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Fora de série (13)

por João Távora, em 05.11.07

Há poucos anos, com o advento do DVD, recuperei cá para casa o humor rock n’ roll d' Os Marretas, que já no final dos anos setenta aligeirara o fosso geracional na casa dos meus pais, juntando toda a família ao serão dos Domingos. Essa meia hora mágica situava-se entre a costumeiro jantar de suculento frango assado e a acabrunhada preparação da nova semana de aulas que ameaçadoramente despontava.
“Os Marretas” foi uma genial série de televisão americana estreada em 1976 da autoria de Jim Henson e sua trupe de prazenteiros manipuladores e criadores de bonecos. Jim Henson, que nos deixou prematuramente em 1990, já tinha no curriculum a colaboração regular dos seus bonecos no prodigioso programa educativo Rua Sésamo desde 1968, e desde 1961 num obscuro show humorístico "Sam e os Seus Amigos" onde já pontificava um simpático boneco “peúga”, talvez a génese do celebradíssimo sapo Cocas.
A inconcebível colecção desta mágica fábrica de "fantoches" num frenético ritmo rock, às vezes bem psicadélico, foi crescendo em tamanho e graça: do minimal felpudo “fole” dançarino, da peúga falante ao urso Fozie - o inseguro aprendiz de comediante, passando pelo caótico Gonzo e toda a sorte de animalejos e objectos.
Naquela desregrada "companhia teatral” todos os personagens - e alguns dos adereços - têm vida e personalidade muito próprias. Podemos ver umas alegres Couves e outros legumes a dançar folclore polaco, os ratos, baratas e demais bicharada residente a exigir um aumento de cachet ao sapo Cocas, o inabalável director e apresentador daquela literalmente explosiva empresa. Este tem como braço direito o influente moço de recados Scooter, sobrinho do dono da sala de teatro. E que dizer dos velhotes Statler e Waldorf, sempre teimosamente insatisfeitos, no alto do seu camarote? E do Sam, a moralista e inquisidora águia americana?
Durante os endiabrados espectáculos, Cocas lá vai mantendo a calma no meio do caos, mantendo o alucinante ritmo das variedades, sempre com um convidado (muito) especial. Entrevistou por exemplo Julie Andrews, enquanto a troupe do Canhão Humano se preparava para disparar uma vaca (verdadeira). Salva-a do expulsivo destino Gonzo (enigmática espécie animal) que negligenciando a sua bem amada Camila (uma galinha) enamora-se arrebatadamente pela vaca com quem desaparece para um jantar romântico. Em abono da verdade, tartes espetadas na cara, trambolhões e violentas explosões num humor assim “inteligente” apenas encontrei nos "Monty Python" e n' "Os Marretas".
Do sapo Cocas ao jazzístico e imperturbável saxofonista Zoot, todos os personagens possuem um sólido carácter e profundidade “humana” (?!), expressa com mestria no desenho, voz e manipulação daqueles inimagináveis bonecos, de cores mirabolantes de olhos piscos e desmesuradas bocas. O humor nonsense impera n’ "Os Marretas", a par com os convidados especiais ao momento “na berra” do Show Business. E música, muita boa música Jazz, Folk e Rock n’ roll, numa impecável interpretação da extraordinária banda residente liderada pelo Dr. Teeth nas teclas, com o Monstro na bateria, o Floyd à guitarra, e a doce Jenice a cantar, por entre os minimais solos de saxofone de Zoot. Um verdadeiro tributo à boa música popular. Ou também à música erudita, pelas patas do carismático Rowlf, o cão pianista. É obrigatória uma referência à Miss Piggy, que nunca me seduziu por aí além. Talvez por sempre me ter parecido uma personalidade demasiadamente colada à de tantas caricaturas vivas da existência real.
Foi com "Os Marretas" que consegui detectar o pezinho maroto do meu pai, no alto do seu sofá, a bater o ritmo do rock mais pesado. E a rir-se à gargalhada com os chavões dum tempo que definitivamente já não era o dele. Talvez por isso, eu tenha promovido em casa, com os meus miúdos, o culto destas fabulosa série. E que obteve uma adesão incondicional, o que confirma que o bom gosto é mesmo intemporal.
À parte das “longas metragens”, onde nunca consegui vislumbrar a qualidade dos curtos episódios temáticos (ou não) para a TV, estão disponíveis no mercado algumas colectâneas ou programas especiais que são autenticas preciosidades, hinos à inteligência e à gargalhada salutar. Aconselho vivamente, por exemplo, a Gala Especial dos 25 anos dos Marretas, onde se encontram juntas algumas das mais singulares e históricas pérolas do sapo Cocas e companhia.

