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Uma conspiração e o Anticiclone dos Açores

por João Távora, em 22.07.11

 

Desde há três semanas, quando decidimos alugar um toldo estrategicamente junto ao mar na praia da Poça para preenchimento das intermináveis férias dos miúdos, que aqui em S. João do Estoril somos todos vítimas dum maquiavélico boicote meteorológico: para lá do sol que anda meio amuado quiçá com a crise económica, por estas bandas vem imperando uma ventania desaustinada. A nortada que nesta época aqui na zona só se estranha pela invulgar brutalidade, verga as árvores, derruba-lhes ramagens, projeta pró chão os caixotes de lixo que por aí fica a voar em imprevisíveis espirais e rodopios, chicoteado por um assobio enervante que ao final da tarde até chega a assustar.
Sabemos agora pelo DN que a culpa é (de quem havia de ser?), do Anticiclone dos Açores, que em vez de se ter deslocado para o noroeste da Galiza como é habitual nesta altura, se vem quedando junto das ilhas que lhe dão o nome. Não sendo o caso imputável ao inenarrável Carlos César, desconfio que tudo isto afinal não passa duma perversa cabala das agências de rating que desde que nos descobriram no mapa só existem para nos lixar.
De Milfontes, onde a família se refugiará em breve, já nos avisaram para reforçar os agasalhos, o que diga-se de passagem não me parece grave, dado que não é um casaco de malha que prejudica o gosto duma bela dourada fresca ou dumas amêijoas à Bulhão Pato, com uma imperial bem fresquinha. 

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Estes dias

por João Távora, em 01.08.10

 

…são um exercício de crescente desapego da muita tralha que nos distrai e constrange durante a maior parte do ano de responsabilidades, tensões e inadiáveis objectivos. Há uma vertigem neste processo de progressivo desprendimento de rotinas e fetiches que alicerçam a personagem que pretendemos ser. É o resgate da alma, o encontro com Deus, com aquilo que é essencial. Não ter controlo, aceitar a providência, sonhar acordado e sem idade outra vez. Tudo se resolve afinal.

À noite encontramo-nos preguiçosos no meio dos livros começados e dos jornais amarrotados, ao som das cigarras e do chapinhar dos barcos na maré enchente. Os pequenos já dormem enquanto a festa murmura de longe, sôfrega e batida. A fingir que o amanhã não importa.

 

Fotografia: Milfontes, Canal em 1933, da colecção de Filipe Menezes, com os devidos agradecimentos.

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Um postal do sudoeste

por João Távora, em 30.07.10

 

Do relativismo consentido com que perspectivamos o Mundo visto dumas férias na praia, soam ecos dos incêndios que grassam e destroem o país real, tanto quanto a caricatura da Justiça a que estamos entregues. São notícias relidas em papel de jornal com areia que competem as de medalhas lusas no campeonato de atletismo em Barcelona, e de emotivos jogos de futebol a feijões ou o prenúncio de glória que constituem as auspiciosas contratações leoninas. Nessa escala, uma Imperial bem tirada, bem loirinha e cintilante com milhares de bolhinhas em sinuosa e apressada ascensão, ganha uma importância incomensurável. Bendito o inventor daqueles mágicos 200 ml de refrescante prazer dourado. Melhor do que uma imperial bem gelada só duas imperiais bem geladas, com uma bela travessa de amêijoas à Bulhão Pato e umas fatias de pão alentejano. Em boa companhia, claro.

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De férias se me permitem

por Pedro Quartin Graça, em 18.07.10

Depois de 6 meses pessoalmente muito duros, e ainda que levando trabalho académico comigo, lá vou eu tentar ter férias a partir de amanhã. Tentar, digo. Vamos ver se não há mais surpresas como as que têm acontecido nas últimas semanas. Boas férias a quem as tenha também. E muitos cortes.

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A fazer as malas para uma semana em Tavira, lugar que não visito há uns dezoito anos mas do qual tenho, bem como de Pedras d'el Rey, excelentes recordações. Graças ao Rogério Fragoso, levo comigo uma lista de diversificadas sugestões onde comer peixe de mar mas não só. Estarei sem televisão quando o nosso PM der a sua entrevista à RTP e sem rede para blogues, facebooks e twitters na altura de seguir os comentários à dita cuja. A ideia é apanhar Sol, escrever, passear e escrever. Se possível, dar uns mergulhos antes e depois de escrever. Seja como for e esteja o tempo que estiver, escrever. A ver vamos se a coisa avança...Na banda sonora da viagem, entre outros, vão os The Leisure Society, descobertos graças ao João Gobern e que aqui convosco partilho. Até mais ver.

