Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Emoções básicas (64)

por Luís Naves, em 04.10.09

Tarefa complicada

É complicado ter de explicar um post, (o erro é meu) mas os comentários que recebi de leitores e Gabriel Silva, em Blasfémias, a isso me obrigam. A minha intenção não era a de valorizar o que aconteceu, nem sequer ali está a minha opinião sobre a UE (concordo com o brilhante texto de Alexandra Carreira, aqui no Corta-Fitas). Quando se tornou óbvio que o "sim" ia ganhar, limitei-me a explicar simplificadamente as implicações da aprovação do tratado, segundo aquilo que eu julgo que irá acontecer. Lembrei o que consta no documento e tentei dizer o que lá está sem usar jargão comunitário.

Não me congratulei pelo facto dos países grandes ganharem poder, mas parece-me evidente que isso permitirá avançar políticas de integração que estão no congelador. A UE será mais ambiciosa, mas não escrevi que estava entusiasmado com esse facto, embora isso me agrade.

Na Europa passará a aplicar-se o princípio de quem paga, decide. A Alemanha paga, pois bem, terá mais voz na matéria. Os comentadores parecem achar isso horrível. A mim, parece-me apenas lógico.

 

Expulso

Tal como Gabriel Silva assinala, não fui claro na questão das expulsões: passa a existir uma cláusula de saída voluntária, não de expulsão. Mas, a meu ver (posso estar enganado), isto tem uma implicação política importante, embora difícil de explicar: a cláusula passará a servir como forma de pressão sobre países que, por uma razão ou outra, não cumprem os critérios do bom comportamento europeu. Gabriel Silva pensa que me enganei , mas insisto: acho que esta será, eventualmente, uma cláusula de expulsão e servirá para pressionar países "mal comportados". Eu não estava a pensar em Portugal, mas sim naqueles que usam, por exemplo, chantagem para travar alargamentos ou para pressionar politicamente um vizinho que esteja fora da união. Estava a pensar nos direitos das minorias, que alguns se esquecem de respeitar, ou ainda para aqueles que votarem na extrema-direita. Bastará o conselho fazer uma sugestão: "estamos a ver que os senhores desejam sair do clube, passem bem", para o país em causa mudar de política. "Infantilização dos Estados", como escreve Gabriel Silva? Eu vejo padrões elevados.

Simplifiquei em excesso e não fui claro no post, peço desculpa. Se voltei a não ser claro, paciência, teremos outras ocasiões para falar no assunto.

 

Aversão

Um comentário sobre os comentários. Em Portugal existe uma curiosa aversão à UE. Não deixa de me surpreender. Este soberanismo militante parece ignorar que o pouco desenvolvimento que o País conseguiu nos últimos 30 anos se deve aos subsídios europeus e à estabilidade política a que a Europa nos obrigou, isto apesar dos nossos maravilhosos governantes (muito cá de casa) só terem feito disparates.

É uma questão de identidade: um país com identidade forte, como é o caso português, integra-se facilmente numa UE forte. Só a nossa elite intelectual não parece perceber isso, talvez para não se comparar com as outras elites.

Está na moda atacar impiedosamente os que defendem a UE (o que até nem era o caso deste texto). Falam em pensamento único e outras coisas assim, mas o pensamento único por acaso até se manifesta ao contrário.

Se me permitem ser opinativo (já sei que alguns não vão permitir), sou favorável a uma UE forte. Acho que quando a União Europeia se permite avanços, isso é vantajoso para Portugal. Foi assim com o mercado único, com o euro e com o alargamento. Oportunidades nem sempre bem aproveitadas, mas mesmo assim oportunidades.

 

Confederações

Gabriel Silva desvaloriza um pormenor opinativo do meu texto, sobre a eventualidade de um referendo europeu, lá para as calendas gregas. A Europa inspira-se na Suíça, que é uma confederação onde há referendos. Acho que não seria o fim do mundo se os europeus votassem o próximo tratado, se houver próximo tratado. Evita-se a palhaçada irlandesa, esse simulacro de democracia que para uns era bom se tivessem votado "não" e para outros só é bom porque votaram "sim", e era mau para uns quando votaram "não" e passou a ser mau para os outros porque agora votaram "sim". Do que nós escapámos, francamente...

