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Não me gritem! *

por João Távora, em 24.05.23

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É fácil constatar que é cada vez mais difícil juntar 10 convivas num jantar sem o risco de uma zanga e alguns amuos numa cacofonia de arengas inconvenientes. As redes sociais confirmaram que deixou de existir um chão comum, uma base de entendimento, que toda a gente, mesmo toda, pode ter e afirmar a sua opinião muito própria, sobre história, física quântica ou teologia, e até da vida dos outros. Há muito que as opiniões de alguns, os mais afoitos ou até alcoolizados, extravasou o café do bairro para o Facebook ou o Twitter. Entretanto, as correntes de opinião foram sendo cortadas em fatias cada vez mais fininhas para dar para todo o pessoal, cada vez mais categórico e cioso da sua originalidade.

Evidentemente que ainda sobram os grupos de amigos que não subjugam uma boa conversa a um duelo de opiniões ribombantes arremessadas para prazer narcísico, ou apenas por “intransigência nos princípios”. A boa conversa é uma arte delicada que não resiste à tirania de quem quer impor uma perspectiva “muito sua” da verdade, muito menos da vida alheia. O pior por estes dias é mesmo a atomização das razões por que cada um pugna, com tanto denodo. Tempos houve em que poucos mais temas como o divórcio ou a homossexualidade fracturavam os salões da sociedade que “contava” – hoje tudo serve e o país tornou-se num gigantesco circo de indignações. A democratização das opiniões deu cabo das velhas regras de boa educação e do bom senso que durante séculos serviram para domesticar os mais extremos ímpetos opinativos, com um normativo que delimitava o âmbito das conversas, para não aborrecer os convivas (não se falar de doenças) ou evitar que a refeição acabasse numa zaragata (não falar de política e religião). Aqui chegados, constata-se que as opiniões próprias que todos se vêm animados a cultivar revelou-se um exercício pouco mais que estéril. Como toda a gente sabe é esse o destino das ideologias em decadência: foi o que aconteceu com os trotskistas de quem se dizia que “um trotskista é um partido, dois são uma internacional, três preparam uma cisão”. Ou o fenómeno acontecido com o movimento monárquico depois de 1910, definhando num processo de apuramento insaciável de pureza ideológica e de princípios, enquanto o Estado Novo punha ordem nas hostes. Ou como a direita portuguesa que desistiu de tentar juntar liberais e conservadores, num processo de desmultiplicação em correntes de graduação progressiva. E vem o Chega dar mau nome aos conservadores, há décadas (ou séculos, desde o rei Dom Miguel) oprimidos no colete-de-forças que era o CDS quando queria ocupar o centro político - um lugar à mesa do destino da Pátria. Já para não falar dos católicos entrincheirados em correntes progressistas ou tradicionalistas, guerras intestinas pela missa em latim, contra a missa em latim, contra a comunhão na mão ou a favor da comunhão na boca, a favor do Papa quando é “progressista” e contra ele quando é conservador – as discussões que para aí correm, meu Deus!

Evidentemente que toda esta impertinente vozearia é potenciada pelas redes sociais, instigando permanentemente os incautos utilizadores ao desafio a fazer exaltados juízos definitivos sobre tudo e nada, com a pretensão que lhes cabe – a cada um - o sagrado papel de educar o seu semelhante – sim, eu sei que isto tudo começou com os blogs, e que eu tenho a minha parte de culpa. O problema é que este fenómeno, que na política nos roubou o pouco sossego possível em democracia, um chão comum e algum sentido do longo prazo, está a transformar o sistema num exercício ensurdecedor de populismo, de gente exaltada e ofendida em constante troca de posições. É neste ambiente que emergem das catacumbas dos partidos personagens de inimaginável vulgaridade.

Mas o pior mesmo – e é essa a mais grave das ameaças - é permitirmos que esta cacofonia invada os salões das nossas casas a estragar qualquer conversa civilizada, livre de moralismos ou proselitismos. Cuidado, não deixem que o Twitter se sente à vossa mesa, que o que sobra da nossa civilização ruirá bem mais depressa, pois não haverá convivialidade que resista. Uma opinião é apenas uma opinião, e só tem utilidade a quem a pedir. Por favor, não no-la gritem aos ouvidos.

