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Estado de sítio (26 e último)

Este país que tudo aguenta...

por João Távora, em 05.05.20

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Coronavírus hoje em Portugal – 25.702 casos, 1.074 vítimas mortais

Ontem retomei o trabalho no meu escritório em Cascais, agora que em casa as rotinas do novo normal estão estabilizadas. Os miúdos têm aulas virtuais com horários e a nossa empregada voltou ao serviço, que significa um considerável alívio nos afazeres domésticos.

Esta manhã à porta do meu escritório fui intimado a manter distância por uma senhora descabelada que passava na rua (bastante afastada diga-se) e que me tirou do sério. Desconfio que haverá muita gente que, sugestionada pelo disparatado cartaz da câmara municipal, não só "perdeu o medo de ter medo", como está a adorar a experiência. Outra impressão que me fica da vila de Cascais por estes dias é que, na ausência de turistas, e estando ainda encerrados ou a meio-gás a maior parte dos organismos públicos, o perfil da população com que nos cruzamos nas ruas é maioritariamente composto por imigrantes, gente que não se pode dar ao luxo do teletrabalho e menos ainda ao confinamento. Será esta pobre gente a maior vítima do coronavírus, suspeito. Nota-se que a maior parte das lojas, tirando os bares e restaurantes, já abriram as portas mas desconfio que os clientes ainda serão poucos. Cascais sem forasteiros não tem economia que lhe valha.

Uma nota ainda sobre o escândalo das celebrações do 1º de Maio na Fonte Luminosa, por decreto presidencial e votado quase unanimemente no parlamento, enquanto as autoridades expulsavam algum afoito cidadão que se atrevesse a ler um livro num banco do jardim: trata-se quanto a mim um paradigmático acontecimento, muito mais grave do que nos querem fazer crer. Aquele circo diz muito sobre a irrelevância da nossa sociedade civil e da tibieza das nossas instituições, que com demasiada facilidade se ajoelham às oligarquias do costume que nos toureiam e tomam por parvos. As desculpas esfarrapadas de Marcelo Rebelo de Sousa são confrangedoras e uma metáfora do país que somos – temos aquilo que merecemos. Sintomática é também a complacência da maior parte da comunicação social “de referência” e das suas principais personalidades que se submetem sem pudor à subterrânea lei dos donos disto tudo. Expulsaram eles os nossos saudosos reis para suportarmos, mansos e venerandos, esta porca miséria. Às vezes tenho vergonha de fazer parte desta charada a que chamam país. Que aguenta tudo, bem sei.

Com esta crónica termino esta série que intitulei “Estado de Sítio”, a modos que o meu testemunho destes tempos estranhos em que um vírus de medo nos contagiou a todos e que nos fez viver confinados nas nossas casas durante quase dois meses. Aqui chegados, sobrevivemos. Espero que os danos sofridos tenham valido a pena, porque suspeito que a mais assustadora peste é o que vem a seguir.

Estado de sítio (25)

O Pós-guerra

por João Távora, em 29.04.20

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Coronavírus hoje em Portugal – 24.505 casos, 973 vítimas mortais

Não é sem algum incómodo e até angústia que percepciono pelas redes sociais sinais de indignação e resistência ao inevitável retomar da normalidade, que se expressam em diferentes matizes: os rezingões a espreitar da janela as famílias que já se atrevem a sair à rua com as suas crianças, os snobes que bocejam contra o reatamento dos jogos de futebol, e os outros que se sentem ameaçados por uma suposta visão economicista que se estará a sobrepor ao sagrado valor da vida humana, escondida atrás do alívio das medidas de confinamento. Perante isto e a absoluta incerteza quanto à perspectiva duma imunidade ao COVID-19, seja por via natural ou por via de uma vacina disponível para toda a gente, parece-me urgente que cada um assuma a sua responsabilidade no esvaziar da bolha de medo em que comodamente nos instalámos, e na promoção dum retorno progressivo à normalidade. E não me venham com a história de que uma vida humana não tem preço, pois toda a gente sabe que tem, desde logo o sabem as instâncias do Estado que todos os dias rejeitam medicamentos inovadores por avaliação custo vs benefício (o que valem alguns meses de vida para uma pessoa com cancro?).

Assustadora me parece a passividade com que nas últimas semanas prescindimos da nossa liberdade e do sentido crítico, a facilidade com que tantos vigiam, julgam e denunciam outros mais afoitos, rejeitando liminarmente quem recuse a narrativa dominante, a crise vista da enfermaria. Se ser hipocondríaco é um capricho pequeno-burguês, o resto revela-nos bem como vivemos tão conformadamente os 48 anos do Estado Novo.

O que é facto é que ontem num passeio ao centro de S. João do Estoril constatei que o pessoal está a por a cabeça de fora, que as pessoas comuns que não possuam gordas economias, ou vivam de rendimentos ou pensões, estão em vias de desesperar. E que até aos mais resistentes a psicose do isolamento começa a fazer estragos. É urgente que os poderes mudem a narrativa, corrijam o caminho, pois parece evidente que vamos ter de viver com o coronavírus à porta de casa durante muito tempo e este ambiente de medo não pode prevalecer. Temos de assumir o risco e sair das nossas casas, se queremos voltar a reencontrar os nossos pais vivos e não causar danos irreversíveis às nossas crianças em prisão domiciliária. E obter sustento para levar para a mesa.