O autor de Blasfémias também desvaloriza outra frase do meu texto (o tom displicente é de quem lava o rabinho a meninos, mas eu estava a precisar de um banho de humildade), sobre as implicações do não-tratado. No caso de se repetir o "não", acho que alguns países avançavam com um projecto de núcleo duro onde Portugal teria grandes dificuldades em entrar, mas onde a Espanha não dispensaria um assento. Não me ocorreu que este é talvez o sonho das elites portuguesas, sempre muito british.

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Emoções básicas (62)

por Luís Naves, em 27.07.09

 

 

Ideologia e cultura

Este post de Palmira F. Silva, em Simplex e Jugular, pega num dos mitos mais interessantes da “esquerda” portuguesa: segundo essa ideia, a direita não é apenas ignorante, mas também anti-intelectual, demagoga e populista.

A autora, obviamente, nem se apercebe da arrogância intelectual do seu texto ou do desprezo que lança sobre os adversários. Aparentemente, estas são reflexões sobre um livro de Sinclair Lewis, Babbitt, e um segundo romance do mesmo autor (que desconheço) mas o objectivo do texto está nas últimas linhas: a vitória do PSD nas legislativas seria equivalente a uma espécie de fascismo ou ao triunfo da classe média analfabeta, gananciosa e sem horizontes. Estaríamos a escolher entre um partido descerebrado, de gente inculta, e outro que nos trará brilhantes políticas do pensamento.

Não vale a pena gastar muitas palavras a comentar esta curiosa concepção de democracia. Para mim, isto é elitismo disfarçado. É dizer que os intelectuais é que sabem e que o povo se deixa manipular com facilidade. Palmira F. Silva esquece o contexto da época de Lewis, onde as lutas ideológicas eram mais intensas e o realismo social fazia sentido. No nosso tempo a cultura não serve ideologias. É interessante verificar que quando se deu o choque ideológico entre fascismo, comunismo e democracia liberal, com os dois últimos a derrotarem o primeiro, cada beligerante reivindicava para si a superioridade e a pureza. Mas agora as ideologias esbateram-se e a cultura está fragmentada. Convivem milhares de espécies e nenhuma domina. Muitas vivem em nichos quase invisíveis. Não me parece que haja cultura de esquerda ou de direita ou que um dos lados da política local possa reivindicar superioridade. Aliás, o que trouxe de novo este mandato? Alguma coisa melhorou no património, na ópera, nos teatros, nos museus, no cinema, nas artes plásticas ou na literatura? Ao lermos esta autora, até parece que sim, que houve notáveis mudanças.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Emoções básicas (58)

por Luís Naves, em 09.06.09

 

Ainda as europeias

Este texto de Carlos Abreu Amorim é revelador. Trata-se da visão que o PSD tem do CDS, aqui colocada com toda a franqueza.

Nos últimos 15 dias acompanhei a campanha do CDS e tive a oportunidade de observar este partido, de falar com os seus activistas, de acompanhar os dirigentes. E o que aprendi é diferente das conclusões de CAA. Desconhecia os centristas e, confesso, para mim foram uma surpresa, assim como me surpreendeu o que vi pelo país, sobretudo o poderoso descontentamento que se acumula.

Do ponto de vista da direita faria sentido juntar CDS e PSD num único partido, mas penso que isso seria um empobrecimento da democracia. O CDS tem pouca militância e uma máquina partidária limitada, escassos quadros e uma dependência excessiva da liderança. Na sombra do vizinho, a sua sobrevivência parece difícil.

Apesar de tudo, acho que os analistas do PSD não devem subestimar a forma como muitos eleitores da direita detestam genuinamente os social-democratas. Aliás, acho que o eleitorado do CDS é diferente do social-democrata, menos interclassista e menos abrangente, muito mais conservador. É um eleitorado que, caso desapareça o CDS, tenderá a não votar PSD. Aliás, um eleitorado que pode radicalizar-se.

