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Poderão os países árabes viver em democracia?

por Maria Teixeira Alves, em 02.02.11

O que distingue este movimento, que eclodiu nestes países árabes, das revoluções pela democracia na América Latina e na Europa, é que estas revoluções árabes não têm direcção, nem organização, nem programa.

Pode ser que este seja o primeiro dia do resto da vida dos países árabes, que têm estado entalados entre as ditaduras laicas e o fundamentalismo religioso.

 

 

Mas é preciso perguntar:

 

O que há para lá de Mubarak? A Irmandade Muçulmana é o grupo mais organizado da oposição no Egipto. Quem é a Irmandade Muçulmana?  A Irmandade Muçulmana atacou o turismo através de grupos saídos das suas fileiras e o turismo faz viver dois a três milhões de famílias egípcias.

Este grupo anunciou que iria juntar-se aos manifestantes anti-Mubarak que têm abalado o regime egípcio nos últimos dias. Os especialistas não acreditam que este grupo, meio clandestino, seja governo. No entanto a Irmandade consegue fazer eleger vários deputados que se candidatam como independentes.

 

O que há para lá de Ben Ali? A Tunísia está sob um governo de União Nacional, desde a queda e fuga de Ben Ali. Liderado provisoriamente e até às eleições por Mohamed Ghannouchi. Mas nem por isso a violência parou na Tunísia. Nas ruas de Túnis há uma forte oposição ao governo de transição por incluir pessoas do partido de Ben Ali, o RCD. Desde a queda de Ali, foram constituídos três partidos que se preparam para disputar o poder. São eles: o Tunísia Verde, de Abdelkader Zituni, o Partido Socialista de Esquerda, de Mohamed Kilani, e o Partido do Trabalho Patriótico e Democrático, de Abderrazek Hamami.

 

Já há apelos a uma revolução esta sexta-feira na Síria, a que chamam o "Dia da Ira Síria".

Pode isto ser uma viragem estrutural do mundo árabe para a democracia? Ou é isto o rastilho para uma guerra no mundo árabe?

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O meu primeiro prémio

por Luís Naves, em 13.07.09

João Galamba, em Jugular, propôs-me para o prémio do understatement do ano, o que me deixou contente, pois não é todos os dias que se ganha o qualquer-coisa do ano, sobretudo numa área nobre e numa arte mais difícil do que a do eufemismo. Ainda por cima em inglês.

O autor acrescenta a opinião, certamente justa, de que não se tira grande coisa do meu post. Isso preocupou-me.

 

O post que mereceu a crítica tem duas partes e penso que ambas incomodaram João Galamba. Na primeira, há uma observação, ainda numa fase primária, que me parece poder ser confirmada pela experiência: na blogosfera, aqueles que mais criticavam cada uma das decisões de Bush agora elogiam cada uma das decisões de Obama. É uma constatação e penso que se aplica a Jugular e diria que se aplica ao João.

A observação seria inócua sem a segunda parte do post, onde me expliquei mal. A objecção do João ao meu texto, obviamente, está certa: qualquer presidente desejará manter o poder da hiperpotência. Trata-se de uma banalidade. Por isso, acrescento, as eventuais mudanças estarão na forma de o conseguir. Mas o facto de me ter explicado mal não altera a realidade: estes foram os meses marcantes do primeiro mandato de Barack Obama e não se vislumbra uma mudança na forma de manter os equilíbrios que prolongam o poder da hiperpotência. Ou seja, a política externa americana não mudou no conteúdo. Existe continuidade, não no estilo, mas na substância.

 

Vejamos exemplos recentes, onde o que fez Obama não se distinguiu de posições que Bush teve no final do seu segundo mandato sobre assuntos semelhantes: Cimeira na Rússia, (empate e adiamento); Irão (silêncio); Xinjiang (silêncio); Honduras (chuto para canto); G8 (empate e adiamento); Afeganistão (ofensiva militar). Se Bush fosse o presidente, imagino as críticas.

Para um observador como o João, a política externa americana sofreu um sobressalto e é neste ponto que estamos verdadeiramente em desacordo. É isto que terei muito gosto em discutir com o autor.

 

 

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Anti-obamismo

por Luís Naves, em 11.07.09

A direita portuguesa detesta Barack Obama, com grau de emoção semelhante ao que a esquerda usava para odiar George W. Bush. Consumimos tudo o que vem da América, citamos os seus autores e vemos os seus filmes. Julgo que da televisão às livrarias, passando pelo cinema, Portugal é proporcionalmente o país europeu que mais consome cultura americana.
A intelectualidade portuguesa detesta a Europa, mas está bem longe de ser pró-americana. E, pelo menos na blogosfera, a direita escreve como se pertencesse ao Partido Republicano e alguma esquerda mais cosmopolita como se fosse do Partido Democrata.
Será anti-americanismo ou sentido de superioridade? Não sei e nunca percebi. Mas leio e ouço cada vez mais argumentos contra o que faz Obama, ou a favor do que faz Obama; os críticos são os que defendiam Bush; os defensores são os que atacavam Bush.
E, no fundo, a política externa americana não mudou assim tanto. Estão a ser experimentadas vias que o anterior presidente explorou menos, mas a estratégia é a mesma: prolongar o poder da hiperpotência.