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No hotel mais ocidental da Europa

por Pedro Correia, em 29.08.08

Depois do Algarve, a Ericeira. Hospedado no hotel mais ocidental da Europa - o antigo Hotel Turismo, que conheci na infância, agora pertencente ao grupo Vila Galé. Uma tarde perfeita junto à piscina, dividida entre umas boas braçadas e a leitura de um livro sobre os Beatles, lançado pela ressurgida Ulisseia, enquanto ia contemplando um dos mais deslumbrantes panoramas da costa portuguesa. Sem o menor vestígio de nortada. O jantar foi no restaurante Sul, no Parque de Santa Marta: carpaccio de bacalhau, cogumelos à Sul, salada de meloa com presunto. Fica para outro dia o robalo cozido com algas, que já me garantiram ser excelente.

Falta-nos frequentemente a capacidade de apreciar o que temos de bom - que é muito. Depois de tantos anos a percorrer o estrangeiro, este Verão decidi ficar por cá. E não me arrependi: Portugal é um óptimo país para passar férias. O Michael Phelps que o diga.

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Dois Algarves dentro do Algarve

por Pedro Correia, em 25.08.08

Há dois Algarves dentro do Algarve. Sobretudo em Agosto, quando a diferença entre ambos é ainda maior. Há aquele Algarve que faz as delícias de certos cronistas profissionais, que todos os anos aproveitam uma penosa deslocação ao sul do País para tema de mais um triste texto a maldizer uma região cheia de parolos que arrastam o chinelo por tudo quanto é sítio, atafulham supermercados e restaurantes, esgotam o stock disponível de sardinha assada, entopem o trânsito e transformam o turismo tão acarinhado pelo ministro Manuel Pinho na sua mais feroz caricatura.

Não há "Allgarve" que valha a isto. Tropecei há dias no fenómeno, numa incursão ocasional a Armação de Pera - um pesadelo urbanístico interdito a quem queira passar umas férias dignas desse nome. Magotes de tugas congestionam as pequenas artérias da povoação, que noutros tempos teve um dos melhores areais do Algarve. Hoje não cabe lá um alfinete - nem na areia nem no asfalto, onde se registam engarrafamentos capazes de ombrear com muita periferia de Lisboa e Porto. Esta gente, incapaz de atravessar a rua sem ser de automóvel, traz para o Algarve o stress de todo o ano. E em vez de o atenuar aqui, só consegue agravá-lo.

Rumo poucos quilómetros para barlavento: encontro outro Algarve. No belo concelho de Lagoa, entre o Carvoeiro e Ferragudo. Há imenso espaço e o tempo passa muito devagar. Meia dúzia de pessoas à volta da larga piscina. O mar vê-se logo adiante, além da mata de pinheiros mansos orlada de alfarrobeiras e medronheiros. Ruído? Só o das cigarras quando está sol e o dos grilos a cantar ao desafio quando anoitece. Ajuntamentos? Só o dos melros, pelo fim da tarde, à cata de alimento junto à sebe do jardim. Pode-se andar a pé, ou de bicicleta. Passa um carro de longe em longe. E nem é preciso reservar mesa nos restaurantes.

Deste Algarve onde me encontro, gosto muito. Mesmo em Agosto. Por mim, ficava cá o ano inteiro.

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Adeus doces férias!

por João Távora, em 10.08.08

 

 

Praia do Tamariz, principio do séc. XX.
Foto daqui

 

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Não são havaianas João, são chinelas mesmo!

por João Távora, em 08.08.08

Ao contrário do que os mais ingénuos julgam, na vida, a verdadeira ameaça à boa ordem das coisas não são os irritantes progressistas com as suas conspirações fracturantes que o tempo e a sabedoria cuidarão de corrigir, limar e arredondar, mas as boas pessoas que por mera bonomia ou passividade alinham nas modas dos arrivistas e trocam os nomes das coisas julgando-se muito modernos... Bah!  

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Aviso à navegação

por João Villalobos, em 08.08.08

Ao que parece, depois de lhe terem surripiado o telemóvel e a carteira do cacifo no ginásio, alguém roubou por sua vez o próprio João Távora. A última vez que foi visto estava a sair do Eleven, justificando-se com ter deixado o cartão de crédito no bolso das outras calças para não pagar a conta. Dão-se alvíssaras a quem o avistar e fizer prova de vida.