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Fora de série II (2)

por Pedro Correia, em 03.10.07

O meu Rosebud era um canguru

Sempre gostei de séries com animais. A minha infância esteve cheia delas. Lembro-me: havia um golfinho chamado Flipper, um leão chamado Daktari, um cavalo negro chamado Fúria, até um urso pardo chamado Gentle Giant. Mas, entre as séries que a RTP exibia nas tardes de fim de semana, nenhuma me seduziu tanto como esta - produzida entre 1966 e 1968 pela CTVA australiana - que tinha um canguru como personagem principal. Chamava-se Skippy, este marsupial que seguia o jovem dono como se fosse um cão. Foi quanto bastou para sentir uma vontade enorme de ter também um bicho destes. O problema é que cangurus livres como o vento só existem na Austrália - talvez por isso os do Jardim Zoológico de Lisboa nunca me despertaram interesse. Se não podiam vir eles cá, fui eu lá. Um dia, nos arredores de Darwin, já a cidade cedera lugar à savana, aconteceu um momento mágico: um canguru veio ao meu encontro. Livre e solto como o vento. Lá estava ele - o "meu" Skippy. Demorou-se só o tempo necessário para lhe disparar uma fotografia e logo me virou as costas, indo à sua vida. Mas bastou este momento para justificar a minha deslocação à Austrália. Ainda hoje penso nisto. E logo me vêm à memória os versos do tema musical da série: "Skippy, Skippy, Skippy the bush kangaroo / Skippy, Skippy, Skippy a good friend true."
Desconfio que não preciso de procurar mais: o meu Rosebud é mesmo este.
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Reedito este texto que aqui publiquei a 16 de Março. Vem mesmo a calhar.

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Fora de série II (1)

por Corta-fitas, em 02.10.07

Lesson very carefully, I shall say this only once: o Allo, Allo foi a maradice mais empolgante que me foi dado ver em televisão! De tal forma que quando acabou senti-me meio perdida: e agora? Onde voltaria eu a arranjar outra família de acolhimento assim?
A velha caduca (Rose Hill), cheia de ímpetos libidinosos e sem pachorra para aquele entra e sai que lhe perturbava as tardes que passava na cama com o pianista LeClerc (Jack Haig) era a figura incontornável do sótão e uma das minhas personagens predilectas. A filha, Edith (Carmen Silvera) quando se punha a cantar era uma aflição tão grande que até nos esquecíamos que ainda havia coisas boas no mundo. O cangalheiro (Kenneth Connor), o dedicado apaixonado de Edith que qualquer mulher gostaria de não ter, os oficiais das SS, qual deles o mais cobarde, o terrível Herr Flick (Richard Gibson) tão arguto como um pneu sobresselente, a arianíssima Helga (Kim Hartman), com as suas vozes de comando atroadoras e claro, René (Gorden Kaye), aquele sonso e herói involuntário da resistência, habitaram durante dez anos (entre 1982 e 1992), o universo delirante que em boa hora foi concebido por Jeremy Lloyd e David Croft para a BBC.
Até hoje não esqueci os tiques que abrilhantavam a composição de algumas daquelas personagens. Ainda oiço distintamente aquele polícia (Arthur Bostrom) dizer “good moaning”, num “francês” cuja pronúncia desastrosa fazia René suspirar de irritação. Também não vou esquecer a saudação nazi de um dos oficiais das SS, tão frouxa que se tornava sempre suspeita aos olhos dos seus superiores. E que dizer dos maneirismos de Gruber (Guy Siner), cujo olho tremia de excitação sempre que se acercava do seu amado?
Perverter a memória do período mais tenebroso da nossa História recente através do nonsense é uma ideia de génio. Saber aplicá-la com o virtuosismo que nos foi dado a assistir é notável. Allo, Allo ficará, indiscutivelmente, para a história da televisão como uma das séries mais bem concebidas de sempre. Argumento (brilhante), guiões (hilariantes), composição da maioria dos actores (inesquecível). Como não poderia eu ficar a sofrer do síndrome de privação assim que acabou?
Enfim, prescindir da minha dose semanal de Allo, Allo já foi difícil, mas o pior foi esta preocupação constante que me ficou a atormentar o espírito desde então: alguém sabe que destino é que deram ao quadro da Madonna with the big boobbies?