E a todos que acreditam que estamos a travar uma guerra, é bom que entendam que em face à devastação ocorrida, será no convívio com o inimigo que teremos de dar início ao movimento de reconstrução das nossas vidas, trabalhos de hércules em que todos somos convocados a participar. Quanto antes. 

Estado de sítio (24)

Síndrome de Estocolmo

por João Távora, em 26.04.20

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Coronavírus hoje em Portugal – 23.864 casos, 903 vítimas mortais

Ontem dia 25 de Abril de 2020 um artigo de Francisco Louçã sobre democracia fez capa da revista do Expresso e ninguém se sobressalta, ninguém questiona. Estamos enterrados na porcaria até ao pescoço mas achamos normal. A isto chama-se síndrome de Estocolmo. Aqui na praceta onde moro a efeméride passou ao lado, às 15,00hs fui à janela e népias: os meus vizinhos têm a noção do ridículo. Um amigo, confrontado com o silêncio na sua rua do centro de Lisboa, telefonou-me a alertar que na televisão tinham anunciado que “os portugueses tinham cantado o Grândola à janela”. Ainda bem que existem noticiários para nos chamar à razão.

Entretanto cá por casa a vida segue uma rotina saudável, hoje assistimos em família à missa pela televisão e fiz uma lasanha para o almoço. Comprámos máscaras que usei ontem pela primeira vez quando fui ao supermercado. O truque para as usar é baixar os óculos no nariz para não embaciarem. Acreditamos que em Maio a vida vai normalizar um pouco, as autoridades já avisaram a retoma de venda de passes sociais. Gostava que os miúdos retomassem as aulas, principalmente o mais pequeno, pois desconfio que o confinamento para ele seja especialmente prejudicial por causa dos jogos electrónicos em demasia. Eu já me decidi, vou voltar a trabalhar do meu escritório em Cascais, também na expectativa de sinais de alguma retoma – pelo menos arejo a cabeça. Suspeito que um efeito colateral desta crise em Portugal seja a consolidação do socialismo e de mais pobreza. Nestas alturas é que me calhava um emprego no Estado…

Estado de sítio (23)

A Primavera está aí em força

por João Távora, em 23.04.20

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Coronavírus hoje em Portugal – 22.353 casos, 820 vítimas mortais

Acho que foi na segunda-feira que ouvi acidentalmente na SIC Notícias um deputado socialista que não sei o nome, dizer que era responsabilidade dos media fazer pedagogia a respeito dos méritos da celebração do 25 de Abril no parlamento apesar do confinamento decretado. Desde então esse esforço pedagógico reflectiu-se, ao mesmo tempo que o número de participantes na festa se foi reduzindo, em várias entrevistas a Ferro Rodrigues que insiste em se comportar como um elefante numa loja de porcelanas. Os portugueses no sábado darão a merecida atenção ao evento. Já as instituições do Estado português, mesmo “republicanas” mereciam mais consideração. Não há máscaras que lhe valham.

Por falar em “pedagogia”, os noticiários das televisões generalistas tornaram-se numa feira de horrores, coisa obscena, como se fossem transmitidos das enfermarias dos hospitais, num campeonato de sensacionalismo para despertar o medo e a mais completa irracionalidade ao telespectador. Como refere aqui o Henrique Pereira dos Santos “temos hoje uma comunicação social empenhada no seu papel de aterrorizar pessoas, e a fazer com que as pessoas achem normal que o Estado limite as suas liberdades individuais”. Eu acho que o que leva as televisões a cultivar o alarmismo é mais prosaica, tem a ver com a luta de audiências, que como sabemos a alienação tem clientela certa. Pela minha parte cortei o mal pela raiz, para não me contaminar, já nem o Paulo Portas oiço.

Hoje António Costa admitiu possibilidade da DGS ter acesso a localização de telemóveis das pessoas para controlo da epidemia. Mas como garantiu no parlamento que não vai haver austeridade, podemos estar descansados. 

Ontem arranquei a minha filha de casa para irmos à Avenida Marginal comprar uma coisa à loja de ferragens, onde puseram um postigo à porta para manterem o negócio nestes tempos de quarentena. Pela minha parte eu vou fazendo a minha corrida matinal de 4 quilómetros pelas ruas interiores de São Pedro do Estoril, mais para manter a sanidade mental que a física. Posso garantir-vos que a primavera está a chegar em força.
Pensar que já houve tempos em que era feio falar de doenças para se manter o nível da conversa...

Estado de sítio (22)

Sol na eira e chuva no nabal

por João Távora, em 21.04.20

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Coronavírus hoje em Portugal – 21.379 casos, 762 vítimas mortais