 

* Título adaptado do genial livro “Não me grite” de Quino, cujo desenho da capa ilustra esta crónica

A grande maldição

por João Távora, em 27.10.12

 

Na quinta-feira passada não resisti a assistir a mais uma amarga derrota do Sporting e assim me certificar do seu acelerado fenómeno de decadência. Uma pessoa não se habitua à dor e palavra de honra que fiquei incomodado, com um inaudito melão. 
Como já referi mais do que uma vez, nestas coisas da bola sou apenas um adepto de paixão que não leva a sério a discussão de estratégias facilmente objectadas por uma bola à trave, uma lesão fatal ou má arbitragem. Ou seja, este é daqueles temas em que sou meramente “clubista”, ou seja, parcial e apaixonado - o que me move (me faz saltar) são as bolas lá dentro.
As razões atrás expostas não me permitem portanto uma análise lúcida da situação. Isso tem na língua portuguesa uma expressão clara e explícita, diz-se: o Filipe é do Benfica, o Vasco é do Porto e o João é do Sporting. Uma relação de propriedade, inevitabilidade umbilical, siamesa, da qual não há fuga ou libertação possível. Entendamo-nos: se fosse ao contrário e o Sporting fosse meu, eu rifava-o, escondia-o no sótão no baú dos trastes de família, aí mesmo onde estão todos os descarnados esqueletos. Mas não; para desgraça minha sou eu que sou do Sporting, qual Fausto que por uma miragem de felicidade vendeu a alma, e que assim alcançou a dor lancinante do perpétuo fogo dos infernos diabólicos. Não há rádio, jornal ou noticiário que a cada hora não me confronte com esta maldita condenação de assistir com uns palitos nos olhos ao naufrágio clube de que sou refém.
Agora mais a sério: temo bem que pouco haja a fazer nestes dias para resgatar um pouco de orgulho e alegria aos sportinguistas, que em boa verdade, desde os anos sessenta, animados por umas poucas e fugazes vitórias, vivem dos seus pergaminhos. E se há pessoa que sabe que, exceptuando para a um alfarrabista, o valor prático dos pergaminhos é igual a zero sou eu; acreditem. Como diz o povo, "fidalguia sem comedoria é gaita que não assobia" e pelos vistos acabaram-se as filhas dos brasileiros ricos para “bem casar”, que o dinheiro custa a ganhar em todo o lado. E sem palhaços acabou-se o circo. É uma gaita.

Sexo, e então?!

por João Távora, em 07.10.11

 

Nas férias que há pouco terminam, o meu pequenito e eu fizemos uma descoberta: o Zig-zag, um programa infantil do Canal 2 do Estado com uma original oferta de animações de diferentes origens. Parecia-me uma boa solução para fugir à preponderante produção norte-americana que também consegue atingir a mais confrangedora vulgaridade plástica. Até que um dia destes, num intervalo da série “Jerónimo Stilton” cujo genérico aprendemos a cantar os dois, apareceu uma reportagem sobre uma iniciativa do Pavilhão do Conhecimento,  a exposição “ Sexo e então?!”. Atónito, na convicção de que aquele assunto ultrapassaria o entendimento duma criança de quatro anos, assisti a alguns minutos duma visita guiada pelos mais espantosos maquinismos, jogos e figurações sobre os órgãos usos e práticas, tudo na perspectiva de desmistificar o relacionamento sexual nas mais inventivas recriações. Nessa noite ao jantar o miúdo balbuciou uma estranha pergunta com referência a facas que saíam da boca e se espetavam noutra cabeça. Perante o espanto geral, eu relacionei a descrição com um mecanismo apresentado na rubrica televisiva que consistia em duas cabeças de criança frente a frente, com colossais bocas abertas donde saíam enormes línguas que manipuladas como fantoches pelos petizes penetravam a outra boca, numa atroz caricatura de um beijo.

Tenho para mim que entre o arcaico preconceito puritano, com raízes na ancestral (e bem-sucedida) cultura europeia de controlo de natalidade e a banalização do sexo como mero “apetrecho de prazer consumista” há um enorme território de bons princípios que não são reconhecidos pelo Estado que sustento com os meus impostos. É nesse sentido que considero meu dever formar e proteger os meus filhos desta catequese adolescentocrática que sobrevive aos diferentes governos cuja trágica impotência “ideológica” os limita ao “pragmatismo” da medíocre gestão económica da coisa pública. Enquanto isso, resta-nos erguer muralhas em torno das nossas comunidades familiares e construir "arcas" que resistam ao dilúvio da escura noite civilizacional do ocidente cujo mais elementar bom senso nos deveria fazer temer. 