 

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As ilusões iranianas

por Luís Naves, em 19.06.09

 

A situação no Irão parece estar a evoluir de maré de protestos para uma fase de negociação de compromisso. Não parece que Mahmoud Ahmadinejad seja retirado da presidência, pois isso seria mostrar uma fraqueza que o regime não tem. Como se pode ver neste texto do New York Times, o Líder Supremo, Ali Khamenei, referiu-se à imprensa “sionista” que no ocidente, segundo disse, tem manipulado as notícias sobre o Irão. Este regime não vai aceitar uma revisão do resultado eleitoral e poderá contentar os reformistas com algumas aberturas controladas e concessões menores. Seria importante o abandono do programa nuclear, mas é preciso não sonhar. No Irão mandam os religiosos e estes não vão abandonar a bomba.

Aliás, penso que o tema tem sido discutido na blogosfera portuguesa com pouco realismo. Compreendo que o desejo em política dê origem a campanhas, como se vê em Jugular, que tem publicado propaganda dos reformistas (sim, usei esta palavra associada a algo de maléfico e pouco honesto; mas que querem? é propaganda na mesma, embora do lado "bom").

Acho compreensível, gostava que tivessem razão, mas infelizmente o que escreve Luciano Amaral, aqui, é mais realista, como são mais realistas estas observações de Ana Cássia Rebelo, em Ana de Amsterdam, aqui e aqui.

É perigoso confundir desejo com realidade e fazer a leitura dos acontecimentos aos olhos das nossas convicções. Esta é a maneira mais certa de não percebermos nada.

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Impasse em Teerão

por Luís Naves, em 17.06.09

O Irão desenvolveu um regime autoritário vigiado pelo poder teocrático e no ocidente é normal ter simpatia pelas elites que querem mudanças nesta sociedade inflexível e altamente fanatizada.

Por enquanto, é impossível perceber para onde caminha a revolução islâmica. Talvez isto acabe numa mudança de regime, sendo mais provável a pequena evolução e consequente afastamento dos elementos radicais.

Não acredito que possa haver uma mudança sísmica no poder religioso, personificado no Ayatollah Ali Khamenei, mas seria lógico o afastamento de Mahmoud Ahmadinejad, presidente acusado de ter vencido as eleições através de uma fraude em larga escala. Os dirigentes religiosos estão muito divididos e as pessoas não abandonam as ruas. Talvez um milagre seja possível.

O anúncio da derrota de Ahmadinejad seria uma boa notícia para o Irão e para o mundo. Haveria esperança dos iranianos abandonarem o seu perigoso programa nuclear e moderarem as ambições de hegemonia regional.

Infelizmente, como aconteceu na Birmânia, ninguém pode excluir a possibilidade dos ultra vencerem, forçando o Irão a entrincheirar-se ainda mais no seu beco sem saída. Mesmo que ganhem os moderados, é preciso não esquecer que esta será uma democracia tutelada e limitada desde o momento de escolha dos próprios candidatos, o que inclui Mir Houssein Mousavi, que é um membro deste regime. 

 

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O reformista

por Luís Naves, em 22.05.09

Discordo deste texto de João Galamba, em Jugular. O autor defende a tese de que Obama está limitado pela anterior administração: “acção condicionada por políticas passadas”. Diz João Galamba que “a única influência bushiana nas políticas actuais é o seu legado (negro) e não qualquer tipo de visão ideológica”, frase que se aceita em parte, mas que dava pano para mangas.

Claro que o autor fala sobretudo da questão de Guantánamo, não se percebendo nesta tese a razão da Casa Branca ter uma posição diferente da do Congresso democrata. Ao contrário do que sugere João Galamba, acho que se pode dizer que Obama “recuperou” um tipo de solução para lidar com o problema dos prisioneiros de Guantánamo, portanto, não se “limita a ter de lidar com uma situação táctica que lhe foi deixada”. Podíamos dizer o mesmo sobre a guerra do Afeganistão, onde aliás a táctica certa ainda não está bem definida. Diria que a própria estratégia parece algo incerta.

A meu ver, este artigo revela o crescente incómodo dos observadores de esquerda que não compreenderam um aspecto das últimas eleições presidenciais americanas: Barack Obama não era um candidato revolucionário que iria trazer rupturas ao sistema, mas sim um reformista que se propunha fazer coisas bem pragmáticas. Apesar da retórica, na América não há cortes abruptos, mas melhoramentos. A mudança não tem a ver com a alteração do modelo e inclui sempre o elemento da continuidade. Obviamente, Obama não é sequer parecido com Bush ou Cheney (talvez a pior dupla da história americana), mas muitas das suas políticas serão idênticas porque o que está ali em causa é o interesse prático dos Estados Unidos.  

 

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Fazia falta

por Tiago Moreira Ramalho, em 19.12.08

Eu sei que já foi há uns dias, mas fazia cá falta este tesourinho deprimente da geopolítica.