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Fora de série (10º e último)

por Corta-fitas, em 01.10.07

Em 1984, os alemães assistiram embasbacados na televisão à estreia do mais longo filme da história do cinema: «Heimat – Eine Deustche Cronik» tinha 940 minutos, repartidos em 11 episódios. Em 1992, o recorde seria batido: «Die Zweite Heimat» chegava aos 1.532 minutos de duração. A terceira e última parte, por vicissitudes várias, seria bem mais curta e estrearia com apenas seis episódios de 90 minutos.
Desde o primeiro episódio, Edgar Reitz conseguiu chocar a intelectualidade alemã por duas razões. A primeira quando optou por privilegiar o formato televisivo e só depois estrear no grande ecrã. A segunda, por recuperar um termo que ainda fervia de conotações e escarafunchava nas feridas pós-traumáticas do pós-guerra, as quais tinham tornado diversos vocábulos simplesmente «verbotten». Nem «Pátria» nem «Nação», Heimat é simultaneamente lugar e tempo, território e comunidade. É o lugar da infância, mas num significado só intuído quando já é tarde demais para entendê-lo, quando nos apercebemos da sua perda entre os acessos vaporosos da nossa nostálgica memória. Heimat é o Tempo e o Espaço, reunidos numa Terra do Nunca Mais.
As primeiras duas séries passaram entre nós, no segundo canal da RTP. Para mim, «retornado» e a cuja Heimat não mais regressaria (ou eu a ela) porque se perdera para sempre entre as polaroids e os filmes Super 8 da minha infância, o deslumbramento foi inevitável. Houve algo de essencial que me tocou, para além da beleza corpórea e etérea da cinematografia de Gernot Roll. As personagens não tinham apenas a sua própria vida por dentro, tinham também parte da nossa. Parte da minha.
Como escreveu Sigfrid Gauch: «O cineasta Edgar Reitz, de Morbach, em Hunsrück, deu fama mundial a este Estado. (…) Hunsrück como uma parte do mundo, como se fosse realmente um paradigma para o mundo, sendo compreendida dessa maneira em cerca de cinquenta países, onde foi mostrada». Nesta trilogia, o que Reitz nos diz é que a porta da sua casa e a porta da nossa podem não ter o mesmo código postal. Mas ambas ficam na mesma rua que a História percorre.

Um «muito obrigado» pela imagem ao Paixões e Desejos.

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Fora de série (9)

por Francisco Almeida Leite, em 30.09.07
Que saudades da série The Fugitive que a RTP2 em tempos passava religiosamente às oito horas da noite e a que eu, também religiosamente, assistia dia sim dia sim. Lembro-me da ansiedade que antecedia o início de cada episódio, que eu via a preto e branco numa enorme Nordmende. Ansiedade é, aliás, a melhor palavra que encontro para definir o que se passava em todos e em cada um dos episódios. O bom do dr. Richard Kimble sempre em perseguição do One-Armed Man que ele sabe ter assassinado a sua belíssima mulher. Incansável, Kimble (interpretado por David Janssen) percorre os EUA de lés a lés, movido por um sentimento de raiva e de vingança pelo que perdeu, o amor da sua vida.
No meio da sua saga, Kimble, com uma moral cristã acima de toda a prova, encontra sempre tempo, forças e disponibilidade para ajudar o próximo - mesmo foragido à Justiça e sempre com o tenente Philip Gerard à perna. Seja uma dona de casa em apuros, um negro injustiçado pelo racismo ou um gato em cima do telhado (estou a exagerar). A série de Roy Huggins e Quinn Martin foi um estrondoso sucesso nos EUA, sendo emitida de 1963 a 1967 na ABC. Quando a série deu em filme, nos anos 90, e com Harrison Ford no papel de Kimble, não fiquei desiludido. Pelo contrário. A angústia de episódios sem um fim à vista resolveu-se ali em duas horas e tal. Mas resolveu-se bem e a fuga do One-Armed Man, que escapava sempre por um triz na televisão, ali não dura muito. Sempre é menos angustiante.

