Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



O Reverso do Poder

por Corta-fitas, em 18.11.16

Imprensa-Eleiçoes-Americanas-Donald-Trump.jpg

Por muito chocados que os Democratas americanos e os simpatizantes clintonianos por todo o mundo hajam ficado, face à vitória de Trump nas eleições deste mês, nenhum abalo, com a possível excepção do sofrido pela candidata derrotada, se revelou maior do que aquele que atingiu os jornalistas. Abrindo um bocadinho os olhos, conseguiram detectar uma revolta popular contra os poderosos estabelecidos, mas, em simultâneo, experimentaram a desagradável surpresa de se verem incluídos nesse número pelos desdenhados blue collars da Cintura da Ferrugem – Ohio, Michigan, Indiana e Pensilvânia -, bem como pelos mais entusiastas praticantes cristãos de vários credos, no Sul e no Iowa. Um destes homens dos Media, em voz alta, perguntava, amargurado: «Mas, então, nós também somos “establishment”?». 

Eram e são. Assim como muitos inquéritos de opinião mostravam uma animosidade considerável contra os políticos empoleirados, um outro, publicado bem perto do sufrágio, revelava que só 14% dos Norte-americanos confiava na Comunicação Social do seu país. Nada de novo, um aspecto que faz profunda confusão aos Europeus, o da desigualdade de acesso ao tempo de antena televisivo, consoante o dinheiro de que os candidatos disponham para comprá-lo, sempre encontrou a assumida justificação de evitar que o poder caísse nas mãos da Imprensa.

No caso que agora importa, a colagem dos órgãos de informação à mensagem anti-Trump mais não fez do que agravar as coisas. Foi penoso ver a renitência das figuras de proa da CNN em acreditar no fracasso de Hillary, insistindo em não declarar o triunfo Republicano no Wisconsin, horas depois de já ter sido reconhecido por outras fontes, como postergando idêntico reconhecimento quanto à Pensilvânia, mesmo depois de o insuspeitíssimo New York Times o haver feito! E, contados todos os votos dos centros urbanos desse estado, mais favoráveis à Esquerda, com a “besta negra” adversária ainda na frente, assistirmos a John King a escorropichar o mapa dos condados e a, inconscientemente, desabafar que «já não sabia onde haveria de ir buscar mais votos»…

Essas e outras que tais levaram a brincadeiras como a reacção de atribuir à sigla CNN o significado de «Clinton News Network» e Michael Ramirez a publicar um cartoon divertido, parodiando outro famosíssimo caso de surpresa eleitoral, o da célebre prevalência de Truman contra Dewey em 1948, à revelia das sondagens, em que o vencedor erguia um jornal dando-o como tendo perdido, mas onde, na nova versão, o título, em vez dos nomes envolvidos na disputa de então, dizia «A IMPRENSA DERROTA TRUMP»

É tempo de dizer que as sondagens têm as costas largas. A maior parte delas, com efeito, davam Clinton à frente. Mas nos estados decisivos, salvo o Wisconsin, por pequena diferença, dentro da margem de erro. Os sacrossantos analistas é que dali retiraram vantagens claras e favoritismo, na acepção de probabilidade, quando ele existia, isso sim, na de simpatia, da parte deles. Claro que se pode perguntar para que poderão servir as auscultações do público, se eliminarmos as mais apertadas. Só vejo uma resposta, publique-se, mas sem retirar conclusões de uma virtualidade, sempre susceptível dum desmentido do Real.

Não se pretende, aqui, um apuramento de culpas. Havia uma pressão grande dos consumidores de programas televisivos mais interventivos, no sentido da diabolização do agora Presidente Eleito. Quando o apresentador Jimmy Fallon o entrevistou, desafiou-o a deixar revolver-lhe o cabelo, para verificar se usava ou não duma peruca. Pois choveram os protestos de seguidores fiéis e opinion makers de grandezas variáveis, dizendo que isso era humanizar quem não o merecia, o que era inadmissível, etc. e tal. Como o milionário novaiorquino, apesar de muitas características pouco apelativas, não deixa de pertencer à espécie, estamos perigosamente próximos dos banimentos revolucionários, da França de 1789, de Hitler, ou de Mao. Mas, enfim, esperemos que, desta feita, o vento não se esqueça de levar as palavras.