 

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A guerra de Bush

por Luís Naves, em 29.03.08

José Pacheco Pereira escreveu dois artigos no Público (um deles pode ser lido no Abrupto) sobre o conflito no Iraque e a justificação da guerra. Como é habitual no autor, os argumentos são inteligentes e eruditos, mas passam ao lado do essencial: a estratégia já falhou e, por isso, a guerra está perdida.

Quando derrubaram Saddam Hussein, os americanos queriam democratizar o Médio Oriente, através de um efeito dominó de democracias, controlar o preço do petróleo, testar a modernização que tinham efectuado nas suas forças armadas na década anterior, ganhar a opinião pública árabe contra o terrorismo e dar um passo decisivo na sua meta de só ter aliados no Golfo Pérsico, o coração petrolífero do planeta.

A democratização do Médio Oriente está comprometida. Sempre que se falar em democracia num país árabe, a liderança no poder dirá que esta é igual a caos: "vejam o que aconteceu no Iraque".

O preço do petróleo entrou em parafuso, embora a Guerra do Iraque não seja o único factor nem talvez o mais importante.

A modernização das forças armadas americanas teve de ser desacelerada, pois é preciso pagar os elevados custos da guerra. De qualquer forma, neste ponto, os EUA têm um avanço de 20 anos.

A opinião pública árabe será provavelmente mais anti-americana do que era. Aqui, houve mesmo um desastre.

E o Golfo Pérsico ficou mais instável. Onde havia três forças, há duas: Arábia Saudita e Irão. O Iraque está fragmentado em três partes, cada uma das quais precisa de ajuda externa para sobreviver. Os curdos estão rodeados de inimigos e serão um factor de perturbação para a Turquia e Irão. Os árabes xiitas, no sul, precisam dos americanos para não serem dominados pelos iranianos (persas) e mesmo assim há quem discorde, como é o caso de Moqtada al-Sadr. Os árabes sunitas precisam de protecção contra todos os outros. 

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Pausa para negociação

por Luís Naves, em 26.03.08

Escrevi várias vezes neste blogue, ao longo do ano passado, que o combate final pela Casa Branca seria entre John McCain e Hillary Clinton. Esta previsão não podia levar em conta a espantosa campanha do Barack Obama. Tinha tanta confiança na vitória de Hillary entre os democratas que fui subestimando as hipóteses do adversário da antiga primeira dama. Outras pessoas, neste blogue, viram mais cedo a importância da nova figura (o caso do Pedro ou do Francisco). A inteligência, o carisma e a capacidade oratória são arrasadores. Eleger uma mulher parece ser difícil.

Enfim, a corrida está, agora, resumida a três nomes: McCain, Hillary e Obama Um deles será o próximo Presidente americano e isso implica mudanças. Guantánamo, a guerra no Iraque, as relações com a Europa e com a China, com a América Latina, tudo vai mudar, nomeadamente a economia. Aliás, será a economia a definir a eleição e os democratas terão vantagem, pois nos meses cruciais, Setembro e Outubro, o desemprego será mais alto. (Sim, não haja ilusões, vêm aí tempos difíceis).

Os democratas estão empatados. Sem Obama, Hillary não pode ser escolhida; o inverso também é verdadeiro. Este impasse é perigoso para ambos. Ganhar o partido vai exigir golpes baixos e ameaça transformar-se numa vitória de Pirro. Acho que no final, a decisão será pelo voto popular democrata, mas este pode não coincidir com o número de delegados. É um pesadelo.

A única saída, para os democratas, é algum tipo de acordo, e depressa. Hillary, neste momento em desvantagem, terá de aceitar ser vice de Obama. Acho que este cenário é bem possível, logo a seguir à votação na Pensilvânia. A luta final será entre Obama e McCain e o primeiro estará a um passo da Casa Branca.

 

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A saída de Blair

por Luís Naves, em 10.05.07
Tony Blair anunciou oficialmente a sua saída (que será a 27 de Junho) num discurso de grande qualidade, onde mostrou mais uma vez os seus enormes dotes de orador. Penso que Blair foi um dos melhores primeiros-ministros britânicos do pós-guerra e, certamente, um líder que ficará na história (onde muitos só conseguem acesso às tradicionais notas de rodapé). É ainda cedo para fazer um balanço, mas o Reino Unido é hoje um país mais próspero e influente, sem ter perdido o seu lugar na Europa. Blair também mostrou novos caminhos à esquerda e não é de todo líquido que Gordon Brown, o seu sucessor, não possa vencer as próximas legislativas. Há ainda outro ponto: após dez anos no poder, e apesar das controvérsias (sobretudo o erro do Iraque), o primeiro-ministro britânico deixa o seu país numa situação política sólida, sem divisões insustentáveis ou excessos ideológicos.