 

Imagens daqui

Um conto imoral

por João Távora, em 16.04.11

Era uma vez um homem pequeno e magrinho, mal tratado pelos anos e privações, de pele curtida pelo sol e pelo mar, que parava todos os dias à porta da tasca daquela rua, de palito na boca e olhar nostálgico, na expectava de algum frete que lhe rendesse uns copos que inflamassem uma boa noite de cavaqueira. Chamava-se Portugal e consta que tinha envergonhadas origens fidalgas, e que em tempos vivera histórias e aventuras de pasmar.
Em frente à tasca, ficava uma magnífica mansão, onde morava uma esbelta senhora chamada Europa que ele há muito observava e seguia de esguelha, num mal disfarçado enlevo. Atraia-o o seu porte elegante e sofisticado que o enchia de arrebatado e secreto desejo.
Certo dia quando a Senhora elegante chegava a casa dumas proveitosas compras, baixando os óculos escuros para o nariz observou mais demoradamente no outro lado da rua o homem de aparência tisica, encostado à parede da tasca, aspirando uma beata sôfrega. Foi nesta sequência que o motorista, após receber indicações da senhora, se dirigiu ao velho jarreta com um cartão, que o convocava para uma visita à bela mansão, naquele mesmo dia à hora do chá. 

Não teve mais sossego nesse dia: foi numa inaudita excitação que se dirigiu ao seu quarto miserável, numas águas-furtadas ali perto, para fazer a barba de 5 dias, com uma lâmina velha, uma fatia de sabão azul e um caco de espelho. Foi com o coração palpitante que Portugal mudou a camisa rota, esfregou as axilas, penteou os poucos cabelos que lhe restavam, pôs uma gravata ruça e um casaco escuro que herdara dum tio emigrante. Às cinco da tarde, quase a desfalecer de emoção, não sem antes passar o pente uma última vez na cabeça, tocou a campainha daquela porta intimidante, cuja sombra projectada para o interior conhecia de cor cada milímetro, de tantos anos de contemplação e cobiça. Mandado aguardar uns submissos instantes no grandioso hall da entrada, a criadagem conduziu-o de seguida a um faustoso quarto com banhos fumegantes, onde foi submetido a uma profunda operação higiénica com fundos comunitários. Foram-lhe depois entregues roupas limpas e uns sofisticados artefactos que ele não conhecia a utilidade, mas que rebrilhavam de novos e davam estilo.
Foi assim catita e bem cheiroso, tão subsidiado que até parecia um assessor ministerial, que o pobretana compareceu no salão onde a Senhora Europa, o recebeu com um misto de apreço e curiosidade mórbida. Em vez de o convidar a sentar, pediu-lhe que permanecesse ali mesmo, àquela distância, e puxando duma sineta de imediato respondeu um mordomo, a quem foi ordenado chamar a criançada ao salão. Imediatamente se ouviu um crescendo de passos descompassados, e duma desordenada correria logo o grupo se dispôs em composta formatura no ângulo oposto à decrepita criatura. Pareceu-lhe reconhecer alguns daqueles infantes cujo movimento observava há longos anos a entrar ou sair daquela grande casa, sempre crescendo bem nutridos e saudáveis, alguns até com aparência desportista. Aquela ali, esbelta e loura, de ar trocista chamava-se Finlândia, aqueloutra vaidosa e sedutora devia ser a França. Uma outra, mais encorpada, de cabelo ralo e com ar austero era certamente a tal Alemanha…
Foi então a Senhora Europa se levantou e agradecendo presença de Portugal para aquela solene ocasião, dirigiu-se autoritária às outras nações: “atentai minhas filhas, que é assim, decrepitas e inúteis, que ireis ficar se não cumprirdes o pacto de estabilidade!” De seguida ofereceu-lhe dois cigarros e dispensou o velho tísico, não sem que antes ele devolvesse o casaco de lã fina e os sapatos de pelica.

Um desperdício de latim

por João Távora, em 12.07.10

 

O bom português quando usa uma palavra estrangeira sente-se moderno, cosmopolita e dono duma grande ciência. Por isso desconfio dum secreto orgulho vivido quando soube que José Sócrates tinha feito valer uma Golden Share para lixar os espanhóis e o negócio aos accionistas da PT. Certamente essa medida não teria obtido o mesmo sucesso se tivesse sido através duma reles “participação decisiva” ou coisa parecida. Golden Share tem outro sainete. É tal e qual um Test drive, que afinal trata-se duma inigualável experiência de condução exclusiva de quem se prepara para se enterrar uma pipa de massa a comprar um automóvel.

