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Emoções básicas (32)

por Luís Naves, em 30.10.08

 

Vitória de Pirro

No terceiro século antes de Cristo, um general grego, Pirro de Epiro, lançou uma campanha militar contra Roma e venceu vários combates que lhe custaram os melhores soldados do seu exército. Após uma dessas batalhas, disse famosamente que se tivesse mais uma vitória como aquela, isso representaria o seu fim.

O episódio deu origem à expressão “vitória pírrica”. Se os custos de um triunfo forem excessivos, uma vantagem táctica temporária pode facilmente transformar-se em derrota estratégica.

 

O exemplo húngaro

Em 2006, os socialistas húngaros (MSzP) venceram as eleições no seu país, com um primeiro-ministro (na imagem, à direita) que chegara à chefia do partido em 2004, Ferenc Gyurcsány (lê-se Ferentz Giurtxaine). O novo líder parecia mais dinâmico e substituíra um primeiro-ministro socialista impopular, no poder desde 2002.

Poucos meses depois da vitória, foi divulgada uma gravação de uma reunião partidária que ocorrera alguns dias após as eleições. Na ocasião, o primeiro-ministro disse (e numa linguagem franca que chocou a opinião pública) que o partido mentira durante dois anos e meio, para ganhar as eleições.

Houve um escândalo e o partido no poder tem vivido um martírio. Se houvesse eleições agora, o MSzP seria massacrado e a oposição conservadora obtinha dois terços do parlamento.

Na realidade, em 2006, os socialistas húngaros conseguiram uma vitória pírrica de elevado custo para o seu país. O défice orçamental chegou a ultrapassar 9% e o país endividou-se alegremente, vivendo muito acima das posses, com um défice da balança de transacções semelhante ao português e que só os islandeses superavam, com os resultados cobnhecidos.

 

Ilusões

Em busca dos eleitores, o governo húngaro continuou a abrir os cordões à bolsa, carregando nos impostos. A economia perdeu competitividade, a taxa de crescimento foi descendo.

A vizinha Eslováquia fez as mudanças que os conservadores húngaros tentaram entre 1998 e 2002 e que os socialistas travaram: reforma fiscal, competição, apoio às empresas, aposta num crescimento rápido. O partido liberal eslovaco que seguiu esse caminho perdeu as eleições, mas o resultado foi uma economia dinâmica, capaz de entrar na zona euro.

Por outro lado, tendo perdido a sua oportunidade, a Hungria está à beira da bancarrota e vai agora receber um pacote de emergência do FMI e do Banco Central Europeu. A moeda local caiu 20% este mês, depois da população ter perdido poder de compra durante dois anos. A partir de agora, os cortes sociais serão cegos e à bruta. O país vai viver uma cruel recessão durante um bom par de anos e levará talvez meia década a recuperar do descalabro. Gyurcsány dificilmente aguentará até 2010.

O que nos ensina esta história? Que em política a mentira dá origem a vitórias pírricas. Ocultar a verdade à opinião pública, insistir na propaganda, repetir à exaustão as mesmas fantasias, tudo isto leva ao desastre, pois a realidade não tem compaixão pelos que vivem num estado de ilusão sistemática.

 

 

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Emoções básicas (16)

por Luís Naves, em 21.09.08

O regresso de Alcazar

 

É fácil argumentar que George W. Bush foi o pior Presidente dos Estados Unidos desde Richard Nixon. Se este último não tivesse sido apanhado nas suas malfeitorias, Bush seria facilmente o pior Presidente desde Woodrow Wilson.

Uso a valorização no sentido dos interesses dos próprios americanos e estou a escrever sobretudo sobre as consequências da política externa da América. Quando forem observadas com distanciamento não partidário, as acções de Bush serão alvo de poderosas críticas: não acabou com os talibãs quando podia; cometeu um erro estratégico gravíssimo, ao invadir o Iraque; avaliou mal a Rússia; e, questão menos mencionada, desprezou a América Latina, de forma a criar ali uma hostilidade que custará anos a reparar.