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Rever a História

por Luís Naves, em 06.03.07


Aprecio os textos de António Figueira, no excelente blogue 5dias, mas discordo inteiramente do que ele escreveu num post intitulado Feridas de Guerra II, sobretudo deste parágrafo:

"Os novos Estados Bálticos, como outros países da Europa central e de leste, é que estão em sentido contrário a esse movimento e querem fundar um outro consenso histórico europeu, assente antes num princípio anti-comunista ou pelo menos ”anti-totalitário”. Esses “novos europeus” fazem tábua rasa da cultura política do último meio século da história da Europa Ocidental; ignoram o carácter fundador do anti-fascismo na criação de muitos dos seus actuais regimes; e julgam que o status quo do pós-guerra pode ser simplesmente varrido da história europeia pelo recurso à artilharia ideológica da “Guerra Fria tardia” e ao revisionismo histórico dos anos 80, com Nolte e Furet à cabeça. Não há consenso possível com eles".

Partilho da indignação em relação à maneira como os russos são tratados nos países bálticos. Numa visita à Letónia, fiquei chocado com as discriminações que atingem os russófonos e os não-cidadãos de origem russa. Considero mesmo que estes países não deviam ter aderido à UE enquanto não resolvessem o problema das minorias étnicas (os russos na Letónia representam um terço da população, a maioria sem direito de voto).
Mas as conclusões de António Figueira em relação ao incidente que motivou o seu post e, sobretudo, as ilações que tira sobre a Europa Central e de Leste parecem-me incorrectas.
Acho que há uma atitude dos países da Europa Ocidental (neste caso, os bons democratas) que tentam continuamente explicar aos de leste (os maus democratas), e de forma bastante paternalista, o que é aceitável e inaceitável na gestão das suas sociedades. Neste caso, é invocado um pretenso “consenso” histórico, segundo o qual o que conta é quem lutou pelo “anti-fascismo” (os soviéticos lutaram; e os nacionalistas católicos polacos, não lutaram?)
Em resumo da tese, o antigo regime comunista era um “mal”, mas estava do lado “bom”, pois combateu o nazi-fascismo. Por isso, o novo consenso “anti-comunista” que estes países desejam deve ser recusado por todos nós, os bons democratas ocidentais.
Se eles argumentam que sofreram e não gostam de foices e martelos, estão a perturbar a História. Portanto, nada de ajustes de contas, pois a Europa dos bons democratas não aceita desvios ao seu consenso histórico. Lembrar as deportações para a Sibéria, por exemplo, (só porque as pessoas eram de etnia estónia), isso provavelmente será “artilharia ideológica da guerra fria tardia”. Enfim, o statu quo só serve se for o nosso, não o deles.
Estou talvez a ser injusto em relação ao texto de António Figueira e a caricaturar excessivamente o que ele quis dizer, por isso tento precisar a minha crítica: Nos países ex-comunistas, o “anti-comunismo” equivale a contestar o antigo regime. O paralelo com Portugal é possível: um português pode contestar o antigo regime fascista e o mesmo se aplica a um estónio em relação à ocupação soviética. Os soviéticos foram libertadores, mas o regime que impuseram era absolutamente opressivo. O mesmo raciocínio aplica-se a todos os países que ficaram sob domínio de Moscovo, que pagaram a factura de meio século de atraso e ditadura.
Acho que a revisão do passado na região não tem nada a ver com a perturbação dos consensos históricos europeus, mas apenas com o direito de cada povo de, livremente e sem tutelas, escrever e interpretar a sua própria História.

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A campanha aquece

por Luís Naves, em 01.03.07




O senador republicano John McCain, um dos mais influentes políticos norte-americanos, declarou ontem que anunciará em Abril a sua candidatura às presidenciais americanas de 2008.
A confirmação desta candidatura parece clarificar a corrida e tudo aponta para uma das mais disputadas eleições de sempre nos EUA, com o mais que provável duelo final entre Hillary Clinton e John McCain, entre Setembro e Novembro de 2008.
O lado republicano é aquele que tem maiores problemas neste momento. A guerra do Iraque transformou-se num tema muito difícil de gerir. Apesar de tudo, não há grande diferença entre as anteriores posições dos dois favoritos, o que se pode tornar numa pequena vantagem para o candidato republicano. Se existe alguém que conseguirá trazer as tropas de volta é este herói de guerra, um ex-militar que passou seis anos numa prisão vietnamita. É preciso também não esquecer que os Republicanos dominam a direita religiosa e que esta eleição se irá decidir em meia dúzia de Estados (Ohio, Flórida, os suspeitos do costume)
Mas ser escolhido pelo partido não será fácil. McCain enfrenta o desafio de Rudolph Giuliani e Mitt Romney (um anti-europeu). O primeiro tem um passado que desagrada à direita mais conservadora da América, além de falta de preparação em assuntos externos, e o segundo não possui fama nacional nem experiência de campanhas difíceis. Em princípio, se não aparecer entretanto um candidato mais perigoso, por exemplo, Newt Gingrich, McCain será o homem dos Republicanos. Veremos se isso se confirma já no Verão e Outono deste ano. Se as primárias correrem mal para o senador do Arizona, a decisão será adiada para Março de 2008, o que teria as vantagens e os perigos da maior exposição mediática.
No campo democrata, a luta pela nomeação do partido promete ser mais fácil. Para além de Hillary Clinton, que controla a máquina partidária, há dois jovens políticos com hipóteses de dar nas vistas, Barack Obama e John Edwards. Os outros estarão a preparar terreno para futuras eleições. Hillary tem contra si os muitos ódios acumulados na direita mais radical, mas não é por estes votos que ela luta. Obama parece sólido, mas demasiado à esquerda: nos Estados conservadores dificilmente obterá apoios democratas. Ou seja, a figura que emerge para o posto de vice-presidente de Hillary é Edwards, bom orador que garante muitos votos no sul dos Estados Unidos, zona que os democratas querem reconquistar.
Com esta disputa em aberto (pela primeira vez em quase um século não se candidata o vice-presidente anterior) o maior argumento será o do dinheiro e do uso inteligente das novas tecnologias, nomeadamente blogs e youtube. Uma gaffe num pequeno comício da parvónia terá implicações nacionais. A campanha de 2008 promete ser a mais cara de sempre (fala-se em mil milhões de dólares) e nenhum candidato com menos de 100 milhões de dólares terá qualquer hipótese de ser eleito. Nem vale a pena falar dos independentes e dos restantes partidos.
A grande democracia americana parece-se cada vez mais com uma oligarquia à maneira do período final da república romana e é curioso que os dois prováveis candidatos de 2008 sejam políticos cuja carreira se fez em grande parte na crítica ao actual sistema de financiamento das campanhas eleitorais.