A grande invasão dos anglicismos começou de mansinho no tempo dos meus pais com os filmes de Cowboys e com o After Shave, até chegar dominadora e despótica aos dias de hoje com o Outlet, o Underground e o casamento gay. Subitamente toda a gente se refere a downloads, feedback e barbecue, e gaba-se de ter um Account que lhe cobra as taxas na conta bancária. E se lhe derem conversa ouvirão termos como pricing e banking. Para mim este delírio começou quando eu era pequeno com a Baby sitter, o mais das vezes uma parente mais velha que nos fechava às escuras no quarto às dez da noite. Daí até ao Check in, Check out ou Cheesburguer foi um saltinho. Tudo por culpa do marketing que no tempo do meu avô era simples propaganda, uma palavra tão bonita que já ninguém quer usar. E vieram os personal trainer, os deadlines e os franchisings. Claro que subiram as taxas de divórcios e o consumo de Donuts, para desgraça das bolas de Berlim. De caminho pessoal obteve um Upgrade nas fórmulas de percepção da realidade com o conceituado Feeling que obteve bastante sucesso substituindo o nosso tradicional dedo que adivinha: hoje qualquer Tuga que se preze pode decidir baseado num bom Feeling.

Nos últimos anos, sem dúvida foi o Car jacking que trouxe um toque extra de modernidade ao linguajar indígena, tal como acontecera nos anos noventa com os Interfaces, os Shoppings e o Jogging, um singular desporto que consiste em correr a arfar pelas ruas ou caminhos. Agora não sabemos viver sem a Internet, os Mass media, os Overbookings e os Pace makers. Hoje em dia até os pescadores são vitimas de Phishing, e para nos livrarmos duma Newsletter no email é uma carga de trabalhos; uma miúda gira é uma Top model e é provável que até use um pearcing.  É o mundo virado ao contrário, um triste destino de colonizados para o qual não há Golden Share que nos safe.

Tempos de mudança, tudo na mesma

por João Távora, em 23.06.10

 

Ainda pensámos aliviar o espaço, mas decidimos que vamos manter o velhinho leitor de CDs na estante do escritório lá de casa. É aí que os miúdos quando pequenos, empoleirados na cadeira, tocam, tiram, mudam e põe as suas cantigas de roda, histórias de encantar, bandas sonoras e outros sucessos, enquanto a mãe tamborila veloz no teclado as suas intermináveis traduções.

Hoje, a desmaterialização da música descarregada em bites e baites do mp3, num computador ou noutro artefacto, é coisa de adolescentes ingratos ou graúdos armados em espertos. Os pequenitos, como eu há mais de quarenta anos, merecem a experiencia táctil do objecto, do fascínio da capa com folhetos, e ouvir, e até estragar os seus discos com figuras, à distância mágica dum simples botão “ligar e desligar”.

Sei bem que, mal-agradecidos, seguirão os passos dos irmãos, tapando também os ouvidos com uns fones a zunir, e que jamais entenderão a minha excentricidade de ouvir um sólido vinil, que afinal têm um “altar” condigno no sitio mais nobre da sala, para os meus raros momentos recreativos, de puro e solitário deleite.

Uma parábola portuguesa com certeza

por João Távora, em 15.06.10

 

A poucos metros da minha casa está uma mercearia que se estabeleceu no final dos anos sessenta no lugar onde deveria estar a garagem do prédio. Aberta por dois casais da província que até hoje se revezam mês a mês entre “a terra” e o negócio, esta obscura loja desde então jamais teve qualquer incremento ou renovação. À excepção do leite do dia e da fruta, da qual se aconselha desconfiar da condição, tudo lá dentro é sujo, caro e bafiento. A falta de alternativa a menos de um quilómetro de distância e principalmente a venda “a fiado” permitiu-lhes durante estes anos fidelizar uma freguesia certa mesmo com preços exorbitantes. Com o passar dos anos além doutras casas e prédios, mais comércio floresceu por ali e recentemente nasceu até um sofisticado Centro de Saúde da rede do ministério.

