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Temos aquilo que merecemos

por João Távora, em 13.02.20

Cristina Ferreira.jpg

Disseram-me que a Cristina Ferreira promoveu esta manhã na SIC um "debate" sobre a eutanásia em que os convidados eram todos a favor da dita - deve ter sido uma amena a cavaqueira, uma autêntica acção de promoção. Será que a intenção da entertainer era convencer das virtudes da antecipação da morte a sua audiência de reformados retidos em casa ou em lares de idosos, condenados a ver programas imbecis? É evidente que o debate está viciado, as cartas estão marcadas.
E todos os idiotas úteis que teimam em abster-se nas eleições mas agora vociferam indignados com a previsível vitória da eutanásia num parlamento com quase 2/3 de “progressistas”, da próxima vez lembrem-se que a participação cívica é algo mais que perorar nas redes sociais. Agora queixem-se!

A morte fica-vos tão bem...

por João Távora, em 10.02.20

marionetas.jpg

A lógica da eutanásia, mais que a do aborto ou outra medida fracturante que vamos involuntariamente assimilando como "direitos adquiridos", está directamente ligada à atomização da sociedade e ao desaparecimento progressivo das antigas comunidades de proximidade, nomeadamente a família alargada, coesa e solidária. O hiperindividualismo significa a total exposição da pessoa, "página em branco", deslumbrada com tanta liberdade e “direitos”, aos caprichos dum Estado omnipresente e voraz. E depois não digam que não foram avisados.

A propósito ide ler a maravilha de texto que é este

 

O primado da vida

por João Távora, em 08.02.20
 

1- A vida tem, desde o seu princípio ao seu fim natural, a mesma dignidade absoluta que deve ser salvaguardada e protegida. Os grandes textos civis e sagrados, médicos e filosóficos que são a matriz das nossas sociedades, e formam a nossa consciência moral, recordam-no incessantemente. Ir contra o primado da vida é atentar contra a humanidade de todos os seres humanos.

2- Não é o primado da vida que tem de estar sujeito às circunstâncias (económicas, políticas, culturais, etc.) de cada tempo, mas sim as circunstâncias que devem estar ao serviço incondicional do primado da vida. A verdadeira missão que compete à política é o suporte infatigável à vida.

3- Nenhuma vida vale mais do que outra. Nenhuma vida vale menos. A vida dos fracos vale tanto como a dos fortes. A vida dos pobres vale o mesmo que a dos poderosos. A vida dos doentes tem um valor idêntico à vida dos saudáveis. Passar a ideia de que há vidas que, em determinadas situações, podem valer menos do que outras é um princípio que conflitua com os valores universais que nos regem. 

4 - O sofrimento humano é uma realidade do percurso pessoal, que pode atingir formas devastadoras, é verdade. Mas o próprio respeito devido ao sofrimento dos outros e ao nosso deve fazer-nos considerar duas coisas: 1) que temos de recorrer aos instrumentos médicos e paliativos ao nosso alcance para minorar a dor; 2) que temos de reconhecer que o sofrimento é vivido de modo diferente quando é acompanhado com amor e agrava-se quando é abandonado à solidão. É fundamental dizer, por palavras e gestos, que “nenhum homem é uma ilha”.

5 - Recordo o que me contou, emocionada, uma voluntária que trabalha há anos numa unidade oncológica: “O que me faz mais impressão é o número de pessoas que morrem completamente sós.” Devia-nos impressionar a todos a desproteção familiar e social que tantos dos nossos contemporâneos experimentam precisamente na hora em que se deveriam sentir sustentados pela presença e pelo amor dos seus. A solução não é avançar para medidas extremas como a eutanásia, mas inspirar modelos de maior coesão, favorecendo práticas solidárias em vez de deixar correr a indiferença e o descarte.

As nossas sociedades têm de se perguntar se já fizeram tudo o que podiam fazer para promover e amparar a vida, sobretudo a daqueles que são mais frágeis.

6 - Por trás da vontade de morrer subjaz sempre uma vontade ainda maior de viver, que não podemos não ouvir. Claro que a vida dá trabalho. Que o serviço à vida frágil, à vida na sua nudez implica muitos sacrifícios e uma dedicação que parece maior do que as nossas forças. Mas coisa nenhuma é mais elevada do que essa. Talvez em vez dos heróis que sonambulamente festejamos, as nossas sociedades deveriam colocar os olhos no verdadeiro heroísmo: o heroísmo daqueles que enfrentam o caminho do sofrimento; o heroísmo daqueles que se dedicam ao cuidado dos outros como testemunhas de um amor incondicional.

7 - As nossas sociedades têm de se perguntar se já fizeram tudo o que podiam fazer para promover e amparar a vida, sobretudo a daqueles que são mais frágeis.

8 - Os paradigmas de felicidade da sociedade de consumo são paraísos artificiais talhados à medida do indivíduo, que passa a preocupar-se apenas por si mesmo e que se apresenta como o seu começo e o seu fim. Em nome dessa felicidade assiste-se facilmente ao triunfo do egoísmo. Porém, a pergunta ancestral “onde está o teu irmão?” será sempre um limiar inescusável na construção da felicidade autêntica.

9 - Àqueles que, movidos pelos melhores sentimentos, veem na eutanásia um passo em frente da nossa civilização recomendo a leitura do conto de James Salter intitulado “A Última Noite” (Porto Editora, 2016). Tem razão quem escreveu que a literatura é uma lente para olhar o humano.

10 - Diga-se o que se disser, a vida é a coisa mais bela.

