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Estado de sítio (17)

por João Távora, em 07.04.20

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Coronavírus hoje em Portugal – 12.422 casos, 345 vítimas mortais

No Domingo de Ramos, depois de assistirmos à missa dominical celebrada pelo Cardeal Patriarca na Sé e transmitida pela televisão, o almoço foi encomendado do restaurante aqui debaixo e tirámos uma “selfie” de família para memória futura. Na segunda-feira a minha enteada retomou o seu trabalho em Lisboa no restauro duns azulejos numa obra da baixa, facto que prenuncia uma nova fase das nossas vidas que eu acredito se irá gradualmente a generalizar depois da Páscoa: vamos todos ter de nos habituar a viver com o vírus durante muito tempo, fazendo uma vida tão normal quanto possível protegendo os mais vulneráveis. Antecipando-se um período relativamente longo até que seja disponibilizada uma vacina contra o COVID-19, receio muito que a maior sequela do vírus venha a revelar-se no refreamento das nossas expressões de afecto em sociedade. O perigo que antevejo não é o de adoptarmos os costumes frios dos nórdicos, é passarmos a saudar-nos como os chineses, coisa que será uma suprema ironia. Alguém me sabe informar onde se podem adquirir as máscaras aconselhadas pela ministra da saúde? 
Enquanto a curva dos infectados em Portugal vai dando sinais de que a epidemia está controlada, os meus miúdos mais novos arrastam-se com uma indolência incrível, para mais agora com o argumento engatilhado na ponta da língua de que estão de férias – estão adaptados demais. Já consegui arrancar o mais pequeno ao pufe duas vezes para fazermos ginástica juntos, pois desconfio que esta inactividade contínua não faça nada bem a uma criança de 13 anos. Como não sou um psicólogo brilhante nem tenho um grande espírito maternal, o miúdo ao princípio fica chateado mas depois conforma-se (talvez seja preguiça). Entretanto proibi-o de se tornar adolescente durante o estado de emergência. Para cada dia, basta a sua pena.
Portugal possui um perfil sociológico e económico muito próprio, com demasiada gente a viver da função pública, rendas e pensões, pode dar-se ao luxo de ser hipocondríaco. São esses portugueses que maioritariamente votam, e receio que o problema venha a ser por este país outra vez na rua.
O desafio esta semana será o de prepararmos condignamente os nossos espíritos para a Páscoa de Jesus Cristo sem os rituais comunitários a que estávamos habituados.
Deus nos ajude. 

Estado de sítio (16)

por João Távora, em 04.04.20

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Coronavírus hoje em Portugal – 10.524 casos, 266 vítimas mortais

As coisas estão a correr melhor do que seria de esperar, a rampa ascendente de internados e de óbitos (que é o que me interessa) parece estar a abrandar com consistência, as medidas de confinamento em Portugal parecem estar a resultar de uma forma que nem os mais optimistas se atreveriam a supor. Julgo que contribuem para isso principalmente dois factores específicos da realidade cultural portuguesa, que sendo eles intrinsecamente "defeitos", por uma vez jogam a nosso favor: o nosso perfil económico e geográfico periférico e a unidade política e administrativa de Portugal, o chamado “centralismo”, que favorece a passagem fácil duma mensagem de alarme para a mobilização de uma comunidade nacional identitariamente muito sólida. Perante a apreensão das nossas gentes não é difícil a António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa assumirem um papel paternal e maternal que é sofregamente desejado pelas gentes assustadas, carentes de orientação e referências. Estamos-lhes reverentes, venerandos e obrigados, por uma vez sem ironia.

Ontem de manhã vesti a minha melhor camisa engomada (há que poupar pois a nossa empregada também está em confinamento) para percorrer com a minha mulher os cerca de 800 metros de casa ao centro de São João do Estoril para meter umas cartas no correio. Desse modo usufruirmos em cumplicidade uma falsa mas saborosa sensação de liberdade. A paisagem com que nos deparámos junto à estação dos comboios pareceu-me aterradora de desolação com as múltiplas lojas de comércio local com as portadas corridas onde sobressaíam obscenos grafitis. Quantas delas voltarão a abrir?

Confesso-vos: mesmo gostando da minha casa e ter muito com que me entreter, sofro de bicho-carpinteiro (os médicos chamam-lhe ansiedade, mas como todos sabemos não os podemos levar demasiado a sério) é só com a ajuda de uma corrida matinal à socapa e dum terço em família a Nossa Senhora ao final da tarde que tenho sobrevivido ao confinamento. Aliás, a boa notícia que esta crise nos traz é a oração familiar que praticamos como nunca antes acontecia. 