O problema maior esteve em, bastante antes ainda de se empolgarem com a infelicidade arrogante da antiga Secretária de Estado, chamando «deploráveis» aos adeptos do respectivo oponente, já os profissionais da Informação acharem em si o desempenho do papel de educadores, ao invés do de meros disponibilizadores de dados. A coisa vem de longe, aliás importada doutras paragens. Tomaram a sério o desígnio de encarnarem o Quarto Poder, o qual, na lendária origem imputada a Edmund Burke seria, inclusive, um estado, no sentido de estrato social, mas que na vertente de influência e impunidade combinadas terá sido cunhado por Balzac. Mais não fizeram que prolongar os vícios de décadas, comprazendo-se nos cordelinhos que mexiam e que levaram um outro “maldito”, Ezra Pound, a lastimar «o homem que acredita no que lê nos jornais».

A pesporrência é mais facilmente detectada pelos que fere do que pelos que a exalam. É muito natural que os desprezados e apequenados se tenham virado para o homem forte que lhes apareceria coincidentemente nestoutro 18 Brumário, uma correspondência à data da consumação do êxito eleitoral, o 9 de Novembro, sagazmente lembrada por Jean.Philippe Chauvin. Era um milionário não inteiramente feito por si próprio? Pois seria, mas não estava instalado no mando e era o único a ousar propor medidas radicais que protegessem empregos e segurança, investimento em obras públicas, defesa contra as imigrações, quer as concorrentes quer as hostis, e proteccionismo para salvaguarda da produção. Os acossados não se interessam por aumentar a riqueza, fazem é por não perderem os tostões que têm. Logo, abraçam as restrições, em vez do comércio livre. Para quem haviam de se voltar? Para os que os subestimavam, quer aos problemas, quer aos aflitos? Até o Diabo serviria. E o Sr. Trump, salvo para os bem-pensantes deste início de Século XXI, ainda está umas passadas atrás do Chifrudo.

  O problema complementar maior reside em os interventores públicos que nos massacram com as mudanças político-sociais da nova era tecnológica ainda se julgarem nas duas centúrias que passaram. De nada lhes serviu relatarem a Primavera Árabe e as manifestações convocadas por SMS. Pouco lhes aproveitou acompanharem a campanha na Primária presidencial de Howard Dean, em 2004,, com a recolha de fundos alternativa, via e-mail, e pagamentos electrónicos domiciliários, ou a congregação de apoios contestatários do directório partidário nacional, por Bernard  Sanders, ainda no presente ano. Menos ainda atingiram o uso eficaz do Facebook e do Twitter, por Donald Trump & Cª. Lastimaram-se, tarde e a más horas, de que, na sua óptica, ali pululassem as mentiras, ao ponto de despertarem Zuckerberg para modificações convergentes com tal preocupação, no seu invento.

De forma que não deram pela derrocada do seu estatuto e a ascensão dum Quinto Poder, longe de confirmar-se na concretização que no passado se sugeria, ou seja, não se consubstanciando na opinião pública. Ela é mera argila, conformada pelos variados moldes que sobre si ajam. E se, dantes, isso se traduzia maurraseanamente na opinião que se publica, hoje, o empenho orientador do esclarecimento foi substituído pela capacidade cúmplice da mobilização, via intercâmbios informáticos de likes e posicionamentos. A sempre exigente e sacrificial adesão deu lugar à disseminação viral de juízos que dispensam corpos articulados de ideias e disciplinas, prontamente substituídos por pseudo-espontaneidades. É a fantasia de agir, sem os constrangimentos da obediência.   

Acima de tudo, os gentlemen of the Press não conseguiram entender que as pessoas acreditam no que querem e que se, até há pouco, sorviam as inverdades emanadas de instituições enraizadas, agora proclamaram a sua ilusória independência, voltando-se para origens que supõem mais próximas de si. Até que um novo engodo venha ocupar o lugar de honra? Pois sim, mas, por enquanto, acham-se vingadas, uma variante agradável, para as gentes que, em surdina, se sentiram humilhadas.