Quando me vêm com a conversa das diferenças culturais e comparações entre as economias do norte e do sul da Europa, eu sou forçado a aceitar que elas existem e que isso é bom, apesar do alto preço que pagamos (eles nunca vão querer pagar-nos). Hoje pela manhã à vinda do Supermercado, com uma temperatura acima dos 20 graus, vinha a reparar na primavera a despontar nos canteiros e nas frechas dos passeios, onde as papoilas rebentam no lugar das azedas. Ao chegar à praceta deparo-me com os velhotes e os desocupados a conversarem displicentemente com a máscara no queixo em frente à tabacaria e ao restaurante que improvisou um guichet para servir cafés em copos de plástico, salgados e refeições para levar para casa. O confinamento mata mais que o novo coronavírus e não é em vão que Deus nos presenteou com este clima. Já no norte da Europa eles vêm-se obrigados a trabalhar para aquecer ou na melhor das hipóteses a tirar a neve dos telhados ou da frente da casa. Claro que lamento o nosso centralismo republicano, a mediocridade e a desresponsabilização pessoal. A embaixadora da Suécia um dia destes explicava numa entrevista que o seu governo constitucionalmente não tem poderes para fechar as empresas e muito menos as pessoas em casa. Em compensação temos esta coisa fantástica da família alargada, com os tios, os avós, os primos, muitos primos, um Portugal que não podemos deixar morrer. Se isso acontecer corremos o risco de ficar com o pior dos dois mundos: a pobreza dos latinos e a solidão dos nórdicos. A minha geração não precisou do emprego, de uma carreira, ou do associativismo para conviver, fazer amigos ou namorar. Temos famílias grandes, a paróquia, a vizinhança, os cafés, as esplanadas e as praias mornas (quase) o ano todo. Essas são vantagens impossíveis de mutualizar com os nossos parceiros do norte. Tornamo-nos crianças grandes, gostamos que decidam por nós, metediços uns com os outros, mas com isso também nos amparamos preguiçosamente. Como é que podemos obrigar os nórdicos a pagar a factura disto tudo? No fundo, os portugueses europeístas são uns gananciosos: gostavam de emigrar sem sair de cá, querem o sol na eira e chuva no nabal. Percebo-os, o meu patriotismo também tem dias.

Estado de sítio (21)

Inquietações

por João Távora, em 18.04.20

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Coronavírus hoje em Portugal – 19.685 casos, 687 vítimas mortais

Tenho estado atento aos artigos e programas de opinião dos nossos mais conhecidos jornalistas e comentadores dos principais OCS, e quase não vislumbro indignação ou simples oposição, mesmo dos supostamente mais independentes, a respeito do agendamento da comemoração do 25 de Abril em período de quarentena. Longe de mim suspeitar que essa unanimidade tenha a ver com a promessa de compra de 15 milhões em publicidade institucional em Abril aos OCS por parte do governo. Mas parece...

De resto não confundamos o regular funcionamento dum órgão de soberania como o parlamento (para mim o mais nobre dos que temos), mesmo adaptado às medidas de distanciamento social, com uma sessão comemorativa meramente simbólica, que no caso vertente remete para o fanatismo religioso. A legitimidade desses senhores nos enclausurarem em casa fica profundamente comprometida e isso vai notar-se cada dia mais.

Finalmente deixo-vos mais uma inquietação, a vós que tendes poucas: ainda não se sabe quando vão chegar 1000 (mil) ventiladores comprados há um mês em pronto pagamento aos chineses. O governo garante que ainda não foram necessários e pelo andar da carruagem não o serão. Ainda os vamos encontrar à venda à peça na Feira da Ladra a preços de conveniência.

Estado de sítio (20)

Não foi para isto que se fez o 25 de Abril

por João Távora, em 16.04.20

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Então, por causa das medidas de confinamento, os católicos não puderam celebrar a Páscoa em comunidade e a república não prescinde da sua missa anual do 25 de Abril? Ficámos ontem a saber que a celebração contará com 300 pessoas entre deputados, convidados, funcionários e jornalistas. Trata-se dum péssimo exemplo para a população e uma refinada falta de sentido de estado do parlamento. Tomara que se contagiem todos uns aos outros com... sarna.

Entretanto decorre por aí um excitante debate entre reputados opinadores sobre a aprendizagem que a humanidade pode fazer com a pandemia do coronavírus no caminho da sua redenção. As expectativas estão ao rubro, que isto de muito tempo no sofá estimula o "pensamento mágico". O que a humanidade está a aprender eu não faço ideia, julgo que nada; mas se os portugueses aprendessem a deixar de escarrar para o chão para mim já era uma boa evolução.

Soube que o António Costa entrou ontem na casa de muitos alunos confinados através da telescola em emissão na RTP memória. Um azar nunca vem só. E, sim senhor primeiro-ministro, desta vez a coisa não se vai chamar "austeridade", vai chamar-se "pobreza" mesmo.

Estado de sítio (19)

por João Távora, em 14.04.20

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Coronavírus hoje em Portugal – 17.448 casos, 567 vítimas mortais

Depois de Sábado à noite termos assistido em família à comovente Vigília Pascal na Basílica de São Pedro no Vaticano (por estes dias a minha paróquia), no Domingo de Páscoa celebrámos a ressurreição do Senhor com um almoço de festa a valer. Todos os confinados vestidos a rigor, toalha de linho, loiça bonita, ementa criteriosa. Por escolha democrática o prato principal foi um divino bacalhau espiritual feito pela minha mulher, regado com um competentíssimo vinho branco do Douro escolhido por mim; e no final, para acompanhar uns deliciosos suspiros feitos pela miúda mais nova, abrimos uma digníssima garrafa de Vintage Borges de 1988. Durante o dia recebemos e fizemos muitos telefonemas de congratulações e dessa forma disfarçámos as saudades dos ausentes.

Hoje terça-feira começaram as aulas virtuais em horários definidos para o miúdo pequeno, que vão exigir muita paciência e empenho aos seus pais. Deus nos ajude.

Confirmado pelo boletim da DGS de hoje, os números da pandemia em Portugal continuam muito positivos, os internamentos e a taxa de mortalidade aparentam estar sobre controlo, e como bem referia ontem a ministra da saúde, o SNS tem estado a dar boa resposta à crise sanitária. Perante estes factos, e contando com a capacidade do exército em fornecer tendas e camas, a mais ninguém parece estranho que se estejam a fazer peditórios para montar hospitais de campanha?

