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Afinal quem são os bárbaros?

por João Távora, em 12.08.25

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Assim como foi um erro crasso a forma como o governo da geringonça lidou com a questão da imigração e o tabu que se alimentou à volta da invasão de estrangeiros, parece-me um erro de igual calibre alimentar ou pactuar com a retórica profundamente racista que circula nas redes sociais como aquela com que ilustro este post, com variáveis estéticas a roçar o obsceno. Além de politicamente perigoso, este discurso incendiário é moralmente condenável, principalmente se originário de quem se arrogue defensor da civilização cristã. Este discurso não é civilizado, é bárbaro. A salvaguarda dos valores humanistas requere que estes sejam mesmo postos em prática, também no discurso. A evidente a necessidade de controlar a imigração (e promover a natalidade de cristãos – chamemos-lhes assim) nada ganha com este discurso odioso.

Como já referi aqui há atrasado, dado o actual estado de coisas estou naturalmente muito pessimista. Em face à complexidade das questões em equação, tenho pouca fé na alteração da realidade pela via legislativa. Mas acho bem que se reponham leis de imigração decentes, que salvaguardem a capacidade de integração dos forasteiros, segundo as nossas regras e costumes. Se a legislação tiver força para “sinalizar” critérios exigentes de entrada, que se “sinalize”.

Tudo isto porque o mais importante é preservarem-se os valores cristãos que construíram este lugar de humanismo, liberdade e abundância. Cuidado não se atire pela janela o bebé com a água do banho. Para já os sinais da rua mostram claramente como “os nativos” são afinal tão susceptíveis a virarem bárbaros - a esquecerem-se dos ensinamentos de Jesus Cristo.

A permanente ameaça das trevas

por João Távora, em 18.07.25

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Foi com bastante inquietação que acompanhei as notícias da violência em Torres-Pacheco, perto de Múrcia. Reconheço o potencial de contágio que possuem estes fenómenos, em comunidades amedrontadas com as gentes estranhas que em poucos anos invadiram as suas praças e ruas. É difícil nestas circunstâncias assegurar a racionalidade e a compreensão do comum dos mortais. A nossa Europa, estéril, envelhecida e descristianizada está cada vez mais assustada, e a irracionalidade ameaça dominar as hostes.

Este panorama há muito que era previsível. É consequência dos riscos ingenuamente (ou será que não?) assumidos com o multiculturalismo, somados à profunda crise da natalidade e ao desvanecimento da identidade colectiva, assuntos os quais aqui abordei por várias vezes. Estamos mesmo metidos num grande sarilho, com a nossa economia profundamente dependente de imigrantes e uma população em envelhecimento acelerado. Aqui chegados, não me arrisco a subscrever qualquer solução milagrosa, que peca sempre por ingénua ou mal-intencionada. Será certamente pouco, mas parece-me bem, e já peca por atrasada, a sinalização para o exterior de que isto por cá “não é da Joana”, que as portas criminosamente escancaradas se estão a fechar, para se abrir um guichet para avaliação dos critérios de entrada de imigrantes. Não nos esqueçamos que dependemos deles nos nossos lares de idosos, nos hospitais, na hotelaria e turismo, na construção civil (sim, o sector que constrói casas) etc, etc,.

O que me parece mesmo inútil, ou até mesmo imprudente, é um discurso que alimente o medo e acicate as pessoas, umas contra as outras. A racionalidade e a moderação ao longo da história poderia ter evitado muitas tragédias atrozes. O ser humano atemorizado e devidamente instigado por oportunistas, em multidão é capaz das maiores barbaridades. A história mostra-nos isso à saciedade. O sentimentalismo, a revolta, a zanga, nunca foram bons conselheiros, sempre foram instrumentos de agendas revolucionárias, sempre desastrosas, como bem sabemos.

Estou pessimista. Não vislumbro saídas para o imbróglio desta Europa em fim de ciclo. Vejo apenas, à esquerda e à direita, insaciáveis matilhas necrófilas a espumar de raiva. Adorava estar enganado…

Um Portugal sem portugueses?

por João Távora, em 05.06.24

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É bastante divertido, até por vezes cómico, visitar as tentativas dos nossos antepassados adivinharem o porvir. Inevitavelmente influenciados pelo presente, as antecipações surgem demasiadas vezes deturpadas pelo alarido emergente da espuma dos dias.