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Fora de série (8)

por João Távora, em 28.09.07
Justificar o meu deslumbramento por uma música, por uma tela ou por qualquer performance artística afigura-se quase sempre pena maior do que arrancar um dente. Daquilo que eu gosto muito, gosto como um autêntico basbaque, com arrepios no corpo e pele de galinha na alma. E a relação que desenvolvo com o objecto da minha percepção é sempre muito condicionada pelas circunstâncias emocionais. Os estímulos e impressões daí resultantes são assunto terrivelmente solitário e de difícil expressão. Antes assim não fosse.
Vem isto a propósito de Os Vingadores (Grã Bretanha 1961-69), a minha saudosa série de TV que eu devorava fascinado cada episódio, através da velha televisão a válvulas da casa dos meus pais. No início, quando ainda mal sabia ler as legendas, assistia aos episódios numa semi-clandestinidade. É que numa família pouco liberal como a minha, a criançada tinha impreteríveis horas para se deitar. Mas havia truques e manhas para me fazer passar despercebido: no chão, de pernas cruzadas a respirar baixinho, num discreto recanto. Até que o meu pai dava conta que eu ali estava, tenso, mas flagrantemente feliz. Às vezes ele, adorável como sabia ser, suspirava e lá condescendia; outras, corria-me dali para a cama, cortante e autoritário, mesmo na altura do emocionante desenlace. Construí a relação com o meu pai com cumplicidades e desavenças. Ele era enorme, irascível e... meigo. Quantas vezes ficávamos os dois noite fora a ver Os Vingadores ou o Comissário Maigret... Os anos que passaram, progressivamente, acentuaram a nossa crónica incomunicabilidade. Mas como eu o admirava, mesmo quando na adolescência lhe ganhei os primeiros jogos de xadrez...
Num rebanho de cinco irmãos, cada um tinha que sobreviver e afirmar-se como podia, e nós lá arranjávamos os nossos "fetiches" ou "causas". Eu, além do Sporting – um factor não diferenciador -, era simplesmente pela Inglaterra, nas marcas de carros, no futebol, no rugby ou na Fórmula I. Até me dava um secreto prazer saber que a criadora do Noddy era britânica.
Os Vingadores possuía arrebatadores atributos para me seduzir: mistério, um herói com estilo, carros, perseguições de automóveis e mulheres deslumbrantes. Sabiam que Catherine Gale, a miúda (Honor Blackman) da terceira série veio a ser a Bond Girl de 007 contra "Goldfinger"?
John Steed (Patrick McNee) era um gentleman, imperturbável herói, com o seu charmoso meio sorriso, um inseparável chapéu de coco anti-balas e o conveniente guarda-chuva, não só por causa do britânico clima, mas por ser uma arma secreta, ao bom estilo de 007.
O resto eram lustrosos e potentes automóveis sport, em perseguições pelas ruas de Londres, nas estradas e nos campos da minha mistificada Inglaterra dos Beatles. John Steed conduzia um espectacular Rolls Royce Silver Ghost de 1927. Gostava do jeito afidalgado do herói e daquela pronúncia ao estilo BBC. Gostava dos cenários rocambolescos, dos palácios, bibliotecas e frondosos jardins. Também me deixei seduzir por Emma Peel, (Diana Rigg) mulher resoluta e ágil no seu macacão de couro, quase tão feminina como a idílica fada do Pinóquio. Mais tarde foi substituída por Tara King (Linda Thorson), na quinta série, também sexy mas mais irreverente, a acompanhar o decurso das modas da revolucionaria década de sessenta. Por fim lembro-me da “Mãe”, o fleumático e misterioso chefe da organização ao serviço de Sua Majestade. Só no início da penúltima série nos é revelado o seu aspecto físico: um homem imensamente obeso sempre sentado na sua cadeira de rodas e rodeado de telefones.
Mas nem sempre devemos voltar aos locais onde um dia fomos felizes. Há uns anos revi um episódio da série e confesso que sofri uma certa desilusão: os efeitos especiais não eram nada do outro mundo, e o guião menos sofisticado do que me parecia então. Essa simpática ilusão fora criada à conta da minha ingenuidade, e dos afectos vividos nesse tempo. É talvez por isso que a série Os Vingadores me trará para sempre boas memórias.

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Fora de série (7)

