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Quando passam exactamente 100 anos sobre a macabra noite sangrenta, publicamos aqui o primeiro de  três interessantes textos assinado pela misteriosa e incógnita Joana no célebre blog Semiramis

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 19 de Outubro de 1921
Parte 1

O 19 de Outubro de 1921 foi o fim da 1ª República. Formalmente ela continuou até 28 de Maio de 1926. Pelo meio, alguns episódios grotescos de um regime em degenerescência: as governações de António Maria da Silva, o carbonário tornado o chefe todo poderoso do PRP e dos respectivos caciques, directas ou por interpostos testas de ferro; a eleição de Teixeira Gomes para a Presidência da República, uma manobra de Afonso Costa para tentar regressar ao poder; a renúncia de Teixeira Gomes quando percebeu que nem conseguia o regresso de Afonso Costa, nem passaria de um títere nas mão do odiado chefe do PRP: renunciou e abandonou o país no primeiro barco que zarpou da barra de Lisboa com destino ao estrangeiro.

Entre o assassinato de Sidónio Pais e os massacres de 19 de Outubro de 1921, Portugal, teoricamente um regime parlamentar, viveu sob uma ditadura tutelada pelos arruaceiros e rufias dos cafés e tabernas de Lisboa e pela Guarda Nacional Republicana, uma Guarda Pretoriana do regime, bem municiada de artilharia e armamento pesado, concentrada na zona de Lisboa e cujos efectivos passaram de 4575 homens em 1919 para 14 341 em 1921, chefiados por oficiais «de confiança», com vencimentos superiores aos do exército. A queda do governo de Liberato Pinto, o principal cacique e mentor da GNR, em Fevereiro de 1921, colocou as instituições democráticas na mira dos arruaceiros e pretorianos do regime a que se juntaram sindicalistas, anarquistas, efectivos do corpo de marinheiros, etc.. O governo de António Granjo, formado a 30 de Agosto, era o alvo.

O nó górdio foi o caso Liberato Pinto, entretanto julgado e condenado em Conselho de Guerra por causa das suas actividades conspirativas. Juntamente com o Mundo, a Imprensa da Manhã, jornal sob a tutela de Liberato Pinto, atacavam diariamente o governo, tentando provar, através de documentos falsos, que o Governo projectava o cerco de Lisboa por forças do Exército, para desarmar a Guarda Nacional Republicana. No Diário de Lisboa apareceram, entretanto, algumas notas relativas ao futuro movimento. Em 18 de Agosto, um informador anónimo dizia da futura revolta: «Mot d’ordre: a revolução é a última. Depois, liquidar-se-ão várias pessoas».

O coronel Manuel Maria Coelho era o chefe da conjura. Acompanhavam-no, na Junta, Camilo de Oliveira e Cortês dos Santos, oficiais da G. N. R., e o capitão-de-fragata Procópio de Freitas. O republicanismo histórico do primeiro aliava-se às forças armadas, que seriam o pilar da revolução. Depois de uma primeira tentativa falhada, em que alguns dos seus chefes foram presos e libertos logo a seguir, o movimento de 19 de Outubro de 1921 desenrolou-se num dia apenas, entre a manhã e a noite. Três tiros de canhão disparados da Rotunda pela artilharia pesada da GNR tiveram a sua resposta no Vasco da Gama. Passavam à acção as duas grandes forças da revolta. A Guarda concentrou os seus elementos na Rotunda; o Arsenal foi ocupado pelos marinheiros sublevados, que não encontraram qualquer resistência; núcleos de civis armados percorreram a cidade em serviço de vigilância e propaganda. Os edifícios públicos, os centros de comunicações, os postos de comando oficiais caíram rapidamente em poder dos sublevados. Às 9, uma multidão de soldados, marinheiros e civis subiu a Avenida para saudar a Junta vitoriosa. Instalado num anexo do hospital militar de Campolide, o seu chefe, o coronel Manuel Maria Coelho, presidia àquela vitória sem luta.Em face da incapacidade de resistir, às dez da manhã, António Granjo escreveu ao Presidente da República: «Nestes termos, o governo encontra-se sem meios de resistência e defesa em Lisboa. Deponho, por isso, nas mãos de V. Ex.a a sorte do Governo...» António José de Almeida respondeu-lhe, aceitando a demissão: «Julgo cumprir honradamente o meu dever de português e de republicano, declarando a V. Ex.a que, desde este momento, considero finda a missão do seu governo...» Recebida a resposta, António Granjo retirou-se para sua casa. Eram duas da tarde.O PR recusou-se a ceder aos sublevados. Afiançou que preferiria demitir-se a indigitar um governo imposto pelas armas. Às onze da noite, ainda sem haver solução institucional, Agatão Lança avisou António José de Almeida que algo de grave se estava a passar. Perante tal, conforme descreveu depois o PR, «Corri ao telefone e investi o cidadão Manuel Maria Coelho na Presidência do Ministério, concedendo-lhe os poderes mais amplos e discricionários para que, sob a minha inteira responsabilidade, a ordem fosse, a todo o transe, mantida». Passando a palavra a Raul Brandão (Vale de Josafat, págs. 106-107), «Depois veio a noite infame. Veio depois a noite e eu tenho a impressão nítida de que a mesma figura de ódio, o mesmo fantasma para o qual todos concorremos, passou nas ruas e apagou todos os candeeiros. Os seres medíocres desapareceram na treva, os bonifrates desapareceram, só ficaram bonecos monstruosos, com aspectos imprevistos de loucura e sonho...».Sentindo as ameaças que se abatiam sobre ele, António Granjo buscou refúgio na casa de Cunha Leal. Cunha Leal tinha simpatias entre os revoltosos (tinha aliás sido sondado para ser um dos chefes do movimento, mas recusara) e Granjo considerou-se a salvo. Todavia, a denúncia de uma porteira guiou os seus perseguidores que tentaram entrar na casa de Cunha Leal para deter António Granjo. Cunha Leal impediu-os, mas a partir desse momento ficaram sem possibilidades de fuga porque, pouco a pouco, o cerco apertara-se e grupos armados vigiavam a casa. Apelos telefónicos junto de figuras próximas dos chefes da sublevação, que pudessem dar-lhes auxílio, não surtiram efeito.