Penso também que o CDS não deve ser subestimado e que o seu líder, Paulo Portas, será capaz de obter um bom resultado nas legislativas. Nas europeias, o CDS foi prejudicado pelas sondagens e fez uma campanha barata, conseguindo mesmo assim quase 300 mil votos.

O bloco central está a diminuir (baixou dos 70%) e o CDS tem margem para crescer na direita. E já que no próximo ciclo não haverá maiorias absolutas, é bom que o PSD se habitue de novo a este seu vizinho incompreendido, até por vezes desprezado, mas que se prepara para participar numa próxima solução de poder.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Emoções básicas (52)

por Luís Naves, em 13.04.09

A traição

Em conversa com amigos surgia uma tese recorrente que sempre achei meio absurda. Diz esta teoria que ao ter aceite o cargo de Presidente da Comissão Europeia, em 2004, Durão Barroso criou as condições para a derrota do seu partido, preparando a maioria absoluta dos socialistas.

Em Portugal existe a ideia dos homens providenciais e os partidos mostram ter dificuldades na substituição dos líderes, sendo essa talvez a maior limitação da democracia portuguesa.

Mas a análise em cima parece esquecer factos simples sobre a União Europeia. Portugal teve a oportunidade de ocupar um cargo de alto nível e poderá não voltar a ter outra nos próximos 50 anos. Embora isso não seja bem compreendido aqui, a função de presidente da comissão é extremamente poderosa. Um exemplo entre muitos: na negociação das perspectivas financeiras (a distribuição do dinheiro entre os Estados membros é política da mais séria) Portugal foi beneficiado, face a outros países, e o facto de ter o presidente da comissão não foi alheio ao bom resultado.

A “fuga” ou "traição" de Durão podia na altura ter sido colmatada pela ascensão de outro líder que pudesse manter a coligação PSD-CDS e que não cometesse os erros e excessos que Santana Lopes cometeu. Mas essas pessoas não apareceram na altura. Muitas, nem sequer depois.

Sempre achei estranha a forma como os observadores desprezam a circunstância de haver um português à frente da comissão europeia. O apoio de José Sócrates à recandidatura de Durão Barroso nem devia ser motivo de discussão. Devia ser óbvio. 

  

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Emoções básicas (42)

por Luís Naves, em 12.01.09

 

Nervosismo

Três exemplos recentes de notícias mostram grande nervosismo da maioria no poder e um desprezo pela verdade. Aqui, aqui e aqui poderão perceber estes sinais. No primeiro caso, tenta-se culpar a oposição pela crise; no segundo, há uma nítida separação da realidade, típica das situações sem solução; o terceiro caso é pragmático e o título de Carlos Abreu Amorim parece-me pertinente: no fundo, o objectivo é acelerar obras que depois justificarão renovar a maioria absoluta. (Como se os portugueses fossem um bando de estúpidos que, de chapéu na mão, lá vão agradecer o novo fontanário que custou o triplo do que podia ter custado).

O crescente afastamento da realidade é um sintoma preocupante, sobretudo num cenário difícil. A propaganda do governo só recentemente reconheceu a existência de problemas, apesar da economia crescer de forma deficiente há oito anos; agora, a crise internacional (reparem que insistem sempre na segunda palavra) vai justificar tudo o que for feito. Será que se pretende a mexicanização do país ou a sua jardinização? O facto é que o PS não reconhece nunca os seus erros e continua a viver numa espécie de ilusão propagandística.

 

O bloco central que caracterizou os últimos 30 anos pode deixar de existir nas próximas eleições, substituído por um sistema de três grupos: a direita, o centro e a esquerda. Cada grupo ronda um terço dos votos, embora a direita e o centro devam ser um pouco maiores (entre 35 e 40%) e a esquerda ainda não esteja recomposta, dependendo se Manuel Alegre avança ou não para o seu movimento separado do PS. O PSD vai provavelmente virar à direita, pois o centro está ocupado pelo PS de Sócrates. O CDS pode ser engolido e o PCP terá dificuldades.

Onde o bloco central garantia a estabilidade, a configuração que se adivinha é uma receita para a ingovernabilidade do país.