por Corta-fitas, em 27.09.07
O Pai Ingalls

No princípio dos anos 80 La Familia Ingalls – assim foi traduzida para castelhano a série norte-americana Little House on the Prairie – foi uma das séries mais amadas na Argentina. Vivia eu em Buenos Aires com os meus pais e irmãos e por isso recordar a saga de Michael Landon é lembrar-me desses tempos em Olivos. Creio até que foi a primeira série que vi. Com seis e sete anos não reparava que cada episódio encarnava os postulados arreigados da moral protestante da América. Nem me apercebia que o melodrama de uma família rural norte-americana à procura do seu lugar no velho Oeste do século XIX continuava a ser a expressão, mais de um século depois, do sonho americano. O que eu sim reparava, de maneira irreflectida claro, era na intensidade da figura do Pai – Charles Ingalls, interpretado por Michael Landon. Cada episódio explorava a tensão entre a presença e a ausência do Pai. Se Charles não estava, tudo parecia correr mal à boa família de Plum Creek - a mãe, Carolyne, e as três filhas – Mary, Laura e Carrie. Charles era a protecção, a sabedoria, a força física daquelas mulheres. Laura era de facto a protagonista – a doce rebelde e desassombrada Laura Ingalls (Melissa Gilbert). Mas era à sombra do Pai, o seu ídolo, que ela respirava liberdade. Mesmo os pícaros irmãos Nellie e Willie, filhos do ridículo e snob casal Oleson - Nels e Harriett - donos do armazém, se rendiam perante a estatura moral do Pai Ingalls. Aliás, a família Oleson era precisamente o contraponto dos Ingalls. Com os Ingalls ríamo-nos dos perversos, mas também desastrados Oleson. Com os Ingalls moralizávamos tudo e todos.
Michael Landon nunca escondeu a agenda moralista da série. Ele próprio decidiu fazer dos escritos de Laura Ingalls Wilder (Little House, 1938) um exemplo. E o que é certo é que durante nove anos consecutivos (de 1974 a 1983) a NBC fez sucesso ao defender os valores da família unida que superava sempre todo o tipo de contrariedades e até as discriminações de cara alegre. À parte o irrealismo moral, foi uma série que me prendeu à televisão e que hoje me leva a questionar o que fez desaparecer tão repentinamente a figura do Pai da cultura familiar ocidental.

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Fora de série (6)

por Pedro Correia, em 24.09.07

A América de Archie Bunker

Bastavam os primeiros acordes do genérico para me porem colado ao ecrã. Um genérico fabuloso, com um casal de meia-idade entoando uma cançoneta ao piano no recato doméstico. Os versos da cançoneta diziam tudo sobre a intenção satírica desta série da CBS. Nunca os esqueci.
Boy the way Glenn Miller played
Songs that made the hit parade.
Guys like us we had it made,
Those were the days.

E logo um zoom nos introduzia na residência de Archie Bunker. O irascível, antipático, furibundo Archie Bunker – uma das mais perenes personagens da ficção televisiva de todos os tempos. O típico americano médio, cheio de preconceitos sociais, culturais e raciais. Reaccionário até à medula, apoiante cego de Richard Nixon e da guerra do Vietname, inimigo figadal dos ventos da História que nesses idos de setenta prometiam uma revolução cultural no país mais poderoso do planeta.
And you knew who you were then,
Girls were girls and men were men,
Mister we could use a man
Like Herbert Hoover again.
Um dos mais deliciosos ingredientes da série era o modo como subvertia o dogma então vigente sobre a classe operária como vanguarda social. Archie era operário – “explorado pelo capital”, um remediado sem horizontes –, o que não o impedia de destilar ódio contra os imigrantes que vinham “roubar-nos os postos de trabalho”. Contra os negros, “delinquentes por natureza”. Ou contra os judeus, que “assassinaram Cristo”. Conservador empedernido, rogava pragas ao desconserto de um mundo onde todas as peças lhe pareciam subitamente fora do lugar. Daí nasciam as homéricas discussões que mantinha com o genro, Mike, um intelectual de esquerda que lhe servia de contraponto ao exibir uma fé inquebrantável no progresso.
Didn’t need no welfare state,
Everybody pulled his weight.
Gee our old LaSalle ran great.
Those were the days.

All in the Family (que uma feliz tradução portuguesa baptizou de Uma Família às Direitas ao ser exibida na RTP) tinha diálogos de cinco estrelas, que nos faziam rir até às lágrimas, tornando Archie num ícone popular, malgré lui e as ideias que propagava. Algumas das suas expressões incorporaram-se no vocabulário comum, como “fecha a matraca” (a ordem da praxe para mandar calar a incomparável Edith, a mulher que lhe aturava todos os caprichos) ou “cabeça de abóbora” (o feroz qualificativo que reservava ao genro). Era uma série de texto, mas também de actores, servida por um quarteto de intérpretes de luxo. Carroll O’Connor (Archie), Jane Stapleton (Edith), Sally Struthers (a filha, Gloria) e Rob Reiner (o genro, que na vida real se tornaria realizador de filmes inesquecíveis, como Misery ou When Harry Met Sally). Era um tempo em que nos podíamos rir de todos os tiques e de todos os dogmas. Antes da televisão padronizada, liofilizada, industrial e politicamente correcta.
“A ‘seriedade’ não costuma ser um sinal inequívoco de sabedoria, como julgam os pasmados: a inteligência deve saber rir”, como nos ensinou Fernando Savater. É nisso que penso ao rever hoje cada episódio desta extraordinária série que psicanalizava a classe média americana e se mantém actual, superando as barreiras da moda, do gosto e do tempo. Porque a América de Archie Bunker não morreu: apenas se alterou o suficiente à superfície para continuar tão tacanha como dantes.