Perto das nove da noite compareceu um oficial da marinha, conhecido de ambos, que afirmou que levaria Granjo para bordo do Vasco da Gama, um lugar seguro. Cunha Leal vacilou. Granjo mostrou-se disposto a partir. Cunha Leal acompanhou-o, exigindo ao oficial da marinha que desse a palavra de honra de que não seriam separados. Meteram-se na camioneta que afinal não os levaria ao refúgio do Vasco de Gama, mas ao centro da sublevação.A camioneta chegou ao Terreiro do Paço onde os marinheiros e os soldados da Guarda apuparam e tentaram matar António Granjo. Cunha Leal conseguiu então salvá-lo. A camioneta entrou, por fim, no Arsenal e os dois políticos passaram ao pavilhão dos oficiais. Um grupo rodeou Cunha Leal e separou-o de Granjo, apesar dos seus protestos. Os seus brados levaram a que um dos sublevados disparasse sobre ele, atingindo-o três vezes, um dos tiros, gravemente, no pescoço. Foi conduzido ao posto médico do Arsenal.

Entretanto, vencida a débil resistência de alguns oficiais, marinheiros e soldados da GNR invadiram o quarto onde estava António Granjo e descarregaram as suas armas sobre ele. Caiu crivado. Um corneteiro da Guarda Nacional Republicana cravou-lhe um sabre no ventre. Depois, apoiando o pé no peito do assassinado, puxou a lâmina e gritou: «Venham ver de que cor é o sangue do porco!»A camioneta continuou a sua marcha sangrenta, agora em busca de Carlos da Maia, o herói republicano do 5 de Outubro e ministro de Sidónio Pais. Carlos da Maia inicialmente não percebeu as intenções do grupo de marinheiros armados. Tinha de ir ao Arsenal por ordem da Junta Revolucionária. Na discussão que se seguiu só conseguiu o tempo necessário para se vestir. Então, o cabo Abel Olímpio, o Dente de Ouro, agarrou-o pelo braço e arrastou-o para a camioneta que se dirigiu ao Arsenal. Carlos da Maia apeou-se. Um gesto instintivo de defesa valeu-lhe uma coronhada brutal. Atordoado pelo golpe, vacilou, e um tiro na nuca acabou com a sua vida.

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A camioneta, com o Dente de Ouro por chefe, prosseguiu na sua missão macabra. Era seguida por uma moto com sidecar, com repórteres do jornal Imprensa da Manhã. Bem informados como sempre, foram os próprios repórteres que denunciaram: «Rapazes, vocês por aí vão enganados… Se querem prender Machado Santos venham por aqui…». Acometido pela soldadesca, Machado Santos procurou impor a sua autoridade: «Esqueceis que sou vosso superior, que sou Almirante!». Dente de Ouro foi seco: «Acabemos com isto. Vamos». Machado Santos sentou-se junto do motorista, com Abel Olímpio, o Dente de Ouro, a seu lado. Na Avenida Almirante Reis, a camioneta imobiliza-se devido a avaria no motor. Dente de Ouro e os camaradas não perdem tempo. Abatem ali mesmo Machado Santos, o herói da Rotunda.

Não encontraram Pais Gomes, ministro da Marinha. Prenderam o seu secretário, o comandante Freitas da Silva, que caiu, crivado de balas, à porta do Arsenal. O velho coronel Botelho de Vasconcelos, um apoiante de Sidónio, foi igualmente fuzilado. Outros, como Barros Queirós, Cândido Sotomayor, Alfredo da Silva, Fausto Figueiredo, Tamagnini Barbosa, Pinto Bessa, etc., salvaram a vida por acaso.Os assassinos foram marinheiros e soldados da Guarda. Estavam tão orgulhosos dos seus actos que pensaram publicar os seus nomes na Imprensa da Manhã, como executores de Machado Santos. Não o chegaram a fazer devido ao rápido movimento de horror que percorreu toda a sociedade portuguesa face àquele massacre monstruoso. Mas quem os mandou matar?

O horror daqueles dias deu lugar a uma explicação imediata, simples e porventura correcta: os assassínios de 19 de Outubro tinham sido a explosão das paixões criadas e acumuladas pelo regime. Determinados homens mataram; a propaganda revolucionária impeliu-os e a explosão da revolução permitiu-lhes matar. No enterro de António Granjo, Cunha Leal proclamou essa verdade: «O sangue correu pela inconsciência da turba - a fera que todos nós, e eu, açulámos, que anda solta, matando porque é preciso matar. Todos nós temos a culpa! É esta maldita política que nos envergonha e me salpica de lama». No mesmo acto, afirmaria Jaime Cortesão: «Sim, diga-se a verdade toda. Os crimes, que se praticaram, não eram possíveis sem a dissolução moral a que chegou a sociedade portuguesa».

Com o tempo, os republicanos procuraram outras explicações. Não podiam aceitar a explicação simples que teria sido a sua acção, o radicalismo da sua política, a imundície que haviam lançado desde 1890 sobre toda a classe política, a sua retórica de panegírico aos atentados bombistas (desde que favoráveis), aos regicidas, a desencadear tanta monstruosidade. Significava acusarem-se a si próprios. Outras explicações foram aparecendo, sempre mais tortuosas, acerca dos eventuais culpados: conspiração monárquica; Cunha Leal (apesar de ter sido quase morto); Alfredo da Silva (apesar de, nessa noite, ter escapado à justa e tido que se refugiar em Espanha) uma conspiração monárquica e ibérica; a Maçonaria (a acção da Maçonaria sobre a Guarda, impelindo-a para a revolução, era constante, mas isso não significa que desse ordens para aqueles crimes).

Os assassinados na Noite Sangrenta não seriam, entre os republicanos, aqueles que mais hostilidade mereceriam dos monárquicos. Eram republicanos moderados. O furor dos assassinos liquidara homens tidos, na sua maior parte, como simpatizantes do sidonismo. Não se tratava de vingar Outubro de 1910, mas sim Dezembro de 1917. Carlos da Maia e Machado Santos foram ministros de Sidónio Pais. Botelho de Vasconcelos, coronel na Rotunda, às ordens de Sidónio Pais. Se as matanças de 19 de Outubro de 1921 foram uma vingança terão de ser referenciadas à República Nova e não ao 5 de Outubro. Aliás, num gesto significativo, os revolucionários libertaram o assassino de Sidónio Pais.