O caudilho Hugo Chávez e o cocalero Evo Morales estão a afundar os respectivos países. A Venezuela desperdiça nova oportunidade de petróleo caro e a Bolívia aproxima-se do abismo da fragmentação ou mesmo da guerra civil.

Muitos observadores dizem que é assim a democracia, argumento que serve sempre para justificar a loucura destas lideranças irresponsáveis (foram eleitos). O argumento, claro, nunca se aplica a Cuba, onde o regime dos irmãos Castro continua a fascinar tantos esquerdistas, como se não fosse uma invulgar tirania que forçou o país à pobreza. Entretanto, a Colômbia vive a sua guerra civil endémica e o México resvala para a lei do narcotráfico. O populismo mais inábil invade a política dos mais pacíficos, do Equador à Nicarágua, da Argentina ao Peru, mas também espreita no Brasil e no Chile.

Em oito anos, uma região que parecia ter outra vez um futuro de progresso enfiou-se de novo no beco sem saída. E, a meu ver, Washington tem altas culpas no cartório.

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Emoções básicas (15)

por Luís Naves, em 19.09.08

 

O importante é a rosa

 

Acho que muitos esquerdistas têm razão quando dizem que a crise financeira mundial é também uma crise profunda do modelo de capitalismo, que parecia triunfante. Mas penso que a esquerda não devia encarar as tempestades financeiras como vitórias ideológicas, pois o socialismo atravessa uma turbulência bem mais séria do que o capitalismo liberal.

Se olharmos as democracias parlamentares europeias, com os seus diversos sistemas sociais, percebemos que os partidos socialistas mais ideológicos enfrentam graves dificuldades para se manterem no poder, num ambiente de globalização.

Em França, o outrora poderoso Partido Socialista entrou num declínio penoso, que o congresso de Novembro não poderá resolver. As facções mais ideológicas opõem-se a pragmáticos económicos e a social-democratas da nova geração. Mas não parece haver uma solução que una estes pedaços e tudo vai depender das personalidades para a liderança. Estas vão representar mínimos denominadores comuns.

O patético falhanço do New Labour, no Reino Unido, após dez anos no poder, devia provocar intensa reflexão nos socialistas e na esquerda europeia em geral. Perdida a terceira via, com os social-democratas nórdicos à deriva, com as suas formações entaladas entre liberais e trotskistas que não querem ser poder, os diversos socialistas europeus arrastam-se numa estranha melancolia, envelhecidos e sem memória.

O exemplo espanhol em que estão a pensar não convence. Zapatero usou causas ideológicas fracturantes e foi pragmático nas nacionalidades e na economia. Mas os socialistas espanhóis têm o mesmo problema francês das famílias ideologicamente inconciliáveis. A imitação portuguesa, a meu ver, também falhou.

A leste, entretanto, os diversos sistemas políticos emergentes estão a desembaraçar-se dos seus falsos socialistas, que não eram mais do que partidos comunistas recauchutados. Na Polónia, os liberais são a esquerda.

Ao olhar para fora da Europa, o socialismo ainda tem maiores problemas. Onde estão os modelos a seguir? Evo Morales e Hugo Chávez? Ou talvez Putin? Os confucionistas chineses? Barack Obama? E, neste deserto, ninguém parece ser culpado de não haver ideias novas que possam resistir à globalização.

Mas vejamos: o candidato democrata americano está mais à direita do que Hillary Clinton. É mais conservador do que a sua rival democrata em muitas áreas. O essencial do que defende está à direita de David Cameron.

E para onde vai esta Europa que parece estar a perder a sua esquerda tradicional? 

 

 

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Emoções básicas (4)

por Luís Naves, em 30.07.08

 

Por razões técnicas, só agora posso responder ao post de Henrique Raposo, em Atlântico. Esta nossa conversa surgiu por causa de um texto sobre corrupção, onde o Henrique fazia uma ligação entre o sistema político e esse fenómeno. No post de ontem, ele explica ainda melhor o seu pensamento.

