sociedade burguesa esperava deles: divertir, alienar, dar-nos prazer idealista. [...] Se bem que perguntemos: a música não serve afinal, e apenas, para dar prazer?» Cito uma vez mais Jorge Lima Barreto, aquando da memorável exibição dos Genesis no Pavilhão Dramático de Cascais, em Maio de 1975, para apresentarem o seu álbum “conceptual” duplo. Repare-se que segundo o espírito da época revolucionária em curso, a boa música deveria assumir-se como «arma contra a burguesia». A mim nada me movia contra a burguesia, e nesse tempo conturbado, era muito difícil a um jovem liceal escapar à moda da «mensagem política» sempre presente nos interstícios de qualquer canção pop. Para um rapaz de 13 anos como eu, educado numa família tradicional, essa «mensagem» o mais das vezes chocava frontalmente com os valores que me eram transmitidos em casa. Ao mesmo tempo que tomava contacto com o hipnotismo planante dos Pink Floyd e me deixava seduzir por Leonard Cohen (cujas letras arduamente tentava entender), alguma música brasileira, e ainda me perdia inebriado com as canções dos Beatles que eram legado da infância, os Genesis surgiram-me como que uma lufada de ar fresco. Conheci-os através duns amigos num grupo de católicos no Verão de 1975, precisamente através desse álbum duplo The Lamb Lies Down on Broadway, que poucos meses antes tinha sido apresentado em Cascais. O disco contava uma história enigmática para o meu parco inglês, gravei-o num aparelho de fita magnética antigo adquirido na Feira da Ladra e ouvi-o durante meses da única bobine que tinha. Foram horas arrebatadas e preguiçosas a descobrir ao milímetro as 27 músicas do disco com quase 90 minutos de boas canções de 4 a 6 minutos, composições com autênticos clássicos lá dentro que exigem curiosidade e tempo para descoberta, em jogos de tensão e distensão, emoção violência e ternura, e até de bom humor — paradigmática a canção em que o jovem herói se dispõe a aprender com uma prostituta os mistérios do erotismo por um “manual”.

Aqui transcrevo uma das mais eloquentes descrições do disco, feita por autor incógnito para um número da revista Cais dedicado aos trinta anos sobre o histórico concerto em Cascais: «The Lamb Lies Down on Broadway funciona como uma colagem de fragmentos. O épico ainda dialoga com o pueril, a doçura com a acidez, a violência com a ternura, mas o travo é de desencanto, cinismo e distanciação, não se vislumbrando a progressão envolvente de temas como “The Musical Box” ou “Supper’s Ready”. Em suma, a tensão melodramática, excêntrica e grandiloquente, que a juventude freak estava habituada a reconhecer nas personagens de Gabriel, dá lugar a uma urbanidade contemporânea. As figuras míticas de um tempo metafórico permanecem — na música e em palco — mas agora como transfiguração da realidade quotidiana de um jovem porto-riquenho de blusão de cabedal, cabelo curto, ténis brancos e lata de spray na mão deambulando pela cidade que é mais cidade que todas as outras, Nova Iorque…» É a história de Rael uma espécie de punk que nas suas correrias pela cidade, rebentando cocktail-molotovs, assiste na Broadway ao rapto do seu irmão John por um estranho fenómeno alienígena. E após várias aventuras e desconcertantes encontros vai descobrir, já perto do final, num emocionante salvamento nas tumultuosas águas de uns rápidos, que um e outro são um só, dois lados da mesma moeda. Poupo-vos à descrição das faixas todas, mas destaco uma das mais emblemáticas, sumptuosas e violentas canções pré-punk, o «Back in New York City», que Jeff Buckley tão bem recupera numa interpretação nos anos 90.

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O que é que tudo isto tem a ver com rock progressivo ou sinfónico? Muito pouco, certamente. Como proclama o último verso do tema final do álbum it: cos' its only knock and knowall, but I like. Uma bela charada.  