Não se pretende, aqui, um apuramento de culpas. Havia uma pressão grande dos consumidores de programas televisivos mais interventivos, no sentido da diabolização do agora Presidente Eleito. Quando o apresentador Jimmy Fallon o entrevistou, desafiou-o a deixar revolver-lhe o cabelo, para verificar se usava ou não duma peruca. Pois choveram os protestos de seguidores fiéis e opinion makers de grandezas variáveis, dizendo que isso era humanizar quem não o merecia, o que era inadmissível, etc. e tal. Como o milionário novaiorquino, apesar de muitas características pouco apelativas, não deixa de pertencer à espécie, estamos perigosamente próximos dos banimentos revolucionários, da França de 1789, de Hitler, ou de Mao. Mas, enfim, esperemos que, desta feita, o vento não se esqueça de levar as palavras.

 

Paulo Cunha Porto
Convidado especial 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Devassas

por João Távora, em 10.10.16

Irrita-me solenemente o discurso unanimista contra Donald Trump, mas na verdade confesso que fiquei estupefacto com o baixo nível da conversa do candidato republicano que o Washington Post trouxe à luz do dia e que para o caso julgo ser pouco relevante se era privada ou pública. Não sou melhor nem pior que ninguém mas por defeito de educação prezo uns valores mínimos de estética (que é sempre um reflexo da ética), exigíveis a qualquer pessoa, mas mais ainda na proporcionalidade da sua responsabilidade social. Dito isto estou inclinado a admitir que a indiscrição do WP neste caso está no domínio do serviço público.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Voting for dummies

por João Villalobos, em 21.10.08

«Electing a US President in Plain English»

Autoria e outros dados (tags, etc)

O debate: antes e depois

por Pedro Correia, em 03.10.08

A mortiça campanha de John McCain só ganha genuíno vigor quando Sarah Palin entra em cena. Foi assim na convenção de St. Paul, voltou a ser assim no debate de ontem à noite, em que a governadora do Alasca soube uma vez mais surpreender um vasto auditório, agora frente ao rival na corrida à vice-presidência, o senador Joe Badin, muito mais experiente mas que em diversos momentos parecia rendido ao charme desta mulher determinada. No terreno eleito do senador, a política externa, Palin defrontou-se muito bem. E nunca perdeu de vista o eleitorado das classes médias do Midwest, que é aquele onde ainda pode colher um número significativo de votos. Tem melhor linguagem gestual do que Biden, sabe encarar as câmaras como se fosse uma veterana nestas lides e voltou a revelar um discurso muito articulado. No jogo das expectativas, a vitória do debate foi dela - muito graças aos comentadores (incluindo os cá da parvónia) que davam como certo que ela se afundaria num estendal de gafes. Estes prognósticos, proferidos sem sombra de isenção, só têm o condão de valorizar os alvos. Palin beneficiou disso, como foi assinalado pelos comentados da BBC mal acabou o frente-a-frente.

Claro que a governadora não faz milagres. E neste momento é cada vez mais óbvio que só um milagre salvará a campanha de McCain. Devido à desastrosa herança de George W. Bush, da qual o candidato republicano não se pode demarcar por completo. Mesmo que o nome Bush continue proscrito do discurso oficial de John e Sarah.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ecos do debate

por Pedro Correia, em 03.10.08

Algumas notas muito insuspeitas, na imprensa americana, sobre o debate da noite passada entre Sarah Palin e Joe Biden.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Notas sobre o debate

por Pedro Correia, em 27.09.08

 

1. Começou morno e cheio de vacuidades. Barack Obama e John McCain mostraram preocupação pela grave crise financeira dos EUA e disseram querer defender os contribuintes. Foi pouco, perante os problemas que o país enfrenta.

2. Obama esteve melhor nesta parte. Foi eficaz ao associar a administração republicana de George W. Bush a John McCain, candidato do mesmo partido.

3. Muito mais interessante foi a discussão sobre política externa. Aqui McCain soube descer ao concreto enquanto o seu rival pairava na estratosfera com as habituais frases grandiloquentes.

4. O melhor momento de McCain aconteceu quando lembrou uma promessa de Obama: está pronto a avistar-se "sem pré-condições" com os ditadores do Irão, Cuba e Coreia do Norte. O democrata, visivelmente embaraçado, não conseguiu uma réplica à altura.

5. McCain tropeçou no nome do Presidente do Irão, que Obama conseguiu pronunciar sem gaguejar. Um ponto a favor do republicano.