(By the way: Vou de férias hoje e se o Távora ou outro/a dos/as fugitivos/as não regressar entretanto para auxiliar o Pedro e a Teresa, esta casa arrisca-se a cumprir apenas os serviços mínimos).  

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Celebremos o Dia de Angola

por João Villalobos, em 07.08.08

Hoje, na discoteca Luanda, 1ª eliminatória para Miss T-Shirt Molhada.

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Umas férias fracturantes

por João Távora, em 19.07.08

 

Graças a Deus uma vez mais estou de abalada para uma curta temporada balnear. Isto não acontecerá sem que logo à noitinha eu mais a minha Maria vamos de comboio, ganga e sapatilhas, ouvir o velho Leonard Cohen recitar ali prós lados de Algés. De resto o remanso familiar decorrerá em Milfontes, como deve ser, como sempre foi desde que tenho memória, e que apenas o PREC teve o poder de interromper por um longo período.

Normalmente este é tempo de dar soltura às crianças, vestir calções e chinelos o dia todo; arejar as leituras com jornais (quase até ao obituário), ler crónicas, contos e até quem sabe um romance. Ao fim de alguns dias, o inevitável resultado desta receita temperada com mar, muita poeira, cerveja e peixe fresco é uma ociosa descompressão que reservo para uns últimos dias em S. João do Estoril, já com as horas trocadas, filmes alugados e leituras nocturnas à varanda. Grosso modo as minhas férias são bastante previsíveis e terminam com direito a missa de Nossa Senhora da Assunção e a familória toda reunida em S. João para a minha habitual festa de anos. É assim que vai ser este ano outra vez e como tal continuará no futuro, se Deus quiser,  enquanto eu viver e tiver saúde: um conservador é um conservador, e entre outras coisas tem convicções, não faz cedências, e desconhece familiares do Bloco de Esquerda. Não quero desiludir ninguém, mas o velho Sousa Homem é uma benévola e politicamente correcta idealização de um reaccionário, só possível pela mente arrevesada de um cândido progressista.
De resto, há alguns anos que aguardo por uma intricada conjugação de factores que permita levar a "família pipocas" em passeio a Paris só com a ajuda dum GPS e do Guide du Routard: uma folga financeira e não termos uma endiabrada criancinha pequena. Suspeito que a oportunidade se adivinha para os próximos anos, só não sei se os miúdos mais velhos ainda terão pachorra para a empreitada.

 

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Comer bem no Funchal

por Pedro Correia, em 04.07.08

 

Ouço por vezes dizer que a Madeira é pobre em termos gastronómicos. Não é verdade. Há só que evitar os lugares-comuns na escolha das ementas. As espetadas, o bife de atum, o filete de espada com banana, o prego em bolo de caco. Nós somos demasiado conservadores à mesa: desconfiamos por sistemas das novidades - como há muito vem referindo o nosso Duarte Calvão, um dos três melhores críticos gastronómicos portugueses.

Quem quiser fugir do óbvio, à hora da refeição, encontra óptimas alternativas no Funchal. Deixo aqui três exemplos de refeições excelentes nestes meus dias de férias madeirenses. Um almoço na esplanada do Qasbah, situada no incomparável passeio público marítimo da cidade, tendo em frente o mar a perder de vista: bife de salmão grelhado, com beringelas e pimentos assados, e couscous. À sobremesa, chesecake de manga e maracujá. Um jantar n' A Casa do Vizinho, há vários anos um dos meus restaurantes preferidos na Madeira, situada na Rua da Imperatriz D. Amélia (muito perto do Hotel Casino Park, a única obra projectada por Oscar Niemeyer em território português): galinha bêbeda (marinada em vinho, cerveja e vinho da Madeira), com tomates e batatas recheados. À sobremesa, um soberbo pudim de ananás. E um jantar no Fora d'Água, na promenade do Lido: peito de pato crocante com arroz de cenoura e gengibre, e espinafres salteados. A sobremesa era imbatível: crepe de requeijão e abacaxi, com molho de piña colada. Depois desta sobremesa, acho que não conseguirei comer nenhuma outra.

Três sugestões, entre várias possíveis. Se quiserem, perguntem-me por mais.