De resto uma “União Nacional” acrítica à volta das medidas de confinamento por tempo indefinido é perigosa, porque é insustentável. Percebo que seja difícil a quem decide obter os extraordinários resultados do confinamento sem meter muito medo ao pessoal. Mas se a coisa não vira, daqui a pouco tempo metade dos portugueses estará a pão e água e a outra, na melhor das hipóteses a bater com a cabeça nas paredes.

Têm reparado os meus amigos como ultimamente se têm reduzido a partilha de piadas pelas redes sociais, que, diga-se, nas primeiras semanas da crise foram um autêntico consolo? Suspeito que as pessoas estão a perceber que não, que não “vai ficar tudo bem”. De resto eu sou um daqueles privilegiados a quem só cabe obedecer e (insisto) a quem ainda não começou a faltar trabalho.

Estado de sítio (15)

por João Távora, em 02.04.20

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Coronavírus hoje em Portugal – 9.034 casos, 209 vítimas mortais

Fiquei muito impressionado ontem à noite quando num zapping entre os noticiários, depois duma notícia com Jair Bolsonaro (devidamente depreciado pela jornalista) nos seus modos grosseiros a relativizar os efeitos do coronavírus na saúde das pessoas, me deparo com uma outra vinda da India, onde também foi decretado o estado de emergência e o confinamento. A reportagem documentava a brutalidade da polícia armada de chibatas a expulsar os miseráveis feirantes num mercado, e milhares de trabalhadores sazonais subitamente sem emprego a retornarem aos seus locais de origem; uns aos magotes a tentarem entrar nos comboios e outros ainda mais pobres, a palmilharem esse caminho a pé com uma trouxa às costas. Com este murro no estômago fiquei a perceber melhor o discurso absurdo do presidente brasileiro: em certos países com muita pobreza, em que grande parte da população vive de expedientes diários para se alimentar, por causa do confinamento a fome e a miséria prenunciam-se dantescas. 

Cá por casa a vida confinada continua, e esta manhã cruzei-me na sala com a minha filha que assistia no seu computador portátil a uma aula de direito das sucessões, vestida com pijama e pantufas nos pés. Não me pareceu apropriado.

Estado de sítio (14)

por João Távora, em 31.03.20

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Coronavírus hoje em Portugal – 7.443 casos, 160 vítimas mortais

À terceira semana de confinamento, fica comprovado que ensinar é uma especialização importante, e que se compreende que um pai esteja dispensado de ser professor dos seus filhos. É um enorme desafio assumir os dois papéis, mais ainda quando a idade da criança se aproxima perigosamente da adolescência, obcecada por comida, youtubers e jogos electrónicos. Custa-me desperdiçar estes últimos tempos de alguma cumplicidade zangado por causa duma redacção preguiçosa ou com um ataque de nervos à conta duns exercícios de matemática trapalhões que eu não sei corrigir. O potencial desgaste a que nos expomos é considerável, para mais em prisão domiciliária. De resto a vida continua, um dia de cada vez, diz que somos uns privilegiados, principalmente se comparando com a família de Anne Frank.
Quanto ao mais continuo a torcer o nariz a este clima de medo que vem sendo instigado, e a duvidar da sustentabilidade do confinamento a médio prazo, que como bem assinala hoje João Miguel Tavares, é um privilégio burguês. Se a solidão descamba em paranóia, a fome mata mesmo.
Enquanto Graça Freitas e a DGS se desgastam diariamente com estatísticas engatadas e sucessivas contradições (vai acontecer com as máscaras o que está a acontecer com os testes laboratoriais, depois de menosprezado o seu uso ainda vai ser obrigatório assim cheguem ao mercado) o nosso primeiro-ministro transfigura-se em estadista, profere sentenças fofinhas e até já prenuncia as consoantes quase todas, decidido que está em disputar um lugar na História segundo os especialistas. E arrisco a uma previsão: quando o pico da crise de saúde pública passar e vier a pesada factura duma economia em frangalhos, com o país na rua a reclamar empregos e pão, à primeira oportunidade António Costa sai de cena e passará a batata quente a outro(s). Incensado como mártir das circunstâncias, para chegar a presidente, só terá de se recolher com discrição para o sofá com um pacote de pipocas. Só temos aquilo que merecemos.