6. McCain tratou o adversário sempre respeitosamente por "senador Obama". Este preferiu chamar-lhe "John". Uma diferença abissal.

7. "John tem razão", disse com frequência Obama. "Você não percebe", foi a frase mais repetida por McCain.

8. Não houve ataques pessoais. Nem nenhum se lembrou de dizer "ele", referindo-se ao adversário, como Mário Soares fez repetidamente contra Cavaco Silva em 2006.

9. Vencer o debate no capítulo da política externa, sendo relevante, não é decisivo para McCain. Na actual crise, de proporções gravíssimas, o que os eleitores valorizam sobretudo é a economia. E aqui Obama está claramente mais à-vontade. Até porque o seu partido não tem responsabilidades governativas desde Janeiro de 2001.

10. Reforcei a sensação de que estes são os dois melhores candidatos norte-americanos desde 1980, ano em que se defrontaram Jimmy Carter e Ronald Raegan. E cada vez mais me parece também que McCain chegou tarde a este combate: o seu momento ideal teria acontecido em 2000, quando enfrentou George W. Bush nas primárias republicanas. O jogo sujo do adversário - lançando campanhas que insinuavam que a mulher de McCain, Cindy, era "drogada" e tinha "um filho de um preto" - levou-o a abandonar precocemente a corrida. Azar dele, dos americanos e do mundo. Com McCain na Casa Branca, os últimos oito anos teriam sido bem diferentes.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sarah Palin por Camille Paglia

por Pedro Correia, em 14.09.08

Camille Paglia, talvez a mais célebre feminista americana, toca no ponto certo com estas declarações ao Times de Londres: "Talvez estejamos a ver a primeira mulher Presidente [dos EUA]. Como democrata, ainda estou em estado de choque. O [discurso] dela [Sarah Palin] foi o melhor discurso que já escutei de uma política americana."

Um depoimento insuspeito sobre a candidata republicana à vice-presidência dos Estados Unidos. Aqueles que à esquerda, nos jornais e na blogosfera (incluindo em Portugal), desataram a debitar chistes sexistas e graçolas de mau gosto nos dias que se seguiram à apresentação da governadora Palin na convenção republicana não estavam a perceber nada: era algo muito diferente do que tínhamos visto até então, como logo sublinhei aqui.

O mais curioso é que, passados todos estes dias, alguns continuam sem perceber nada. Permitam-me um conselho: leiam o que diz Camille Paglia.

 

Foto: imagem de Blackstone Bay, no Alasca - um dos mais belos locais do planeta.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tens toda a razão, Joe

por Pedro Correia, em 13.09.08

Começo a simpatizar com Joe Biden, o homem que plagiava discursos do britânico Neil Kinnock (e por causa disso viu-se forçado a abandonar a candidatura presidencial em 1988 pelo Partido Democrata) e que votou no Senado a favor do envio de soldados americanos para o Iraque, apoiando o Presidente Bush, muito antes de se ter arrependido publicamente de tal decisão.

Biden começa a merecer-me alguma simpatia por um simples motivo: acaba de reconhecer que Hillary Clinton seria melhor candidata à vice-presidência que ele.

Gostei dessa, Joe. Nunca falaste tão bem.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Furacão Sarah (parte II)

por Pedro Correia, em 11.09.08

Viragem na campanha eleitoral norte-americana: as eleitoras brancas, que em Agosto concediam uma clara vantagem a Obama nas intenções de voto, revelam hoje uma evidente preferência por McCain. Os números estão à vista: o candidato republicano lidera agora, com 12 pontos, neste decisivo segmento do eleitorado, quando em Agosto estava oito pontos atrás do seu rival democrata.

É já o efeito Sarah Palin a funcionar - uma excelente opção de McCain, como está cada vez mais à vista. Enquanto Obama não ganhou um voto com a péssima escolha de Joe Biden, enquanto deixava Hillary Clinton à margem. A qualidade de um político mede-se também por estas escolhas: quem está seguro da sua capacidade de liderar não receia designar um número dois que possa fazer-lhe sombra...