Há na Noite Sangrenta factos que se impõem de maneira evidente. A 20 de Outubro, a Imprensa da Manhã reivindicou para si a glória de ter preparado o movimento, mas repudiou as suas trágicas consequências, especialmente a morte de Granjo. Ora anteriormente, dia após dia, aquele diário havia acusado e ameaçado Granjo, injuriando-o sistematicamente. Como podia agora lavar as mãos da sua morte? Aliás, a atitude dos assassinos foi concludente: depois de matarem Machado Santos, dirigiram-se na camioneta da morte à Imprensa da Manhã para lhe agradecerem o apoio e para aquela publicar os nomes dos que tinham fuzilado o Almirante. Um deles confessou mais tarde que Machado Santos havia sido localizado por informações de jornalistas da Imprensa da Manhã. Os assassinos procuravam a satisfação e a glória de uma obra realizada, no diário matutino onde se proclamara a necessidade dessa realização.Os assassinos nunca esperaram ser castigados. Mesmo durante o julgamento sempre esperaram a absolvição. Quando foram condenados, entre gritos de vingança e de apoio à «República radical», alguns acusaram altos oficiais de não terem autoridade moral para os condenarem, pois estavam por detrás da carnificina. Os assassinos tinham, de certo modo, razão: eles tinham agido dentro da lógica que o republicanismo tinha instilado neles. Em todos os regimes que nascem e se sustentam no crime e no terror (por muito justa que a causa possa ser), há sempre o momento (ou os momentos) em que a revolução devora os próprios filhos.

Para terminar devo referir que nem Manuel Maria Coelho, nem nenhum dos «outubristas», conseguiu formar um governo estável. O horror fez todos os nomes sonantes recusarem fazer parte de um governo de assassinos. Menos de dois meses depois da revolução, António José de Almeida, em 16 de Dezembro de 1921, entregou a chefia do ministério a Cunha Leal.A GNR foi pouco a pouco desmantelada e reduzida a uma força de policiamento rural. A república ficara ferida de morte.

 

O VI Marquês de Abrantes, o exilado

por João Távora, em 11.07.21

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Esta é a trágica história de D. José da Piedade, meu 4.º avô paterno. Reconhecido como VI Marquês de Abrantes ainda em vida do seu pai, que lhe sobreviveu, cedo se iniciou nas lides políticas a seu lado, tendo começado precocemente a pagar o preço de ser o primogénito de uma das casas nobres mais prestigiadas do Antigo Regime em estertor. Com aquilo que pude apurar, vejo-o como um espírito forte e carácter intrépido, porventura algo ingénuo ou voluntarista, que se tornou uma espécie de mártir do regime, por via da forma como se entregou às suas crenças e se empenhou nas causas a que foi chamado dar o corpo ao manifesto. Primeiro enfrentando os invasores franceses e depois na luta pela causa tradicionalista, pelos valores e convicções contra-revolucionários de que a sua família emergia e era pilar. Desse modo, cedo se tornou valido do Infante D. Miguel, com quem desenvolveu grande cumplicidade e ao lado de quem participou em conspirações e intentonas, até cair em desgraça acusado dum alegado assassinato. Certamente não sabia que estava a lutar contra os ventos que a História seguiria, e por isso pagaria elevado preço. Aliás, todos nós pagámos e continuamos a pagar os custos desse maldito espírito revolucionário a que o povo português é especialmente volúvel.

Filho de D. Maria Xavier de Lima e de Dom Pedro de Lancastre, D. José Maria da Piedade de Lancastre Silveira Castelo Branco de Almeida Sá e Meneses nasceu em 1784 e foi o VI Marquês de Abrantes. Começou por seguir a carreira militar aos 17 anos como era próprio dum rapaz com aquele estatuto, tendo começado como Ajudante de Campo do Marechal Duque de Lafões (1716-1806). Foi pouco mais de um ano depois de casar com D. Helena Vasconcellos e Sousa que viria a interromper o seu serviço no exército em 1807: por ocasião da primeira invasão francesa viu-se na obrigação de acompanhar o seu pai, presidente do Conselho de Regência, a Baiona numa delegação portuguesa para prestar vassalagem a Napoleão e negociar a entrega da Coroa portuguesa que, como sabemos, se ausentara para o Brasil. Na sequência disso, perante as notícias da revolta dos portugueses apoiados pelos Ingleses contra os invasores, com o seu pai sofre um grande revés, ficando detido em França como refém do Imperador até ao final das Guerras Peninsulares, em 1814. Curiosamente chegam-nos notícias que durante esse cativeiro José da Piedade, então com 25 anos, tirou o curso agrícola do botânico André Thorin enquanto esteve detido em Paris. Regressado a casa mantém-lhe o gosto e constitui-se sócio correspondente da Academia Real das Ciências de Lisboa.

Na sua vida política José da Piedade, envolvido nos negócios da corte, cedo abraçou a causa tradicionalista com o Infante Dom Miguel de quem foi valido. Dessas andanças lhe advém a maior das desgraças, envolvido que estivera "com um bando de campinos armados" na insurreição da Vilafrancada (curiosamenete Vasco Pulido Valente no seu brilhante ensaio  “A contra revolução (1823 – 1824)” reclama que a proclamação do rei "restituido aos seus direitos" por Dom Miguel terá ocorrido no morgado da Póvoa da família Abrantes e não em Vila Franca de Xira) e posteriormente no falhado pronunciamento Abrilada, e — pior que tudo — com a acusação da autoria, em conluio, com o Infante do alegado assassinato do Marquês de Loulé, em Salvaterra de Magos, na noite fatídica de 29 de Fevereiro de 1824. Esse acontecimento irá valer-lhe a prisão, o exílio, e inevitavelmente o ostracismo da corte, incluindo de Dom Miguel também ele em posto em maus lençóis, enviado de castigo em passeio pela Europa por ordem de seu Pai depois da Abrilada.

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Que se terá passado em Salvaterra onde boa parte da Corte, fracturada nas duas facções beligerantes, se reunia no teatro do Paço para celebrar o Carnaval em grande folguedo na companhia de Dom João VI, a ensaiar a farsa Manuel Mendes Enxúndia de António Xavier Ferreira de Azevedo e uns quantos «arremedilhos» (um antigo género de teatro baseado em imitações, comummente de figuras públicas) com que abrilhantariam a Terça-feira Gorda?