Estado de sítio (13)

por João Távora, em 29.03.20

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Coronavírus hoje em Portugal – 5.962 casos, 119 vítimas mortais

O mais difícil destas rotinas informes é a falta dos rituais inerentes a cada um dos dias, coisa que transforma a semana num amálgama de tempo indistinto, para além do dia e da noite.  As idas ao escritório durante a semana, os dias de ginásio, os jantares com os amigos ou idas ao futebol, as reuniões profissionais ou políticas, as datas festivas e celebrações religiosas conferem uma plasticidade ao calendário que faz mais falta do que poderíamos pensar. Cá por casa a passagem do tempo é marcada pelas refeições, mais o almoço servido à mesa com alguma formalidade e empenho culinário, e pela recitação do terço ao fim da tarde. Para minha sanidade mental nos últimos tempos tenho assistido no máximo a uma hora diária de notícias na televisão. A parte que mais tenho gostado são as vistas aéreas da minha cidade semi-deserta. Para não desgastar com demasiadas exigências a salubridade mental da nossa pequena comunidade familiar os jantares são volantes, com relativa flexibilidade de horário. Nesse sentido ao domingo ninguém é obrigado a tarefas da escola ou laborais, os computadores preferem-se desconectados e eu não fui fazer a minha corrida matinal. Este dia também é marcado pela carência da missa dominical comunitária, e o facto de hoje não poder cumprir a visita semanal à minha mãe que sofre de um severo enfisema pulmonar causa-me alguma amargura – toda a gente sabe que a solidão também mata, quase tanto quanto a pobreza com que muitos se confrontarão nos próximos temos. Em compensação, a minha mãe com quem tenho falado todos os dias por telefone, parece estar a levar esta crise com algum fair play. Fumadora inveterada durante quase toda a vida, está habituada a respirar pouco.

Hoje foi dia de reabastecimento no supermercado, que me pareceu adaptado à crise, bem apetrechado com produtos frescos em todas as secções. A propósito: aqueles vídeos a ilustrar os comentadores de economia dos noticiários a falar da severa crise financeira a que estamos condenados com máquinas de contar notas de 50 e 100 euros em loop são só para nos enervar, não são? Na Suécia, que como sabemos são uns bárbaros, estão a enfrentar a epidemia de forma diferente da nossa, a vida prossegue com muito mais normalidade que aqui. Espero que sejam eles os enganados.  

Voltando à irritação de António Costa com os holandeses na sexta-feira: é curioso notar que nem os enormes movimentos migratórios das últimas décadas mudaram velhos preconceitos e rivalidades nacionais. É disso que são feitas as nações e não é obrigatoriamente mau.

Estado de sítio (12)

por João Távora, em 27.03.20

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Coronavírus hoje em Portugal – 4.268 casos, 76 vítimas mortais

“Ninguém se salva sozinho” foi a ideia reforçada hoje pelo Papa Francisco na bênção “Urbi et Orbi” transmitida da Praça de São Pedro deserta para todo o mundo. Impressionante, é o mínimo que podemos dizer.
Cá por casa o confinamento já se tornou rotina, e o sentimento inicial de euforia pela anormalidade das circunstâncias já se esvaiu. Se estar sozinho deve ser difícil, também não é fácil a convivência de cinco pessoas numa casa relativamente exígua de três adultos, uma jovem universitária e um adolescente. Requer sensibilidade no respeito pelo espaço físico e psicológico de cada um, aceitando com o mínimo de disciplina o papel exigido a cada um das tarefas domésticas e outros deveres. Vale a pena o esforço pois desta inaudita aventura “Ninguém se salva sozinho”.
Sempre gostei muito da minha casa, ao longo dos anos decorada em cumplicidade com a minha mulher, apetrechada com bons livros, muitos deles por ler, que coexistem com boa música e boas condições de audição. Trabalho à distância para nós há muito que é o nosso modo de vida, e ainda não nos falta dramaticamente. Mas é diferente quando nos vemos impedidos das actividades sociais e cívicas em que normalmente estávamos empenhados. A angústia causada é a prova que a caridade e o “serviço” cívico são aspectos vitais para a nossa salvação. “Mal de quem não tem a quem (a que) servir, não me canso de repetir.
Hoje, para dar um ar de normalidade, recebemos da gráfica pelo correio o "ozalid" (prova para revisão) do próximo livro da chancela Razões Reais da Real Associação de Lisboa intitulado "Quando o Povo quiser". Trata-se de uma antologia comemorativa dos 10 anos da revista Correio Real onde se reúnem os melhores ensaios e crónicas nela publicados. Não é sem alguma ansiedade que esperamos pela oportunidade de agendar o seu lançamento, com a devida pompa. Disso daremos notícias na devida altura.
Com isto tudo, chegámos a sexta-feira e com ela ao inicio das férias da Páscoa, um facto que no confinamento do lar não fará grande diferença. Mas talvez mereça uma celebração com um Whisky irlandês ao final da tarde. Rejubilemos.
Entretanto o Expresso noticiou que "Marcelo e Ferro querem comemorar o 25 de Abril". Mas afinal não foram canceladas todas e quaisquer celebrações religiosas?