Mais interessante que a entrevista desta manhã do Observador a António Costa, que pouco disse de novo a não ser recomendar-nos a reserva de férias balneares em Portugal (resta saber quantos portugueses terão condições económicas para isso), foram as análises dos comentadores. O bajulador do Bernardo Ferrão estava lá como convidado para contrastar, e bem pode reclamar uma avença ao governo.

Pela minha parte nesta altura confesso-me pouco preocupado com as férias, mas antes com o meu trabalho que já deveria estar a recuperar os níveis normais, passada a crise de adaptação dos nossos clientes ao teletrabalho. E incomoda-me de sobremaneira a leviandade com que no espaço público se fala do problema dos mais velhos e frágeis, isolados em suas casas ou em lares, que parecem condenados por muitos meses a um cruel abandono. Pergunto-me se com isso não os estamos a sentenciar a uma morte lenta por melancolia e depressão.

Estado de sítio (18)

por João Távora, em 10.04.20

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Coronavírus hoje em Portugal – 15.472 casos, 435 vítimas mortais

Cá por casa a vida segue as suas rotinas, um pouco claustrofóbicas convenhamos. Esta manhã fui fazer a minha corrida higiénica com o meu filhote pequeno (tem treze anos e algum buço), que a custo consegui arrancar da sua cama modorrenta. Talvez porque estivesse uma manhã radiosa, mas também porque as pessoas têm de encontrar equilíbrios para suportar o confinamento, cruzámo-nos com bastantes pessoas e famílias que esticavam as pernas pelas ruas habitualmente desertas do interior de São Pedro do Estoril. Estou em crer que para o miúdo teria sido bastante mais estimulante fazer uma corrida com os seus colegas de escola, mas quem não tem cão caça com gato. E ele daqui a uns anos vai gostar de recordar estas cumplicidades forçadas. Na terça-feira o colégio dele dá início a aulas virtuais com horários estabelecidos, coisa que ajudará a imprimir alguma ordem na gestão dos seus estudos. (O retorno da Telescola a ser transmitida pela RTP Memória é uma parábola impagável sobre o nosso atraso de vida).
A propósito da "equilibrada" decisão do governo quanto à reabertura das escolas em Maio: quantas semanas mais aguentarão as famílias, muitas delas mal estruturadas, com crianças e adolescentes encafuados em apartamentos 24 sobre 24 horas?
Ontem fui a Cascais tratar de assuntos inadiáveis e ao abrir a caixa do correio do meu escritório fui surpreendido ao encontrar lá um livro que me fora prometido em tempos por um bom amigo, um reaccionário à moda antiga: “A Marcha de Radetzki” de Joseph Roth. Um raio de luz que entrou no meu confinamento.   
A propósito de raios de luz, ontem o dia também ficou marcado pelo facto da ministra Graça Fonseca à conta da indignação geral ter cancelado um sinistro banquete, desculpem, “concerto” de uns quantos “artistas” amigos que se preparavam para se lambuzar com um milhão de euros do erário público. A oligarquia não vai roubar para a estrada porque está habituada a fazê-lo do sofá, mas desta vez não deu. Nem tudo são desgraças.
De resto os telejornais continuam locais de má frequência. Esperar pelo Paulo Portas ou por uma pergunta inteligente do Miguel Sousa Tavares é penitência injustificada mesmo na Semana Santa: insistem apresentar os números da epidemia nos diferentes países (com diferentes perfis demográficos e socioeconómicos, já para não falar do clima) como se a coisa se tratasse de um campeonato de futebol em que impera uma justiça poética dependente das virtudes dos artistas. Uma coisa parece-me evidente: em termos de seriedade e isenção o jornalismo português de massas é clubista e luta para não descer de divisão.

O mais importante é que hoje é Sexta-feira Santa em que os cristãos relembram com penitência e sobriedade o brutal tormento infligido a Jesus Cristo na sua morte redentora. Dia de recolhimento e oração para os crentes que preparam a Páscoa do Senhor. A esse respeito relembro uma freira cujo testemunho ouvi em tempos acidentalmente na telefonia, que tendo oferecido a sua vida a cuidar de raparigas com doenças mentais profundas, lembrava como a doença, o sofrimento e a morte se tornaram assuntos tabu que a nossa cultura do prazer efémero erradicou do nosso olhar numa inebriante alienação de nós próprios. A negação da nossa precária condição humana, noção essencial à inquietação existencial e procura de Deus. O pior é que, com a recusa de enfrentar a dor e a morte olhos nos olhos, de reprimir essa angústia saudável, somos levados a banalizar o Dom da vida, milagre extraordinário que deve ser sempre celebrado em grande júbilo, como os católicos não deixarão de fazer no próximo Domingo de Páscoa, da ressurreição de Jesus.

PS.: Magnífica a Via Sacra transmitida da Praça de S. Pedro e presidida pelo Papa com realização, cenarização e fotografia excepcionais, que não desmereceram as 14 meditações sobre a temática dos condenados e das prisões, da culpa da dor e da perdão. 

