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LX revisited...

por Luísa Correia, em 08.01.13


Encontrei, na minha reduzida peúga natalícia, um livrinho intitulado "LX60". O grafismo atraiu-me imediatamente: o papel grosso, sem brilho, o colorido de revista antiga, as fotografias "vintage" de caras e coisas que me agitavam a memória... Folheei-o com gosto, tive algumas surpresas - sobretudo porque não situava certos acontecimentos na década -, e não resisto a deixar aqui nota de umas quantas das muitas referências que me divertiram:
a) é de 7% o crescimento anual nesse período que o livro designa por Idade de Ouro da economia portuguesa. Como poderemos chamar à "Idade" que corre?
b) em 61, estreia, no Saldanha, o primeiro supermercado português, que inclui a novidade, de inspiração americana, de um "snack-bar";
c) eclode, no mesmo ano de 61, a famosíssima "guerra do Solnado", a tal em que as balas são disparadas presas a guitas, para se poderem recuperar - o tempo é de franco combate ao desperdício!
d) em 65, abrem, na Rua da Vitória, os Porfírios Contraste - lembram-se? - que introduzem em Portugal a moda ié-ié das camisas a esgaçar pelas costuras e das calças à boca de sino com um metro de diâmetro;
e) em 66, é capturado pela ASAE da época o bando de rapazes que "amartela", com abundante álcool etílico, o whisky de Sacavém. O grupo recolhe às grades, mas o whisky continua à solta por mais uns anos, na origem que está das minhas piores dores de cabeça;
f) ainda em 66, é inaugurada a primeira ponte sobre o Tejo, obra preparada para suportar 10 vezes o peso de tráfego previsto (a Vasco da Gama, trinta anos mais tarde, estará preparada para suportar 1 vez...). O "corta-fitas" de serviço, França Borges, compara Salazar a Nuno Álvares, ao que o Presidente do Conselho reage com este comentário descontente: "Se soubesse, tinha-me oposto a essa parte do discurso. Que estupidez, que ridículo! [...] A não ser que ele me tivesse querido comparar ao cavalo de Nuno Álvares, mas isso também me parece um pouco demais."
g) em 66, finalmente, desenguiçam-se as obras de Santa Engrácia, iniciadas em 1682 e nunca terminadas;
h) 67 é o ano de lançamento do grande "hit" infantil "Vamos dormir! Vamos dormir!", com letra de Alexandre O'Neill - imaginem! - e desenhos de Mário Neves;
g) em 68, inicia-se, entre nós, a utilização da nova tecnologia das máquinas "multibanco", primeiro passo - digo eu - no caminho da nossa completa perda de noção do valor do dinheiro...
h) em 69, fica concluída a construção do polémico "Franjinhas", na esquina das Ruas Castilho e Bramcaamp, feito sobre projecto dos arquitectos Nuno Teotónio Pereira e João Braula Reis, e galardoado, em 71, com o prémio Valmor;
i) ainda em 69, a revolução sexual desencadeada na década encontra expressão na canção "Desfolhada", interpretada por Simone de Oliveira no Festival da Eurovisão, e nestes atrevidos versos de Ary dos Santos, "... Quem faz um filho / Fá-lo por gosto..."

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Heresias confessas...

por Luísa Correia, em 28.12.12

 

Este "post" do Duarte pôs-me, nos dias que entretanto passaram, à procura das razões por que nunca li certos autores, não obstante estarem enquadrados nos ditos "clássicos" - isto é, aparentarem ter um papel cultural e artístico passível de apreciação universal - e serem objecto das melhores referências críticas. A resposta, desconfio, está na fria opinião de Fradique Mendes sobre o amor: "ninguém vê a mulher que tem de amar [...] antes de ter chegado o momento marcado pelo destino para que esse amor se acenda e seja útil ao conjunto das coisas" (Eça de Queiroz, Cartas inéditas de Fradique Mendes). Ora o que é a leitura sequencial da obra de um escritor senão uma espécie de namoro com a sua alma?

É altura de confessar: nunca li Vitorino Nemésio, porque achei intrincada a sua linguagem quando tentei. Nunca li Agustina Bessa Luís, porque a sua abordagem biográfica ao Marquês de Pombal me assustou. Nunca li Philip Roth, tão na moda, porque, precisamente, comecei pelo arrepiante "The Dying Animal". Não acabei Proust, porque não conseguia, nos seus parágrafos, associar os sujeitos aos verbos e aos complementos circunstanciais. Para mim, que leio com o objectivo simples - e meio herético, eu sei... - de me entreter, de rir ou de escapar ao mundo real, as primeiras impressões são decisivas. E quando essas impressões são amadoras e levianas como as minhas, decisivo é também que se gerem no momento certo ou sobre o livro certo. Tive de esperar vinte anos para saber apreciar Camilo Castelo Branco. E tive a sorte de conhecer Vargas Llosa através da sua Tia Júlia e do Escrevinhador. Depois, foi lê-los de empreitada, entusiasticamente.