Acontece que por estes dias, do outro lado da praceta progridem imparáveis as obras dum moderno supermercado que comprometerá definitivamente as aspirações dos meus vizinhos merceeiros. Mas não se lhes nota qualquer apreensão ou ansiedade: as donas de casa e reformados continuam a ali parar, entre uma visita à tabacaria e ao café do lado, para dois dedos de conversa e um litro de azeite. E como ironia do destino estabeleceu-se uma cúmplice relação entre os donos do lugar e o pessoal das obras, quais condenados a conviver com os seus carrascos, que ao fim do dia ali se sentam nos caixotes da fruta a beber cervejas não sei se fiadas ou com algum desconto. Certo é que esta será uma das últimas cartadas destes modestos imigrantes de província: estagnados numa esquina da vida, trinta e tal anos chegaram conquistar uma velhice modesta e resignada. Desconfio que muito em breve voltarão para a terra cavar umas batatas e apanhar umas azeitonas a ver o sol poente.

Quem não se sente...

por João Távora, em 27.04.10

 

Tenho poucas razões para gostar de futebol e menos ainda para ser do Sporting: o verdadeiro amor a um clube, ao contrário do que nos querem impingir alguns betinhos pseudo-intelectuais, pouco deve à razão, tão pouco se fundamenta em atributos técnico-tácticos e menos ainda se inspira em preconceitos heráldicos ou cromáticos. A motivação dum adepto saudável é exclusivamente do foro emocional e prende-se mais a cegas paixões do que a nobres sentimentos: o que seria da competição e dos estádios de futebol sem uma distribuição mais ou menos equitativa pelos fãs de fortes doses de dor de cotovelo ou mais acima na cabeça? Uma tristeza.

Vem toda esta teoria ao caso por causa da ameaça que paira sobre os doridos cotovelos e cabeças de meio Portugal, a conquista do campeonato pelos lampiões que já não há quem os ature. O incauto leitor estará já provavelmente a julgar-me mal: até tenho uma boa capacidade de encaixe, quem vai à guerra dá e leva, e habituado estou eu a causas perdidas, tenho calos de lidar com doses razoáveis de frustração ou outros sentimentos mais rasteiros. O problema é que por baixo da casa onde eu moro está um bar de fervorosos lampiões que há meses vêm ameaçando as fundações do prédio com uma crescente e diabólica euforia e desumana gritaria. Com a ajuda do bom tempo começaram já a organizar grelhados na esplanada, tornando a atmosfera literalmente irrespirável: o palavrão ferve como num estádio e a berraria potenciada pela cerveja entra-nos casa adentro, ameaçando o ambiente de elevação que gostaríamos de manter numa saudável família de bem.
Podem imaginar os prezados leitores como foi a última experiencia do género: uma semana depois de levar com a maralha a festejar aos urros os golos do CSKA de Moscovo na final da taça Uefa, não consegui dormir com a farra que durou a noite inteira a festejar o título alcançado com Trapattoni. Perdi uma festa e ganhei uma ressaca.
Estamos hoje na iminência de mais um grave atentado ambiental. No Sábado passado, enquanto a maltosa exultava sordidamente no estádio da luz e pelas ruas de Lisboa e arredores, graças a um caridoso convite exilei-me em S. Carlos para enobrecer a minha alma perdida com Mozart e as Bodas de Figaro. Mas o caso pia mais neste fim-de-semana, principalmente no Porto onde o Benfica poderá sagrar-se campeão numa inédita e abominável humilhação aos Andrades. Para além dum blackout informativo fácil de empreender, eu ainda não arranjei um desterro condigno que me garanta sossego, não sei ainda como escapar… mas já não me faltam ganas para uma requintada vingança na próxima época.

Alerta vermelho

por João Távora, em 01.03.10

 

 

 

Volto dum passeio à Serra debaixo dum dilúvio, estrada da beira abaixo cheio de calorias, queijos e enchidos,  ainda a tempo de ver a segunda parte do Sporting – Porto no aconchego do Estoril. Três zero e uma exibição consistente constitui um gracioso final de fim-de-semana que por sinal foi bastante estimulante apesar da intempérie. 

Menos agradável é a nota lateral sobre o desavisado contento dos lampiões assinalado na generalidade da imprensa de hoje: diz que eles sorriem do alto dos seus nove pontos de avanço ao Porto. Chegados onde estamos neste tormentoso Inverno, a nós lagartos restam-nos já poucas alegrias, mas ganhar ao Benfica e oferecer o título numa bandeja  ao outro Sporting é um propósito tão legitimo quanto entusiasmante: um desafio que é uma verdadeira Causa e uma esperança que nos resta. 