Estado de sítio (17)

por João Távora, em 07.04.20

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Coronavírus hoje em Portugal – 12.422 casos, 345 vítimas mortais

No Domingo de Ramos, depois de assistirmos à missa dominical celebrada pelo Cardeal Patriarca na Sé e transmitida pela televisão, o almoço foi encomendado do restaurante aqui debaixo e tirámos uma “selfie” de família para memória futura. Na segunda-feira a minha enteada retomou o seu trabalho em Lisboa no restauro duns azulejos numa obra da baixa, facto que prenuncia uma nova fase das nossas vidas que eu acredito se irá gradualmente a generalizar depois da Páscoa: vamos todos ter de nos habituar a viver com o vírus durante muito tempo, fazendo uma vida tão normal quanto possível protegendo os mais vulneráveis. Antecipando-se um período relativamente longo até que seja disponibilizada uma vacina contra o COVID-19, receio muito que a maior sequela do vírus venha a revelar-se no refreamento das nossas expressões de afecto em sociedade. O perigo que antevejo não é o de adoptarmos os costumes frios dos nórdicos, é passarmos a saudar-nos como os chineses, coisa que será uma suprema ironia. Alguém me sabe informar onde se podem adquirir as máscaras aconselhadas pela ministra da saúde? 
Enquanto a curva dos infectados em Portugal vai dando sinais de que a epidemia está controlada, os meus miúdos mais novos arrastam-se com uma indolência incrível, para mais agora com o argumento engatilhado na ponta da língua de que estão de férias – estão adaptados demais. Já consegui arrancar o mais pequeno ao pufe duas vezes para fazermos ginástica juntos, pois desconfio que esta inactividade contínua não faça nada bem a uma criança de 13 anos. Como não sou um psicólogo brilhante nem tenho um grande espírito maternal, o miúdo ao princípio fica chateado mas depois conforma-se (talvez seja preguiça). Entretanto proibi-o de se tornar adolescente durante o estado de emergência. Para cada dia, basta a sua pena.
Portugal possui um perfil sociológico e económico muito próprio, com demasiada gente a viver da função pública, rendas e pensões, pode dar-se ao luxo de ser hipocondríaco. São esses portugueses que maioritariamente votam, e receio que o problema venha a ser por este país outra vez na rua.
O desafio esta semana será o de prepararmos condignamente os nossos espíritos para a Páscoa de Jesus Cristo sem os rituais comunitários a que estávamos habituados.
Deus nos ajude. 

Estado de sítio (16)

por João Távora, em 04.04.20

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Coronavírus hoje em Portugal – 10.524 casos, 266 vítimas mortais

As coisas estão a correr melhor do que seria de esperar, a rampa ascendente de internados e de óbitos (que é o que me interessa) parece estar a abrandar com consistência, as medidas de confinamento em Portugal parecem estar a resultar de uma forma que nem os mais optimistas se atreveriam a supor. Julgo que contribuem para isso principalmente dois factores específicos da realidade cultural portuguesa, que sendo eles intrinsecamente "defeitos", por uma vez jogam a nosso favor: o nosso perfil económico e geográfico periférico e a unidade política e administrativa de Portugal, o chamado “centralismo”, que favorece a passagem fácil duma mensagem de alarme para a mobilização de uma comunidade nacional identitariamente muito sólida. Perante a apreensão das nossas gentes não é difícil a António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa assumirem um papel paternal e maternal que é sofregamente desejado pelas gentes assustadas, carentes de orientação e referências. Estamos-lhes reverentes, venerandos e obrigados, por uma vez sem ironia.

Ontem de manhã vesti a minha melhor camisa engomada (há que poupar pois a nossa empregada também está em confinamento) para percorrer com a minha mulher os cerca de 800 metros de casa ao centro de São João do Estoril para meter umas cartas no correio. Desse modo usufruirmos em cumplicidade uma falsa mas saborosa sensação de liberdade. A paisagem com que nos deparámos junto à estação dos comboios pareceu-me aterradora de desolação com as múltiplas lojas de comércio local com as portadas corridas onde sobressaíam obscenos grafitis. Quantas delas voltarão a abrir?

Confesso-vos: mesmo gostando da minha casa e ter muito com que me entreter, sofro de bicho-carpinteiro (os médicos chamam-lhe ansiedade, mas como todos sabemos não os podemos levar demasiado a sério) é só com a ajuda de uma corrida matinal à socapa e dum terço em família a Nossa Senhora ao final da tarde que tenho sobrevivido ao confinamento. Aliás, a boa notícia que esta crise nos traz é a oração familiar que praticamos como nunca antes acontecia. 

De resto uma “União Nacional” acrítica à volta das medidas de confinamento por tempo indefinido é perigosa, porque é insustentável. Percebo que seja difícil a quem decide obter os extraordinários resultados do confinamento sem meter muito medo ao pessoal. Mas se a coisa não vira, daqui a pouco tempo metade dos portugueses estará a pão e água e a outra, na melhor das hipóteses a bater com a cabeça nas paredes.

Têm reparado os meus amigos como ultimamente se têm reduzido a partilha de piadas pelas redes sociais, que, diga-se, nas primeiras semanas da crise foram um autêntico consolo? Suspeito que as pessoas estão a perceber que não, que não “vai ficar tudo bem”. De resto eu sou um daqueles privilegiados a quem só cabe obedecer e (insisto) a quem ainda não começou a faltar trabalho.