Não discordo do que escreve Henrique Raposo sobre as limitações da democracia e a excessiva ligação entre partidos e instituições do Estado. A prática tem numerosos inconvenientes. As formações políticas são também centros de emprego, onde singram numerosos medíocres. Muitas instituições do Estado estão povoadas de belas carreiras políticas, com arrivistas, incompetentes e também corruptos. Mas há os outros: os capazes e honestos.

Ao contrário do Henrique, penso que Portugal não é muito diferente dos restantes países, no que respeita à ligação entre sistema político e partidos. As instituições do Estado, a imprensa, os bancos privados têm militantes partidários, cujas carreiras são facilitadas. A história repete-se na Suécia, no Reino Unido, em França ou na Polónia. Em alguns países, as instituições são fortes e mostram independência em relação aos poderes partidários; há outros onde a autonomia não é tão nítida. Mas tudo isto acontece em sistemas muito parecidos com o nosso, com leis idênticas.

Em resumo, se a corrupção portuguesa é mais elevada do que a média das democracias parlamentares (não digo que o seja, mas penso que o Henrique acredita nisso), então teremos de encontrar outras razões, para além da falta de leis ou fiscalização.

A ocasião faz o ladrão e a oportunidade tem certamente um papel. A ausência de receio de ser punido terá de ser factor importante.

Mas a corrupção nacional tem raiz na forma como alguns pecados são aceites. Tantas vezes fechamos os olhos a pequenos delitos e desculpamos faltas de civismo ou abusos, para não arranjarmos chatices ou porque não compensa a queixa. Em Portugal, a denúncia não é bem vista. E não falo de coisas graves, mas das pequeninas. Um delator escandaliza muito mais do que um chico-esperto.

Isto, claro, não faz o sistema político-partidário. É apenas um caldo cultural onde também os partidos têm de viver.

 

Ilustração: pintura de James Ensor (1860-1949)

 

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Emoções básicas (3)

por Luís Naves, em 29.07.08

Num post abaixo, o João Villalobos fez uma crítica a um texto do Henrique Raposo, do blog Atlântico. E recebeu uma resposta curiosa. Estavam os dois a falar de corrupção, mas parece que o Henrique vê em Portugal uma singularidade. Diz ele: “Os partidos colonizaram Portugal, colonizaram o sistema político”; “sistema partidário não pode ser sinónimo de sistema político”; “numa democracia liberal decente, os partidos actuam num sistema político. Não são donos dele. Em Portugal, não é assim”.

A resposta do Henrique Raposo parte de uma ideia que me parece errada: temos mais corrupção do que os outros porque o nosso sistema é diferente. O Henrique até faz a extraordinária observação de que temos partidos a mais.

Parece-me que é ao contrário em ambos os casos: temos partidos a menos e o nosso sistema não difere daquele que existe na maioria dos países.

Se houvesse mais partidos, havia coligações (como na Alemanha) e não seria preciso maioria absoluta, uma tentação.

Na realidade, temos um sistema político bipartidário, igual ao dos vizinhos, incluindo EUA, Reino Unido (que sendo quase tri, é na realidade bi), Espanha (onde as autonomias alteram essa divisão ao meio) ou Suécia. Portugal não tem nada de especial na matéria e apenas imitou os outros.

As carreiras políticas fazem-se através de partidos. É assim na democracia. Há poucos independentes nos EUA e um candidato independente não conseguirá ser eleito presidente. No Irão, para ser líder, basta saber muito de teologia.

Em todas as democracias parlamentares, os partidos são donos do sistema político. Incluindo nos EUA, onde a disciplina partidária é menor do que na Europa. Os partidos políticos têm grande controlo sobre a imprensa, a economia e a cultura. Em todos estes países se discute o financiamento dos partidos e a corrupção.

Não há singularidade portuguesa e se o país é mais corrupto, as causas serão outras, nomeadamente a forma como o eleitorado desculpa abusos. Há um aspecto cultural: os portugueses estão dispostos a perdoar. Na Suécia, uma ministra demitiu-se por usar o cartão de crédito do Estado para comprar fraldas para o filho; em Portugal, isso era impossível. No máximo, haveria um encolher de ombros.

 

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