Outros exemplos mostram que a lógica do curto prazo prevalece: a hostilização do Presidente pelos socialistas e os previstos aumentos da despesa pública, anulando os sacrifícios pedidos nos últimos anos. Há uma geração que vive na precariedade e aumentaram brutalmente as diferenças entre ricos e pobres. Os portugueses foram vítimas de um ajustamento que consumiu vários anos (pagaram mais impostos e tiveram aumentos zero). Mas no que respeita às contas públicas, no final disto, como Sísifo, estarão no ponto inicial.

   

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Emoções básicas (39)

por Luís Naves, em 12.12.08

 

A realidade virtual

Eduardo Pitta reagiu desta forma à entrevista de Henrique Medina Carreira num programa da SIC. Embora avise que não viu o programa, o autor de Da Literatura afirma conhecer bem o pensamento do entrevistado, gastando uma parte do texto a desvalorizar o currículo dele e outra parte a colocar-lhe na boca coisas que ele não disse.

Quem perceba um pouco de economia verá nas palavras de Medina Carreira puro bom senso: o país está endividado, paga demasiados impostos e tem cada vez maiores desigualdades sociais. Existe uma crise estrutural que se reflecte num empobrecimento relativo. E o que se anuncia não é bom, vamos pelo caminho habitual e todo o esforço feito na consolidação das contas públicas será perdido em poucos meses. O resultado, diz o antigo ministro das finanças, será mais pobreza, mais desigualdade e conflito social.

O aviso parece ser adequado. O que Medina Carreira tem dito ao longo dos anos confirma-se geralmente. Podemos não gostar, mas é difícil encontrar factos que desmintam o entrevistado da SIC.

 

Mas a reacção de desprezo de um intelectual como Eduardo Pitta surpreendeu-me.

(Sei que é difícil ter uma opinião ajuizada todos os dias e que a velocidade da blogosfera não é muito favorável à sensatez, mas mesmo assim, chutar para canto desta maneira não é habitual).

Tentando interpretar, acho que este é apenas um exemplo de outras situações que revelam um mal maior do país, o crescente deslocamento da realidade.

Isso é visível em muitos noticiários de televisão, em afirmações soltas de políticos, na propaganda constante do governo. As pessoas repetem mentiras e começam a acreditar nelas. Às tantas, nem precisam de ouvir quem lhes fale da realidade, pois a realidade e a ficção misturam-se subtilmente, criando uma vida paralela, desviada, onde se instalou o conforto de nem querer saber.

Faz lembrar o aflitivo universo de Philip K. Dick.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Emoções básicas (37)

por Luís Naves, em 02.12.08

 

A moda

Está na moda criticar o jornalismo (veja-se este texto, um exemplo entre muitos).

Hoje, os media são julgados na praça pública, mas a história é sempre igual: não transmitiram a mensagem que pretendíamos transmitir.

O congresso do PCP, outro exemplo, não teve destaque nas primeiras páginas de jornais. (E logo o PCP a queixar-se, um partido com excelente imprensa, como se diz agora, que nunca vê serem discutidas as minúcias absurdas dos seus documentos; um partido cujas referências internacionais são ditaduras totalitárias, sendo que isso é notícia dada sempre ao de leve, com pinças).

Vi na televisão, transmitida de forma positiva, a intervenção de Odete Santos no congresso comunista. A frase era algo do género “cantaremos quando o capitalismo acabar”. Imaginem, o capitalismo a acabar, todos nós desempregados e falidos, em grandes cantorias...

 

Delírios

A Imprensa é tendenciosa se não transmitir as tiradas mais tontas, por exemplo, nas questões europeias. Qualquer coisa que se escreva minimamente favorável à União Europeia é imediatamente descartada por certas mentes, que desprezam a UE sem nunca tirarem as conclusões devidas. Por exemplo: que tal sairmos dela?

Quem obriga o senhor Vaclav Klaus a ficar na UE? Os argumentos que apresenta, num documento ao Tribunal Constitucional do seu país, são delirantes. Ponho em caixa alta, para se perceber melhor: DELIRANTES. O blogue onde li a referência esqueceu-se de acrescentar que o Tribunal Constitucional checo rejeitou os argumentos do presidente, mas diz que os argumentos são óptimos. Também não refere que Klaus ainda por cima está a causar todo o tipo de caldinhos ao seu próprio partido, que não foi eleito directamente e não dispõe dos mesmos poderes que o Governo, excepto os de bloqueio, que usa a granel. Enfim, mas quando os jornalistas não dizem coisas assim importantes são sempre sectários.