Estado de sítio (15)

por João Távora, em 02.04.20

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Coronavírus hoje em Portugal – 9.034 casos, 209 vítimas mortais

Fiquei muito impressionado ontem à noite quando num zapping entre os noticiários, depois duma notícia com Jair Bolsonaro (devidamente depreciado pela jornalista) nos seus modos grosseiros a relativizar os efeitos do coronavírus na saúde das pessoas, me deparo com uma outra vinda da India, onde também foi decretado o estado de emergência e o confinamento. A reportagem documentava a brutalidade da polícia armada de chibatas a expulsar os miseráveis feirantes num mercado, e milhares de trabalhadores sazonais subitamente sem emprego a retornarem aos seus locais de origem; uns aos magotes a tentarem entrar nos comboios e outros ainda mais pobres, a palmilharem esse caminho a pé com uma trouxa às costas. Com este murro no estômago fiquei a perceber melhor o discurso absurdo do presidente brasileiro: em certos países com muita pobreza, em que grande parte da população vive de expedientes diários para se alimentar, por causa do confinamento a fome e a miséria prenunciam-se dantescas. 

Cá por casa a vida confinada continua, e esta manhã cruzei-me na sala com a minha filha que assistia no seu computador portátil a uma aula de direito das sucessões, vestida com pijama e pantufas nos pés. Não me pareceu apropriado.

Estado de sítio (14)

por João Távora, em 31.03.20

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Coronavírus hoje em Portugal – 7.443 casos, 160 vítimas mortais

À terceira semana de confinamento, fica comprovado que ensinar é uma especialização importante, e que se compreende que um pai esteja dispensado de ser professor dos seus filhos. É um enorme desafio assumir os dois papéis, mais ainda quando a idade da criança se aproxima perigosamente da adolescência, obcecada por comida, youtubers e jogos electrónicos. Custa-me desperdiçar estes últimos tempos de alguma cumplicidade zangado por causa duma redacção preguiçosa ou com um ataque de nervos à conta duns exercícios de matemática trapalhões que eu não sei corrigir. O potencial desgaste a que nos expomos é considerável, para mais em prisão domiciliária. De resto a vida continua, um dia de cada vez, diz que somos uns privilegiados, principalmente se comparando com a família de Anne Frank.
Quanto ao mais continuo a torcer o nariz a este clima de medo que vem sendo instigado, e a duvidar da sustentabilidade do confinamento a médio prazo, que como bem assinala hoje João Miguel Tavares, é um privilégio burguês. Se a solidão descamba em paranóia, a fome mata mesmo.
Enquanto Graça Freitas e a DGS se desgastam diariamente com estatísticas engatadas e sucessivas contradições (vai acontecer com as máscaras o que está a acontecer com os testes laboratoriais, depois de menosprezado o seu uso ainda vai ser obrigatório assim cheguem ao mercado) o nosso primeiro-ministro transfigura-se em estadista, profere sentenças fofinhas e até já prenuncia as consoantes quase todas, decidido que está em disputar um lugar na História segundo os especialistas. E arrisco a uma previsão: quando o pico da crise de saúde pública passar e vier a pesada factura duma economia em frangalhos, com o país na rua a reclamar empregos e pão, à primeira oportunidade António Costa sai de cena e passará a batata quente a outro(s). Incensado como mártir das circunstâncias, para chegar a presidente, só terá de se recolher com discrição para o sofá com um pacote de pipocas. Só temos aquilo que merecemos.

Estado de sítio (13)

por João Távora, em 29.03.20

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Coronavírus hoje em Portugal – 5.962 casos, 119 vítimas mortais

O mais difícil destas rotinas informes é a falta dos rituais inerentes a cada um dos dias, coisa que transforma a semana num amálgama de tempo indistinto, para além do dia e da noite.  As idas ao escritório durante a semana, os dias de ginásio, os jantares com os amigos ou idas ao futebol, as reuniões profissionais ou políticas, as datas festivas e celebrações religiosas conferem uma plasticidade ao calendário que faz mais falta do que poderíamos pensar. Cá por casa a passagem do tempo é marcada pelas refeições, mais o almoço servido à mesa com alguma formalidade e empenho culinário, e pela recitação do terço ao fim da tarde. Para minha sanidade mental nos últimos tempos tenho assistido no máximo a uma hora diária de notícias na televisão. A parte que mais tenho gostado são as vistas aéreas da minha cidade semi-deserta. Para não desgastar com demasiadas exigências a salubridade mental da nossa pequena comunidade familiar os jantares são volantes, com relativa flexibilidade de horário. Nesse sentido ao domingo ninguém é obrigado a tarefas da escola ou laborais, os computadores preferem-se desconectados e eu não fui fazer a minha corrida matinal. Este dia também é marcado pela carência da missa dominical comunitária, e o facto de hoje não poder cumprir a visita semanal à minha mãe que sofre de um severo enfisema pulmonar causa-me alguma amargura – toda a gente sabe que a solidão também mata, quase tanto quanto a pobreza com que muitos se confrontarão nos próximos temos. Em compensação, a minha mãe com quem tenho falado todos os dias por telefone, parece estar a levar esta crise com algum fair play. Fumadora inveterada durante quase toda a vida, está habituada a respirar pouco.

Hoje foi dia de reabastecimento no supermercado, que me pareceu adaptado à crise, bem apetrechado com produtos frescos em todas as secções. A propósito: aqueles vídeos a ilustrar os comentadores de economia dos noticiários a falar da severa crise financeira a que estamos condenados com máquinas de contar notas de 50 e 100 euros em loop são só para nos enervar, não são? Na Suécia, que como sabemos são uns bárbaros, estão a enfrentar a epidemia de forma diferente da nossa, a vida prossegue com muito mais normalidade que aqui. Espero que sejam eles os enganados.  