Para lá da jornada de festa, estavam em acirrado confronto, naqueles anos que antecedem a Guerra Civil, duas concepções antagónicas do Estado: o fundamento religioso e realista do mesmo — as velhas estruturas nacionais fundadas nas famílias e na religião — e o representativo e proto-republicano apoiado pela academia ascendente e pela maçonaria afrancesada, a «pestilenta cáfila dos pedreiros-livres». Ao meio deste assanhado antagonismo, Dom João VI procurava empenhadamente equilíbrios, que todavia se mostravam insustentáveis. A disputa era deveras fratricida.

A morte do Marquês de Loulé, Estribeiro-Mor e pessoa muito próxima do Rei, naquelas misteriosas circunstâncias e sob um clima de acirrada intriga política, constituiu um enorme escândalo. Vasco Pulido Valente na obra atrás referida, ao seu estilo é taxativo, sem no entanto fundamentar a sua tese, que não seja na notícia veiculada pela Gazeta de Lisboa onde se afirmava ter sido um crime, e na opinião do Embaixador de França, Hyde de Neuville afirma que: “Em 28 de Fevereiro, por ordem de Dom Miguel, o marquês de Abrantes e alguns criados mataram à paulada o marquês de Loulé no palácio de Salvaterra, a dois passos do rei” com a intenção de “isolar Dom João e derrubar o governo”. Será que leu os relatórios da devassa mandadada instaurar por D. João VI? A verdade é que os inquéritos iniciados no dia seguinte à tragédia foram desde logo inquiridas 130 testemunhas em Salvaterra, num longo processo que resultou inconclusivo e foi encerrado um ano depois. Se para uns a morte de Loulé não teria passado de um terrível acidente (queda por uma “porta” que saía dum escuro corredor directamente para um saguão com quatro metros de altura, que ali surgira na sequência da derrocada do edifício anexo, entretanto ardido, sob o “efeito dos vapores do álcool” que o sinistrado teria bebido durante o serão de ensaios e folia), para grande parte das testemunhas o acontecimento fora um crime perpetrado a mando de Dom Miguel em conivência com D. José da Piedade e o Sota Leonardo Joaquim Cordeiro, com 40 anos, cocheiro das reais cavalariças e pessoa muito próxima do Infante, morador nos Anjos e em casa de quem viria a reunir com os oficiais do exército na preparação da Abrilada. Sob suspeita estava também D. Francisco de Sales Lancastre, o único filho natural reconhecido ao VI Marquês de Abrantes, 24 anos, e que na ocasião acompanhava seu pai. Interrogado como testemunha na devassa, nenhum ilícito foi assinalado contra ele. Outras testemunhas atribuiriam culpas a conspirações maçónicas É o caso de José da Piedade, que declarou na devassa ter-lhe sido dito por D. Miguel que o assassinato afinal «seria obra de pedreiros livres, por não querer o Marquês [de Loulé] fazer alguma coisa que eles lhes pedissem». Pelo que nos é dado ler nas devassas transcritas no livro de António Cabral Uma Tragédia na Corte: A Morte do Marquês de Loulé (1936), todas elas constituem meras opiniões, sendo difícil através das mesmas chegar a conclusões irrefutáveis. 

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Para desgraça do Marquês de Abrantes, ao lado de Dom Miguel vai assumir — apenas um mês depois — grande protagonismo na Abrilada, um pronunciamento fútil que resultará na capitulação deste (contra a vontade do Marquês) perante a posição intransigente do rei Dom João VI, que mandaria prender os principais partidários do filho. Esta derrota resultaria na retirada «punitiva» do Infante para uma viagem pela Europa e na expulsão do Marquês de Abrantes para o exílio, depois de passar pelos calabouços da Torre de Belém, onde novos interrogatórios tentariam inculpá-lo do assassinato de Loulé.

Estava Dom José da Piedade caído definitivamente em desgraça. Num Decreto Real de indulto, publicado em 24 de Junho de 1825, a acusação ao VI Marquês de Abrantes é mantida, sendo condenado ao exílio com os mais próximos participantes no pronunciamento. Nesse decreto pode ler-se:

Da generalidade d’este indulto e perdão exceptuo somente os indivíduos, que mais se cumplicaram e manifestaram constituindo-se como chefes, e fautores da federação para tão abomonáveis crimes, os coaes deverão sahair em direitura para fora dos meus reinos, e não poderão voltar a eles, sem expressa licença minha, expedindo-se-lhes para esse effeito os passaportes necessários. Com esta limitação de que não pode prescindir a Minha indefectível justiça, gozarão estes mesmos réos das outras graças aos mais. Os exceptuados vão inscriptos na relação junta, assignada por Fernando Luís de Sousa Barradas, do meu Conselho de Estado e Meu ministro e Secretário d’ Estado dos Negócios Ecclesiasticos e de Justiça a qual faz parte do presente decreto.

Eram eles os infelizes “exceptuados”: D. José da Piedade - Marquês de Abrantes; Inácio António de Paiva Raposo - Tenente de Caçadores 6; Dr. António de Paiva Raposo – Advogado; Carlos António de Gambôa – Ten. Corel. De Milicias de Trancoso; Manoel António Cotta Coelho de Araújo – Médico; Sebastião Duarte de Ponte de Andrade Negrão – Cap. Mor de Albufeira; José Veríssimo – Sarg. De Cavalaria da Polícia e o Leonardo Joaquim Cordeiro – Sota das Reais Cavalariças.

Importa saber quem era, afinal, Agostinho Domingos José de Mendoça Rolim de Moura Barreto, o Marquês de Loulé [1780-1824], estribeiro-mor de D. João VI. Homem da confiança do rei que em tempos fora maçon de grande importância, conseguiu ser condenado à morte por traição, pela sua ajuda às tropas napoleónicas nas invasões francesas. Desse crime viria a ser perdoado por Dom João VI, na sequência duma viagem que empreendera ao Brasil com o propósito de lhe implorar perdão. Partidário das ideias liberais, a sua carreira política e militar alimentou uma forte rivalidade e hostilidade com o VI Marquês de Abrantes.

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Considerado principal suspeito, recusando todas as acusações que sobre si incorriam, o meu 4.º avô defendeu sem sucesso a tese de que o assassinato do Marquês de Loulé bem podia ter sido congeminado pelos seus antigos companheiros da Maçonaria, por causa da sua deserção, ou até pelo facto de possuir segredos que os outros maçons, entre os quais o Conde de Paraty — D. Miguel Rafael António do Carmo de Noronha Abranches Castelo Branco (1784-1849) —, receavam ver divulgados.