 

O caso Palin

Li esta deliciosa história sobre Sarah Palin graças ao excelente blogue de José Gomes André. Lembro-me deste episódio ter sido notícia em todo o lado, incluindo blogues que deviam repensar as coisas que escreveram sobre a candidata a vice-presidente.

Hoje, o tratamento da informação lembra um pouco a física quântica. O observador altera os dados que observa (veja-se o que faz uma câmara de TV no meio de uma multidão), existe uma incerteza crescente nas fontes e menos tempo para tratar os dados disponíveis. É tudo demasiado rápido e, na internet, podem ler-se muitas informações pouco fidedignas ou até mentirosas. A necessidade de bater a competição reduz o tempo da análise.

A realidade é um terreno pantanoso e escorregar nela não é equivalente a manipular ou definir a agenda da sociedade.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Emoções básicas (30)

por Luís Naves, em 27.10.08

As faixas de campeão

Tenho lido em várias análises nos jornais e blogues que a crise financeira internacional favorecerá eleitoralmente o Governo em 2009, o ano de todas as eleições. Há mesmo interpretações que dão como certa a derrota da oposição e, de facto, do lado socialista existe uma espécie de triunfalismo misturado com certo desprezo pelos adversários. Ainda falta um ano, mas o PS já está em campanha e parece ter encomendado as faixas de campeão.

No entanto, em política um ano é muito tempo. Se a crise se agrava, não vejo como é que o PS pode conseguir outra maioria absoluta. Se houver um voto de protesto nas europeias, as autárquicas ficam condicionadas e, com dois maus resultados para o Governo, as legislativas estarão em perigo. Quem prevê facilidades, deve desenganar-se.

 

Cenários complicados

Nas actuais sondagens, o PS surge acima de 40%. O PSD abaixo de 30%. Ora, isto revela valores demasiado semelhantes aos das eleições de 2005, o que não é plausível, pois as circunstâncias são diferentes. Admitindo que os partidos menores do parlamento aumentam a votação (o conjunto formado por CDS, PC e BE ficaria acima de 21%), para conseguir chegar à maioria absoluta, o PS teria de garantir uma participação muito elevada ou esmagar o PSD abaixo dos níveis históricos. Nenhum dos dois factores é provável, devido à abstenção e ao voto de protesto, a começar já nas europeias. No auge de uma crise económica sem paralelo, num contexto de grande descontentamento popular, a maioria absoluta do PS só será possível se a oposição lhe der a vitória sem luta.

Os socialistas partem com vantagem para as legislativas de Outubro, mas sofrerão inevitavelmente o desgaste do poder. Se vencer sem maioria absoluta, o PS dependerá de alianças com o CDS ou com o Bloco. O terceiro cenário será a grande coligação com o PSD. As soluções são todas instáveis. A assembleia não pode ser dissolvida em 2010, devido às presidenciais. O que sair de Outubro de 2009 terá de durar, pelo menos, até Outubro de 2011.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Emoções básicas (29)

por Luís Naves, em 26.10.08

Esquerda-direita

Para muitos observadores, o Corta-Fitas é um blogue de direita. Sempre detestei os excessos da taxionomia e ainda hoje tenho dificuldade em aceitar rótulos fáceis. Não me sinto nem de esquerda nem de direita, o que não quer dizer que os observadores estejam errados. Significa apenas que as coisas são um pouco mais complicadas, pois o mundo contemporâneo deixou de ser ideológico.

 

As claques

É humano querer pertencer a alguma coisa. E acho que todos gostam de se auto-classificar, dizer que fazem parte de uma tribo qualquer, que são de um clube de futebol ou de um partido. Depois, para confirmarem a escolha de claque, usam cachecóis e entusiasmam-se com as vitórias, choram as derrotas. Mas as diferenças entre as tribos são sempre superficiais, ligadas a símbolos.

