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Há poucos anos, com o advento do DVD, recuperei cá para casa o humor rock n’ roll d' Os Marretas, que já no final dos anos setenta aligeirara o fosso geracional na casa dos meus pais, juntando toda a família ao serão dos Domingos. Essa meia hora mágica situava-se entre a costumeiro jantar de suculento frango assado e a acabrunhada preparação da nova semana de aulas que ameaçadoramente despontava.
“Os Marretas” foi uma genial série de televisão americana estreada em 1976 da autoria de Jim Henson e sua trupe de prazenteiros manipuladores e criadores de bonecos. Jim Henson, que nos deixou prematuramente em 1990, já tinha no curriculum a colaboração regular dos seus bonecos no prodigioso programa educativo Rua Sésamo desde 1968, e desde 1961 num obscuro show humorístico "Sam e os Seus Amigos" onde já pontificava um simpático boneco “peúga”, talvez a génese do celebradíssimo sapo Cocas.
A inconcebível colecção desta mágica fábrica de "fantoches" num frenético ritmo rock, às vezes bem psicadélico, foi crescendo em tamanho e graça: do minimal felpudo “fole” dançarino, da peúga falante ao urso Fozie - o inseguro aprendiz de comediante, passando pelo caótico Gonzo e toda a sorte de animalejos e objectos.
Naquela desregrada "companhia teatral” todos os personagens - e alguns dos adereços - têm vida e personalidade muito próprias. Podemos ver umas alegres Couves e outros legumes a dançar folclore polaco, os ratos, baratas e demais bicharada residente a exigir um aumento de cachet ao sapo Cocas, o inabalável director e apresentador daquela literalmente explosiva empresa. Este tem como braço direito o influente moço de recados Scooter, sobrinho do dono da sala de teatro. E que dizer dos velhotes Statler e Waldorf, sempre teimosamente insatisfeitos, no alto do seu camarote? E do Sam, a moralista e inquisidora águia americana?
Durante os endiabrados espectáculos, Cocas lá vai mantendo a calma no meio do caos, mantendo o alucinante ritmo das variedades, sempre com um convidado (muito) especial. Entrevistou por exemplo Julie Andrews, enquanto a troupe do Canhão Humano se preparava para disparar uma vaca (verdadeira). Salva-a do expulsivo destino Gonzo (enigmática espécie animal) que negligenciando a sua bem amada Camila (uma galinha) enamora-se arrebatadamente pela vaca com quem desaparece para um jantar romântico. Em abono da verdade, tartes espetadas na cara, trambolhões e violentas explosões num humor assim “inteligente” apenas encontrei nos "Monty Python" e n' "Os Marretas".
Do sapo Cocas ao jazzístico e imperturbável saxofonista Zoot, todos os personagens possuem um sólido carácter e profundidade “humana” (?!), expressa com mestria no desenho, voz e manipulação daqueles inimagináveis bonecos, de cores mirabolantes de olhos piscos e desmesuradas bocas.
O humor nonsense impera n’ "Os Marretas", a par com os convidados especiais ao momento “na berra” do Show Business. E música, muita boa música Jazz, Folk e Rock n’ roll, numa impecável interpretação da extraordinária banda residente liderada pelo Dr. Teeth nas teclas, com o Monstro na bateria, o Floyd à guitarra, e a doce Jenice a cantar, por entre os minimais solos de saxofone de Zoot. Um verdadeiro tributo à boa música popular. Ou também à música erudita, pelas patas do carismático Rowlf, o cão pianista. É obrigatória uma referência à Miss Piggy, que nunca me seduziu por aí além. Talvez por sempre me ter parecido uma personalidade demasiadamente colada à de tantas caricaturas vivas da existência real.