Estado de sítio (11)

por João Távora, em 25.03.20

aquario.jpgCoronavírus hoje em Portugal – 2.995 casos, 43 vítimas mortais

As rotinas começam a implantar-se: pela fresca, antes de me sentar ao computador, atrevo-me a uma corrida de meia hora pelas redondezas, um exercício físico que me garante sanidade mental para o confinamento a que nos vamos habituando com o passar dos dias - com disciplina e menos altercações do que seria de esperar. Esta manhã quando batiam as 11,00hs nós os cinco respondemos ao desafio do Papa Francisco e rezámos um Pai Nosso em comunhão global. A oração em família é fundamental não só para fazer chegar o nosso clamor aos Céus, mas também para estimular o sentimento de corpo do grupo.
Com a família toda em casa dia após dia, temos estado a cozinhar a todo o vapor, a tentar agradar às hostes, mas chega a uma altura que o frigorífico se enche de caixinhas e tachos com restos, que hoje ao almoço serviram como uma refeição “extra”. O miúdo mais pequeno lá vai cumprindo as tarefas escolares a custo. Do colégio mandam-nos fichas e somos nós, os pais inocentes, que temos de assumir o difícil papel de professores. Comprova-se assim que o provérbio popular que diz “santos da casa não fazem milagres” não está longe da verdade. Ontem, quando nos apanhou a meio de uma conversa a respeito do COVID19 e a possibilidade de se alargarem os testes, disse logo que não, que sem aulas se recusava fazer testes.  
De resto foi sem grande espanto que constatei por uma sondagem do ICS e ISCTE para a SIC a união nacional que impera (acima dos 70%), na confiança depositada nas instituições nacionais pelos portugueses na gestão da crise. Nem Salazar nos seus melhores sonhos e melhores dias ambicionou tanta unanimidade. Perante o medo implantado e o estado de emergência, o governo e o presidente da república passeiam-se impantes na revista às tropas antes da grande batalha que está por vir. Não lhes desejo mal, mas sempre digo porque sei do que falo, que a propaganda é sempre a parte mais fácil (e mais frágil) da equação e os actores em causa nisso são artistas.
Hoje, dia de aniversário do nosso Príncipe da Beira Dom Afonso de Bragança, herdeiro da chefia da Casa Real Portuguesa, cá em casa rezaremos por ele e pelas intenções da sua família: que Deus os inspire e guie os seus passos, no difícil papel que lhes cabe nestes dias de aflição de estar ao serviço dos portugueses.
Finalmente, soubemos há pouco que, depois do Príncipe Alberto do Mónaco, agora foi o Príncipe Carlos do Reino Unido a dar positivo no teste do coronavírus. Definitivamente o vírus é republicano.

Estado de sítio (10)

por João Távora, em 23.03.20

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Coronavírus hoje em Portugal – 2.060 casos, 23 vítimas mortais

Aqui no confinamento os dias começam a ser muito iguais uns aos outros, não inspiram grandes crónicas. A nossa gente está bem, os nossos trabalhos a partir de casa e a gestão das tarefas domésticas começam a tornar-se rotina – a tripulação cumpre as tarefas e adapta-se à nova vida, conquistando os seus recantos de privacidade para sanidade mental de todos.
Tentando olhar mais à frente: desconfio que nos espera um governo do bloco central para gerir a crise. Não é preciso ser muito imaginativo para adivinhar o que aí vem quando voltarmos à rua e o centro político em protesto tiver mudado de posição. O regime como o conhecemos vai ter de se segurar ao parapeito, e isso é uma coisa boa.
Não nos falhe o ganha-pão, que por cá temos muita literatura e boa música. 