Resta-me, portanto, fazer votos de que amanhã seja o momento certo - e "Quase que os vi viver", o livro certo - para reencontrar e aprender a "amar" Vitorino Nemésio, o escritor.

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Pela noite dentro com Maigret...

por Luísa Correia, em 15.12.12

Depois de ter "reviravoltado" radicalmente os meus horários - adaptação, a quanto obrigas! - a leitura reocupou o seu espaço privilegiado. E desde há três meses que tenho Maigret como companheiro das minhas vigílias. Um excelente companheiro, devo dizê-lo. Já tinha lido alguns dos seus casos, no passado, mas então, demasiado sensível às atmosferas, achara-os deprimentes, sempre envoltos em brumas e chuvinhas "molha-tolos", sempre muito regados de "pernod" ou vinho branco num qualquer estaminé popularucho, com o seu "zinc", o chão de linóleo, coberto de serradura, o cheiro intenso a cozinha e a "patroa" invariavelmente patriótica. Agora, pelo contrário, tudo me parece típico e me encanta. Acompanho, de mapa em punho, as deambulações de Maigret por Paris - onde, realmente, nunca encontrei bom tempo - e reconheço todos os lugares. E quando nos aproximamos do Sena e dos seus canais, lembro-me da minha primária luso-francesa, do que aprendi sobre as "péniches" e as "écluses"... e é como se fosse à procura do tempo perdido. São cerca de sessenta livrinhos, mas metade já marchou.

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Os clássicos também se «abatem»...

por Luísa Correia, em 26.02.10

Periodicamente, retempero-me nos clássicos. E é comum que o faça em segundas e terceiras revisões. Mas com o Camilo não há essa necessidade, pois, graças à extensão da sua obra, tenho sempre novos Camilos a desbravar. Desta vez, motivada pela crescente curiosidade por tudo o que respeita à minha «terra», escolhi o título «Mistérios de Lisboa». E não estremeci perante as suas quase setecentas páginas, nem perante a letra miudinha e o aperto das linhas. Estremecimentos, reservava-mos o conteúdo. A intriga é complexa e enreda uma série de personagens equívocas nas suas opções de vida – todas elas tão prisioneiras de uma fé religiosa e moral ardente, como libertas dela nas suas relações amorosas, invariavelmente extra-conjugais e frutuosas em bastardias. Mas a surpresa é o romantismo exacerbadíssimo que perpassa pela narrativa, em que não encontro, até onde já li – e já passei de metade – senão torrentes de lágrimas, suspiros, agonias, desmaios e toda a panóplia de manifestações paroxísmicas de sofrimento espiritual, febres tísicas e golfadas de sangue, orações convulsas de mãos trémulas e braços erguidos, penitências, cilícios e lances de êxtase, de delírio e de loucura, naquilo que é uma procissão de mártires das paixões e do remorso, que se martirizam pelos caminhos espinhosos do martírio que é a existência terrena. Confesso que, embora conheça alguma obra do Camilo romântico, os Mistérios de Lisboa extremam as características da escola, e não há sequer um laivozinho do seu delicioso sarcasmo (salvo, talvez, no episódio da Anacleta bacalhoeira, quando ainda era velhaca) que alivie o quadro tenebroso de desgraça. É um mistério – meu, não de Lisboa – que mantenha intacto o interesse nesta leitura. Mas mantenho. Não é, certamente, pelo desenlace, que adivinho de consumada tragédia… Ou talvez seja, pensando melhor, pela ânsia de ver, sim, consumada a tragédia. Que é como quem diz, ver «abatidas» tão sofridas e enervantes personagens, de modo que não fique uma para [re]contar a história.

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Relendo os clássicos

por Pedro Correia, em 01.01.09

"Espero que não tenham acreditado numa única palavra pronunciada por Sócrates: a verdade é exactamente o oposto!"

Alcibíades, citado por Platão, n' O Banquete

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Leituras

por Pedro Correia, em 28.12.08

"Depois duma certa idade - às vezes muito cedo, para alguns de nós - já não há pessoas novas, nem bichos, sonhos, caras, acontecimentos: tudo já aconteceu antes, apareceu antes, com máscaras diferentes, diferentes roupas, outra nacionalidade, outra cor; mas é o mesmo, o mesmo, e tudo é um eco e uma repetição; e nem há dor que não seja uma recorrência de outra coisa lá atrás na memória."

Doris Lessing, Gatos e Mais Gatos

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Leituras

por Pedro Correia, em 26.12.08

"O fogo nunca se sacia. Quanto mais o fogo devora, maior se torna; quanto maior se torna, mais aumenta o seu apetite; quanto mais aumenta o seu apetite, mais ele devora. A única coisa que se recusa a ser devorada pelo fogo é a água. Se a água pudesse arder, todo o mundo teria sido há muito devorado pelo fogo."

