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Milfontes

Crónicas de Verão

por João Távora, em 04.08.22

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As primitivas memórias que guardo dos verões em Milfontes fazem sentir-me velho. Nos anos 1960, exceptuando o café da Barbacã, que tinha televisão e gelados, e talvez nalguma casa que eu ignoro, a iluminação utilizada era gerada por lamparinas de petróleo. Foi nessa época em que os rebuçados custavam meio-tostão, que, numa bancada da feira de Agosto, cobicei um reluzente bimotor Douglas em folha-de-flandres. Todas as tardes, nós, crianças, éramos cruelmente condenadas a infindáveis horas de sesta que eu suportava impaciente, de olhos esbugalhados no escuro, mas com os ouvidos atentos aos sons da tarde mole, que se arrastava lá fora, na rua a estalar de calor.

Foi nessa altura que tomei consciência do mundo; os americanos tinham chegado à Lua, e atravessava-se o rio Mira numa chata que o sr. Joaquim Viola remava com um só remo alçado sobre a ré.

Conhecida como Princesa do Alentejo, a terra das três mentiras (não é vila, não é nova nem tem mil fontes) era uma aldeia de pescadores que tinha apenas umas dezenas de casas à volta do forte seiscentista. Muito poucos eram os forasteiros que usufruíam daquela encantadora praia, encimada por um areal imenso de dunas altas.

Todos os anos naquela pequena aldeia, durante umas semanas valentes, sentia-me incomensuravelmente feliz: com o nariz e as bochechas empastadas de Caladril, uma pomada cor-de-rosa para as queimaduras, passava todo o tempo possível dentro de água. Diariamente, pela manhã (aqui presto devida homenagem à minha mãe, que tão perseverantemente pastoreava um rebanho de cinco rebeldes criancinhas), lá íamos todos para a praia junto do rio, que então era suficientemente espaçosa para as poucas famílias de veraneantes habituais. (Hoje, essa praia encontra-se rasgada por uma estrada de alcatrão e o areal recuou pela erosão das marés, tornando-a impraticável, pelo menos no Verão.)

Uma certa manhã de Agosto, no dia dos meus anos, acordei estremunhado e espremido pelas eufóricas meiguices do meu pai. Chegara de Lisboa e trazia embrulhado de presente um minúsculo insuflável encarnado que (mal ele sonharia) me proporcionou uma das melhores férias de sempre. Eu encaixava que nem uma luva no barquito, que com as palmas das mãos remava com destreza. Na minha imaginação, possuía um autêntico veleiro com o qual alcancei a Índia, cheguei a África e ao topo do mundo. Tirarem-me da água é que era uma carga de trabalhos.

Ano após ano, fui aprendendo a conhecer as águas e as marés daquele rio, que cheguei a atravessar a nado muitas vezes. E recordo com saudade as vezes que passeava orgulhoso ao lado do meu pai no seu Volkswagen, aos abanões pelas dunas dos Aivados. E havia o nosso guia Jacinto, um pescador autóctone que auxiliava o meu pai em façanhas piscatórias e que nos acompanhava no Canal à lota do peixe. No último ano que passámos juntos nessa aldeia alentejana, o meu pai comprou uma velha barca que deixou à guarda do Jacinto, para o imprescindível restauro. Depois do 25 de Abril, ele não voltou a Vila Nova, e eu nunca mais soube o que se passara com o nosso barco, com o qual tenho a certeza ambos sonhámos divertidas aventuras e passeios numas férias que jamais aconteceram. Talvez por mero pudor, nunca falámos do assunto.

Hoje, por lealdade e caturrice, ainda reservo todos os anos uma parte das férias com a família em Milfontes, um destino que afinal se tornou numa pequena selva de betão, paredes-meias com dois enormes parques de campismo. Contra isso vale-nos uma casa que alugamos de costas para a vila e sobranceira ao rio, onde nos podemos abstrair da feira que fervilha lá atrás, e de noite ouvir o chapar dos barcos na água ou uma cigarra a trinar. E depois há as dunas e as ondas do Malhão. Os miúdos tomaram-lhes o gosto. E há os amores e os amigos de Verão, que se querem sempre reencontrar, nem que seja só por duas semanas e para o ano que vem.

Texto reeditado e recuperado daqui

O Taunus verde eléctrico

por João Távora, em 25.07.22

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Bem lançado, o Taunus verde eléctrico percorre veloz as tábuas polidas e enceradas do longo e escuro corredor. Na sua peugada chego eu em corrida e aterro de rabo à sua frente para um imaginário grande plano do bólide furtivo. Com o predilecto Lótus Europa em punho, reproduzo um peão bem calculado para, imitando o som duma travagem “à americana”, bloquear o seu caminho. De cara junto ao chão penetro com o olhar dentro da reluzente miniatura Matchbox, qual zoom que aponta ao seu volante, tablier e assentos monocromáticos. Com a imaginação fértil, visualizo o transtornado vilão ali sentado que prepara uma reacção à audaz artimanha de que foi alvo. Então, saco do pequeno carro da polícia que trago no bolso dos calções, encenando a sua chegada ao local da acção. Precipita-se assim o final da contenda e a vitória do “bom e valente herói”, que afinal sou eu próprio congeminado ali ao volante do potente Lótus. É tempo de interromper a brincadeira pois está na hora de ir à cozinha comer uma carcaça com manteiga, ou quem sabe, uma gemada a transbordar de açúcar.

Ainda hoje me extasio na montra daquela loja de modelismo e brinquedos caros nas Amoreiras, com aqueles espantosos modelos à escala quase reais, com conta-rotações no tablier, pedais metalizados, espelhos retrovisores e limpa pára-brisas. E como eram deslumbrantes as locomotivas e carruagens Marklim, aviões telecomandados e pistas Scalextric que na minha infância me detinham intermináveis horas de puro transe, com a cara colada às vitrinas da Quermesse Paris, ali aos Restauradores.

Esses desejos nunca se cumpriram, pois lá em casa as prioridades eram outras. Os brinquedos mais parecidos que tive, foram imitações fabricadas no oriente e que acabavam invariavelmente esventradas no fundo do caixote das tralhas inutilizadas.

Isso dificilmente sucedia com os meus coloridos e variados carrinhos Matchbox, brinquedos difíceis de escangalhar. Era com os meus automóveis preferidos que eu passava tardes infindáveis estendido no chão da sala a brincar. Com as figuras geométricas do tapete turco, imaginava avenidas e travessas, auto-estradas e caminhos, cenários urbanos ou bucólicos para as intermináveis aventuras que inventava inspirado no último episódio dos Vingadores, do Fugitivo ou noutra série qualquer. E ao fim da tarde, lá na Praceta, armado com o modelo favorito, juntava-me à rapaziada para umas disputadas corridas desenhadas a giz no alcatrão.

Mais do que a bola e a bicicleta que me conquistariam mais tarde, elejo os meus carritos Matchbox como o brinquedo preferido da minha infância. Nada na vida me dava mais prazer que escolher e brincar com um carro novo, que seria o meu eleito até à chegada do seguinte, oferecido à vinda da missa pela minha avó, ou numa tarde de compras com a minha mãe. Com 12$50 elas sabiam que me podiam fazer absolutamente feliz... por muito tempo.

Texto reeditado e recuperado daqui



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