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O Plano B

por Corta-fitas, em 13.01.07


Li e ouvi algumas análises sobre a nova estratégia da Casa Branca para o Iraque e, na maioria dos casos, surgia uma curiosa lenda: os Estados Unidos comportam-se de forma tão estúpida que nada daquilo faz sentido.
O pressuposto aparece em comentários tão díspares como o de Pulido Valente, no Público (sem link) ou nas reflexões de Daniel Oliveira, no Arrastão. Também já se ouviu na TV.
A meu ver, a teoria da estupidez americana impede uma boa análise dos factos e, acima de tudo, confunde erros políticos com acções descabeladas. Os EUA falharam o seu plano A para o Iraque e já estão a combater o plano B, que tiveram de improvisar. Ou seja, estamos perante o caso clássico de um império que tenta reparar uma situação aparentemente desesperada.
Em primeiro lugar, é preciso compreender o essencial. A estratégia americana visa desde o início criar um ambiente favorável aos interesses ocidentais na região do Golfo Pérsico. Que interesses são esses? O suave fluxo de matérias-primas energéticas. A Civilização Ocidental depende inteiramente do petróleo do Golfo: A Arábia Saudita produz nove milhões de barris diários, o Irão mais seis milhões e o Iraque tem potencial para cinco ou seis, embora produza menos de três milhões. Há mais países na região a produzir gás natural e petróleo. Enfim, a zona é responsável por 25% do abastecimento mundial de petróleo e, dentro de dez anos, algo próximo de um terço.
Claro que, no plano retórico, o Iraque devia tornar-se uma radiosa democracia. Mas esta era uma espécie de cereja em cima do bolo.
Saddam Hussein começou a sua carreira como nacionalista árabe, foi depois um combatente da Guerra Fria. Em ambos os casos teve enorme sucesso, no entanto nunca se adaptou à nova ordem mundial, nos anos 90. Em vez disso, tentou tornar-se um líder hegemónico na região. Talvez devido a excesso de confiança ou por temerem genuinamente as ambições do ditador iraquiano, os EUA decidiram abandonar a sua política tradicional para o Golfo, que se baseava na manutenção de um sistema de equilíbrio de poder entre três potências, com pelo menos duas pró-ocidentais. Arábia Saudita, Iraque e Irão deveriam manter-se mais ou menos idênticas, sem nenhuma delas a conseguir ameaçar as duas outras, e sobretudo sem coligações de duas hostis à América.
O sistema funcionou até ser perturbado por um Saddam que acreditava poder ser o dono da região.
Como os três últimos anos comprovaram, ao removerem o ditador iraquiano, os EUA não conseguiram manter o sistema de três potências. Este foi o erro político.
É à luz desta lógica que podemos interpretar os actuais desenvolvimentos. O Iraque vai desaparecer e a estratégia americana é já a de conseguir que essa fragmentação ocorra com o mínimo de derramamento de sangue e, sobretudo, que ela não perturbe o normal fluxo de petróleo do Golfo.
A entidade curda funciona já de forma praticamente independente. Terá petróleo, mas também o problema do isolamento geográfico. Penso que irá depender de uma boa relação com a Turquia e com os Estados Unidos.
A entidade xiita, a sul, está em formação. Precisará dos americanos para não cair totalmente nos braços do Irão. Tem petróleo. Será uma teocracia governada pelos Ayatollahs mais respeitados.
A entidade sunita está ainda indefinida. Poderá nascer radicalizada ou regressar a uma ditadura do partido Baas. Tem pouco petróleo e precisa de uma boa ligação à Síria, pois não me parece que lhe sirva a protecção da Arábia Saudita.
O Plano B, a fragmentação do Iraque, parece assim ser pouco favorável aos interesses americanos e ocidentais, mas o problema é que não existe outra possibilidade.
Será difícil que a partilha ocorra sem grande derramamento de sangue. Mas, se a divisão for rápida e sangrenta, como querem os democratas dos EUA, os soldados estarão de volta a casa dentro de um ano. Isso, claro, também dependerá do Irão e da Arábia Saudita.