Enfim, pelo andar da carruagem e quando não se vislumbra nem uma Arca nem um Noé salve o País do atoleiro, cá por mim vou continuar em alerta Vermelho. E se por acaso lá para o mês de Maio os lampiões estiverem p’ra ganhar, já sei como proteger o espírito e a sanidade das minhas gentes: é ali pró sopé da Serra, onde não chegam os jornais ou Internet. Aí a terra ainda cheira à vida, e os ribeiros entrelaçados no granito correm cristalinos num indubitável e resoluto sentido, desde muito antes de Viriato. E afinal, "resistir" está nos meus genes pelo menos há duzentos e cinquenta anos.

 

 

A Guerra dos Sexos

por João Távora, em 17.02.10

 

Ontem quando levávamos os pequenos com a primalhada ao cinema para ver a "Princesa e o Sapo" (magnifico musical animado à boa maneira Disney), alguém sugeriu que o filme talvez não fosse indicado para rapazes. Após uma súbita insegurança, lembrei-me que, a mim ou aos meus pais jamais terá passado pela cabeça que filmes como a "Branca de Neve" a "Gata Borralheira", ou a "Bela Adormecida" fossem para meninas. Eram simplesmente para as crianças, verem e brincarem desaustinados em correias nos intervalos das matinées.

Mas não deixa de ser irónico que, quase cinquenta anos depois delas se vestirem de calças e terem queimado os soutiens, após ter sido decretado o ensino unisexo e rifado o mesmo por troca com o acético "género", conquistadas as quotas que precedem a vitória final, se tenha afinal nos dias d’hoje tornado tão radical a diferenciação simbólica entre sexos. Acontece que as meninas modernas apropriaram-se da monarquia, querem ser princesas e viver em palácios, monopolizaram o roxo e o cor-de-rosa, consomem em exclusivo uma parafernália de símbolos, séries e roupas, as "Winx", "Hello Kitty", "The Saddle Club", "Hanna Montana", "Demi Lovato", "Dora a Exploradora", o "Mundo de Patty", toda uma iconografia menino não entra.  Enfim, suspeito que em tempos de domínio relativista e "revolução de costumes", uma bizarra contra-revolução avança silenciosa: as miúdas, de pequenas conquistam e demarcam impiedosamente o seu território, nada de misturas, nada de meias-tintas. Afinal a guerra dos sexos não é a luta de classes, é garantia e perpetuação da incontornável  atracção dos opostos.

 

Com a colaboração especial da minha filhota querida

Evitem chamar-lhe 'silly season'

por Pedro Correia, em 08.09.08

Estação pateta? Que estação pateta? Há quem goste de apresentar Agosto como o mês supremo da silly season. Nada mais falso, como este ano voltou a ver-se.