O VI Marquês de Abrantes foi preso na raia de Espanha, para onde tentava escapar depois de falhada a Abrilada. Assim regressou aos calabouços da Torre de Belém, e interrogado, entra em graves contradições: defende a certeza da inocência do Infante, mas por outro lado afirma que aquele Senhor «guardava grande reserva e dissimulação no que queria», insinuando as suas suspeitas por saber da aversão que o Infante nutria por Loulé «por motivos particulares a que não estava autorizado a referir-se», como por lhe parecer uma espécie de «reparação» a nomeação pelo Infante do filho natural de Loulé como seu camarista após a tragédia. Este depoimento desastrado, que revela um homem desesperado e abandonado, temendo pela pior das sortes, chegaria ao conhecimento de Dom Miguel. De acordo com os ofícios do embaixador de Portugal na corte austríaca, Dom Miguel não mais abriu a correspondência do seu valido D. José da Piedade, a quem apelidaria de «desavergonhado», e que do seu exílio em Londres implorava por uma audiência que nunca aconteceu.

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Não sabemos até que ponto o Infante Dom Miguel estaria a agir em plena liberdade, tanto mais que permanecia «de castigo» em Viena, num «exílio» ordenado por seu Pai, Rei de Portugal, e a quem o embaixador respondia. Tendo o meu 4.º avô morrido em 1827, e o Infante regressado a Lisboa no ano seguinte, não podemos saber qual seria a atitude de Dom Miguel para com ele. No entanto, sabemos que se reencontrou com o Sota Leonardo Joaquim Cordeiro, também ele feito bode expiatório e condenado ao exílio, pessoa de grande proximidade ao Marquês de Abrantes (cujos testemunhos ambíguos tinha validado na devassa, nomeadamente o facto do Senhor Infante nunca mais ter falado da morte de Loulé, donde concluía que ele «ou por si ou por outrem tinha conduzido aquelle delicto para os fins que tinha em vista, que provavelmente erão os de trinta de Abril [a Abrilada], e os com elle conexos»).

Como terá passado o meu avô esses dois anos em exílio permanece um mistério. Quanto sei, não se encontra na posse da família qualquer correspondência desse período — nessa altura a Casa de Abrantes não estaria ainda refeita de uma grave crise financeira.

Julgando estar incluído na amnistia promulgada aquando da morte de D. João VI, D. José da Piedade tentou voltar a Lisboa, mas o ministério não lhe permitiu desembarcar. Voltou a Londres em Novembro de 1826, para, estranhamente, morrer de apoplexia em Fevereiro do ano seguinte, por ocasião duma visita ao embaixador de Portugal. Suspeita-se na família que tenha sido envenenado. Segundo o Evening Mail de 19 de Fevereiro de 1827, os seus restos mortais foram depositados nas criptas do templo católico de Moorfields, onde decorreram as cerimónias fúnebres, a que compareceram o próprio embaixador e muitos portugueses residentes em Londres.

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Cerca de um ano depois, morreria o V Marquês de Abrantes, seu pai. Por cá ficaria a Marquesa de Abrantes, D. Helena Vasconcellos e Sousa, a criar os dois filhos, Pedro Maria e José Maria, ao mesmo tempo que procurava resgatar a Casa de Abrantes da ruína financeira.

Filha dos Marqueses de Castelo Melhor, nascida em 1786, tem o seu retrato lugar de honra na minha casa: como conta o meu pai, «D. Helena foi senhora de carácter forte e intrépido e também como o marido, fiel partidária de Dom Miguel». E com certa ironia, depois da morte do seu marido abandonado por todos em Londres, foi ela quem organizou a chamada «Pensão Alimentícia» ao Senhor Dom Miguel, recolhida de um grande número de seus partidários em Portugal. Acrescenta o meu pai que «ao ficar viúva, soube chamar a si a educação dos seus filhos, regendo e administrando a Casa, que ficara muito diminuída com a vitória do partido liberal». Para reforçar a ideia do génio que possuía a Marquesa D. Helena, conta o meu pai que, não tendo ela aceitado bem o casamento do seu filho mais velho D. Pedro Maria da Piedade (VII Marquês de Abrantes) com a filha dum desembargador, D. Joana Perpétua Feo Sanches Guião, «sempre ela se recusou a receber em casa o seu filho e nora», atitude tão excêntrica «visto que, tendo o VI Marquês de Abrantes morrido antes da extinção dos morgadios, ficara sendo seu filho primogénito o único senhor de toda a Casa». D. Pedro, diga-se, morreu aos 31 anos sem deixar geração, tendo a administração da Casa sido herdada pelo seu irmão José. 

Nunca na família se verificou qualquer rancor a estas desventuras do VI Marquês de Abrantes com o Infante Dom Miguel, tão angustiantes quanto mal contadas. Até o seu filho segundo, com o mesmo nome, Dom José de Lancastre, aquele austero poeta e filósofo que anteriormente biografei, foi um fiel partidário Tradicionalista. Dele, D. João de Almeida publica postumamente Algumas notas coligidas em Bronnbach, após o falecimento de El-Rei D. Miguel I, pelo Sr. Marquês de Abrantes Dom José de Lancastre, sobre o assassínio do Marquês de Loulé em Salvaterra, e narrando a despedida do Senhor Dom Miguel de seu pai a bordo da nau inglesa, quando o Sr. Infante depois da Abrilada, foi mandado viajar pela Europa. Uma brochura com que pretende provar a inocência do seu rei e do seu pai neste trágico evento, da qual possuo um exemplar.

Talvez não seja estranho a tudo isto que, da longa galeria de retratos dos marqueses de Abrantes e seus ascendentes que era propriedade da Casa de Abrantes (com alguns dos quais convivi quotidianamente), não exista pintura, desenho ou aguarela do VI Marquês de Abrantes, com que era tradição, desde o século XVI, a família perpetuar na história as suas maiores e principais personalidades. Dom José da Piedade, o exilado, é o único senhor da Casa que tendo chegado à idade adulta não possui qualquer imagem ou representação gráfica. Com uma existência breve, tão agitada quanto aventureira, imagino que pouco tempo deve ter tido para comungar com os seus filhos e mulher uma vida normal, muito menos terá tido sossego para posar umas dúzias de horas à frente dum retratista.

