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Bowie não morreu

por João Távora, em 11.01.16

bowie_large.jpg

David Bowie foi um músico genial que soube como poucos trabalhar a sua imagem, como um ícone sempre recriado nas formas mais surpreendentes. Suspeito que desta vez terá exagerado um pouco, ao deixar-se morrer assim decrépito para o lançamento do seu disco Black Star (dizem que “desconcertante” - ainda não o conheço) de onde sobressai este inquietante tema chamado "Lazarus" que em poucos dias já tem milhões e milhões de audições. Bowie já se ergueu dos mortos e dá-nos música, as estrelas ressuscitam todos os dias - foi só show business.

Há neste surpreendente seu “episódio” um certo paralelo com o de Nicholas Ray que nos últimos dias da sua doença encena a sua própria morte para Wim Wenders filmar. Alguém se lembra? A morte feita expressão do próprio artista: um invulgar desplante para com o mais temível poder que o homem enfrenta, às vezes sozinho. Uma arrogância que nos liberta - como se fossemos nós os redimidos – um legado, como se fora uma prece dum homem livre, completo. 
Curioso como não se lhe conhece qualquer discurso proselitista relacionado com as arrojadas máscaras e representações visuais por si envergadas ao longo da sua carreira. Na mesma linha em que em tempos afirmou-se arrasando desavergonhadamente todas as convenções, chega aos seus últimos dias assumindo a imagem dum cavalheiro de fato e gravata, com que suplanta o império da banalização do arrojo de que foi percursor.

Mas para mim o mais importante em Bowie sempre foi a sua genialidade musical e poética. Raro foi um álbum seu a que eu tenha aderido de forma incondicional, tantos caminhos experimentou. Apenas com Low não tenho reservas. Do seu legado fico com umas quantas canções soltas, pérolas desemparelhadas, temas que cultivo como se fossem feitas para mim. Como diz Miguel Esteves Cardoso, o que ele tem de mais genial foi ter conseguido ser único de formas distintas para diferentes pessoas. O meu Bowie não é o Bowie de mais ninguém; ele cantava-me ao ouvido sonoridades sombrias, arritmias dissonantes e melodias assombradas. Bowie não morreu, estou a ouvi-lo agora.

(Reeditado 12-01)

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A austeridade e a malha no ferro

por João Távora, em 30.04.13

 

 

Se no auge do “Long play” já era difícil ao mais genial artista ou banda pop publicar quarenta minutos de boas canções, pretender que tal é possível nos mais de sessenta minutos de um CD é no mínimo uma atrevida presunção.
É este o caso do recém-editado álbum de David Bowie “The Next Day” que a mim, crédulo consumidor, me foi vendido pelos especialistas como o seu melhor desde o fabuloso “Low” ou o histórico “Heroes” e que eu adquiri na versão em vinil constituída por dois discos de 180 gramas primorosamente prensados e por um CD para converter para mp3 e ouvir no carro. A capa é o aproveitamento da de “Heroes”, uma inevitável referência da carreira do “camaleónico” artista, com o título rasurado e um rectângulo branco onde deveria figurar a sua angelical face - uma gracinha demasiado óbvia que pelo menos no tamanho de LP resulta graficamente pouco feliz.

O dinheiro estava gasto, e foi em desassossego que à primeira audição constatei ser esta obra absolutamente anti-social, totalmente proibitivo ouvi-la no gira-discos da sala de uma tradicional casa de família como a minha. Antes de ser deixado sozinho reparei nos intimidantes esgares acossados dos meus filhos perante a arritmia ribombante da bateria, e dos dissonantes uivos das guitarras distorcidas de Gerry Leonard e de David Torn. 

Não sei se é o melhor álbum dos últimos trinta anos, mas após (des)educado o ouvido para a tarefa, reconheço que há em “The Next Day” muito bom material escondido na violência quase mórbida da maioria dos temas que emergem à volta de “Where Are We Now?”, um oásis melódico no meio duma desarmónica tempestade electrónica. Assim, “Dirty Boys”, “The Stars (Are Out Tonight)”, “I'd Rather Be High”, “Boss Of Me”, “Dancing Out In Space” e “So She” são os meus temas favoritos onde se escondem subtis harmonias bem escavadas numa sonoridade teutónica e austera aparentemente inaudível mas que ao final de algumas audições nos conseguem seduzir profundamente. Com alguma insistência e a atenção devida, a intempestiva densidade sonora presente em todo o álbum revela-nos cuidadosos arranjos de uma rica paleta de timbres e texturas, num ambiente sonoro de desespero gritado pelas palavras e evidenciado na música. Depois fica-nos a pairar a interrogação se afinal a genialidade de David Bowie aos sessenta e seis anos não poderia oferecer-nos também alguma serenidade. E a certeza de que ouvir este disco é um inestimável prazer solitário e fadiga digna dum  servente de obras ao final da empreitada. 

 

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