Os Genesis depois de Gabriel

The Lamb Lies Down on Broadway foi sem dúvida a produção “genesiana” mais marcada pela influência de Gabriel, dando inusitada expressão à sua rebeldia e ânsia experimental. Diz-se que o nome do personagem principal, Rael, é uma espécie de anagrama de Gabriel e que toda a história relatada na obra é uma viagem introspectiva do seu autor — mas não tenho a certeza. Certeza tenho de que o resultado final é uma obra-prima e que as composições foram feitas nos moldes de sempre, em grupo, com mais influência de um e outro elemento, numa música ou noutra. E que as letras foram lá colocadas a posteriori em muitos temas, e que para isso tiveram de ser adaptados num processo tumultuoso. A animosidade do restante grupo para com Gabriel era já grande, e antes da digressão de apresentação do disco a saída do vocalista estava anunciada.

Certo é que nenhum dos elementos dos Genesis depois deste período áureo fez, a solo ou em grupo, algo que se lhe comparasse. Nem mesmo Peter Gabriel, que construiu uma carreira muito respeitável, com toques de génio aqui e ali, principalmente nos seus primeiros discos. Para o resto da banda o que veio a seguir foi algo completamente diferente, e é como se falássemos de uma nova, que bem poderia ter mudado de nome. Concedo que os primeiros dois discos da era pós Gabriel ostentam ainda belos temas e composições de grande qualidade, esses sim bastante «progressivos», onde se nota uma crescente preponderância das teclas de Tony Banks. A «genialidade colectiva» que remanescia desapareceu com a saída do guitarrista Steve Hackett, que imprimia complexidade melódica, uma característica importante que então se extinguiu definitivamente. Sem isso, e sem a vertente rebelde e experimental de Peter Gabriel, os Genesis tornaram-se enfadonhos, intercalando canções comerciais com intermináveis lençóis grandiloquentes. Esta nova fórmula garantiu-lhe estádios cheios e milhões de libras, mas duvido que o seu legado permaneça por muito tempo.

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Na verdade, tenho muitas dúvidas que o legado de 99% da música moderna prevaleça para lá da vida das gerações suas contemporâneas; tudo foi feito descartável e circunstancial — é o ar do nosso tempo. E possivelmente isto foi tudo uma ilusão, para que me predispus numa idade mais susceptível e que a minha sensibilidade (ou será teimosia?) faz prevalecer como culto ou capricho até à maturidade. Consolam-me os muitos covers dos melhores temas dos Genesis 70-75 a que se dedicam inúmeros jovens músicos em impressionantes vídeos do Youtube. Consola-me também encontrar alguma gente nova nos concertos de tributo a que assisti nos últimos anos. Por tratar-se de uma música tão complicada quanto «cerebral», a sua interpretação por outros resulta muito bem, bastando para tal que estes sejam musical e tecnicamente evoluídos e gostem do que fazem.

Termino como comecei: com este artigo apenas pretendo fazer uma homenagem àqueles cinco rapazes que tanto prazer me deram e continuam a dar. E também enumerar argumentos que justifiquem esta minha paixão. Mas se com estas linhas algum incauto se dispuser a conhecer estas quatro pérolas da música contemporânea — «Nursery Crime», «Foxtrot», «Selling England by the Pound» e The Lamb Lies Down on Broadway —, estou certo que o maior consolo será seu.

PS.: Este texto é em boa parte a minha argumentação para uma prometida tertúlia entre duas facções inconciliáveis que está adiada para uma noitada assim que a DGS o permitir. A boa conversa é o que de melhor se leva daqui. 

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O que têm em comum dois daqueles que para mim são dos melhores clássicos da pop “The Lamb Lies Down on Broadway” dos Genesis de 1975 e “OK Computer” dos Radiohead de 1997? Para lá dos diferentes contextos e épocas em que foram produzidos e de serem ambos álbuns duplos com mais de uma hora de boa música, tem em comum uma extraordinária densidade e diversidade melódica, um constante confronto entre a rebeldia e a ternura, a revolta com a mansidão, o épico com o ligeiro. Discos que eu levaria de certeza para a tal ilha deserta, e que irei sempre ouvir como se fossem novos.