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Previsões 2007 (As figuras)

por Corta-fitas, em 30.12.06

A dupla Nicolas Sarkozy e Angela Merkel vai dominar o ano político.
Sarkozy deverá vencer as eleições presidenciais em França, na segunda volta, em Maio. Penso que o candidato de centro-direita, em relação à sua rival socialista (Ségolène Royal) tem duas vantagens e uma desvantagem: Por um lado, Sarkozy é um político mais experiente do que Ségolène e parece ter soluções sólidas para os três problemas franceses mais óbvios (segurança, economia e futuro europeu); a desvantagem tem a ver com o seu anti-elitismo.
Porque esta eleição será renhida e até atípica, há dois excelentes candidatos de centro, o que vai minar a influência das franjas. O candidato do centro-direita constitui um problema grave para a extrema-direita; e a de centro-esquerda será uma catástrofe para os grupos radicais à sua esquerda. É por isso que só a segunda volta conta.
Curiosamente, Ségolène foi discípula de François Mitterrand e teve a melhor formação possível (é de esquerda, mas énarque, portanto, das elites, o que em França costuma ser excelente mistura). Mas, ao contrário de Mitterrand, falta-lhe uma carreira política para poder vencer estas eleições.
Sarkozy é o oposto dela. Um pragmático, político tarimbeiro, que por vezes parece arriscar tudo numa única jogada. Tem a seu favor uma importante carreira prática, tendo pegado com êxito nos piores problemas do país (finanças descontroladas e insegurança). Contra si, terá o excesso de ambição (é demasiado visível) e o que nos media surge como “populismo”, mas que consiste, de facto, em não pertencer às elites políticas locais.
Há outros aspectos importantes: a França necessita de reformas e já sabe disso; as carreiras políticas francesas são longas, pelo que este será apenas o primeiro round de futuros combates entre Ségolène e Sarkozy. A dupla vai dominar a próxima década.
O que nos leva à Europa (a próxima década será europeia). Sarkozy parece ter uma resposta para a crise na UE, enquanto Ségolène tem fugido do tema, porque ele é demasiado embaraçoso para os socialistas.
Poderá ocorrer algo de inesperado, como um deslize nos debates televisivos (Ségolène será talvez mais hábil), mas penso que estes serão factores decisivos numa vitória final para Sarkozy, sempre por pequena margem.
Entretanto, na Alemanha, estarão a terminar os dois anos da grande coligação governamental. Após a mudança em França (e isto vale para qualquer resultado), Angela Merkel terá esgotado as virtudes da união entre CDU e SPD. Ou seja, haverá forte tentação para eleições antecipadas. Merkel deverá vencê-las com facilidade e Outubro será boa ocasião para o conseguir.
França e Alemanha estarão então em condições de impor uma saída para o impasse constitucional europeu. Talvez já em Dezembro de 2007, talvez só em Junho do ano seguinte.

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Previsões 2007 (Médio Oriente)

por Corta-fitas, em 23.12.06


E se o Hamas volta a ganhar na Palestina? Irá Israel mudar de atitude em relação ao governo radical?
Enfim, esta é uma entre muitas incógnitas que vão afligir a região do Médio Oriente em 2007.
A zona de fractura mais volátil do mundo, devido à cobiça das imensas riquezas no subsolo (três quartos das reservas petrolíferas mundiais), a região do Médio Oriente terá os seus olhos postos no que se passa na Palestina e no Iraque. E os fundamentalistas islâmicos podem ali reunir novos argumentos para alimentar a sua guerra santa.
O projecto dos neo-conservadores americanos de se transformar o Iraque num farol democrático, que seria depois imitado por todos os países da área, fracassou de forma clamorosa. O efeito real foi exactamente o inverso do desejado. Perante o descalabro do novo poder iraquiano, incapaz de se sustentar sem apoio externo, os regimes autoritários da região vão travar as suas tímidas experiências democráticas. Até porque se libertarem o voto, ganham os fundamentalistas.
Mas a situação mais perigosa parece ser a do conflito entre os dois principais ramos do Islão, o Sunita e o Xiita.
Em guerra aberta no Iraque, as duas comunidades terão tendência para chocar entre si, no âmbito da rivalidade entre Arábia Saudita e Irão.
Teerão tem ambições nucleares e um regime algo paranóico. Mas não me parece que os EUA estejam em condições de ameaçar os seus planos. Israel tem a vontade mas não possui os meios. Por isso, penso que o Irão conseguirá desenvolver bombas atómicas, talvez em 2008. Trata-se de uma perigosíssima proliferação, a marcar o início de uma guerra fria na região.
E que dizer da instabilidade crescente da monarquia saudita? As regras da sucessão do monarca aplicam-se a príncipes com mais de 70 anos. Em breve, a sucessão caberá à geração seguinte (uns 300 potenciais elegíveis), com divisões entre pelo menos duas facções, uma mais conservadora e hostil a Teerão, outra mais próxima do Ocidente. Conseguirá a família real manter a sua unidade?
A NATO também deve encontrar maiores dificuldades no Afeganistão. E é uma incógnita assustadora saber até que ponto existe uma possibilidade da Aliança Atlântica perder aquela guerra. Seria a primeira e a última travada fora da Europa pela organização.
Enfim, se é possível fazer previsões para o Médio Oriente em 2007, diria que todos estes conflitos vão agravar-se, com impacto nos preços do petróleo.