10 RAZÕES CIVIS CONTRA A EUTANÁSIA

José Tolentino Mendonça no Expresso

A velhice e o prenúncio de uma tragédia

por João Távora, em 14.06.18

envelhecimento.jpg

A propósito do debate sobre a Eutanásia muito se falou do problema que o aumento da esperança de vida representa nos nossos dias. O enfoque no meu entender deveria coloca-se no drama da fracturação e decadência das estruturas sociais que sempre enquadraram afectivamente e apoiaram logisticamente a pessoa envelhecida. Refiro-me à família alargada e às pequenas comunidades (em que se inclui a Igreja) que tinham essa função. Ao contrário do que nos querem fazer crer, sempre existiram pessoas fragilizadas pela idade extremamente avançada. O "envelhecimento da população" é um fenómeno estatístico. Do ponto de vista humanista, ou seja, na perspectiva da pessoa idosa em si, esse problema tem pouca relevância: “os velhos” não são um corpo social com consciência própria, cada um é uma pessoa com a sua história na plenitude da dignidade que lhe é devida. A grande tragédia que nos ameaça está na quebra dos antigos laços de solidariedade por parte da comunidade atomizada, de uma sociedade utilitária que coloca os “direitos” de cada um acima dos deveres para com os outros. A realização de cada um pelo cuidado ao próximo até ao limite. Mais que um problema para o Estado, a assistência à velhice é um problema a ser assumido por cada um de nós para com o seu próximo. Mas acontece que o amor cristão (amai o próximo como a ti mesmo) foi descartado, substituído pelo conceito romântico que tem por base a conquista do desejo do “eu” a que agora se quer atribuir direitos sobre execução da sua morte. O caldo cultural da modernidade é a coisa mais difícil de resolver e compromete definitivamente os equilíbrios afectivos que estruturam uma sociedade saudável e solidária. Não há cuidados paliativos que disfarcem esta desgraça que deixamos como legado aos nossos filhos.

Celebrar a vitória

por João Távora, em 30.05.18

capai.jpg

Apesar da ambiguidade provocadora (ou talvez por isso) acabo por gostar da capa do jornal i. Podíamos imaginar que teria sido engendrada para outro resultado da votação sobre a Eutanásia que era mais expectável. Mas não: eu prefiro acreditar que, pela cor e conteúdo, ela é celebrativa, festeja um desfecho. De resto a votação foi nominal a pedido (e bem!) do CDS. Daí me parecer pertinente a elencagem dos nomes dos deputados que se devem orgulhar do seu voto decisivo numa matéria tão sensível - num resultado assim tangencial cada um foi determinante. As reacções negativas dos meus amigos entendo-as à luz da costumeira discriminação negativa a que são sujeitas as ideias conservadoras pelos media. Isso não pode justificar uma “mania da perseguição” que é entrar no jogo do adversário. Já basta o que basta, temos de aprender a lidar com a vitória, saboreá-la e prepararmo-nos para os novos embates que nos esperam. É para isto que está destinado um orgulhoso e prudente conservador.

Eutanásia 3

por João Távora, em 29.05.18

(...) É certo que há quem defenda a eutanásia por sentimentos de compaixão, como resposta a situações de sofrimento duradouro e insuportável. Por isso se fala em morrer com dignidade. Como se a vida, em si mesma, nas suas dificílimas circunstâncias, físicas, psicológicas, sociais ou económicas, pudesse ser indigna. Como se ao Estado pudesse caber a tarefa de reconhecer a existência de vidas que, objectivamente, não merecem ser vividas. Como se fosse unívoco até o conceito de sofrimento insuportável. É evidente que a morte, antecipando o termo da vida, põe fim a qualquer sofrimento. Mas se o problema que queremos debelar é o sofrimento, a morte nunca poderá ser a solução. Aos olhos do Estado toda a vida deveria merece ser vivida. Tirar a vida não é solução para coisa nenhuma. Aquilo que nos deve mobilizar é permitir que todos possam viver, até ao fim, com toda a dignidade.

 

A ler Nuno Pombo e Rui Castro aqui na intergra no Jornal i

A morte como serviço público?

por João Távora, em 28.05.18

Eutanasia-Canada-W.jpg

Vivemos tempos estranhos quando o mesmo Estado que criminaliza os maus-tratos  aos animais e quer proibir o seu abate por razões de saúde pública, não só se recusa a criminalizar os maus-tratos a pessoas idosas como pretende agora oferecer a morte a pedido no menu do Serviço Nacional de Saúde. Vivemos tempos estranhos quando a morte a pedido nos é vendida como privilégio civilizacional garantido pelo Estado, o mesmo que não quer, não sabe, não consegue, garantir os direitos de um fim de vida digna aos seus cidadãos. Vivemos tempos estranhos quando o Estado pretende incumbir seres humanos encartados para matar outros seres humanos, justificando isso com a liberdade de um individuo. 

Essa máquina irá encarregar-se de gerir a conveniência dos pedidos de assassinato fundamentados em desesperos certamente inconcebíveis, com a ajuda de gabinetes de advocacia que se encarregarão de justificar dentro dos limites do quadro legal a conformidade do pedido do seu cliente ou a fundamentação da clinica perante casos extremos que considere atendíveis. Assusta-me viver num país que banaliza o valor da vida (inviolável segundo a Constituição), e cuja licitação poderá ficar ao alcance da apetência de cada um, e a morte um serviço garantido pelo Estado. Temos o dever de resistir.



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