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A velhice e o prenúncio de uma tragédia

por João Távora, em 14.06.18

envelhecimento.jpg

A propósito do debate sobre a Eutanásia muito se falou do problema que o aumento da esperança de vida representa nos nossos dias. O enfoque no meu entender deveria coloca-se no drama da fracturação e decadência das estruturas sociais que sempre enquadraram afectivamente e apoiaram logisticamente a pessoa envelhecida. Refiro-me à família alargada e às pequenas comunidades (em que se inclui a Igreja) que tinham essa função. Ao contrário do que nos querem fazer crer, sempre existiram pessoas fragilizadas pela idade extremamente avançada. O "envelhecimento da população" é um fenómeno estatístico. Do ponto de vista humanista, ou seja, na perspectiva da pessoa idosa em si, esse problema tem pouca relevância: “os velhos” não são um corpo social com consciência própria, cada um é uma pessoa com a sua história na plenitude da dignidade que lhe é devida. A grande tragédia que nos ameaça está na quebra dos antigos laços de solidariedade por parte da comunidade atomizada, de uma sociedade utilitária que coloca os “direitos” de cada um acima dos deveres para com os outros. A realização de cada um pelo cuidado ao próximo até ao limite. Mais que um problema para o Estado, a assistência à velhice é um problema a ser assumido por cada um de nós para com o seu próximo. Mas acontece que o amor cristão (amai o próximo como a ti mesmo) foi descartado, substituído pelo conceito romântico que tem por base a conquista do desejo do “eu” a que agora se quer atribuir direitos sobre execução da sua morte. O caldo cultural da modernidade é a coisa mais difícil de resolver e compromete definitivamente os equilíbrios afectivos que estruturam uma sociedade saudável e solidária. Não há cuidados paliativos que disfarcem esta desgraça que deixamos como legado aos nossos filhos.

Celebrar a vitória

por João Távora, em 30.05.18

capai.jpg

Apesar da ambiguidade provocadora (ou talvez por isso) acabo por gostar da capa do jornal i. Podíamos imaginar que teria sido engendrada para outro resultado da votação sobre a Eutanásia que era mais expectável. Mas não: eu prefiro acreditar que, pela cor e conteúdo, ela é celebrativa, festeja um desfecho. De resto a votação foi nominal a pedido (e bem!) do CDS. Daí me parecer pertinente a elencagem dos nomes dos deputados que se devem orgulhar do seu voto decisivo numa matéria tão sensível - num resultado assim tangencial cada um foi determinante. As reacções negativas dos meus amigos entendo-as à luz da costumeira discriminação negativa a que são sujeitas as ideias conservadoras pelos media. Isso não pode justificar uma “mania da perseguição” que é entrar no jogo do adversário. Já basta o que basta, temos de aprender a lidar com a vitória, saboreá-la e prepararmo-nos para os novos embates que nos esperam. É para isto que está destinado um orgulhoso e prudente conservador.

Eutanásia 3

por João Távora, em 29.05.18

(...) É certo que há quem defenda a eutanásia por sentimentos de compaixão, como resposta a situações de sofrimento duradouro e insuportável. Por isso se fala em morrer com dignidade. Como se a vida, em si mesma, nas suas dificílimas circunstâncias, físicas, psicológicas, sociais ou económicas, pudesse ser indigna. Como se ao Estado pudesse caber a tarefa de reconhecer a existência de vidas que, objectivamente, não merecem ser vividas. Como se fosse unívoco até o conceito de sofrimento insuportável. É evidente que a morte, antecipando o termo da vida, põe fim a qualquer sofrimento. Mas se o problema que queremos debelar é o sofrimento, a morte nunca poderá ser a solução. Aos olhos do Estado toda a vida deveria merece ser vivida. Tirar a vida não é solução para coisa nenhuma. Aquilo que nos deve mobilizar é permitir que todos possam viver, até ao fim, com toda a dignidade.

 

A ler Nuno Pombo e Rui Castro aqui na intergra no Jornal i

A morte como serviço público?

por João Távora, em 28.05.18

Eutanasia-Canada-W.jpg

Vivemos tempos estranhos quando o mesmo Estado que criminaliza os maus-tratos  aos animais e quer proibir o seu abate por razões de saúde pública, não só se recusa a criminalizar os maus-tratos a pessoas idosas como pretende agora oferecer a morte a pedido no menu do Serviço Nacional de Saúde. Vivemos tempos estranhos quando a morte a pedido nos é vendida como privilégio civilizacional garantido pelo Estado, o mesmo que não quer, não sabe, não consegue, garantir os direitos de um fim de vida digna aos seus cidadãos. Vivemos tempos estranhos quando o Estado pretende incumbir seres humanos encartados para matar outros seres humanos, justificando isso com a liberdade de um individuo. 

Essa máquina irá encarregar-se de gerir a conveniência dos pedidos de assassinato fundamentados em desesperos certamente inconcebíveis, com a ajuda de gabinetes de advocacia que se encarregarão de justificar dentro dos limites do quadro legal a conformidade do pedido do seu cliente ou a fundamentação da clinica perante casos extremos que considere atendíveis. Assusta-me viver num país que banaliza o valor da vida (inviolável segundo a Constituição), e cuja licitação poderá ficar ao alcance da apetência de cada um, e a morte um serviço garantido pelo Estado. Temos o dever de resistir.



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