Voltando à irritação de António Costa com os holandeses na sexta-feira: é curioso notar que nem os enormes movimentos migratórios das últimas décadas mudaram velhos preconceitos e rivalidades nacionais. É disso que são feitas as nações e não é obrigatoriamente mau.

Estado de sítio (12)

por João Távora, em 27.03.20

papa francisco.jpeg

Coronavírus hoje em Portugal – 4.268 casos, 76 vítimas mortais

“Ninguém se salva sozinho” foi a ideia reforçada hoje pelo Papa Francisco na bênção “Urbi et Orbi” transmitida da Praça de São Pedro deserta para todo o mundo. Impressionante, é o mínimo que podemos dizer.
Cá por casa o confinamento já se tornou rotina, e o sentimento inicial de euforia pela anormalidade das circunstâncias já se esvaiu. Se estar sozinho deve ser difícil, também não é fácil a convivência de cinco pessoas numa casa relativamente exígua de três adultos, uma jovem universitária e um adolescente. Requer sensibilidade no respeito pelo espaço físico e psicológico de cada um, aceitando com o mínimo de disciplina o papel exigido a cada um das tarefas domésticas e outros deveres. Vale a pena o esforço pois desta inaudita aventura “Ninguém se salva sozinho”.
Sempre gostei muito da minha casa, ao longo dos anos decorada em cumplicidade com a minha mulher, apetrechada com bons livros, muitos deles por ler, que coexistem com boa música e boas condições de audição. Trabalho à distância para nós há muito que é o nosso modo de vida, e ainda não nos falta dramaticamente. Mas é diferente quando nos vemos impedidos das actividades sociais e cívicas em que normalmente estávamos empenhados. A angústia causada é a prova que a caridade e o “serviço” cívico são aspectos vitais para a nossa salvação. “Mal de quem não tem a quem (a que) servir, não me canso de repetir.
Hoje, para dar um ar de normalidade, recebemos da gráfica pelo correio o "ozalid" (prova para revisão) do próximo livro da chancela Razões Reais da Real Associação de Lisboa intitulado "Quando o Povo quiser". Trata-se de uma antologia comemorativa dos 10 anos da revista Correio Real onde se reúnem os melhores ensaios e crónicas nela publicados. Não é sem alguma ansiedade que esperamos pela oportunidade de agendar o seu lançamento, com a devida pompa. Disso daremos notícias na devida altura.
Com isto tudo, chegámos a sexta-feira e com ela ao inicio das férias da Páscoa, um facto que no confinamento do lar não fará grande diferença. Mas talvez mereça uma celebração com um Whisky irlandês ao final da tarde. Rejubilemos.
Entretanto o Expresso noticiou que "Marcelo e Ferro querem comemorar o 25 de Abril". Mas afinal não foram canceladas todas e quaisquer celebrações religiosas?

Estado de sítio (11)

por João Távora, em 25.03.20

aquario.jpgCoronavírus hoje em Portugal – 2.995 casos, 43 vítimas mortais

As rotinas começam a implantar-se: pela fresca, antes de me sentar ao computador, atrevo-me a uma corrida de meia hora pelas redondezas, um exercício físico que me garante sanidade mental para o confinamento a que nos vamos habituando com o passar dos dias - com disciplina e menos altercações do que seria de esperar. Esta manhã quando batiam as 11,00hs nós os cinco respondemos ao desafio do Papa Francisco e rezámos um Pai Nosso em comunhão global. A oração em família é fundamental não só para fazer chegar o nosso clamor aos Céus, mas também para estimular o sentimento de corpo do grupo.
Com a família toda em casa dia após dia, temos estado a cozinhar a todo o vapor, a tentar agradar às hostes, mas chega a uma altura que o frigorífico se enche de caixinhas e tachos com restos, que hoje ao almoço serviram como uma refeição “extra”. O miúdo mais pequeno lá vai cumprindo as tarefas escolares a custo. Do colégio mandam-nos fichas e somos nós, os pais inocentes, que temos de assumir o difícil papel de professores. Comprova-se assim que o provérbio popular que diz “santos da casa não fazem milagres” não está longe da verdade. Ontem, quando nos apanhou a meio de uma conversa a respeito do COVID19 e a possibilidade de se alargarem os testes, disse logo que não, que sem aulas se recusava fazer testes.  
De resto foi sem grande espanto que constatei por uma sondagem do ICS e ISCTE para a SIC a união nacional que impera (acima dos 70%), na confiança depositada nas instituições nacionais pelos portugueses na gestão da crise. Nem Salazar nos seus melhores sonhos e melhores dias ambicionou tanta unanimidade. Perante o medo implantado e o estado de emergência, o governo e o presidente da república passeiam-se impantes na revista às tropas antes da grande batalha que está por vir. Não lhes desejo mal, mas sempre digo porque sei do que falo, que a propaganda é sempre a parte mais fácil (e mais frágil) da equação e os actores em causa nisso são artistas.
Hoje, dia de aniversário do nosso Príncipe da Beira Dom Afonso de Bragança, herdeiro da chefia da Casa Real Portuguesa, cá em casa rezaremos por ele e pelas intenções da sua família: que Deus os inspire e guie os seus passos, no difícil papel que lhes cabe nestes dias de aflição de estar ao serviço dos portugueses.
Finalmente, soubemos há pouco que, depois do Príncipe Alberto do Mónaco, agora foi o Príncipe Carlos do Reino Unido a dar positivo no teste do coronavírus. Definitivamente o vírus é republicano.