Música para os meus ouvidos

por João Távora, em 12.04.18

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Já não é a primeira vez que ao revisitar velhos amigos reparo que baniram os discos, os CDs e a aparelhagem sonora da sala, ou a têm desmontada a um canto. Isso entristece-me, principalmente quando são daqueles que tinha por melómanos, com quem partilhei na juventude a descoberta de novas sonoridades ou de velhos clássicos em audições que eram como que sessões religiosas. Claro que para a maior parte dos meus amigos ou colegas de escola a música nunca terá sido propriamente um culto, existia nas suas vidas porque era próprio da idade, era um pretexto instrumental no ritual de engajamento social ou de sedução e acasalamento, e que chegados à maturidade despromoveram-na a um acessório de consumo acidental pelo rádio do carro, uma distracção para as filas de trânsito, ou companhia no escritório através de “play lists” no YouTube. De facto, entrada que está a minha geração na meia-idade, corremos o risco de ficarmos moucos da alma, perdidos na gestão da carreira profissional, entalados a cuidar dos pais e dos filhos, e emergidos noutras actividades utilitárias de elevado reconhecimento social. 

Tenho para mim que a capacidade nos deixarmos encantar com novas ou velhas músicas exige espaço e dedicação, porque é uma extensão qualitativa da nossa existência, intimo encantamento a que temos de nos manter permeáveis e que nos eleva do contingente, como que uma abertura a um Dom de Deus que nos desinquieta contra a tentação do fechamento, da insensibilidade, da morte.
Sinal dessa alma arejada é mantermos uma aparelhagem sonora cuidada e a uso num sítio nobre da nossa casa, como na nossa juventude, que a dispúnhamos como se fora um pequeno altar no centro do nosso quarto. Tenho dito.

Discos e riscos 2

por João Távora, em 05.01.17

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Para uns delicados ouvidos analógicos como os meus é reconfortante verificar como, a par do vertiginoso processo de desmaterialização da música e do crescimento exponencial do seu consumo através das de plataformas de streaming como o Spotify, Apple Music ou o Google Play, o mercado do vinil vai-se afirmando como uma consolidada alternativa para os verdadeiros melómanos e audiófilos. A comprová-lo basta verificar o espaço a ele reservado nas lojas Fnac, já para não falar da proliferação de novas lojas de discos nos grandes centros urbanos, ou pelo facto da versão em vinil de "Black Star" de David Bowie ter vendido globalmente perto de 500.000 cópias. No entanto convém realçar que este crescimento terá sempre como limitação os custos monetários necessários para a aquisição de um competente sistema de reprodução: um bom gira-discos com uma boa célula, um amplificador competente com entrada “Phono” e umas colunas adequadas ao espaço em que vão tocar. De resto faz-me alguma confusão a profusão de oferta de pequenos gira-discos de má qualidade, a maior parte com um atraente design “vintage”, que constituirão um logro para o consumidor, que rapidamente se perceberá que, para além de estragarem dos discos, não preenchem os valores mínimos de qualidade sonora comparativamente a qualquer pequeno dispositivo de reprodução digital, até o smartphone mais básico.

 

Publicado originalmente aqui.

A dor em forma de canção

por João Távora, em 13.09.16

Falando de coisas sérias: já ouvi com atenção o último álbum de Nick Cave “Skeleton Tree” pelo Google Play. Trata-se dum profundo e lancinante choro musical do cantor sobre a recente morte do seu filho de 15 anos. Inegavelmente belo, (o tema "I Need You" que aqui parilho é de antologia) confesso que experiência às tantas leva a minha comoção ao limite do suportável - para lá de sentir uma incómoda sensação de voyeurismo. Certo é que não consigo distanciamento emocional necessário para usufruir daquela música. Com o meu enorme pesar, este disco não é para mim - não o passo a analógico. Problema meu claro.

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Música para os meus ouvidos

por João Távora, em 06.05.16

"O melhor é supor que a música contém em si um potencial de expressividade que se encontra aberto ao nosso desejo de nela descobrirmos as nossas emoções, um desejo que é indesmentível e irrecusável. E que nós somos capazes de explorar essa expressividade da música, através dos sentimentos de prazer e de desprazer, de modo a fazer sentido dela."