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Fora de série (5)

por Cristina Ferreira de Almeida, em 22.09.07
A minha infância e adolescência tiveram pouca televisão. Por razões que já não sei precisar, tudo lá fora parecia mais interessante do que estar sentada em frente ao ecran. E foi só com o Fame que ficar em casa a ver televisão passou a ser o plano A.
Ao mesmo tempo que estava viciada na série, sentia-me brutalmente infeliz quando o episódio acabava. Eu queria ser mulata e era só morena. Eu queria dançar em movimentos sintonizados e era disléxica. Eu queria usar perneiras de tricô de corres berrantes por cima de umas leggings, mas o meu guarda-fatos só tinha kilts e calças de ganga bem comportadas. Eu queria que o Leroy olhasse para mim com aqueles olhos doces, mas entre os rapazes que eu conhecia nem um usava tranças. Eu queria ter um sonho que me arrastasse para situações de privação, mas mudava de ideias todos os dias sobre o objectivo final (ainda sou assim, só deixei de usar kilts).
A única coisa que estranhava em Leroy, Danny, Jesse, Chris e Coco era o ingrediente que dava nome à série. Eles queriam dançar, cantar, actuar e tocar mas, mais do que tudo, eles queriam ser famosos. Tanto quanto me lembro, foi a primeira vez que a fama surgiu em televisão como um objectivo final, para o qual se tinha que penar. Lembram-se do discurso da professora de dança, que interrompia o genérico? "Vocês querem ser famosos, mas a fama tem um preço. E é aqui, na Escola das Artes, que o começam a pagar. Em suor!". Para quê? Nunca percebi.
Tinha pensado procurar alguns elementos factuais para este texto, mas tive receio de esbarrar em informações sobre como estão os miúdos do Fame na actualidade. Prefiro não saber. "I want to live forever!"

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Fora de série (4)

por Maria Inês de Almeida, em 20.09.07
O idílico Barco do Amor

A sua fórmula de sucesso era simples mas eficaz. Entrada dos passageiros no barco com a tripulação a saudar as pessoas, enredo amoroso, beijo na proa do barco (com ou sem pôr-do-sol), fim da viagem, e tripulação faz as despedidas.
Criada e produzida por Aaron Spelling – falecido o ano passado e mentor de outros grandes sucessos, como Os Anjos de Charlie e Beverly Hills 90210 –, O Barco do Amor inspirou-se no bestseller autobiográfico escrito por Jeraldine Saunders, que focava as proezas românticas da tripulação de um navio. Mas, The Love Boat ia mais longe, pois contava as aventuras e desventuras vividas no cruzeiro, não só pelos membros da tripulação – alguns eram frescos… –, como pelos passageiros. A série americana, que começou a ser transmitida no final dos anos 70 e que se prolongou até 1986, tinha os condimentos necessários: romance, comédia, mistério e a magia e glamour que, quem já embarcou na experiência, diz ser própria dos cruzeiros.
O Barco do Amor era uma das séries que muitas vezes estava presente no magazine Agora Escolha, apresentado por Vera Roquette, que nos apresentava duas opções de visionamento. Nós éramos os seus “amiguinhos”. Enquanto os telespectadores votavam – eu nunca senti o apelo de pegar no telefone e ligar – entre Os Três Duques e o Barco do Amor ou Um Anjo na Terra contra O Barco do Amor, ou O Barco do Amor contra Soldados da Fortuna – eram múltiplas as combinações – assistia ao “Boi Bocas” ou à “Ana dos Cabelos Ruivos” e ia controlando a votação no canto superior esquerdo do ecrã. Quase sempre torcia pelo Barco do Amor. Não sei se pelo fascínio que era imaginar que também podia fechar os olhos e ser transportada a bordo do Pacific Princess, ou se pelo lado mais romântico de ver finais felizes – todos os passageiros, apesar de problemas que tivessem tido, saíam com um sorriso na cara. Enterrada no sofá, a lanchar, ficava a imaginar se, também eu, um dia iria viver um amor a bordo de um navio. Em criança, são sempre muitas as nossas divagações, enquanto mastigamos o pão com qualquer coisa e bebemos o leite.
E porque a memória é selectiva, as caras que num primeiro momento logo me vêm à memória são sempre as mesmas. A do comandante Merrill Stubing (Gavin MacLeod) – já sabia apreciar e entender qual o significado da palavra “charmoso” –, a simpatia e o sorriso de Julie McCoy (Lauren Tewes) e a do Dr. Adam Bricker (Bernie Kopell), o médico do navio que encontrava algumas das suas ex. Mas depois vem o barman de serviço e os seus conselhos, Isaac Washington (Ted Lange); Burl “Gopher” Smith (Fred Grandy), com tendência para atrair situações mais problemáticas e Vicki Stubing (Jill Whelan), a filha de 12 anos do comandante. Resumindo: “Love, exciting, and new”.