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Leiam este pertinente post do Pedro, em baixo, sobre o “líder cubano” e o “ex-ditador chileno”. Como nestes dias escrevi sobre uma das personagens, fiquei a pensar seriamente na questão ali levantada. Nas prosas que recentemente escrevi sobre Fidel Castro usei ambas as expressões, “líder” e “ditador”, mas a primeira umas quatro vezes e a segunda, confesso, uma só vez e escondida a maio do texto. Ora, se tivesse escrito sobre Pinochet, não teria hesitado um instante na utilização da expressão “ex-ditador”. Presumo que haveria quatro ou cinco formas “ex-ditador” e apenas uma vez o “antigo líder”.
Acho que o meu critério nunca foi ideológico. Não tenho dúvidas de que estamos perante dois ferozes ditadores, até com uma pequena vantagem para Pinochet: em Cuba, o regime ditatorial nem sequer consegue fazer a transição para a democracia (teme-se o pior) e a ditadura de Pinochet, pelo menos, permitiu que surgisse um regime democrático no país. Dirão os leitores que há ainda restrições, nomeadamente o poder dos militares e a quase impunidade do próprio Pinochet, mas penso não haver dúvidas sobre a vitalidade e capacidade de sobrevivência da democracia chilena. Castro, por outro lado, tem um ponto vantajoso em relação a Pinochet: ele derrubou uma ditadura, enquanto o general chileno eliminou um regime democrático.
Em relação às barbaridades, penso que não faz sentido fazer contabilidade, dizer aquele matou mais que o outro, pois o balanço de crimes não aumenta ou reduz a maldade e a culpa.
Ao tentar responder à questão do duplo critério encontrei uma provável explicação: o efeito da lenda.
Este parece-me ser um fenómeno pouco integrado pelos jornalistas. Lembram-se do filme de John Ford, “O Homem que Matou Liberty Valance”? Na cena final, depois do senador ter contado aos dois jornalistas a história verídica sobre o tiroteio que o fez famoso, o editor diz que não pode contar a verdade: "when the legend becomes fact, print the legend” (quando a lenda se transforma em facto, publique-se a lenda), diz ele.
Inconscientemente, fazemos isto. Na minha opinião, esta é a verdadeira origem do duplo critério sobre as ditaduras chilena e cubana. A primeira foi sempre definida como ditadura; a segunda está rodeada de uma lenda de revolução.

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Notícias do império

por Corta-fitas, em 29.11.06

A NATO está cada vez menos atlântica e já não consegue esconder os seus graves problemas militares no Afeganistão. Não sei se já repararam que o Presidente americano que mais bateu no peito, a afirmar que não precisava de aliados e que podia fazer tudo sozinho, conseguiu convencer os europeus (que desdenhou) a umas aventuras em terras bárbaras: há europeus no Afeganistão, há e houve no Iraque, no Kosovo e no Líbano. Estou-me a esquecer de alguma guerra? Os europeus têm acompanhado lealmente (outros diriam servilmente) todas as paradas, apenas para prosseguir o discurso arrogante de alguns que não entendem a natureza desta relação e se prolongar o mito de que a Europa não tem futuro, não passando de um caso perdido.

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A questão turca

por Corta-fitas, em 29.11.06
Concordo com esta opinião de Miguel Vale de Almeida: a posição do Vaticano em relação à Turquia é a mais correcta e terá certamente um poderoso impacto na opinião pública europeia.
A visita do Papa à Turquia está a motivar numerosos comentários na Imprensa, TV e blogosfera e li textos onde se dá importância (a meu ver excessiva) às actuais dificuldades da negociação entre europeus e turcos.
Desde o momento em que se decidiu avançar com as negociações, no ano passado, que estas negociações estão a decorrer. Os progressos são lentos e há vicissitudes. Mas não se pode falar de recuos, pois o processo de negociação prossegue. A ameaça de suspensão por causa da questão de Chipre faz parte desse processo e já aqui escrevi sobre o assunto sublinhando que os europeus também estão a quebrar uma promessa. Mas a decisão de suspender o processo ainda não foi tomada, apesar da ameaça. E, se isso acontecer, as negociações ainda podem recomeçar, quando a questão de Chipre desaparecer do horizonte.
Foi neste contexto que surgiu a nova opinião do Vaticano, favorável à adesão da Turquia, e que inverte uma posição com dois anos. O Vaticano não é membro formal da UE (o território faz parte da UE e tem mesmo moedas de euro, embora sem poderes ou participação nas decisões).
Mas a visão do Papa Bento XVI vai facilitar o processo de adesão da Turquia, através da influência. Por exemplo, Áustria e França, dois dos países com opinião pública menos favorável à entrada dos turcos, são ambos católicos.
A prazo, a posição do Vaticano ajudará a mudar a percepção que os europeus têm da Turquia. A adesão desta nunca acontecerá antes de 2015, portanto, haverá muito tempo para mudar a sociedade turca e para acabar com a crise interna da UE.