 

A ler Paulo Tunhas "A música é triste"

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Sinatra, uma criação da industria fonográfica

por João Távora, em 12.12.15

 

Curioso como as mais variadas homenagens e tributos que por estes dias se fazem a Frank Sinatra não referem um ponto que me parece fundamental. A popularidade desta consagrada estrela mundial norte-americana é inteiramente fruto da poderosa indústria fonográfica que se desenvolveu estrondosamente durante a sua vida. Acontece que Sinatra não se distingue na arte da composição musical ou poesia mas exclusivamente ela sua sólida e aveludada voz barítono, que veio a ser difundida massivamente pelos quatro cantos do mundo através dos discos. Nenhum cantor anterior ao século XX poderia ambicionar tal façanha – vozes tão boas ou melhores não puderam ser registadas e desapareceram na penumbra do passado.

Não sou particularmente fã do estilo “romântico”, “esplendoroso” e “grandiloquente” de Frank Sinatra, e há um conjunto de pelo menos 12 canções que já não aguento ouvir por completa exaustão. Mas o facto de ele ter sido intérprete de eleição das canções mais marcantes e dos compositores mais brilhantes do século XX como o Jimmy Van Heusen,Cole Porter, Sammy Cahn ou George Gershwin torna-o um artista incontornável, imortal diria eu. O primeiro, fruto da tecnologia e indústria fonográfica.  

Fatal como o destino

por João Távora, em 14.04.15

A meio da vida apercebemo-nos que há algures um céu onde repousam esquecidas imensas maravilhosas canções. Apesar de terem encantado e mexido fundo no espírito de gerações, foram fadadas a morrer com as suas memórias.  

I'm a Fool to Want You

por João Távora, em 13.04.15

Já disse noutras ocasiões como tenho dificuldade em escrever sobre discos que não gosto, e como a coisa piora muito quando me apaixono por algum – talvez com receio do ridiculo que são sempre as declarações de amor. É por isso que venho adiando estas palavras sobre Shadows in the Night, o 36º disco de Bob Dylan que nos surpreende com a interpretação nasalada e displicente de dez temas criteriosamente repescados do reportório de Frank Sinatra, um seu antípoda da música popular. 

A estranheza de Shadows in the Night adensa-se ao constatarmos que a grande orquestra tipica de Sinatra foi substituída por uma pequena banda em que se destaca uma desconcertante pedal steel guitar de tonalidades havaianas. No mais, os arranjos são suportados pelo dedilhar da guitarra acústica de Bob Dylan, um contrabaixo e metais esporádicos. O resultado é o encantamento, que ganha laivos de submissão à vigésima audição. Produzido por Jack Frost que o grava "ao natural" - sem remisturas (hoverdubs), nem filtros - a coisa resulta mágica, como se os rapazes estivessem ali mesmo a cantar, a tocar, a respirar, para nós. O modo como foi captado o som produz um extraordinário efeito de presença física, potenciado se o álbum for reproduzido em formato vinil numa boa aparelhagem.
O facto é que um mês depois de ouvir Shadows in the Night, até parece que temas doces e amargos  como "The Night We Called It a Day" , "Why Try to Change Me Now", "Some Enchanted Evening", "What'll I Do" foram criados para a voz de Dylan, melancólico anti-heroi, cowboy rouco e desajeitado, e não para um glamoroso romântico do cinema e do music hall como Sinatra era, com a sua voz poderosa e sensual. Se lá em cima já tiveram a desfaçatez de lhe mostrar este álbum, ele certamente irá perdoar-me o atrevimento desta opinião. Ironicamente, parece-me que a interpretação de  "I'm a Fool to Want You" é o melhor tributo que Bob Dylan poderia fazer ao seu autor, que um dia disse do Rock 'n' Roll ser “a música marcial feita para delinquentes, cantada por cretinos.”  

De resto, o mais importante é comprar este álbum, e usufruir com deleite da Graça de se ter o coração perto duns bons ouvidos.

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A música absoluta

por João Távora, em 03.05.14

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Flight n. FR1885

por Luísa Correia, em 30.04.14

 

Até já.