Vem-me esta questão à consciência, à boleia da discussão que por estes dias nos sobressalta através das notícias, sobre os pretéritos erros nas políticas de imigração, e perspetivas de soluções que mitiguem a desordem causada e o sentimento de insegurança com as nossas fronteiras deixadas ao abandono por demasiado tempo. Como referia há algumas semanas Rui Ramos numa sua crónica, “não há nada que a extrema-esquerda mais receie do que ver os imigrantes integrarem-se nas sociedades ocidentais, como se integrou a velha “classe operária”. Deseja vê-los confinados em guetos, inseguros e desconfiados, e assim disponíveis para a guerra santa contra o capitalismo e a democracia liberal.”

É por isso que importa o poder político gerir com todo o cuidado este dossier, que vem afligindo as populações por essa Europa, amedrontadas com as radicais alterações às “paisagens sociológicas e culturais” à porta das suas casas. Talvez egoistamente não tenho uma visão alarmista do panorama com que nos deparamos pelas nossas bandas. Julgo que é ainda é possível por esta altura restaurar alguma normalidade, repor sinais de controlo sobre os fluxos de imigração, e principalmente com a implementação de políticas de integração dos estrangeiros sempre a chegarem, a que nos teremos de habituar ao longo das próximas décadas. Essa inevitabilidade, não tem tanto a ver com a tão propalada sustentabilidade da Segurança Social, mas com a crise demográfica de que já se vem sentindo os resultados e se irá agravar nas próximas décadas. Não é ciência oculta antever o que nos reserva o futuro do nosso país: “Em 2050, a população portuguesa irá contrair-se 7% face a 2022. Em 2050, a população portuguesa entre os 20 e 64 anos irá contrair-se 21% face a 2022. Em 2050, a dependência da população com mais de 65 anos da população entre os 20 e os 64 anos passará de 40% em 2022 para 70%.” Se hoje temos menos 44% de alunos inscritos no primeiro ciclo do que há 30 anos, como será daqui a 50 anos?

Espero estar muito enganado, mas em face à realidade da actual crise demográfica, que não se antevê resolúvel com subsidiarização de nascimentos, daqui a cinquenta anos teremos um Portugal sem portugueses. E um Portugal sem portugueses, além de me causar alguma amargura (problema meu, evidentemente), será por certo muito diferente daquilo que aqui tivemos o privilégio de conhecer e experimentar nas nossas vidas. Estarão dispostas as populações vindouras a manter o legado do nosso modo de vida que há tantos séculos se vem construindo e afirmando? O mundo à nossa volta mostra-nos à saciedade que o facto de se possuir legislação ou sistemas políticos sofisticados não garante um modo de vida equivalente, uma sociedade tolerante e próspera, de pessoas responsáveis e livres para circular na rua em qualquer sítio e a qualquer hora sem receios. A questão não se resolve com o sistema, é com a autorregulação, pela cultura imperante nas pessoas, estabilizada nas famílias e organizações que lhe concedem eficácia. Preocupações de um monárquico, sempre tendo em vista o longo prazo.

Espero estar enganado, como o estiveram tantos quantos antes de nós, previram erroneamente o futuro com base em fenómenos circunstânciais, tecnologias datadas, receios ou expectativas ditadas por modas ou acontecimentos passageiros. Mas olhando pela perspetiva optimista, é com agrado que por estes dias descubro que já são bastantes as paróquias que são dirigidas por sacerdotes católicos oriundos das mais exóticas paragens para onde os portugueses emigraram deixando as suas sementes cristãs e também a língua de Camões - com que nos vamos entendendo.

Por caridade

por João Távora, em 19.08.19

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Se como cristão não tenho dúvidas que o primeiro dever de uma pessoa decente é o socorro de imigrantes em apuros no mar, com base nesses mesmos princípios parece-me que não é bom que do lado de lá do Mediterrâneo transpareça a ideia de que o mar é uma fronteira aberta e uma via segura para o eldorado europeu. É que, se assim for, não só corremos o risco de nos tornarmos cúmplices das sinistras redes de tráfego humano, como seremos responsáveis para que mais e mais vidas inocentes de homens, mulheres e crianças se percam a meio caminho, afogadas em barcaças putrefactas, ludibriadas por cânticos se sereia homicidas. Definitivamente este é um problema complexo, um drama difícil de resolver, e para o qual se exige um debate racional e desapaixonado, desligado de disputas ideológicas. Por caridade.

Em dias de tempestade verbal como esta, se me sobra algum respeito (ainda assim muito) reservo-o a brancos que falam em nome próprio, em defesa da sua identidade branca, como Maria de Fátima Bonifácio. Não me sinto obrigado a respeitar brancos que usurpam sentimentos, identidades, representatividades de terceiros. Não por uma birra qualquer, mas porque usurpar identidades alheias é profundamente imoral. A representatividade social existe para ser tomada a sério. Os homens não representam as mulheres; os idosos não representam os jovens; os ricos não representam os pobres; logo, os brancos não representam negros, ciganos ou quaisquer outros. (...)

