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Crescei e multiplicai-vos

por João Távora, em 02.03.14

É em modo de conversa de café que me imiscuo nesta civilizada discussão entre a Maria João Marques e a Daniela Silva no blogue Insurgente sobre a virtude das famílias numerosas com origem neste artigo do Henrique Raposo. Para tal, parto duma percepção que intuo com clareza, que resulta num profundo cepticismo nas famigeradas políticas de incentivo à natalidade. Não creio que mais ou menos substanciais apoios fiscais ou outras medidas de discriminação positiva para os casais com mais filhos, para além de intrinsecamente justos, produzam significativas alterações a uma realidade com tão profundas raízes culturais. Tal como não é possível imobilizar a marcha de um longo e pesado comboio em cinquenta metros, vai demorar muito tempo a travar o inverno demográfico que vai alastrando pelo ocidente judaico-cristão. 
Irónico é como a “revolução demográfica” (enorme aumento da natalidade e longevidade) ocorrida na Europa entre os Séc. XVIII e XIX com origem no desenvolvimento da agricultura, numa melhor alimentação e nos avanços da medicina, tenham confluído no desenvolvimento socioeconómico e científico que por sua vez proporcionaram nos anos sessenta do século passado a descoberta da pilula contraceptiva. Esse prodígio da ciência vem resultar numa travagem a fundo no baby boom do pós-guerra e é, no final de contas, a génese da crise demográfica com que nos debatemos por estes dias e se confunde com a decadência do nosso modelo de sociedade. Paralelamente, este fenómeno é o culminar dum longo e continuado processo de emancipação feminina, em que a mulher vê finalmente a sua sexualidade “liberta” do cativeiro da maternidade, do estatuto de mãe, que nos nossos tempos perde progressivamente prestígio, adquirindo até uma conotação negativa entre as elites dominantes. Ora o problema é que, com a água do banho, literalmente despejou-se o bebé pela janela fora da nossa civilização.
É por essa via que nos vemos chegados ao modelo cultural marcadamente estéril da actualidade, da cosmopolita e próspera família monoparental e do filho único, integrado numa cultura hedonista e securitária em que qualquer prenúncio de imprevisibilidade é ameaça, e nesse sentido vai ganhando contornos eugenistas. Somos todos mais felizes?
Perante o atrás descrito, estou convicto que para a solução da crise demográfica urge uma revolução cultural, no seu sentido etimológico de retorno ao ponto de partida: a valores que recuperem os ancestrais modelos de organização familiar e a consequente devolução do prestígio da maternidade como realização do Amor pleno, inteiro. A defesa duma ecologia que devolva o apreço pelos sinais da natureza, mas desta vez humana, dos seus ciclos e impulsos biológicos, naturais e legítimos; enfim que exalte a dignidade e honorabilidade de uma família grande em generosidade.
Nesse sentido urge uma radical e continuada acção de Relações Públicas que contrabalance a estigma vigente, que esta pequena história é exemplo: após o nascimento do seu quinto filho uma parente minha foi abordada na maternidade pela enfermeira de serviço que ao constatar o seu histórico de maternidade, desabafou em tom de desdém qualquer coisa como “Nossa, isso é coisa de negro”.
Estas linhas não servem para fazer qualquer juízo sobre os princípios ou circunstâncias que presidem as escolhas de cada indivíduo ou casal – se assim fosse elas constituíam em certa medida um exercício de autocrítica. Por certo que o facto de ter muitos, poucos ou nenhuns filhos não qualifica à partida uma mulher ou um casal. O problema é que até a corroboração dessa neutralidade está longe de vigorar na estética vigente. Por tudo isto, nos nossos tempos são de bem-dizer e abençoar as famílias grandes, Maria João.

 

Ilustração: José Abrantes - direitos reservados

A mais subtil revolução

por João Távora, em 10.03.10

 

 

Nas suas recentes entrevistas, Caetano Veloso, músico que admiro desde a minha tenra juventude, conhecido pela sua rebeldia de tonalidades esquerdistas do início da carreira, hoje acusa Lula de grosseria e vai deixando escapar um discurso sereno, racional e realista que muitos acusam ser de direita sem que o cantor refute esse crime. 

Joan Baez, que toca logo à noite no Coliseu, é uma das vozes mais importantes da música de intervenção dos anos sessenta. Quando a jornalista do Sol (26 Fev, p.52) a questionou sobre «se escrevesse hoje uma canção que tema abordaria?» a cantora quase a fazer setenta anos, respondeu que «As pessoas deveriam saber que actualmente passo muito tempo com a família». Sem mais.

É universalmente aceite que, regra geral, o passar dos anos refreiam os ímpetos mais subversivos às pessoas, e o avançar da idade tende apurar a racionalidade e bom senso.

É assim que me permito vislumbrar algo de positivo no meu País do ano 2050, em que se prevê que cerca de um terço da população terá mais de 60 anos... sem reforma mas plenos de juízo e sabedoria. Imaginem por exemplo, como será nessa altura a propaganda política e a publicidade em geral, com as quotas de imbecilidade restringidas ao mínimo. De resto, suspeito que o panorama demográfico incluirá umas raras crianças e jovens, maioritariamente provenientes de meios conservadores e católicos, dalguma minoria étnica ou casais excêntricos. Talvez então a nossa proverbial adolescentocracia entre finalmente em regressão, perante uma emergente cultura contra-revolucionária de origem... demográfica. Isto, claro está, se não andarmos todos a aprender árabe como língua obrigatória. 

 

Portugal é o país da União Europeia em que a população está a envelhecer mais depressa, segundo um relatório hoje apresentado no Parlamento Europeu, pelo Instituto de Política Familiar. O mesmo instituto afirma que a Europa está "imersa num nunca visto Inverno Demográfico", ao lembrar o défice anual de nascimentos, o aumento dos abortos e a “explosão” de divórcios. 

 

daqui 



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