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Boa Páscoa

por Luísa Correia, em 19.04.14

Abril Sempre

por João Távora, em 11.04.14

Coimbra, a canção escrita por Raul Ferrão estreada no filme Capas Negras em 1947 é certamente ainda hoje a melodia portuguesa mais popular em todo o mundo. Interpretada em 1950 por Amália Rodrigues nos espectáculos Plano Marshall em apoio à Europa arruinada pela II Grande Guerra, coube a Jimmy Kennedy escrever a versão em inglês April in Portugal como veio a ser celebrizada pelas mais ilustres vozes mundiais da época. Aqui partilho uma peculiar interpretação de Louis Armstrong em 1953 com orquestração de Sy Oliver num disco Brunswick 05122. 

 

Publicado originalmente aqui

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Um Mellotron para José Cid

por João Távora, em 10.04.14

 

José Cid vai levar amanhã e depois aos palcos de Lisboa e Porto o seu disco "10 000 anos depois entre Vénus e Marte", uma sua magnífica criação tão incompreendida na época, mas que se veio a revelar o maior fenómeno da produção fonográfica lusa: o álbum original de 1978 atinge hoje facilmente os 300,00 € no mercado de segunda mão. Chamou-me à atenção na sua entrevista hoje publicada no jornal i que o Mellotron não fará parte dos instrumentos em palco: de sonoridade inconfundível, este instrumento musical muito utilizado pelas bandas de rock progressivo nos anos sessenta e setenta, é um teclado electromecânico polifónico constituído por um “banco” de fitas magnéticas pré-gravadas com oito segundos de duração. Muito frágil e difícil de transportar, a sua sonoridade ficará imortalizada, por exemplo no ínicio de Strawberry Fields Forever dos Beatles, em The Court of the Crimson King dos  King Crimson, ou mais sofisticadamente neste fabuloso tema Silent Sorrow In Empty Boats dos Genesis, em que Tony Banks explora magistralmente o instrumento (por coincidência um exemplar adquirido aos King Crimson) "programado" para reproduzir pelas suas teclas coros humanos de oito vozes. Curioso é como uma modernice dos tempos da nossa juventude, em cinquenta anos cai em desuso e se transforma num objecto de colecção, numa curiosidade de museu. Obviamente nenhum computador conseguirá reproduzir a sua sonoridade original, e o José Cid saberá disso certamente. 

 

Publicado orininalmente aqui.

 

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Música de fim-de-semana

por Luísa Correia, em 05.04.14

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Morning Phase

por João Távora, em 02.04.14

Nem sempre podemos agarrar aquilo que mais amamos. Mas a música sim

 

 

 

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Fado de Coimbra de 1927

por João Távora, em 19.02.14

 

Querem saber quem foi Margarida d' Oliveira?

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A Menina da Rádio

por João Távora, em 13.02.14

Está aqui.

 

 

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Coon song

por João Távora, em 07.01.14

Aqui partilho mais uma Coon Soong, num cilindro de cera Edison de 1908 imaculado da minha colecção, com o tema "Dixie Dan" interpretado pelo Billy Murray (1877 – 1954) cantor norte americano extremamente popular nas primeiras décadas do Século XX da autoria Arthur Collins, o Rei do ragtime. 

 

Dixie Dan

By Arthur Collins

 

Way down south where i was born
In the land of cotton and the land of corn
I saw the light on a monday morn
And they called me Dixie Dan
In an old burnt stump of an old burnt tree
The doctor he discovered me
And my mammy shook her sides with glee
And she called me Dixie Dan
Now a gal down there with cork-screw hair
She won my heart and i declare
I must have been slow
When i let her go
A traveling round with a minstrel show
Oh


Dixie, oh Dixie Dan
'Ambling, rambling, gambling minstrel man
Coal-black color all except my teeth
With a loving disposition underneath
My heart pines for the girl I left behind
Oh Trixie, oh Trixie An
My heart beats for you to beat the band
Way down south is the land of cotton
Tell me you have not forgotten
Dixie, oh Dixie Dan
(Bis)

Sousa's Band

por João Távora, em 29.12.13

Aqui deixo um Ragtime com pedalada gravado em 1906, pela banda do Lusodescendente mais famoso de sempre nos EUA, John Philip de Sousa, celebrizado em todo o mundo principalmente através das suas famosas marchas, muitas delas que todos conhecemos desde sempre.

 

Publicado originalemnte aqui



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