 

ADENDA: Verifico, com gosto, que o Eduardo Pitta também sublinha aqui os méritos do nosso Duarte. Faltou-me acrescentar, Eduardo, que as refeições mencionadas acima, mesmo com vinho, ficaram muito aquém dos 60 euros por cabeça. Custaram metade disso, para ser mais exacto.

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Beijos, abraços e até ao meu regresso

por João Villalobos, em 04.07.08

 

La Roche-Bernard, fotografia de Luis Élye

 

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Nova Iorque na Madeira

por Pedro Correia, em 30.06.08

O mar a perder de vista: está tão perto que parece sempre ao alcance da nossa mão. Uma piscina enorme, em varanda sobre o mar. O hotel espraiando-se como um anfiteatro em redor da piscina.

O jardineiro rega os canteiros de begónias com desvelo de mãe a cuidar de um recém-nascido. Passam três gatos, hóspedes permanentes do jardim, em busca de uma sombra.

Oito espreguiçadeiras ocupadas por alemães ociosos, em ressaca futebolística. Chegam-me palavras desgarradas: essen, trinken, schlafen.

Dois quilómetros para oriente, a cidade do Funchal, irradiando o esplendor de sempre. Abro um romance de Don DeLillo, com um belíssimo título: O Homem em Queda. Excelente romance - talvez o melhor que já se escreveu sobre o 11 de Setembro. Data limite, data seminal. Que libertou demónios antigos como o mundo e pôs "o nome de Deus a um tempo nas bocas dos assassinos e das vítimas", inaugurando um cortejo de vingança e devastação.

No momento em que o segundo avião colidiu contra a torre, que parecia tão forte e era afinal tão débil, "ficámos todos um bocadinho mais velhos e mais sensatos", diz uma personagem do romance.

Pouso o livro, olho de novo o mar - este incomparável oceano da Madeira. A vida é tecida por fios muito frágeis: há que aproveitar bem cada instante. A longa piscina está agora vazia, convida-me ao mergulho. Vou ao encontro dela.

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Até que enfim

por João Villalobos, em 24.06.08

Em contagem decrescente para as férias  

La Roche-Bernard

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Férias algarvias (5)

por Pedro Correia, em 16.06.08

Qualquer utente de hotéis sabe que é assim: há sempre hóspedes que deixam os livros que leram nos locais onde passam férias. É uma forma de passarem o testemunho a outros leitores, de levarem a bagagem menos carregada, de deixaram uma impressão digital naquele sítio. Ingleses e alemães destacam-se neste hábito. Junto à recepção do hotel onde estou, na Praia da Oura, há uma estante com três prateleiras cheias de livros. Todas de clientes ingleses que por cá passaram. São obras de diversos géneros: há literatura adolescente, cor-de-rosa, de "acção", de cowboys, de espionagem barata. Mas também boa literatura. E até alguns títulos inesperados.

Anoto alguns: The Take (Martina Cole), Honour be Damned (Tom Connery), The Flood (Ian Pankin), No Man's Land (G. M. Ford), Bare Bones (Kathy Richs), Blood and Honey (Graham Hurley), Fugitives' Fire (Max Brand), The Bear and the Dragon (Tom Clancy), The Fourth Estate (Jeffrey Archer).

Descubro, numa das capas, o rosto sorridente de Tony Blair: é Tony & Cherie - A Special Relationship, de Paul Scott. Há uma obra encadernada em carneira: North Against the Sioux, de Kenneth Ulyatt. E uma excelente novela de Graham Greene, de que gostei muito: The Tenth Man. Folheio-a: veio da biblioteca pública de Pelham, não voltará ao local de origem.

São largas dezenas de títulos - nenhum deles em português. Connosco é diferente. Temos uma relação quase reverencial com os livros. Porque não os lemos.

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Férias algarvias (4)

por Pedro Correia, em 15.06.08

Leio no jornal que os britânicos são o povo mais eurocéptico do Velho Continente. Sinto-me rodeado de eurocépticos aqui por Albufeira: todos agarrados ao copo de cerveja que vão emborcando como se já não houvesse água potável no planeta. A poucos metros de mim está uma loura de olhos azuis. Inglesa, obviamente. Tem cerca de 30 anos e pesa seguramente mais de cem quilos: é daquelas pessoas para quem o neologismo hiper-obesa foi inventado. Graças a Deus: usa fato de banho - não devia haver biquinis para o número dela. Faz férias com o pai, um senhor de cabelo branco aparentando 60 anos. Têm ambos o mesmo facies triste. Imagino-os residentes num subúrbio de Birmingham, a segunda maior cidade britânica, que visitei na adolescência - nunca estive numa cidade tão feia e tão triste.