Ali não existe verdadeiro conflito e a diferença não tem substância. Levando isto para o plano político, a distinção entre partidos é cada vez mais difícil de fazer. Todos os líderes são europeístas e a favor da intervenção do Estado na defesa dos desfavorecidos. O discurso é mais ou menos liberal e há diferenças em certos temas, mas à medida que nos afastamos do quadro e deixamos de ver as nuances, os retratos tornam-se idênticos.

Há até jogadores que mudam de equipa, como se fossem mercenários. Os políticos estão menos preocupados com a causa pública e defendem interesses pessoais, um pouco porque a política se transformou num banal meio de ascensão social.

 

Competição

Um recuo no tempo mostra bem o que mudou. No final dos anos 80, havia dois modelos competitivos, que tinham desprezo um pelo outro. O sistema comunista era um beco sem saída e entrou em colapso. Entretanto, os regimes autoritários tradicionais da direita, que sustentavam oligarquias, também entraram em crise. Mas ainda me lembro das previsões que davam como inevitável a vitória final do socialismo ou das teses que defendiam mão de ferro para cada problema, nem que fosse para uma minúscula greve. Nem uma picada de mosquito se tolerava.

 

Exemplos de ficção

A literatura explicou bem a natureza destes regimes. Contos de Kolimá, de Varlam Chalamov, é o mais devastador testemunho literário que conheço do chamado GULAG, o sistema prisional criado pelo totalitarismo comunista soviético. Muitas das histórias são verdadeiras, algumas delas vividas. O estilo é seco e sem ornamentos, de um realismo brutal. É um dos livros mais impressionantes que já li. E, apesar de ser uma das jóias da literatura do século XX, este livro nunca foi traduzido em Portugal, embora estejam traduzidos alguns dos contos.

Por outro lado, no que respeita às ditaduras militares, o conto Quatro Gotas Locas, escrito pelo uruguaio Jorge Onetti (1931-1998), num pequeno livrinho chamado Siempre se Puede Ganar Nunca, narra a história de uma chantagem repugnante sobre um casal. Em poucas páginas, o autor faz-nos perceber qual o verdadeiro significado do poder absoluto na vida precária das suas vítimas.

 

Desfocagem

O ponto é que estes regimes pertencem a um passado onde era fácil estabelecer divisões nítidas entre esquerda e direita. Esse mundo acabou. Hoje, há diferenças por exemplo nas políticas fiscais e sociais, mas quando os partidos chegam ao poder a prática é semelhante, como se o sistema tivesse perdido flexibilidade. Ninguém se espanta com uma direita que defenda o ambiente ou com a esquerda a apoiar baixas de impostos. E se olharmos para o exemplo europeu, estes estereótipos ainda se tornam mais difíceis de sustentar.

A integração europeia tem acelerado em toda a Europa, tornando os países mais parecidos uns com os outros. É, aliás, curioso que a maioria pareça estar em crise (ou pelo menos a opinião pública acredita nisso) e penso que a razão tem a ver com a crescente noção daquilo que acontece nos vizinhos do lado. Por outro lado, é difícil afirmar se os trabalhistas britânicos são de esquerda ou de direita. E José Sócrates? Qual seria a definição dada por uma pessoa vinda de fora a quem fossem explicadas as políticas deste Governo, mas sem se revelar a cor política do partido no poder?

 

A verdadeira competição

No mundo contemporâneo, a verdadeira competição ideológica é religiosa. Cada religião, pelo menos o sector fundamentalista de cada grupo, pensa ter os valores mais perfeitos. Isso é particularmente nítido no conflito entre Islão e modernidade. Não estou a referir-me a exemplos relacionados com a cultura local (as mulheres não guiarem automóveis na Arábia Saudita, por exemplo), mas a conflitos íntimos de natureza verdadeiramente religiosa: o cientista que convive com a ideia de que não é preciso mais nenhum livro senão o do Profeta (todos os livros estão errados ou não acrescentam nada àquele).