Estado de sítio (9)

por João Távora, em 22.03.20

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"Senhor, como é bom estarmos aqui!"
Mateus 17:4

Já andamos confinados há alguns dias, o ânimo começa a ser um bem menos abundante, e começa a ser-nos exigido ir buscar toda a boa vontade ao fundo da alma – é proibido embirrar. Hoje seria dia de Missa. É estranho um Domingo sem aquela tradicional agitação matinal para irmos ao Estoril à missa da… uma da tarde. A Igreja de Pedro, esposa de Cristo fica gravemente ferida quando não possa ser vivida em comunidade. O terço a Nossa Senhora, com a leitura do evangelho do dia, tem sido religiosamente cumprido por nós todos, com uma visita ocasional da minha sobrinha Sofia por WhatsApp.
Esta manhã voltei à minha corrida higiénica matinal por ruas normalmente desertas de S. Pedro do Estoril, e surpreendeu-me o número de pessoas e famílias que passeavam sozinhas ou em pequenos grupos a arejar a cabeça. Se o confinamento é para durar, há que arranjar estratégias para aguentar. Da janela, na praceta onde moro, deparo-me com os velhotes que vêm esticar as pernas à rua e que ficam à porta da tabacaria a cavaquear. Como dizia uma “amiga” minha no FB “é trade-off entre probabilidade de infecção e saúde mental”. Mas como também não os vejo aos abracinhos, presumo que o risco não seja grande.
Entretanto, pelos números de infectados dos países nossos vizinhos parece que a Europa do Sul se tornou no “epicentro da Pandemia” e preocupa-me ainda não serem evidentes os efeitos do confinamento social, não havendo provas de que alguma vez o serão. E para lá da importante questão económica (peço desculpa pela inconveniência) quanto tempo aguentaremos uma situação destas?
Termino com a questão que mais me preocupa neste momento: espero estar enganado, mas desconfio que a tragédia em Portugal vai surgir dos lares de velhinhos que, sem material de protecção para os funcionários, não estão preparados para defender os seus residentes.

Como é que é tão difícil a uma civilização que levou o homem à lua isolar os lares de idosos de um vírus?

Estado de sítio (8)

por João Távora, em 21.03.20

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Coronavírus hoje em Portugal – 1.280 casos, 6 vítimas mortais

Estive o dia fechado em casa, a família a ver séries e eu a ler jornais. Como é evidente que a opção errada é a minha.
Porque é que é sempre tão difícil explicar a temperança e a moderação? E estamos ainda no princípio. Daqui a pouco tempo teremos de aturar os nacionalistas e os ecologistas radicais aos berros a dizer: "Estão a perceber como podemos viver tão bem com uma côdea de pão e com as fronteiras fechadas?"
Deus nos ajude, que vêm aí tempos interessantes, como dizem os chineses, que também percebem disto.

Estado de sítio (7)

por João Távora, em 20.03.20

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Coronavírus hoje em Portugal – 785 casos, 6 vítimas mortais

"Senhor, como é bom estarmos aqui!"
Mateus 17:4

Na tabacaria aqui da praceta puseram o balcão à porta e ficou a modos que um quiosque como exige o governo, há sempre maneira de se dar a volta às coisas. Constatei-o pela fresca esta manhã quando fui fazer uma corrida pelas ruas interiores e desertas entre S. Pedro e São João do Estoril. Percorridos cerca de quatro quilómetros, as poucas pessoas com quem me cruzei, levavam cães a passear ou eram todas de idade avançada. A solidão mata tanto ou mais que qualquer epidemia e eu desconfio que tudo irá ser igual em todo o lado. A diferença estará na densidade populacional e nas condições do serviço de saúde de cada país. Podem ficar sossegados, o que não tem resolução, resolvido está.
Os miúdos estão com espírito, a mais velha fez uma sessão de Tai Chi na sala, e os outros mantém a ligação às escolas. Se fazemos almoço à mesa, com todos os Fs e Rs (todos têm de estar vestidos e aprumados), o jantar é informal, só com sopa e sanduiches – amanhã é dia de voltar ao supermercado. Ao fim da tarde reunimo-nos todos para rezar o terço a Nossa Senhora.
Em termos de trabalho é visível a redução de pedidos de orçamento, mas hoje recebemos dois pedidos de traduções de… empresa farmacêuticas. Por uma vez na vida os Távora não podem dizer mal da sorte. Graças a Deus.