Estado de sítio (10)

por João Távora, em 23.03.20

Yellow-Submarine.jpg

Coronavírus hoje em Portugal – 2.060 casos, 23 vítimas mortais

Aqui no confinamento os dias começam a ser muito iguais uns aos outros, não inspiram grandes crónicas. A nossa gente está bem, os nossos trabalhos a partir de casa e a gestão das tarefas domésticas começam a tornar-se rotina – a tripulação cumpre as tarefas e adapta-se à nova vida, conquistando os seus recantos de privacidade para sanidade mental de todos.
Tentando olhar mais à frente: desconfio que nos espera um governo do bloco central para gerir a crise. Não é preciso ser muito imaginativo para adivinhar o que aí vem quando voltarmos à rua e o centro político em protesto tiver mudado de posição. O regime como o conhecemos vai ter de se segurar ao parapeito, e isso é uma coisa boa.
Não nos falhe o ganha-pão, que por cá temos muita literatura e boa música. 

Estado de sítio (9)

por João Távora, em 22.03.20

Gas masks.jpg

"Senhor, como é bom estarmos aqui!"
Mateus 17:4

Já andamos confinados há alguns dias, o ânimo começa a ser um bem menos abundante, e começa a ser-nos exigido ir buscar toda a boa vontade ao fundo da alma – é proibido embirrar. Hoje seria dia de Missa. É estranho um Domingo sem aquela tradicional agitação matinal para irmos ao Estoril à missa da… uma da tarde. A Igreja de Pedro, esposa de Cristo fica gravemente ferida quando não possa ser vivida em comunidade. O terço a Nossa Senhora, com a leitura do evangelho do dia, tem sido religiosamente cumprido por nós todos, com uma visita ocasional da minha sobrinha Sofia por WhatsApp.
Esta manhã voltei à minha corrida higiénica matinal por ruas normalmente desertas de S. Pedro do Estoril, e surpreendeu-me o número de pessoas e famílias que passeavam sozinhas ou em pequenos grupos a arejar a cabeça. Se o confinamento é para durar, há que arranjar estratégias para aguentar. Da janela, na praceta onde moro, deparo-me com os velhotes que vêm esticar as pernas à rua e que ficam à porta da tabacaria a cavaquear. Como dizia uma “amiga” minha no FB “é trade-off entre probabilidade de infecção e saúde mental”. Mas como também não os vejo aos abracinhos, presumo que o risco não seja grande.
Entretanto, pelos números de infectados dos países nossos vizinhos parece que a Europa do Sul se tornou no “epicentro da Pandemia” e preocupa-me ainda não serem evidentes os efeitos do confinamento social, não havendo provas de que alguma vez o serão. E para lá da importante questão económica (peço desculpa pela inconveniência) quanto tempo aguentaremos uma situação destas?
Termino com a questão que mais me preocupa neste momento: espero estar enganado, mas desconfio que a tragédia em Portugal vai surgir dos lares de velhinhos que, sem material de protecção para os funcionários, não estão preparados para defender os seus residentes.

Como é que é tão difícil a uma civilização que levou o homem à lua isolar os lares de idosos de um vírus?

Estado de sítio (8)

por João Távora, em 21.03.20

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Coronavírus hoje em Portugal – 1.280 casos, 6 vítimas mortais

Estive o dia fechado em casa, a família a ver séries e eu a ler jornais. Como é evidente que a opção errada é a minha.
Porque é que é sempre tão difícil explicar a temperança e a moderação? E estamos ainda no princípio. Daqui a pouco tempo teremos de aturar os nacionalistas e os ecologistas radicais aos berros a dizer: "Estão a perceber como podemos viver tão bem com uma côdea de pão e com as fronteiras fechadas?"
Deus nos ajude, que vêm aí tempos interessantes, como dizem os chineses, que também percebem disto.

Estado de sítio (7)

por João Távora, em 20.03.20

mascaras.jpg

Coronavírus hoje em Portugal – 785 casos, 6 vítimas mortais

"Senhor, como é bom estarmos aqui!"
Mateus 17:4

Na tabacaria aqui da praceta puseram o balcão à porta e ficou a modos que um quiosque como exige o governo, há sempre maneira de se dar a volta às coisas. Constatei-o pela fresca esta manhã quando fui fazer uma corrida pelas ruas interiores e desertas entre S. Pedro e São João do Estoril. Percorridos cerca de quatro quilómetros, as poucas pessoas com quem me cruzei, levavam cães a passear ou eram todas de idade avançada. A solidão mata tanto ou mais que qualquer epidemia e eu desconfio que tudo irá ser igual em todo o lado. A diferença estará na densidade populacional e nas condições do serviço de saúde de cada país. Podem ficar sossegados, o que não tem resolução, resolvido está.
Os miúdos estão com espírito, a mais velha fez uma sessão de Tai Chi na sala, e os outros mantém a ligação às escolas. Se fazemos almoço à mesa, com todos os Fs e Rs (todos têm de estar vestidos e aprumados), o jantar é informal, só com sopa e sanduiches – amanhã é dia de voltar ao supermercado. Ao fim da tarde reunimo-nos todos para rezar o terço a Nossa Senhora.
Em termos de trabalho é visível a redução de pedidos de orçamento, mas hoje recebemos dois pedidos de traduções de… empresa farmacêuticas. Por uma vez na vida os Távora não podem dizer mal da sorte. Graças a Deus.



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