Foi com "Os Marretas" que consegui detectar o pezinho maroto do meu pai, no alto do seu sofá, a bater o ritmo do rock mais pesado. E a rir-se à gargalhada com os chavões dum tempo que definitivamente já não era o dele. Talvez por isso, eu tenha promovido em casa, com os meus miúdos, o culto destas fabulosa série. E que obteve uma adesão incondicional, o que confirma que o bom gosto é mesmo intemporal.
À parte das “longas metragens”, onde nunca consegui vislumbrar a qualidade dos curtos episódios temáticos (ou não) para a TV, estão disponíveis no mercado algumas
colectâneas ou programas especiais que são autenticas preciosidades, hinos à inteligência e à gargalhada salutar. Aconselho vivamente, por exemplo, a Gala Especial dos 25 anos dos Marretas, onde se encontram juntas algumas das mais singulares e históricas pérolas do sapo Cocas e companhia.



Que saudades da série The Fugitive que a RTP2 em tempos passava religiosamente às oito horas da noite e a que eu, também religiosamente, assistia dia sim dia sim. Lembro-me da ansiedade que antecedia o início de cada episódio, que eu via a preto e branco numa enorme Nordmende. Ansiedade é, aliás, a melhor palavra que encontro para definir o que se passava em todos e em cada um dos episódios. O bom do dr. Richard Kimble sempre em perseguição do One-Armed Man que ele sabe ter assassinado a sua belíssima mulher. Incansável, Kimble (interpretado por David Janssen) percorre os EUA de lés a lés, movido por um sentimento de raiva e de vingança pelo que perdeu, o amor da sua vida.
Justificar o meu deslumbramento por uma música, por uma tela ou por qualquer performance artística afigura-se quase sempre pena maior do que arrancar um dente. Daquilo que eu gosto muito, gosto como um autêntico basbaque, com arrepios no corpo e pele de galinha na alma. E a relação que desenvolvo com o objecto da minha percepção é sempre muito condicionada pelas circunstâncias emocionais. Os estímulos e impressões daí resultantes são assunto terrivelmente solitário e de difícil expressão. Antes assim não fosse.
Vem isto a propósito de Os Vingadores (Grã Bretanha 1961-69), a minha saudosa série de TV que eu devorava fascinado cada episódio, através da velha televisão a válvulas da casa dos meus pais. No início, quando ainda mal sabia ler as legendas, assistia aos episódios numa semi-clandestinidade. É que numa família pouco liberal como a minha, a criançada tinha impreteríveis horas para se deitar. Mas havia truques e manhas para me fazer passar despercebido: no chão, de pernas cruzadas a respirar baixinho, num discreto recanto. Até que o meu pai dava conta que eu ali estava, tenso, mas flagrantemente feliz. Às vezes ele, adorável como sabia ser, suspirava e lá condescendia; outras, corria-me dali para a cama, cortante e autoritário, mesmo na altura do emocionante desenlace. Construí a relação com o meu pai com cumplicidades e desavenças. Ele era enorme, irascível e... meigo. Quantas vezes ficávamos os dois noite fora a ver Os Vingadores ou o Comissário Maigret... Os anos que passaram, progressivamente, acentuaram a nossa crónica incomunicabilidade. Mas como eu o admirava, mesmo quando na adolescência lhe ganhei os primeiros jogos de xadrez... 
O resto eram lustrosos e potentes automóveis sport, em perseguições pelas ruas de Londres, nas estradas e nos campos da minha mistificada Inglaterra dos Beatles. John Steed conduzia um espectacular Rolls Royce Silver Ghost de 1927. Gostava do jeito afidalgado do herói e daquela pronúncia ao estilo BBC. Gostava dos cenários rocambolescos, dos palácios, bibliotecas e frondosos jardins. Também me deixei seduzir por Emma Peel, (Diana Rigg) mulher resoluta e ágil no seu macacão de couro, quase tão feminina como a idílica fada do Pinóquio. Mais tarde foi substituída por Tara King (Linda Thorson), na quinta série, também sexy mas mais irreverente, a acompanhar o decurso das modas da revolucionaria década de sessenta. Por fim lembro-me da “Mãe”, o fleumático e misterioso chefe da organização ao serviço de Sua Majestade. Só no início da penúltima série nos é revelado o seu aspecto físico: um homem imensamente obeso sempre sentado na sua cadeira de rodas e rodeado de telefones.