Estado de sítio (6)

por João Távora, em 19.03.20

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Coronavírus hoje em Portugal – 785 casos, 3 vítimas mortais

Hoje calhou o primeiro dia sob o regime de “estado de emergência” ser dia de São José. Tenho o São José como o meu herói entre os Santos. Uso uma medalha perto do coração e demos o seu nome ao meu filho mais pequeno, na esperança que a sua santidade inspire os meus passos. E hoje é também dia do Pai, uma data que nos anos mais recentes tem para mim sido cada vez mais parecida com o meu dia de anos. Talvez seja por pressão da mãe, ou quem sabe os miúdos começaram a reconhecer importância no meu papel. Desse modo o almoço foi na varanda, abrimos uma garrafa de vinho reserva e a Carolina fez-nos umas farófias deliciosas de sobremesa. Isto comprova que apesar das circunstâncias do confinamento sou um sortudo (acho que amanhã vou de carapuça na cabeça fazer 4 quilómetros de corrida na clandestinidade pelas ruas desertas que faz-me falta o exercício para manter a sanidade). Menos mal é o facto de ter recebido um e-mail do Sporting a desejar-me feliz dia do Pai. A paragem do campeonato tem poupado os sportinguistas a muitas aflições, verdade se diga. Mas faz muita falta o futebol, convenhamos.
O meu filhote mais pequeno apesar da resistência (por ele passava o dia todo esparramado no pufe a jogar jogos electrónicos e a falar com os amigos por WhatsApp), continua a cumprir com os deveres enviados pela escola que envia diariamente por e-mail para a professora respectiva, mas hoje soubemos que estão em vias de iniciar as aulas à distancia, a exemplo do que já acontece com a irmã com a Faculdade de Direito.
Ontem gostei particularmente de assistir a um debate na TVI sobre o estado de emergência e a alocução do professor Marcelo. Incluía sumidades como Paulo Portas, Miguel Sousa Tavares, Manuela Ferreira Leite, Garcia Pereira e… o Pedro Santos Guerreiro: consolou-me constatar que o afamado jornalista tenha seguido o exemplo do Presidente da República, vestindo uma gravatinha e um fato engomado. Apesar da catástrofe há que manter as aparências da dignidade, o telespectador agradece. A propósito do tsunami económico que aí vem, é curioso constatar como há demasiadas pessoas que até são inteligentes e razoáveis, mas quando o assunto tem a ver com economia e finanças adoptam o pensamento mágico. Sobre as questões de trabalho, a minha mulher e eu continuamos empenhados em entregar os nossos trabalhos a horas, a pagar aos nossos colaboradores e a cumprir as nossas responsabilidades na expectativa que isto não pare de vez e que o dinheiro continue a circular. Caso contrário ficaremos entalados.  

Estado de sítio (5)

por João Távora, em 18.03.20

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Coronavírus hoje em Portugal – 642 casos, 2 vítimas mortais

Confesso que me faz alguma urticária a perspectiva da declaração de Estado de Emergência prenunciada para logo ao final do dia. Não sei se não será um exagero em face à forma disciplinada como, em liberdade, os portugueses têm respondido às exigências deste infortúnio global. Portugal está praticamente paralisado e intuo que não será fácil manter este estado de coisas por muito tempo, os anúncios de encerramento de lojas e indústrias vão-se multiplicando. Aqui na praceta é desoladora a paisagem com o parque dos baloiços silencioso. O restaurante aqui debaixo fechou e espero que não aconteça o mesmo com a tabacaria. Até quando serão distribuídos os jornais em papel? Será este o seu fim tantas vezes profetizado? Mas para já a prioridade é o isolamento, concentremo-nos nisso. A segunda vítima mortal é o banqueiro Vieira Monteiro, sinal de que o vírus é democrático, não olha a condição económica ou social. Deus o tenha na sua infinita misericórdia.
Cá por casa hoje ainda houve condições para a minha mulher ir ao notário certificar duas traduções, resquícios de normalidade que não sabemos quanto tempo durará. Nesse sentido fui à farmácia aviar umas receitas, na perspectiva de não voltar tão cedo – a entrada no interior era limitada por senhas e no balcão estavam montados uma espécie de guichets de acrílico transparente. O resto do pessoal, dentro dos condicionalismos, continua com a cabeça fresca, com as novas rotinas a serem assimiladas. A minha filha que está a cursar direito na Faculdade de Lisboa vai comparecendo nas aulas virtuais, transmitidas em directo por uma aplicação chamada Zoom.  
A excepcionalidade da situação obriga-me, a mim que sou viciado em notícias, a medidas de disciplina especiais para não entrar em parafuso: só as consumo ao levantar pela rádio Observador e depois do jantar faço um zapping pelos noticiários da TV, e ontem fiquei surpreendido com a aparência descuidada de alguns comentadores que surgem via skype sem qualquer cuidado no arranjo pessoal, algo que por uma razão de respeito pelos espectadores me parece injustificado. Sei que a moda pegou com o Chefe de Estado, mas convém não exagerar. Por exemplo, descontando o hipotético drama pessoal por que passa o Pedro Santos Guerreiro no seu isolamento, não se compreende que apareça na TVI 24 com o cabelo em pé, barba de 3 dias e com a gola da camisa à banda. Corremos o risco de assustar os telespectadores, sendo que para mais ainda estamos no início da crise.  
Desconfio que amanhã já não poderei ir fazer a minha corridinha higiénica sem correr o risco de ser interpelado pela polícia ou por um vizinho mais zeloso. Mas voltarei aqui se Deus quiser, mesmo que não tenha coisas muito interessantes para dizer, como vem sendo o caso.