Recapitulemos: houve uma guerra no Cáucaso entre a Rússia e a Geórgia, atentados terroristas no Xinjiang, os mais concorridos jogos olímpicos de sempre, um brutal acidente aéreo em Madrid com 154 mortos, a demissão forçada do presidente do Paquistão, as escolhas dos candidatos à vice-presidência dos Estados Unidos. A imprensa, à escala mundial, deu o maior destaque a tudo isto. Nada a ver com silly season. Nada mesmo.
Mas este Agosto, repito, não foi excepção. O oitavo mês do ano é, por tradição, uma época fértil em acontecimentos de máxima relevância. Foi em Agosto (de 1914) que começou a I Guerra Mundial. Foi também em Agosto (de 1939) que Moscovo e Berlim assinaram o pacto que esteve na origem directa da II Guerra Mundial.
Agosto, mês de luto e de lutas. As bombas atómicas destruiram Hiroxima e Nagasáqui neste mês (em 1945). A Revolução Cultural chinesa teve o arranque decisivo em Agosto (de 1966). Os tanques do Pacto de Varsóvia invadiram a Checoslováquia em Agosto (de 1968). E o início da violência no Ulster, em Belfast e Londonerry, ocorreu igualmente em Agosto (de 1969).
O primeiro governo pós-comunista na Polónia tomou posse neste mês, em 1989, exactamente quando o futuro Nobel da Paz Frederik de Klerk iniciava funções como presidente de uma África do Sul em acelerada transição para a era pós-apartheid. No ano seguinte, também em Agosto, Saddam Hussein invadia o Koweit. E Agosto de 1991 foi marcado por um súbito sobressalto em Moscovo: a tentativa frustrada de golpe para derrubar Gorbachov.
Houve mais – muito mais. Roosevelt e Churchill assinaram a Carta do Atlântico em Agosto de 1941. Um ano depois, no mesmo mês, o exército alemão chegava a Estalinegrado. Em Agosto de 1944, iniciou-se o heróico levantamento de Varsóvia. Agosto de 1961 ficou tristemente célebre pela edificação do Muro de Berlim. Também em Agosto, Richard Nixon abandonou a presidência dos Estados Unidos (1974), foi assinada a Acta de Helsínquia (1975), deu-se a rebelião negra no Soweto (1976), ocorreu a grande greve dos estaleiros de Gdansk que acelerou o fim do comunismo na Polónia (1980), foi assinado o acordo sino-britânico sobre o futuro de Hong Kong (1984).
Agosto foi o mês em que se tornaram independentes vários países. Alguns exemplos: Índia (1947), Chipre (1960), Jamaica (1962), Lituânia e Azerbaijão (1991). A concessão do direito de voto às mulheres nos Estados Unidos também aconteceu em Agosto (de 1920), tal como a elevação do Havai a estado norte-americano (em 1959).
Em Agosto foram assassinados Lorca (1936), Trostky (1940) e o democrata filipino Benigno Aquino (1983). E este mês viu também desaparecer figuras tão díspares como Marilyn Monroe (1962), Ian Fleming (1964), Lindbergh (1974), Fritz Lang (1976), Elvis Presley e Groucho Marx (ambos em 1977), Ingrid Bergman e Henry Fonda (ambos em 1982), Rudolf Hess (1987) e a princesa Diana (1997).
Portugal não é excepção à regra. A primeira Constituição republicana, de 1911, foi aprovada em Agosto, mês em que tomaram posse os presidentes Bernardino Machado (1915) e António José de Almeida (1919). Salazar cai da cadeira em Agosto (de 1968). O inconfundível V Governo Provisório, de Vasco Gonçalves, e a sangrenta guerra civil de Timor dominaram a actualidade em Agosto de 1975.
Foi em Agosto que Maria de Lurdes Pintasilgo, primeira mulher à frente de um governo português, tomou posse (1979), que PS e PSD assinaram a primeira revisão constitucional (1982), que o Chiado ardeu (1988) e o general Spínola, primeiro Chefe do Estado pós-25 de Abril, faleceu (1996).
E quem se esquece do escaldante mês de Agosto de 2004, com o arranque do frágil executivo de Santana Lopes, enquanto o PS mergulhava na crise que conduziu à troca de Ferro Rodrigues por José Sócrates?
Por favor, não voltem a falar na Estação Pateta. Agosto é tudo menos isso.

As emoções básicas (crónica) XIII

por Luís Naves, em 17.09.07


A arma encravada


Parece que chego tarde a todas as conversas. Quando tenho alguma coisa de interessante para dizer sobre os temas do dia, já antes alguém disse algo de bem mais inteligente. Isto acontece-me tantas vezes, que me habituei a ficar calado. Vejo os outros a conversar, treinei-me nessa observação. Gosto do exercício. Estou sempre a torcer por alguém, quando há debate de ideias, e fico maravilhado como algumas pessoas têm a arte de, no tempo que demora a incendiar um fósforo, rematar com um argumento demolidor.
O gosto de ouvir os outros a falar tem certamente lados negativos: quando sei que posso ser pertinente, num determinado ponto da conversa, sinto tal desejo de dizer coisas acertadas, que interrompo os outros à bruta, para dizer essa tal frase que entretanto me escapou da ideia. E, no embaraço, levanto a voz, à qual dou uma ênfase que não queria dar à partida.
Ainda é pior quando me fazem uma pergunta: aí, ou a pergunta é certeira e dou a minha opinião ou, o que é mais normal, começo por tentar levar a conversa para o ponto que achava mais importante, mas que não estava contido na pergunta. E o exercício torna-se fútil, pois quem perguntou resiste aos meus esforços. Se, por qualquer milagre, consigo entrar no ponto que queria sublinhar, geralmente já acabou o tempo.
Era isto que eu queria escrever, não apenas chego tarde às conversas, mas parece que não tenho a inteligência social para me moldar às conversas dos outros. Anteontem, estava tão impaciente, num ambiente estranho para mim, que fui de uma brutalidade extrema com uma pessoa. Depois, nem lhe pedi desculpa. Os que me conhecem sabem que posso ser invulgarmente bruto numa banal troca de impressões. Como se aquilo que quero verdadeiramente dizer não seja formulado da maneira que pretendia, como se houvesse uma máquina na minha mente que muda todo o sentido das frases pensadas, por causa da urgência, por não haver tempo para fluir o raciocínio inicial e ser necessário entrar num programa acelerado, mais de combate do que de descontraído diálogo. E, claro, o programa transforma num turbilhão confuso o que, no meu pensamento, parecia estruturado. Enfim, há muitas conversas onde não acerto uma. Algumas pessoas pensam que é arrogância, mas é falha de outra natureza.
Por isso, muitas vezes, prefiro ficar calado e sonhar com o que diria, se as circunstâncias me permitissem. É engraçado como no silêncio todos os discursos se tornam tão perfeitos.
Na imaginação, sou um grande orador. Se estiver sozinho, sem medo, posso declamar um poema. Não me embrulho nas sílabas e o vocabulário expande-se, como que por milagre. Os erros gramaticais dissipam-se (é curioso como, em conversa, cometo tantos erros gramaticais, sobretudo quando me enervo).
E, agora, reparo: escrevi uma crónica confessional. O que querem as pessoas saber destes receios absolutamente individuais? E, tendo estado toda a tarde a meditar sobre outros assuntos, de como o mundo contemporâneo é demasiado explícito, virado para prazeres do indivíduo, esquecido da solidariedade, muito técnico e superficial, feito de fogo-de-artifício e luzes de néon, é curioso que me tenha saído esta crónica meio atabalhoada e cheia de autocomiseração, sem nenhum tema que se veja, sem uma palavra sobre os assuntos que afligem os nossos contemporâneos e que, afinal, já foram devidamente dissecados por toda a gente desta imensa conversa, a blogosfera, onde chego sistematicamente atrasado.