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tudo em aberto

por Pedro Correia, em 08.09.08

George W. Bush. O nome parece que queima nas hostes republicanas. Nenhum dos principais oradores na convenção de St. Paul mencionou directa ou indirectamente o actual inquilino da Casa Branca. Nem Mike Huckabee, nem Rudolf Giuliani, nem Sarah Palin. John McCain foi o mais requintado: fez uma alusão seca ao “Presidente dos Estados Unidos”, sem referir o nome de Bush, e logo a seguir falou com apreço de Laura, a mulher do ainda comandante-chefe.

Percebe-se porquê: Bush rouba votos. Por isso McCain quase parecia um dirigente da oposição ao discursar na convenção. Discurso sólido, bem estruturado, concebido para captar eleitores ainda indecisos com frases que agarraram o auditório, como “Stand up” (levantai-vos) e “Fight with me” (lutem comigo). Frases que servirão certamente de mote à recta final da campanha republicana, em contraponto ao “Yes, we can”, de Barack Obama.
Veremos se McCain irá a tempo de desmentir o favoritismo do seu rival democrata. Por mim, acredito que está tudo em aberto.
 
Ler também:
- Este excelente texto do João Lopes, no Sound+Vision.
- Esta análise de Nick Cohen, no Guardian (via Mar Salgado)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Furacão Sarah

por Pedro Correia, em 06.09.08

Eu não disse que na campanha eleitoral norte-americana voltava a estar tudo em aberto?

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sarah Palin

por Pedro Correia, em 04.09.08

As expressivas reacções da mais insuspeita imprensa norte-americana. Façam favor de ler.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A nova estrela do Partido Republicano

por Pedro Correia, em 04.09.08

Nasceu uma nova estrela política no Partido Republicano dos Estados Unidos: a intervenção de Sarah Palin na convenção de St. Paul, esta madrugada, desfez as dúvidas que restavam. A governadora do Alasca exibiu confiança, autenticidade, consistência. Agrupou as bases do partido, que a vitoriaram sem reservas, e trouxe à campanha de McCain o suplemento de carisma que lhe faltava. Ela tem um atributo cada vez mais invulgar e até por isso cada vez mais valorizado na vida política: algo a que no cinema se chama star quality. Não se via ninguém assim nas hostes republicanas desde Ronald Reagan, um conservador que alargou consideravelmente a base eleitoral do partido porque somava à eficácia do discurso uma transbordante simpatia natural a que nunca parecia faltar uma dose considerável de convicção. O democrata Barack Obama tem também esta star quality, que lhe permitiu cativar muitos jovens e um sem-número de americanos há muito desmobilizados da política. Mas o caso de Palin é ainda mais surpreendente porque, ao contrário de Obama, que anda em campanha há 19 meses, ela mal teve tempo de estudar o papel de candidata: John McCain escolheu-a há poucos dias e para a maioria dos eleitores ela era até agora totalmente desconhecida.

Com algumas frases do discurso, muito bem estruturado e articulado ("Alguns servem-se da mudança para promoverem a carreira, McCain serve-se da carreira para promover a mudança"), um sorriso extremamente fotogénico e um apelo vibrante ao tradicionais valores americanos, sem repetir ladainhas do passado, ela demonstrou não estar minimamente abalada pelos inúmeros artigos demolidores publicados nos últimos dias na imprensa americana. Como já aqui escrevi, se queriam renovação na política dos EUA, ela aí está - com Sarah Palin. A primeira mulher a concorrer à vice-presidência pelo campo republicano.

A campanha está relançada, permanece tudo em aberto. Comparando o discurso de Palin com o do seu oponente Joe Biden, na recente convenção democrata, a diferença é notória - a favor da governadora do Alasca. Cada vez mais me convenço que Obama cometeu um clamoroso erro ao não escolher Hillary Clinton para o acompanhar na corrida à Casa Branca. Mais que nunca, serão as mulheres a decidir esta eleição.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Eleições americanas

por Pedro Correia, em 03.09.08

Excelente, a cobertura do Nuno Gouveia. E não percam também os textos do Nuno Galopim.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A isto, sim, podemos chamar novidade

por Pedro Correia, em 30.08.08

Esta eleição presidencial nos EUA é já histórica por vários motivos. Desde logo, é a primeira desde 1952 em que irão a votos dois candidatos que não desempenhavam anteriormente funções na Casa Branca, como presidente ou vice-presidente. No campo democrata, fez-se história com a nomeação de um senador mestiço, filho de pai africano e muçulmano - facto inédito na vida política norte-americana. No campo republicano, também John McCain acaba de fazer história ao escolher Sarah Palin, a popular governadora do Alasca, como sua vice. À direita, é também um facto inédito. Geraldine Ferraro, candidata a vice-presidente em 1984, foi até hoje a única mulher a integrar uma parceria democrata à Casa Branca (nesse ano, o recandidato Ronald Reagan derrotou copiosamente o candidato do Partido Democrata, Walter Mondale).