Estado de sítio (4)

por João Távora, em 17.03.20

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Coronavírus hoje em Portugal – 448 casos, 1 vítima mortal

 Ontem pela manhã recebi a primeira baixa entre os meus clientes, um a suspender os meus serviços. Era expectável já que se trata de uma empresa de recursos humanos da área da hotelaria. Fica a hibernar até que surjam melhores tempos. Nós pela nossa parte estamos a pagar as nossas contas e a cumprir as responsabilidades fiscais na expectativa que o dinheiro continue a circular.
Esta manhã para desanuviar fui fazer uma corrida de meia hora entre S. João e S. Pedro do Estoril evitando deste modo ir para os lados do paredão onde imagino que haja mais gente, e antes do almoço ainda fui ao supermercado ao lado da minha casa, onde implementaram um sistema de senhas para controlar o afluxo de pessoas. Achei o talho muito depauperado, e para além do papel higiénico notam-se falta de alguns produtos como arroz basmati ou bolacha Maria. As lojas aqui da Praceta ainda estão abertas (tabacaria, restaurante e café) e vêm-se pessoas na rua. O parque de baloiços encontra-se vedado com uma fita da protecção civil. Faz falta o bruá das crianças a brincar.
Ontem na recitação do terço contámos com a simpática “visita” duma sobrinha que nos acompanhou via WhatsApp. O miúdo mais pequeno, bastante contrariado vai cumprindo com os trabalhos que lhe são encomendados pelos professores via Internet e já aprendeu a mandá-los por e-mail. De resto continuamos os cinco bem de saúde e com ânimo (já vos tinha dito que somos cinco?), a interiorizar a perspectiva dum isolamento prolongado, aspecto que me lembra as pessoas que estão sós. Que não caiam na tentação de passar o dia a ler ou ouvir notícias, ou pior ainda nas redes sociais a enervarem-se. Ainda estamos só no princípio duma longa jornada.
Ontem recebemos uma mensagem do Chefe da Casa Real Portuguesa. Hoje parece que vai falar o Marcelo.

Estado de sítio (3)

por João Távora, em 16.03.20

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Coronavírus hoje em Portugal – 331 casos, 0 vítimas mortais

Ontem foi provavelmente o primeiro domingo em muitos séculos de história da cristandade sem missas dominicais publicas. Para marcar o domingo ontem decidimos almoçar fora… na varanda. O almoço foram umas pernas e peitos de frango que eu mesmo temperei e assámos no forno e comemos com batatas fritas. A nossa despensa está guarnecida como habitualmente, na expectativa de que podemos nos reabastecer quando necessário no supermercado aqui ao lado.
Dizem-me que o padrão estatístico da incidência dos infectados aponta para um quadro muito parecido com o de Espanha, talvez ligeiramente inferior ao verificado em Itália onde o fenómeno terá sido atípico. É fácil entender que a acção isolamento que estamos a empreender de momento só dará frutos daqui a duas semanas. Acho admirável como os portugueses têm voluntariamente acatado as directivas dos técnicos da Direcção Geral de Saúde. O meu desejo secreto era que não fossem necessárias “obrigatoriedades” impostas pelo poder central, estados de emergência ou coisa pior. Mas pelas redes sociais dá para adivinhar uma turba desejosa de imposições centralistas e radicais, estados de sítio e fecho de fronteiras (o que isso queira dizer)…  teme-se o pior. 
O telefone tem sido um utensilio muito importante para contactar os familiares e amigos, trocar impressões e alijeirar inquietações. Pelo terceiro dia consecutivo recitámos o terço ao final da tarde, e acho que os miúdos até estão a gostar do sentimento de cumplicidade que a oração em família convoca. O mais difícil está a ser por o miúdo mais pequeno a estudar as matérias do programa escolar que nos foram remetidas pela escola, mas a coisa vai ao sitio, com paciência e às vezes voz grossa.
Entretanto soube-se que os Genesis, ou o que resta daquela banda extraordinária do início dos anos 70 (Peter Gabriel e Steve Hackett não estão para chatices), vão reunir-se para uma tournée no Reino Unido em Novembro. Assim que a epidemia passar prometo empenhar-me na organização duma espécie Prós e Contras, com os melhores especialistas sobre o tema (um deles sou eu)… e bar aberto. Acho que o sucesso é garantido.