O pai vai enrolando cigarros com tabaco retirado de uma pequena caixa de folha. Estende-os já acesos à filha, que os fuma sofregamente, como se o stock mundial de tabaco estivesse prestes a esgotar-se. Nisto, ela levanta-se da espreguiçadeira, dirige-se à borda da piscina e rebola literalmente lá para dentro. Há um momento de susto. Mas não: aquela massa flutua (só podia). Aposto comigo mesmo que não consegue dar mais de dez braçadas seguidas. Perco a aposta: conseguiu onze. Pára, ofegante. Imagino-a a devorar seis big macs empurrados com três litros de Coca-Cola: é a altura de me afastar dali.

No bar, joga-se o Holanda-França: Robben, Van Nistelrooy e companheiros dão baile ao detestável conjunto comandado pelo detestável Domenech. Por uma vez, sinto-me laranja.

- Já sei. Quer Strongbow - diz, sorridente, a menina do bar que conheci de véspera.

- Hoje vou experimentar cidra irlandesa, em homenagem ao referendo. Traga-me uma Magners.

Daqui não vejo a minha vizinha de piscina, presumivelmente eurocéptica e hamburgófila. E Robben acaba de marcar o terceiro golo holandês contra a França. Quem falou em Europa unida? Porreiro, pá.

 

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Férias algarvias (3)

por Pedro Correia, em 14.06.08

Albufeira, mesmo nesta altura do ano, é quase tão inglesa como Gibraltar: a todo o momento imagino ver a Union Jack hasteada nos mastros reservados à bandeira nacional. Ingleses low budget enxameiam as esplanadas da praia da Oura onde se oferece "english breakfast" completo - danish bacon, Heinz baked beans, english pork sausage, fried egg, hot buttered toast e outras porcarias prontas a disparar os níveis de colesterol dos súbditos de Sua Majestade - por módicos 2,99 euros. Sabendo nós a que alturas estratosféricas anda a libra, não custa supor como o sol algarvio é cada vez mais aliciante para a pérfida Albion.

Estes devotos do Sun e do Daily Mail alternam a palidez lunar com o tom característico da lagosta após umas overdose de raios ultravioletas a que se expõem com metódica desplicência. Vejo-os aproximarem-se: parece que vem aí uma manada de bisontes encharcada em cerveja morna. Refugio-me no bar do hotel, felizmente às moscas à hora do futebol: os ingleses, que não se qualificaram para o Europeu, ignoram olimpicamente o certame. Mesmo assim, o hotel dispensa a emissão em português: vejo o emocionante Itália-Roménia, torcendo para que os italianos não ganhem. No ecrã gigante, passa a emissão da ITV Sport. "This game is nice 'n open", diz um dos relatores de ocasião, que percebe tanto das subtilezas da bola como eu de física quântica.

Por toda a parte, um jornal algarvio. Em inglês. Chama-se The Portugal News e traz uma manchete que me tranquiliza: "Fuel flows again." Circula uma carrinha anunciando em altos berros tourada em Albufeira. "Don't miss the sensational bullfight." Nem na Índia ouvi inglês tão macarrónico...

A Itália falhou mais um golo. A menina do bar, obviamente estrangeira, vem perguntar-me o que bebo - obviamente, em inglês. Peço-lhe uma cidra - Strongbow, fresca, sem gelo. Em Roma, sê romano. À saúde da Roménia.

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Férias algarvias (2)

por Pedro Correia, em 13.06.08

A meio da manhã, a meio da praia, uma senhora de meia idade. De telemóvel em riste, fala em voz bem alta sobre os seus infortúnios e os infortúnios do País. A 20 metros de distância, escuto tudo - palavra por palavra. Seguem-se uns excertos, com a devida omissão de alguns pormenores:

"Sim, estou de férias no Algarve... A situação é muito grave... Eu nem tenho saído do hotel porque tenho medo de não ter gasolina para o regresso... Eu em Julho vou ser operada. Vão-me tirar o útero e os ovários.... Só para prevenir... O médico quer-me tirar o útero para não ter cancro. Vou ser operada na Cruz Vermelha... Não, no sábado já estou aí. Sim. Espero ter gasolina. Sim, sim. Adeus, obrigada. Um beijinho."

Toda a praia ficou a saber. Resta-me fazer votos para que a intervenção cirúrgica corra bem.

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