J. M. Coetzee, Diário de um Mau Ano

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E disparou

por Tiago Moreira Ramalho, em 23.12.08

O José Mario Silva tem alguns posts sobre a compilação de "Crimes Perfeitos" de Max Aub. Um dos posts tem este vídeo que é uma adaptação cinematográfica de um dos contos. Verdadeiramente perturbador.

 

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Momento Escolhas de Marcelo

por Tiago Moreira Ramalho, em 19.12.08

Tem razão quem diz que A Viagem do Elefante é um livro bastante mais divertido que os anteriores. É Saramago, é inegável, mas é também inegável que se trata de um Saramago, diria eu, mais jovem. Não percebo a opção pelas minúsculas nos nomes próprios, é a única coisa que acho um pouco estranha naquele conto, fora isso, é fantástico.

E ao sr. Saramago (sim, porque Saramago lê o Corta-fitas), espero que não seja o seu último livro, mas caso seja, pode ficar de consciência tranquila, pois a qualidade é inquestionável. A ler.

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Leituras

por Pedro Correia, em 03.11.08

"A política e os negócios escuros andam sempre de mãos dadas."

Rex Stout, A Morte de um Janota

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Leituras

por Pedro Correia, em 30.09.08

"Levado aos seus extremos mais sanguinários, o islamismo integrista recorda-nos, sem dúvida - pela sua impermeabilidade ao pensamento crítico, pelo seu desprezo pela vida alheia, pelas suas pretensões de extermínio daquilo que odeia e pelo seu culto da morte, incluindo o suicídio - os piores traços dos totalitarismos que assolaram a Europa no século passado."

Fernando Savater, A Vida Eterna

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Leituras

por Pedro Correia, em 14.09.08

 

"Quando chegámos à América, toda a gente se passeava com a merda das bermudas, cortes de cabelo curtos e coisas nos dentes. As miúdas pareciam a porra de uns cavalos de 1940! Não havia conceito de vestido nem nada de semelhante. Pensámos simplesmente - Que raça tão feia. Tinham um ar nojento."

John Lennon, citado por Geoffrey Giuliano e Avalon Giuliano, em Beatles - A História Secreta (Ulisseia, Lx, 2008)

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Leituras

por Pedro Correia, em 08.09.08

"Os professores não sabem nada. Fazem-se professores para aprenderem com os alunos. Se estes são rebeldes, aprendem a ter medo deles. Se respeitadores, se cachorrinhos suspensos do lábio do magister, imbeciliza-se este no dixit. Num e noutro caso, os professores morrem sem saber nada. Isto é: morrem professores."

Natália Correia, Não Percas a Rosa

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Leituras

por Pedro Correia, em 29.08.08

"As mulheres existem para serem amadas, não para serem entendidas."

Oscar Wilde, A Esfinge sem Segredo

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Leituras

por Pedro Correia, em 26.08.08

"Com uma cabeça para os grandes expedientes e um coração para os grandes lances, não há distância que não se encurte."

Júlio Verne, Miguel Strogoff

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Leituras

por Pedro Correia, em 25.08.08

"A natureza é monstruosamente injusta. Não há substituto para o talento."

Aldous Huxley, Contraponto

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Leituras

por Pedro Correia, em 21.08.08

"É impossível que a vida seja tão estúpida, tão má. E se ela é realmente má e estúpida, porque será preciso morrer, e morrer sofrendo?"

Tolstoi, A Morte de Ivan Ilitch

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Leituras

por Pedro Correia, em 19.08.08

"A Rússia expandiu-se sob o regime czarista, tal como o fez sob os bolcheviques; o elemento constante foi a expansão, não a forma específica de governo. É provável que um futuro governo russo completamente liberto do marxismo-leninismo continue igualmente expansionista, uma vez que o expansionismo constitui uma expressão da vontade de poder do povo russo."

Francis Fukuyama, O Fim da História e o Último Homem (pág. 244).

Gradiva, Lx, 1992. Tradução de Maria Goes

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As aparências iludem

por Pedro Correia, em 06.08.08

 

 

"Não há nada mais inútil do que tentar estabelecer uma hierarquia da perda e da memória. Os caçadores profissionais dizem o mesmo acerca dos troféus. Um leão das planícies do Capivi abatido a duzentos metros é pouco mais perigoso do que um esquilo; já se o encontro for em mato cerrado à borda de um rio, onde a visibilidade não excede os vinte metros, o caso muda dramaticamente de figura. O animal que mais humanos mata em África é um mosquito."

Filipe Nunes Vicente

Educação para a Morte, Bertrand Editora, Lisboa, 2008

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Leituras

por Pedro Correia, em 05.08.08

"O sangue é um veneno. Quanto mais se derrama, mais fertiliza o ódio. E a roda não pára de girar. No final, todos pagamos a conta, a começar pela sociedade."

Luiz Eduardo Soares, André Batista e Rodrigo Pimentel

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