Estado de sítio (2)

por João Távora, em 14.03.20

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"Como se trava uma onda destas? Parando o País agora, quando a curva de incidências ainda está a subir muito depressa ou mais à frente? Os ingleses acreditam que o pico epidemiológico só vai ocorrer dentro de 10 a 14 semanas e que os esforços deste lado do Canal da Mancha estão errados. Preferem proteger a população mais idosa e grupos de risco e deixar que o vírus alastre um pouco mais para se conseguir uma espécie de imunidade comunitária.
A nossa estratégia é outra, mais radical. Mas tem um risco enorme. Se não parar a onda, vai ter de se prolongar muito no tempo."

Ricardo Costa hoje no Expresso

Coronavírus hoje em Portugal – 169 casos, 0 vítimas mortais

Curioso como a as pessoas se estão a adaptar a esta crise. Ontem nos correios de S. João do Estoril havia um traço a um metro do balcão que os clientes eram proibidos de atravessar. Os empregados vestiam luvas e o terminal de multibanco era desinfectado após cada utilização. De retorno a para casa, que fica à distancia de pouco mais de 500 metros, o tráfico parecia o de um Domingo. O meu filho, que tem estado fechado em casa e me acompanhava, comentou que pensava que não encontraria mesmo ninguém.
Esta manhã atrevi-me e fui ao ginásio fazer um pouco de exercício e encontrei-o quase vazio, o que tornou a minha visita muito higiénica. Apesar disso, e do visível reforço na higienização e dos desinfectantes disponíveis por todo o lado, suspeito que encerrará mais dia, menos dia. 
Entretanto hoje o Expresso noticia que o pico da epidemia pode acontecer em meados de Maio, o que nos obriga a repensar o modo de vida que vamos adoptar. Deste modo entendo a estratégia dos Ingleses que não tenho como loucos, antes pelo contrário. É o que eu tenho vindo a dizer cada vez mais baixinho para não me baterem: não me parece económica e humanamente possível o país ficar parado quase 3 meses parado em estado de sítio. Até do ponto de vista da saúde mental.
Hoje ficamos por casa, vamos almoçar umas salsichas com couve lombarda e está combinado à noite alugarmos o Toy Story 4 na TV Box. É preciso manter as tropas motivadas.

PS.: Não haverá algum canal de televisão aberto que se chegue à frente para a transmissão diária de uma missa enquanto a celebração estiver vedada nos templos? Estou a pensar nas centenas de milhar de crentes idosos que em termos de tecnologia pouco mais sabem que mexer no comando.

(Continua)

Estado de sítio (1)

por João Távora, em 13.03.20

escafandro.jpg

Coronavírus hoje em Portugal – 112 casos, 0 vitimas mortais

A epidemia do Coronavírus mudou as nossas vidas. Vivemos tempos absolutamente extraordinários sem dúvida, com as escolas fechadas, sem futebol, e até as missas foram canceladas, coisa nunca vista. Nem os republicanos do 5 de Outubro ambicionaram a tanto. Resta saber quem vai pagar a factura desta travagem a fundo existencial. Cá por casa não estamos sujeitos a quarentena, apenas obrigamo-nos à prudência dum recolhimento auto-infligido. Deus Pai nos ajude a todos - hoje ao final da tarde rezámos em família um terço a Nossa Senhora.

Trabalhar em casa é coisa que por cá já fazemos há muito tempo - apesar de eu ter um pequeno escritório em Cascais. Hoje tive de ir por umas facturas ao correio (que a vida continua, não temos rendas e o dinheiro não nos cai do céu) e aproveitei para levar a criança mais nova que está há 3 dias sem sair em casa, preguiçando entre os deveres protelados da escola, a Nintendo e o computador, um passeio que, contrariamente ao que seria de esperar, aceitou com bonomia. As próximas semanas desafiam-nos a imaginação para por a casa em actividade, e a malta mentalmente sã - que mais letal e contagioso que o Coronavírus é a paranóia, que atinge principalmente quem tem pouco que fazer. Por estes dias há que açambarcar bom senso e racionalidade, que são coisas que não se vendem nos supermercados.

 

(Continua)



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