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Olá caros leitores,

Bem vindos a Hooterville e a mais um fora de série dos great oldies do nosso encantamento. Recordam-se de Green Acres, uma quintarola a cair aos bocados perdida num lugarejo habitado por meia dúzia de patuscos indígenas e onde ocorrem fenómenos estranhos? Ou não me digam que um porco que vê televisão e vai à escola não é uma bizarria? Talvez por cá, mas em Hooterville tudo é possível. Até mesmo no Entroncamento seria um fenómeno da twilight zone.
Já terminou o telejornal a horas certinhas, a família está no sofá em frente ao televisor que enche a sala, que o Green Acres tem piadas para crianças e adultos. Nem pipocas nem apitos de telemóveis por favor, que não são tempos de modernices.
E é hora de mais um episódio de Viver no Campo, uma série cheia de situações absurdas e circunstâncias surreais: uma loura explosiva com sotaque húngaro e robe de setim branco tenta cozinhar qualquer coisa que se assemelhe a panquecas, um executivo cosmopolita atende o telefone em cima de um poste, um empregado preguiçoso arrasta-se entre cenas perfeitamente inútil e um oportunista multi-funções cheio de lábia tenta arrecadar mais algum.
O porco que lê e fala francês? Lembram-se de Arnold o filho adoptivo do venerável casal de Hooterville? Só mesmo o Douglas consegue manter a sanidade e ver um porco onde só existe um porco. Os restantes indígenas agradecem quando o bicho lhes entrega o jornal. Tudo normal.
Há ainda outro personagem que é ao mesmo tempo presidente da junta, chefe dos correios, filósofo e proprietário do Drucker's General Store. Provavelmente o único com tino no meio daquela parvónia (ainda sem jeeps) onde os autóctones se deslocam em velhos tractores e carripanas caprichosas. Um mano e uma mana carpinteiros sem jeito nenhum lá vão surgindo de vez em quando fazendo desacatos onde deviam fazer reparações, e é tudo.
No meio deste absurdo e de tantas cenas hilariantes, confesso que sempre tive uma dúvida. Coisas de criança sem ousadia para perguntar: como era possível o cabelo da Lisa estar sempre tão maravilhoso e porque motivo os robes brancos nunca estavam sujos de lama ou pó? Aquilo não batia certo. Talvez a primeira de muitas fantasias que haveria de ver na televisão e no cinema.
Agora, lavar os dentes, xixi e cama que estão os patinhos a cantar.
Ou, se quiserem, a minha versão adulta ao estilo da Lisa: Darling, I love you, but give me Park Avenue.


Green Acres

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Fora de Série (2)