Entre os adeptos de Barack Obama, nos EUA e não só, houve logo quem se apressasse a criticar Sarah Palin, que tem 44 anos, por "falta de experiência". É precisamente a principal crítica que pode fazer-se a Obama: do seu currículo - que inclui sete anos como deputado estadual no Illinois e quatro anos como senador em Washington - não consta qualquer cargo executivo. Palin tem essa experiência, pois governa há dois anos o Alasca. Mas a sua designação deve-se sobretudo à tentativa de McCain de captar o voto feminino - faixa do eleitorado que está longe de se render a Obama, sobretudo depois de este ter excluído Hillary Clinton da corrida à vice-presidência, contrariando muitos dos 18 milhões que votaram nela nas primárias democratas

Reveladoras foram as palavras de apreço que Geraldine Ferrraro e a própria Hillary dirigiram a Sarah Palin mal a notícia foi conhecida. Há hoje nos EUA muita gente a pensar assim, olhando com simpatia esta mãe de cinco filhos (um dos quais deficiente) que fez do combate à corrupção no Alasca uma das suas prioridades e está muito mais associada à palavra mudança do que o vice de Obama, Joe Biden, que mantém um assento no Senado desde 1972. Tinha então Sarah Palin oito anos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sofia Galvão, também obamófila

por Pedro Correia, em 29.08.08

Confirmar aqui.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Obama: teste superado

por Pedro Correia, em 29.08.08

 

Barack Obama sabe muito bem como falar numa grande reunião partidária: em 2004 ele foi a estrela da convenção de Chicago que confirmou a nomeação de John Kerry como candidato à Casa Branca, ganhando aí mesmo a projecção nacional que lhe permitiu ser este ano o representante do Partido Democrata nas presidenciais. Esta madrugada confirmou os seus pergaminhos como orador num dos melhores discursos já pronunciados por um candidato presidencial norte-americano. Não o fez à porta fechada, mas no espaço imenso do estádio Invesco, em Denver, perante uma multidão avaliada em quase cem mil pessoas. Uma fasquia que representa um sério desafio para a convenção republicana, que começa segunda-feira.

Mostrando convicção ao longo de todo o discurso, Obama deu um conteúdo concreto ao rótulo de mudança que lhe serve de bandeira. Eis algumas das suas promessas:

- Aliviar a carga fiscal para 95% dos americanos.

- Acabar, na próxima década, com a dependência energética dos EUA face ao Médio Oriente.

- Multiplicar os investimentos na educação, de modo a que nenhum jovem que o queira fique impedido de frequentar a universidade.

- Garantir cuidados de saúde para todos.

- Estabelecer o princípio da igualdade salarial entre homens e mulheres.

- Retirar os militares americanos do Iraque. "Não derrotamos terroristas que operam em cerca de 80 países ocupando o Iraque."

Afirmou-se pronto para o debate com o seu rival, John McCain (haverá três, mais um debate entre os candidatos a vice-presidentes), mas deixou claro que nenhum dos dois deve questionar "o carácter e o patriotismo" do adversário. Essa é uma péssima tradição da política americana que também, a seu ver, deve ser alterada.

"Somos o partido de Roosevelt e de Kennedy. Não me digam que os democratas não defendem este país", sublinhou, acentuando diversas vezes que os EUA não podem "andar para trás". Entre críticas contundentes à administração Bush que o fizeram abandonar aquele ar de bom escuteiro que costumava exibir até agora.