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A Ibéria e o povo sem qualidades

por Corta-fitas, em 21.11.06
Estamos à beira de mais uma cimeira luso-espanhola e parece boa ocasião para discutir o tema do iberismo. Ultimamente, surgiram debates, em blogues e jornais, sobre a eventual sensatez de Portugal se aproximar ainda mais da Espanha. Houve até uma sondagem significativa. E, pelo que li em artigos no El Pais, a ideia também agrada a certos círculos espanhóis.
É evidente que, para uma empresa, o acesso ao mercado ibérico só pode ser boa ideia. Comércio e aproximação cultural são vantajosos, mas a discussão costuma descambar numa outra, ligada ao post aqui em baixo, em que critiquei uma opinião de Maria Filomena Mónica (MFM) sobre os camponeses portugueses. As afirmações de MFM foram discutidas aqui e em vários blogues, mas a verdadeira discussão transformou-se depressa no seguinte tema: “O povo português tem qualidades?”
Para alguns leitores, pelo menos na nossa caixa de comentários, a resposta é que o povo português tem sobretudo defeitos. Muitas pessoas parecem ter aderido, pelo menos parcialmente, à tese de que o povo português é inculto, desconfiado, tacanho, subdesenvolvido. Este tipo de discurso é frequente, muito mais do que parece à primeira vista. Os portugueses são todos uma espécie de taxista-do-Aeroporto-de-Lisboa-a-levar-um-passageiro-até-ao-Marquês!
Em outro país, isto seria um verdadeiro absurdo, fácil de desmontar, mas a ideia está tão embutida nos espíritos que se torna difícil argumentar sem parecer ultra-nacionalista. A tese do povo sem qualidades é facilmente desmentida pela história, a forma como os portugueses emigraram, a riqueza da cultura popular, a tolerância a estrangeiros, a facilidade de adaptação a dificuldades.
Admito que o país ainda não tenha superado o trauma de ficar sem império, que historicamente tenha sido mais periférico em relação ao centro da cultura europeia, que tenha perdido vitalidade devido à emigração em massa. Mas daí a povo sem qualidades vai um abismo.
As noções da nossa inferioridade, ligadas a exemplos pouco sólidos e anedóticos, criam visões depressivas e, quando o país cai na depressão de uma crise económica, tudo nos parece impossível de sustentar. E o iberismo surge como a solução fácil. Acho que, pelo contrário, a afirmação da nossa identidade, a independência num quadro europeu, com forte ligação económica à vizinhança, são o óbvio destino português.
Quanto à Espanha (lá iremos noutro post) o iberismo trará desvantagens muito superiores às vantagens.

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Excesso de entusiasmo?

por Corta-fitas, em 08.11.06
Não é tema em que me sinta à vontade, mas as interpretações que tenho ouvido e lido sobre o resultado das eleições americanas são talvez demasiado optimistas em relação a uma mudança que não me parece tão evidente. Parte deste resultado muito positivo para os democratas deve-se a questões locais associadas a um presidente impopular. Os democratas conseguiram o que queriam: têm alguma iniciativa legislativa, controlam o dinheiro e afastaram o odiado Donald Rumsfeld do Pentágono. Mas terão agora de mostrar a sua estratégia para o Iraque. Alguém a conhece? Se os EUA conseguirem retirar do terreno sem provocarem um banho de sangue, a vitória de ontem poderá repetir-se nas presidenciais. Mas isso parece difícil e, em caso de guerra civil total no Iraque, as culpas ainda podem aterrar no partido democrata. Há outro factor pouco mencionado: os Estados Unidos caminham para uma crise económica e o novo poder pode receber parte da culpa, sobretudo se esta for súbita e grave.
Acho que o resultado implica que a revolução neo-conservadora acabou e a presidência de Bush-Cheney já não terá grande influência, mas as eleições de ontem foram sobretudo a primeira batalha pela próxima presidência e o entusiasmo da esquerda europeia é talvez prematuro.
Esta é a minha leitura e devo esclarecer que, se porventura votasse nos Estados Unidos, votaria no Partido Democrata, e também acho que a votação de ontem é positiva para a Europa e, portanto, para Portugal, e por duas razões que não estão a ser referidas: o próximo presidente (democrata ou republicano) será menos radical que Bush e o novo poder talvez respeite os seus aliados mais do que fez o demitido secretário Rumsfeld, o da velha América.

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Corta-fitas

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