A minha infância e adolescência tiveram pouca televisão. Por razões que já não sei precisar, tudo lá fora parecia mais interessante do que estar sentada em frente ao ecran. E foi só com o Fame que ficar em casa a ver televisão passou a ser o plano A.
O idílico Barco do Amor


Olá caros leitores,

A insustentável leveza do leste
Em 1974 e 1975, Portugal descobriu que até aí ignorara uma parte do mundo. Nesse tempo, houve excursões ao paraíso do leste e chegavam ao Coliseu as danças e cantares de Krasnoiarsk, a ópera moldava e os acrobatas de Moscovo. Houve um fascínio quase doentio pelo bloco socialista. De tal forma o fenómeno se tornara ideológico, que deixou de ser possível ficar no meio da barricada a apreciar o panorama: ou se bebia a propaganda até à última gota (eles viviam numa gigantesca Vida Soviética a cores e Soljenitsyne, o agente da CIA, inventara cada palavra do seu Gulag); ou os do leste eram todos comunas, comiam criancinhas e até os periquitos nasciam já com cor vermelha.
Enfim, esta crónica não pretende falar de política, mas apenas lembrar que na televisão, no pequeno quadradinho mágico, essa clivagem também se fez sentir.
Um dos heróis da época chamava-se Kloss e tinha a patente de capitão. Acho que esta série polaca foi vista por todos nós um pouco ao contrário, pois era mais complexa do que parecia. Hoje, é fácil chegar a esta afirmação, na medida em que já sabemos o que a História ditou para o bloco socialista, que começou a ruir exactamente na Polónia.
Tento explicar melhor. Kloss era um agente polaco infiltrado no poderoso exército nazi. A sua inteligência superior permitia-lhe descobrir os segredos militares alemães e passá-los à resistência e aos aliados. Em cada episódio, após muitos perigos, o espião triunfava.
Na altura, escapavam-nos as subtilezas das divisões polacas entre comunistas e nacionalistas, os crimes, a partilha da Polónia no pacto germano-soviético (aqui, entrava bem uma história real, do dia em que deixei de acreditar no sistema de ensino). Mas, sobretudo, não podíamos compreender a metáfora escondida naquela história de duplicidade. Kloss era também um símbolo da Polónia submetida, obrigada a esconder a verdadeira natureza e os sentimentos mais íntimos. O destino do agente duplo era, nessa perspectiva, íntimo. Para mim, adolescente, aquilo não passava de uma boa história; mas Kloss era um herói sem esperança de regressar aos seus, envolvido numa luta desesperada, visto como eterno Judas. Pensando bem, era o jogo duplo dos povos submetidos no império soviético. Compreenderia isso mais tarde, ao ver os filmes de Andrzej Wajda (Kanal ou Cinzas e Diamantes)
Dizem-me que o actor Stanislaw Mikulski foi brilhante em Kloss, mas confesso que não me lembro desse aspecto. Por vezes, na minha memória incerta, as histórias de Kloss confundem-se com as dos Quatro Amigos e um Cão, que a bordo do seu T-34 vão pulverizando os panzers nazis. Era outras das séries de leste, essa menos metafórica.
Enfim, nesse tempo aprendi a gostar da Polónia. Ainda sei dizer “Muito bem, senhor Capitão”, com irrepreensível pronúncia varsoviana. Chateia-me quando vejo um snob a desvalorizar o leste. Tenho nostalgia destas séries ingénuas com tantas coisas nas entrelinhas e uma sensação de bom recuo no tempo quando leio a palavra koniec.

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