Mas o mais irónico desta história toda plena de matizes e mistérios, é que a Casa de Abrantes não muito tempo depois se cruzou de novo com a família Loulé, nomeadamente através do aluguer — em 1853 — de parte do seu palácio em Santos, então sob administração do filho segundo do nosso protagonista, à infanta D. Ana de Jesus Maria, casada com o 2.º Marquês e 1.º Duque de Loulé. Caso para dizer: ironias do destino…

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Imagens:

1) Chegada a Vila Franca do Infante Dom Miguel.

2) Aspecto do Real Teatro de Ópera de Salvaterra de Magos, hoje totalmente desaparecido.

3) Retrato de Domingos José de Mendonça Rolim de Moura Barreto, o Marquês de Loulé.

4) O palácio dos Marqueses de Abrantes em Santos, Lisboa (actual Embaixada de França).

5)  Retrato da Marquesa de Abrantes, D. Helena Vasconcelos e Sousa.

Fontes:

A Heráldica da Casa de Abrantes, vol. 2 do tomo 4, por Luís de Lancastre e Távora.

Le Palais de Santos de Pierre Samoyault, Éditions Internationales du Patrimoine, Paris, 2011.

Quinta de Nossa Senhora da Piedade. História do Seu Palácio Jardim e Azulejos por Celso Mangucci, Vila Franca de Xira, 1998.

«Patrocínio e Performance Practice em Lisboa e proximidades na segunda metade do século XVIII e começo do século XIX», de Joseph Scherpereel, Revista Portuguesa de Musicologia, 1999.

“O Fundo da Gaveta” Vasco Pulido Valente (Dom Quixote 2018)

Documentos de família e testemunhos orais

Com um agradecimento especial ao meu amigo e bom conselheiro Nuno Pombo

Dona Maria II de volta ao Palácio da Ajuda

por João Távora, em 25.05.21

Estandarte Real.jpg

Esta é uma fotografia do estandarte liberal com 138 x 202 cm bordado pela Rainha D. Maria II aos 10 anos que estará na origem do pavilhão azul e branco oficial da Monarquia Portuguesa até Outubro de 1910, pertencente na actualidade à Câmara Municipal de Angra do Heroísmo. O Vasco Rosa escreve no Observador sobre a exposição "D. Maria II. De princesa brasileira a rainha de Portugal" que estará patente ao público a partir de amanhã no Palácio da Ajuda. Leia aqui

24 de Agosto de 1820

por João Távora, em 24.08.20

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A propósito da efeméride de hoje em que se completam 200 anos da Revolução Liberal do Porto, Lourenço Pereira Coutinho na revista do Expresso faz uma curiosa referência a um jurisconsulto de seu nome António Ribeiro dos Santos, que no reinado de D. Maria I representava uma corrente não revolucionária partidária do estabelecimento de um código constitucional escrito para o reino, projecto que obteve forte oposição dos defensores do iluminismo pombalino. Infelizmente em Portugal é quase sempre a via revolucionária que vinga, e é no mínimo irónico que o Marquês de Pombal se tenha tornado o grande ícone do republicanismo português. Afinal, déspotas são sempre déspotas.
A não perder é o ensaio sobre o tema escrito por Carlos Bobone, aqui.

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Nos últimos tempos estive a ler um livro que me foi oferecido por um bom amigo, a História de Vila Nova de Milfontes publicada pela Câmara de Odemira, da autoria do historiador António Martins Quaresma, uma coisa séria com muita investigação e profusamente ilustrada. A história de Milfontes é uma longa história de pobreza extrema e resistência duma vila fundada com homiziados (uma espécie de degredados), desde a carta de foral de Dom João II até ao Século XX, quando a beleza natural finalmente se torna um motivo de fortuna (!) - pouco mais a vila teve alguma vez para dar que o encanto da Foz do rio Mira. Com umas terras muito pobres e uma barra traiçoeira e sem um porto decente que só foi construído em meados do séc. XX, (a pesca só era praticável no Verão), as populações até ao século XVIII eram constantemente fustigadas por galés de corsários argelinos, que pilhavam o pouco que havia e raptavam os habitantes para negociar resgates. O emblemático forte a que chamam castelo, cuja ponte levadiça já estava irremediavelmente avariada poucos anos depois da sua construção no séc. XVII, nunca estava suficientemente equipado, nem de soldados nem de armamento (pólvora, por exemplo), tornou-se mais um elemento dissuasor. E também há a extraordinária historia de um tal António Afonso (que chegou a ser cabo da praça ou “capitão” do castelo) raptado e resgatado aos argelinos, um tipo insolente, espadaúdo e bebedolas que foi condenado a 6 meses de degredo em Évora pela Inquisição por, num casamento, dentro da Igreja, sob o efeito do álcool se ter metido com a noiva e pronunciado terríveis blasfémias. Afinal isto não mudou assim tanto, pois não?

Entretanto, com base nesse livro, durante as férias vou dedicar mais uma crónica a esta terra que desde a minha infância me conquistou o coração. Brevemente. 

Há 40 anos era preciso coragem

por João Távora, em 15.04.16

"O povo está acima, e sempre, da Constituição."
A coragem de um voto, e uma declaração que se mantém actual:

 

(...) O nosso voto é um voto de liberdade. Porque não quereríamos ver o Estado necessariamente hipotecado à criação maximalista de relações de produção socialista; à apropriação dogmática pela colectividade de meios de produção, dos solos e recursos naturais; à concepção antidemocrática de exercício do poder democrático apenas pelas classes trabalhadoras; ao convite contraditório em democracia, de vinculação das Forças Armadas e Governo a um projecto político restrito; a um ensino particular reduzido às precárias características de suplectividade do ensino público; à impossibilidade de se legislar sobre o âmbito de um justamente inalienável direito à greve; à absurda mitificação do plano como instrumento privilegiado de progresso económico; à aparente recusa de promover o acesso dos trabalhadores à propriedade; às graves limitações acerca do direito de propriedade de pequenos e médios agricultores; à definição limitativa e não criadora do sector privado da economia a um papel remanescente e suberante no quadro geral da actividade económica, à não aceitação positiva da família como fundamento natural da sociedade: às restrições, inexplicáveis e desconfiadas, à legítima autonomia político-administrativa dos Açores e da Madeira no quadro da unidade nacional; e, enfim, ao não reconhecimento, na força histórica do seu puro significado, da ideia de Estado de Direito no articulado constitucional.