 Em resumo, a meu ver, a ideia de esquerda e direita não permite compreender o mundo que nos rodeia. É uma explicação simplista, válida entre 1789 e 1989. Há rastos deixados pelo mundo anterior onde faz sentido a visão a preto e branco, mas penso que a política é hoje mais complexa, com zonas de sombra, misturas, vastas áreas onde nem faz sentido falar nesta dicotomia. As classes sociais não desapareceram e há conflitos de trabalho, mas as sociedades são muito mais livres, os governos muito menos poderosos e os países muito mais ligados uns aos outros.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

As Emoções Básicas (crónicas) I

por Luís Naves, em 07.06.07

O Olimpo

José Pacheco Pereira, autor do blogue Abrupto, escreveu recentemente um post onde zurzia a blogosfera por, na sua óptica, reproduzir os erros da imprensa e se estar a transformar num conjunto de tribos onde se trocam favores. Embora seja um dos portugueses com mais acesso a órgãos de comunicação, JPP escreve frequentemente com desprezo sobre estes. O autor é mesmo um dos raros portugueses com acesso a todas as formas de comunicação, dos livros à TV, passando pela blogosfera e a imprensa. É mérito seu. Confesso-me leitor assíduo do Abrupto e da generalidade do que JPP escreve em jornais. Acho que o autor tem uma rara lucidez e uma cultura fora de série. Muitas vezes concordo com aquilo que escreve, mas neste caso, discordo. Atrevo-me até a lançar aqui uma crítica, apesar de JPP ainda não ter terminado a sua argumentação.
Há uma diferença entre blogues e jornais. As pessoas pagam para ler jornais e ninguém dá dinheiro por um que não seja credível. Daí que o amiguismo não seja desejável, pois mina a credibilidade. Por outro lado, a blogosfera é um meio gratuito, não remunerado. Logo, trata-se de uma comunidade, não de um produto. Nas comunidades trocam-se cortesias e insultos. Há casamentos e ódios. Para além disso, este universo em expansão tem tribos e clãs: há antigos e recentes; literatos e políticos; homens e mulheres; colectivos e solitários. Se as pessoas não gostam, mudam de clã, ainda antes de mudarem de tribo.
Claro que existe amiguismo na blogosfera. É da sua natureza. A começar pela escolha dos blogues linkados, pelo que se gosta de ler noutros locais, pelas pessoas com quem se escreve no mesmo sítio. Existe a excepção dos bloggers que não têm links ou que nunca citam os outros, mas se todos fizessem assim, a blogosfera não existia e não era uma comunidade. Era um conjunto de colunistas famosos a escreverem num espaço virtual.
O autor afirma que a blogosfera está a perder qualidades, mas este argumento é um pouco difícil de compreender. Trata-se de uma visão subjectiva, enquanto não for explicada. Admito que para muitos utilizadores a blogosfera esteja a perder qualidades, mas talvez a melhor maneira de descrever o fenómeno seja dizer que ela cresce, que entram mais pessoas que não conhecemos, que ela evolui sem que a possamos controlar. Mas isso pode ser uma coisa boa.
Deixem-me voltar atrás. Há uns dias, num post que me fez torcer o nariz, JPP defendeu a sua tese de que só leria literatura com pelo menos dez anos de publicação. É engraçado defender estas coisas, mas é melhor que não haja muitos leitores a imitar a ideia, pois em breve não haveria literatura, nem com dez anos nem com um. Se as pessoas só comprassem livros com dez anos, as editoras iam à falência e, portanto, não editavam.
No fundo, nesta polémica, acho que é giro ser da elite e habitar na estratosfera.

Autoria e outros dados (tags, etc)



Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com




Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Anónimo

    De Anónimo a 15.10.2019 às 14:11"vai dizer no 'par...

  • Anónimo

    O Homem diz coisas certas. Realidades.Até ganhou e...

  • Vortex

    não escrevo em russo o correspondente usado no tem...

  • Vortex

    inicio de 50 conheci-o no falecido CADCa integrali...

  • Anónimo

    vai dizer no 'paralamento' o que 'Mafoma não disse...


Links

Muito nossos

  •  
  •  
  • Outros blogs

  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2008
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2007
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D
    170. 2006
    171. J
    172. F
    173. M
    174. A
    175. M
    176. J
    177. J
    178. A
    179. S
    180. O
    181. N
    182. D