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Um programa que não gosta de audiências

por João Távora, em 16.09.22

eixo do mal.jpg

Ontem quando fazia um zapping inadvertidamente ao final da noite calhou-me ouvir uns minutos do Eixo do Mal, quando Clara Ferreira Alves, Daniel Oliveira, Luís Pedro Nunes e Pedro Marques Lopes peroravam alarvemente indignados com a atracção exercida pelos rituais da monarquia britânica nas “audiências” (o povo?) das televisões nacionais. Tudo isto a propósito das exéquias da rainha Isabel II que vêm sendo transmitidas em directo nos noticiários nacionais, um fenómeno absolutamente incompreensível para a superioridade “republicana” deste painel. O que mais me admirou foi a repulsa uníssona de que nem a Clara Ferreira Alves, a quem reconheço mais um dedo de testa e de bagagem cultural que os restantes, escapava. Chocou-me principalmente o Luís Pedro Nunes, que mal sabe falar. Mas o que mais me impressiona é o decadente espectáculo de autocomplacência daquele lamentável grupo de "comentadores", cúmplice na vacuidade e na insolência, que é o reflexo das elites com que se vai promovendo a mediocridade nacional. Dali foram certamente beber um copo a um bar chique, longe das malcheirosas “audiências” que tanto desprezam, e a gritar vivas à república. Ainda vão conseguir afastá-las de vez.

A pátria com figura humana

por João Távora, em 15.09.22

Rei Carlos.jpg

A esquerda radical, numa reacção pavloviana, reagiu poucos dias depois da morte da rainha Isabel II incomodada com o espectável dilúvio mediático resultante do acompanhamento das cerimónias fúnebres e de transição na monarquia – pena é que não tenhamos mais oportunidades de abordar o tema subjacente. Nesse sentido, são exemplos os artigos de Daniel Oliveira no Expresso e Carmo Afonso no Público que, vexados, verberam contra a forma de governo monárquica, desprezando o facto de os países onde o sistema vigora serem dos melhores exemplos de avanço democrático.

Carmo Afonso usa até uma abordagem original, congratulando-se com os azares dos monárquicos em Portugal, como com a expropriação dos bens da Casa de Bragança por Salazar, do “perfil humilde” e “discreto” do Duque de Bragança, não referindo a abolição da monarquia constitucional portuguesa e a instauração de uma república, ditatorial, violenta e sempre minoritária no apoio popular, pela força das armas, ou o cobarde assassinato do Rei Dom Carlos e do seu jovem filho o Príncipe Real dois anos antes, práticas políticas que a colunista por certo aprova.

Como os antigos jacobinos ou os soviéticos mais tarde, os dois colunistas acreditam profundamente que a natureza humana, onde ancora a atracção das pessoas pela instituição monárquica e os seus rituais, é moldável. A construção de um “homem novo” que “considere a existência de famílias reais uma afronta” é um idealismo perigoso que, estranhamente, no século XXI ainda seduz demasiados activistas da nossa praça. Como no final da monarquia em Portugal, são poucos, mas ruidosos.

Percebe-se como a morte de Isabel II tenha colocado na ordem do dia e inundado o espaço público com relatos, imagens e testemunhos insuspeitos sobre as qualidades do regime monárquico. Afinal a “rainha de Inglaterra” fez a diferença. Não sei se será surpresa para os progressistas constatarem que sempre que se mudaram os regimes à força, apesar do sangue derramado, não conseguiram mudar as mentalidades como tinham idealizado. Ao menos o sonho de John Lennon no seu castelo de marfim, ficou-se por uma bonita e inconsequente canção: continuarão a existir países, religiões, propriedade, paraíso e inferno… enquanto existirem pessoas. (...)

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Isabel II a Rainha Global

por João Távora, em 10.09.22

Isabel II.jpg

A azafama em que andei nos últimos dias por causa da morte da Rainha Isabel II impediu-me de vir aqui escrever atempadamente uma nota. Tudo e mais alguma coisa já foi dito nas rádios e televisões sobre o assunto, que continuará a ser escalpelizado durante os próximos dias, pelo que duvido que aqui viesse trazer algo de verdadeiramente original. Além de grande admiração que nutro pela rainha e pela coroa inglesa, que no mundo se mantém estandarte dos valores ocidentais judaico-cristãos como a liberdade e a democracia liberal com que me identifico incondicionalmente, como monárquico tem sido para mim particularmente reconfortante assistir ao enorme consenso sobre a qualidade e pertinência duma instituição real na velha Europa civilizada – porque não tiram daí os jornalistas, comentadores e políticos as ilações é para mim um mistério. Ou talvez não, que a luta pela vida é dura.
Curioso é como o Reino Unido, enfrentando trágicos desafios e tormentas nos últimos 70 anos, se por um lado perdeu um império, afirmou-se como uma potência cultural no mundo inteiro, muito desproporcional ao seu peso geopolítico. E a mensagem subjacente, nas artes, na literatura, no desporto, na música popular, no audiovisual, vem sendo genuinamente boa: é de civilização. O reinado de Isabel II, a Rainha global, deixa ao planeta inteiro esse legado. O Rei Carlos III tem todas condições para contribuir como uma rocha para que o Reino Unido enfrente as tempestades que se perfilam adiante daquela complexa realidade multinacional e multicultural. Coitadas das republiquetas revolucionárias do sul da Europa. Coitados de nós.

Monarquia

por João Távora, em 07.02.12

 

(...) Uma Rainha. Um contrato de gerações, para além dos Estados. Um problema para quem não compreende a tradição. Nem a macropolítica. Não cabe numa folha Excel. Nem num regulamento de manga de alpaca feito notável da treta. A Ler na integraJosé Adelino Maltez



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