Muito mais do que falar para os fiéis, o seu objectivo era captar a simpatia e o voto dos eleitores indecisos - que são ainda muitos. Este discurso certamente contribuiu para o relançar nas sondagens. Como veremos por estes dias.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Uma ajudinha do amigo Clinton

por Pedro Correia, em 28.08.08

Foi um discurso que roçou a perfeição - o melhor, até agora, da convenção democrata. Bill Clinton subiu ao palco de Denver com um apelo claro à unidade do partido em torno de Barack Obama. Mas deu também boas razões aos eleitores para votarem no candidato democrata. Socorrendo-se, desde logo, do seu próprio exemplo: "Quando, em 1992, tive a honra de ser escolhido como candidato, os republicanos também diziam que eu era demasiado jovem e inexperiente para desempenhar as funções de comandante-chefe das forças armadas."

Fez uma análise demolidora dos oito anos de administração republicana sem nunca baixar o nível da oratória nem sequer mencionar o nome de Bush. Neste período, acentuou, "o sonho americano tem vindo a diluir-se e a liderança americana no exterior ficou mais fraca." E alertou: "A América nunca será forte além-fronteiras se não conseguir primeiro ser forte em casa." Teve algumas palavras elogiosas para John McCain, realçando o seu "heróico" desempenho como militar no Vietname e a sua relativa independência como senador. Mas deixou claro que o candidato republicano representa "mais do mesmo".

Elogiou a escolha de Joe Biden como candidato ao lugar de vice-presidente, onde demonstrará "experiência e sabedoria". E falou sobretudo para as classes trabalhadoras, cobrindo um flanco que tem sido bastante desguarnecido pela candidatura democrata: os republicanos, acentuou, aumentaram as desigualdades no país "a níveis que não se registavam desde a década de 1920".

O percurso de Obama, nas palavras de Clinton, "é a confirmação, no século XXI", do velho sonho dos pioneiros norte-americanos. Mas quando os delegados democratas desataram a gritar "Yes, we can", o calejado ex-presidente fê-los regressar à terra: "Sim, ele pode. Mas primeiro temos de o eleger."

Repito: um discurso notável. Obama tem todos os motivos para lhe estar grato.

 

ADENDA: o discurso de Joe Biden, que também segui com atenção, foi decepcionante. Um discurso de comício, repleto de lugares-comuns. Mas provavelmente dele não seria de esperar melhor.

Autoria e outros dados (tags, etc)

América, América

por Pedro Correia, em 27.08.08

Para perceber melhor o terreno em que se movem os candidatos à Casa Branca, espreitem aqui.

 

(via Despertar da Mente)

Autoria e outros dados (tags, etc)

"Mudar a América" com Joe Biden?

por Pedro Correia, em 24.08.08

Primeiro efeito colateral da guerra do Cáucaso na política interna americana: Barack Obama optou pelo veterano Joe Biden, presidente da Comissão de Relações Externas do Senado, para seu parceiro na corrida à Casa Branca como candidato à vice-presidência. Uma escolha que tem o seu quê de irónico: o candidato que mais tem apregoado a mudança escuda-se agora numa personagem que simboliza na perfeição o establishment de Washington.

Efeito colateral da guerra porquê? Porque esta escolha é a confissão implícita de que Obama tem escassíssima experiência em política externa. O Cáucaso acaba de confirmar, em vésperas da eleição presidencial norte-americana, que o inquilino da Casa Branca não pode ser ignorante nestas matérias. Biden, com o seu currículo, constitui um trunfo que Obama não quis ou não pôde negligenciar. Mas pode, em troca, trazer-lhe vários problemas: o senador do Delaware é conhecido em Washington pela sua propensão para falar muito - e nem sempre pensar bem no que diz antes de abrir a boca. Esperemos para ver (ou para ouvir).

Esta escolha enterra as últimas esperanças dos partidários de Hillary Clinton, que sonhavam ver a sua candidata - que somou 18 milhões de votos nas primárias democratas - como vice-presidente de Obama. O senador do Illinois frustrou-lhes as expectativas. Cometeu um erro lapidar: com Hillary tinha muito mais hipóteses do que sem ela. Já o escrevi aqui - e reafirmo. Até porque as mais recentes sondagens indicam que cerca de um quarto dos eleitores de Hillary poderão votar McCain em Novembro. Um pesadelo para Obama.

Autoria e outros dados (tags, etc)



Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com




Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes


Links

Muito nossos

  •  
  •  
  • Outros blogs

  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2008
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2007
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D
    170. 2006
    171. J
    172. F
    173. M
    174. A
    175. M
    176. J
    177. J
    178. A
    179. S
    180. O
    181. N
    182. D