por Luís Naves, em 19.09.07


A insustentável leveza do leste

Em 1974 e 1975, Portugal descobriu que até aí ignorara uma parte do mundo. Nesse tempo, houve excursões ao paraíso do leste e chegavam ao Coliseu as danças e cantares de Krasnoiarsk, a ópera moldava e os acrobatas de Moscovo. Houve um fascínio quase doentio pelo bloco socialista. De tal forma o fenómeno se tornara ideológico, que deixou de ser possível ficar no meio da barricada a apreciar o panorama: ou se bebia a propaganda até à última gota (eles viviam numa gigantesca Vida Soviética a cores e Soljenitsyne, o agente da CIA, inventara cada palavra do seu Gulag); ou os do leste eram todos comunas, comiam criancinhas e até os periquitos nasciam já com cor vermelha.
Enfim, esta crónica não pretende falar de política, mas apenas lembrar que na televisão, no pequeno quadradinho mágico, essa clivagem também se fez sentir.
Um dos heróis da época chamava-se Kloss e tinha a patente de capitão. Acho que esta série polaca foi vista por todos nós um pouco ao contrário, pois era mais complexa do que parecia. Hoje, é fácil chegar a esta afirmação, na medida em que já sabemos o que a História ditou para o bloco socialista, que começou a ruir exactamente na Polónia.
Tento explicar melhor. Kloss era um agente polaco infiltrado no poderoso exército nazi. A sua inteligência superior permitia-lhe descobrir os segredos militares alemães e passá-los à resistência e aos aliados. Em cada episódio, após muitos perigos, o espião triunfava.
Na altura, escapavam-nos as subtilezas das divisões polacas entre comunistas e nacionalistas, os crimes, a partilha da Polónia no pacto germano-soviético (aqui, entrava bem uma história real, do dia em que deixei de acreditar no sistema de ensino). Mas, sobretudo, não podíamos compreender a metáfora escondida naquela história de duplicidade. Kloss era também um símbolo da Polónia submetida, obrigada a esconder a verdadeira natureza e os sentimentos mais íntimos. O destino do agente duplo era, nessa perspectiva, íntimo. Para mim, adolescente, aquilo não passava de uma boa história; mas Kloss era um herói sem esperança de regressar aos seus, envolvido numa luta desesperada, visto como eterno Judas. Pensando bem, era o jogo duplo dos povos submetidos no império soviético. Compreenderia isso mais tarde, ao ver os filmes de Andrzej Wajda (Kanal ou Cinzas e Diamantes)
Dizem-me que o actor Stanislaw Mikulski foi brilhante em Kloss, mas confesso que não me lembro desse aspecto. Por vezes, na minha memória incerta, as histórias de Kloss confundem-se com as dos Quatro Amigos e um Cão, que a bordo do seu T-34 vão pulverizando os panzers nazis. Era outras das séries de leste, essa menos metafórica.
Enfim, nesse tempo aprendi a gostar da Polónia. Ainda sei dizer “Muito bem, senhor Capitão”, com irrepreensível pronúncia varsoviana. Chateia-me quando vejo um snob a desvalorizar o leste. Tenho nostalgia destas séries ingénuas com tantas coisas nas entrelinhas e uma sensação de bom recuo no tempo quando leio a palavra koniec.

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Fora de série (1)

por Corta-fitas, em 18.09.07

À medida que a Internet foi entrando, a televisão foi saindo. Não há originalidade nisto. É um sinal dos tempos e só Deus sabe (bom, Deus e alguns colegas e amigos) quanto lutei contra a invasão das novas tecnologias na minha vida. Tudo isto para dizer que é difícil, nos tempos que correm, manter-me fiel a uma série de televisão. É uma prisão, uma preocupação, não tem a elasticidade da Net, nem a portabilidade de um livro. A última série que me amarrou à cadeira e me fez adiar compromissos foi Os Sopranos. Até do tema do genérico eu gostava e se há coisa que eu odeio é rap...
A moral da máfia, em que me iniciei com a trilogia de O Padrinho, voltava a fascinar-me. Acho que me deixei seduzir pelo Tony Soprano como Jennifer Melfi, a sua psicanalista. James Gandolfini, no papel da sua vida, entrava-me em casa todas as semanas, tão vulnerável quanto brutal e eu, durante o tempo que durava cada episódio, suspendia de boa vontade a minha vida para viver a dele e surpreender-me com as minhas próprias contradições: Como é que eu podia sentir simpatia por um assassino?
Tecnicamente próxima da perfeição, a série criada por David Chase é claro que transcendia o mundo da mafia. Para além das actividades da "rapaziada", acompanhávamos a evolução daquela família disfuncional a vários títulos tão representativa de uma certa América e as inesquecíveis sessões de terapia de Tony, na minha opinião a componente de charme da série. O New York Times considerou-a "provavelmente a melhor obra da cultura popular americana dos últimos 25 anos".
Este domingo Os Sopranos receberam mais três Emmys. Desde 1999, o ano da sua estreia, foram distinguidos com 18 Emmys e nomeados 111 vezes. Terão comprado os votos? Com a máfia nunca se sabe... A mim devem ter-me drogado, porque na verdade, viciei-me. Se tivesse psicanalista discutia isto com ela: acho que tanta dependência se ficou a dever sobretudo a essa empatia que eu criava com Tony à minha própria revelia. Durante 50 minutos por semana perdoar ou compreender aquilo que no meu perfeito juízo só poderia rejeitar veementemente era como dar uma voltinha na montanha russa e cheia de adrenalina gostar de ficar a ver tudo de pernas para o ar...

Enfim, uma coisa é certa: quando o telefone tocava à hora dos Sopranos eu nunca estava. E se alguém me forçasse mesmo a interromper, era bem capaz de levar um tiro no meio dos olhos. Só para aprender que às vezes comigo não se brinca.

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