Mas se não quereríamos ver o Estado necessariamente amarrado a todos estes liames que consubstanciam, afinal, a visão específica do projecto socialista tradicional, menos nos encoraja a amarração que se pretendeu fazer do próprio povo ao texto constitucional.

O povo está acima, e sempre, da Constituição. Não é a Constituição que está acima do povo.

Por isso, também, o nosso voto não poderia ser favorável ao conjunto do texto constitucional, mesmo que, como acontece, tenhamos aprovado, com verdadeira fé democrática, com autêntico empenhamento em favor da democracia política, social e económica, numerosos artigos do texto constitucional.

De forma solene e inequívoca queremos, todavia, afirmar, sem ambiguidades e com toda a força moral e política, que respeitaremos sempre a Constituição da República Portuguesa.
Queremos afirmar que, apesar das nossas discordâncias políticas, seremos perfeitamente capazes de exercer o Governo com esta Constituição, se a tal formos chamados pelo voto popular. (...)"

 

13 de Janeiro de 1759

por João Távora, em 13.01.16

Marquesa de tavora.gif

(...) "A marqueza então succumbiu, chorou muito anciada, e pediu que a matassem depressa. O algoz tirou-lhe a capa, e mandou-a sentar n’um banco de pinho, no centro do cadafalso, sobre a capa que dobrou devagar, horrendamente devagar. Ella sentou-se. Tinha as mãos amarradas, e não podia compôr o vestido que cahira mal. Ergueu-se, e com um movimento do pé consertou a orla da saia. O algoz vendou-a; e ao pôr-lhe a mão no pescoço, - não me descomponhas - disse ella, e inclinou a cabeça que lhe foi decepada pela nuca, de um só golpe."

Excerto de "O Supplicio da Marqueza de Tavora" de Camilo Castelo Branco

40 anos do 25 de Novembro

por João Távora, em 25.11.15

25 de Novembro.jpeg

Tenho para mim que, se celebramos a liberdade no 25 de Abril, deveríamos festejar a democracia no dia 25 de Novembro. Num país cujas efemérides sacralizadas são tantas vezes duvidosas, é importante relembrar os acontecimentos e os protagonistas que, faz hoje quarenta anos, travaram o "Processo Revolucionário" que então paulatinamente instaurava um regime militar comunista em Portugal. É bom hoje lembrar esses tempos agitados, com as cadeias cheias de presos sem culpa formada, a comunicação social condicionada pelos comunistas, uma deriva de nacionalizações e muitas empresas e propriedades ocupadas por piquetes revolucionários. Hoje é bom lembrar que foi a partir do 25 de Novembro de 1975 que as armas e os militares iniciaram a sua lenta recolha aos quartéis e uma verdadeira transição democrática pode ser finalmente negociada entre as forças politicas sobreviventes. Encaremos a democracia não como uma conquista, mas uma tarefa que não acaba mais. 

Progresso... tecnológico

por João Távora, em 12.05.15

As pessoas que nasceram em 1850, viveram nas cinco décadas seguintes o maior salto tecnológico da história: nasceram com cavalos, carroças e lamparinas, mas chegaram a 1900 com o automóvel, o avião, a fotografia, a luz eléctrica, o telefone e a música gravada. Pelo que se verificou de seguida, em termos comportamentais, o homem não progrediu nada. 

 

Uma mentira mil vezes repetida...

por João Távora, em 19.04.15

Revelador da cicatriz deixada pelo ambiente revolucionário vivido há 40 anos é o jornalista do Expresso Valdemar Cruz, jornal que esteve então para ser extinto pelos comunistas, não conseguir o distanciamento necessário e definir o Partido da Democracia Cristã de Sanches Osório, que então se preparava para ir a eleições coligado com o CDS, como sendo de "extrema-direita que acolhida muitos jovens neofascistas". Um mau serviço. 

A modernidade de antigamente

por João Távora, em 13.03.15

Caros amigos, reservem 20 minutos e vejam este vídeo, um documentário português realizado, escrito e narrado por António Lopes Ribeiro, produzido pela Câmara Municipal de Lisboa no ano de 1948 - todo ele um tratado de boa propaganda, inteligível e fundamentada - "Lisboa de Hoje e de Amanhã". Nessa época o Estado Novo encontrava-se no seu auge e uma renovada Lisboa emergia do rasto de escombros deixado por décadas de instabilidade e miséria. As transformações eram significativas: desde a arborização do actual Parque de Monsanto, a inauguração daquela que era uma das primeiras auto-estradas da Europa, a urbanização das Avenidas Novas, (nunca eu tinha visto a Fonte Luminosa a jorrar água) e a criação de uma variada gama de infra-estruturas sociais e culturais.

Para lá da "pequena história" da génese duma Lisboa que nos é tão familiar, a linguagem auto-elogiosa do filme serve-nos de espelho para quando nos nossos dias nos arvorarmos na quintessência da modernidade. Coloca as nossas conquistas e peneiras em perspectiva. Claro que, como refere Henrique Raposo, a legitimidade de um regime não se deveria fundamentar nas conjunturas económicas que atravessa, conclui-se. 

A Direita e a Democracia em Portugal

por João Távora, em 18.12.14

 "No início dos anos 70 uma grande parte da direita via a ditadura como meio e a democracia como fim ao mesmo tempo que boa parte da esquerda reclamava a democracia como meio e a (sua) ditadura como fim."

A ouvir na integra Rui Ramos a desmontar clichés no passado dia 11 de Dezembro no Instituto Amaro da Costa.

Salazar, o provinciânico

por João Távora, em 27.07.14

Nesta silly season que ora se inicia, por conta da biografia de Ribeiro Meneses publicada em fascículos pelo Expresso, revisitamos Oliveira Salazar. No meu entender o ditador veste como uma luva as expectativas de uma época que em certa medida hoje persistem: o provincianismo messiânico. Isso justifica a longevidade do seu pontificado. Ontem como hoje são poucos os portugueses que fazem diferença e a mediocridade faz escola - os maus hábitos não acabam por decreto. Ontem como hoje temos aquilo que merecemos, órfãos a mistificar um pai utópico que nos devolva uma Pátria virtuosa escondida nas brumas da memória. Quero dizer: Salazar não instaurou uma mentalidade, mas ele foi fruto dela e soube servir-se dela para "levar os portugueses a viver habitualmente", aquilo que quase toda a gente queria. Resta-nos manter a inquietação.