(...) Há outro detalhe da loucura dos tempos. Ao longo de quatro séculos, negros das mais variadas origens, estatutos (as comunidades ancestrais africanas organizam-se por linhagens, isto é, desde a origem que marcam diferenças sociais), línguas, crenças, hábitos, tradições em África eram, depois, amalgamados nos países de destino da escravatura como se fossem todos iguais. Bastava serem negros para se reconverterem numa massa coletiva indistinta homogénea, para desaparecerem enquanto indivíduos e, com isso, dissolvia-se a singularidade e subjetividade que a condição humana acarreta. Por ironia, esse passado está hoje bem vivo pela ação do igualitarismo de esquerda.

(...) Mas é importante clarificar ainda outra questão. O que marca as sociedades ocidentais é o primado do indivíduo sobre o coletivo, sendo o inverso na tradição islâmica ou na tradição soviética. Isso para sublinhar que, no mundo ocidental, nunca serão os negros ou os ciganos enquanto coletivos a «subir na vida», mas todos os indivíduos de todas as pertenças raciais, e cada um por si. Negros, brancos, mestiços, pobres, remediados e todos os demais. É por serem assim que as sociedades ocidentais articulam, melhor do que muitas outras, mobilidade social com coesão social.

Por isso, é do caminho cultural da descoberta do indivíduo enquanto tal de que mais necessitam os segmentos que mais recentemente se vão integrando na tradição ocidental, as minorias. (...)

Gabriel Mithá Ribeiro a ler na integra aqui 

Nós e os outros - racionalidade precisa-se!

por João Távora, em 08.07.19

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Anda praí um forrobodó que extravasa as redes sociais por causa dum artigo polémico da Maria de Fátima Bonifácio, de tal forma que o jornal que o publicou já veio meter os pés pelas mãos manifestando arrependimento e pedidos de desculpa à parte dos leitores que se amofinou com ele. O  Público fez bem publicá-lo: a censura ou a proibição é sempre um erro grave, para mais num debate que me parece tão difícil quanto importante. Ou seja, como poderemos em Portugal garantir a preservação dos nossos valores civilizacionais e ao mesmo tempo promover uma abertura a culturas em que a maioria dos seus elementos neles não se revêem? Em minha defesa, e antes que me comecem a apedrejar pelos motivos errados, deixem-me que vos diga que ao contrário da Maria de Fátima Bonifácio, eu não concordo com as quotas para as mulheres e acho que o maior problema de Portugal são os portugueses - basta conhecer a nossa História ou constatar a maioria de esquerda que por passividade nossa nos pastoreia há pelo menos duzentos anos - somos demasiado atreitos ao Síndrome de Estocolmo. Além disso, parece-me que temos muita sorte pelo facto de a maioria dos imigrantes que se por cá vêm instalando provirem das nossas antigas colónias, e assim sendo, maioritariamente de origem cultural cristã. E estou convencido que por essa razão, mais tarde ou mais cedo, não terão dificuldade em reconhecer os direitos e deveres que se lhes assistem como Seres Humanos. Já quanto à Revolução Francesa imagino que o assunto não os inspire grandemente, e devêmo-nos congratular por isso. De resto, constatar que há ciganos e outras comunidades que evidenciam dificuldades de integração é tão legítimo quanto admitir que há polícias racistas ou lisboetas racistas. Admito que sejam por enquanto casos pontuais que não devem ser exacerbados mas para os quais devemos olhar com realismo, por forma sabermos que políticas se empreender para mitigar a fractura e promover uma mais salutar assimilação. Porque me parece inevitável que as próximas gerações tenham de acolher e aprender a conviver com um cada vez maior número de imigrantes à procura daqueles trabalhos que por cá mais ninguém quer e do conforto que só o nosso modo de vida, com as nossas regras, proporciona. Não irá ser fácil, mas o pior que podemos fazer é alimentar tabus e evitar polémicas, por mais incómodas que nos pareçam. Há que olhar para os nossos vizinhos europeus e tentar aprender com os seus erros.

 

Ilustração: acampamento de ciganos nos jardins de Moulinsart, do álbum do Tintim "As Jóias de Castafiore", leitura juvenil que desconfio terá escapado à historiadora Maria de Fátima Bonifácio


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