República e o analfabetismo

por João Távora, em 08.05.14

D. Carlos Visita lyceu Passos Manuel.jpg

Rei D. Carlos em visita às obra de construção

do Lyceu Passos Manuel Julho de 1907

 

O número de escolas primárias em funcionamento, que subira de 4.665 em 1901 para 6.412 em 1911, continuava em 6.750 em 1918. A taxa de escolarização, depois de aumentar de 22,1% para 29,3% entre 1900 e 1910, quase estagnou até 1920 (30,3%). Entre 1911 e 1920, o analfabetismo na população maior de 7 anos recuou apenas de 70,2% para 66,2%, isto é, desceu menos que entre 1900 e 1911.

 

História de Portugal

Coordenação Rui Ramos

A Esfera dos Livros 2009

Anticlericalismo republicano

por João Távora, em 08.05.14
O número de padres ordenados por ano nunca diminuiu (cerca de 50 entre 1910 e 1930. Em paróquias como as de Lisboa, desenvolveu-se um Catolicismo mais rigoroso e participado pelos fiéis, com a generalização da prática da homilia e da catequese. (…) Como em França, emergiu uma nova elite de intelectuais crentes, alguns deles antigos ateus, prontos a fazer literatura a partir a sua conversão, como o ex-anarquista Manuel Ribeiro, com o romance “A Catedral” (1920).
História de Portugal
Coordenação Rui Ramos
A Esfera dos Livros

 

2009

Much obliged Mr. Carlucci

por João Távora, em 26.04.14

 

Da excelente entrevista de Ricardo Lourenço a Frank Carlucci para a Revista do Expresso de ontem dia 25 de Abril, é arrepiante constatar a dimensão humana, plausível, das decisões que acabam por mudar tão dramaticamente o rumo da história, no lugar das fantasmagóricas teorias da conspiração com que tantos acalentam a sua ilusão de impotência. Ou de como naqueles anos estouvados da nossa História, foi por uma unha negra que nos salvámos dum trágico destino. A realidade é, o mais das vezes, feita de uma arrepiante simplicidade. 

... e o rio (2)

por Luísa Correia, em 31.03.14
... «E por tanto vinham de desvairadas partes muitos navios a ela, em guisa que com aqueles que vinham de fora e com os que no reino havia jaziam muitas vezes ante a cidade quatrocentos e quinhentos navios de carregação; e estavam a carregar no rio de Sacavém e à ponta do Montijo da parte de Ribatejo sessenta e setenta navios em cada lugar, carregando de sal e vinhos; e por a grande espessura de muitos navios que assim jaziam ante a cidade, como dissemos, iam antes as barcas de Almada aportar a Santos, que é um grande espaço da cidade, não podendo marear por entre eles». (Fernão Lopes, Crónica de D. Fernando).

A cidade... (1)

por Luísa Correia, em 31.03.14
«Havia outrossim mais em Lisboa estantes de muitas terras não em uma só casa, mas muitas casas de uma nação, assim como genoveses, e prazentins, e lombardos, e catalães de Aragão e Maiorca, e de Milão, que chamavam milaneses, e corcins e biscainhos, e assim de outras nações, a que os reis davam privilégios e liberdades, sentindo por seu serviço e proveito; e estes faziam vir e enviavam do reino grandes e grossas mercadorias, em guisa que afora as outras coisas que em esta cidade abastadamente carregar podiam, somente de vinhos foi um ano achado que se carregaram doze mil tonéis, afora os que levaram depois os navios na segunda carregação de Março.»...

O tempo da ira - 255 Anos

por João Távora, em 13.01.14

Belém, 13 de Janeiro de 1759

 

Chegou então a vez de Francisco de Assis de Távora, Marquês que fora de Távora. Apesar de ter evidenciado, ele também, grande coragem ao subir ao patíbulo, arrastado por dois soldados pois que ainda não tinha força nas pernas, de tão feridas que tinham ficado ao receber os tratos a que o tinham sujeito, e de se entregar nas mãos dos carrascos, não conseguiu conter grandes brados de dor e angústia enquanto estes lhe quebravam a golpes de maça os ossos das pernas e braços, até que por fim, o laço do garrote lhe abafou a voz e tirou a vida.

 

D. Leonor de Távora, por Luiz de Lancastre e Távora – Quetzal 2010 pp 180

Deus o tenha na sua infinita misericórdia

por João Távora, em 09.12.13

Tenho um amigo que vivendo e trabalhando no meio dos livros, chegado à maturidade (um prodígio que infelizmente não acontece a todos e aos outros surge quase sempre tarde de mais), às tantas confrontado com uma incomensurável lista de obras-primas ainda por ler, decidiu numa sábia atitude de economia de recursos, só se dedicar àquelas que tivessem resistido mais de cem anos no escaparate da erudição humana. É também por amor à verdade que o estudo da História, ciência que tem como objecto o homem no tempo (e não a propaganda política) obriga o historiador a um considerável distanciamento temporal face ao acontecimento em análise. 

Não sendo historiador nem tendo a ambição do meu amigo, mesmo assim também eu venho tentando escapar à gigantesca vaga de panegíricos dedicados à sublimação de Nelson Mandela em intermináveis suplementos de jornal, com beatíficos editoriais, encomiásticos artigos, rubricas e programas. Toda esta ensurdecedora campanha ecoa em tudo o que é jornais, revistas, televisões e redes sociais, surge num tão ingénuo quanto inquietante unanimismo, que no mínimo deveria remeter qualquer mente emancipada para uma atitude de profunda desconfiança. Mas não. Não haverá muitas por estes dias, facto que reforça a pertinência da citação de Chesterton por Henrique Raposo “quando não acredita em Deus, o homem tende a acreditar em tudo”.
Depois, no que respeita ao racismo, uma enfermidade social que me incomoda de sobremaneira, deixem-me que partilhe aqui uma impressão minha muito pouco científica, a de que no Ocidente do século XX, para as mentes mais tacanhas, o mais decisivo papel na desconstrução do anátema contra os negros, terá sido afinal o do Jazz, no Rock n' Roll e Hollywood. O capitalismo, portanto. Devagar, demasiado devagarinho, bem sei. 

 



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