Uma palavra sobre a ilustração: foi tirada do filme "O Homem que Matou Liberty Valance", de John Ford, que devia ser o tema desta crónica. Como não consegui escrever sobre o filme, e na medida em que as ideias são como as cerejas, lembrei-me da importância da palavra nesta obra-prima do cinema, pois o bruto é vencido também pela força dos argumentos retóricos, que funcionam na sua qualidade de rolo compressor da História. O filme fala de um problema muito contemporâneo: a incerteza sobre o que é a verdade. Lembram-se do famoso "print the legend" que tanto nos explica sobre aquilo que nos rodeia?

Cinema Nostalgia (11)

por Luís Naves, em 10.09.07



A Oeste Nada de Novo

Embora seja um belíssimo filme, A Oeste Nada de Novo, de Lewis Milestone, é uma daquelas obras sem sorte, um dos clássicos perdidos.
Talvez seja o filme mais escuro, quase negro, que jamais vi. Está repleto de sombras, chuva, noite. Os cinzentos são carregados. É um filme sem esperança, desolado e amargo. Devia ter sido um belo aviso, mas não passou de um grito inútil.
Nesse ano, 1930, Howard Hawks realizou um dos filmes da minha juventude (talvez mesmo da minha infância), A Patrulha da Alvorada. Já o escrevi noutra crónica, mas essas imagens ainda hoje perduram na minha memória como algo de inimitável, de extraordinariamente poderoso. Só vi esse filme uma vez. Não se tratava da glorificação da guerra, bem pelo contrário, ali se exibia toda a crueza e desperdício, mas a película de Hawks não perdia de vista certas emoções que ocupam a motivação dos guerreiros, a tranquila coragem, por exemplo, uma espécie de vertigem a que alguns chamam heroísmo, mas que também pode ser definido como inelutável destino.
A Oeste Nada de Novo era talvez mais cru e ganhou o óscar desse ano. Tratava-se de uma película radicalmente pacifista, que não fazia concessões à fantasia, pelo seu realismo bruto e simples, hoje tão interessante.
No entanto, apesar da consagração, o filme de Milestone estava destinado a uma certa maldição. Era um grito dado fora de tempo, claro; chegavam os anos de chumbo e o pacifismo não passava de uma ingenuidade.
Tem qualquer coisa de ingénuo, este filme. Começa com a espantosa ingenuidade dos rapazes que vão para a guerra salvar a pátria em perigo; nos primeiros combates, sentimos a incrível ingenuidade do treino militar, que não preparou os recrutas para a verdade do terreno. Morre-se no caos do combate, na confusão nocturna do campo de batalha.
A Oeste Nada de Novo impressionou-me pela sua autenticidade. Baseado num romance então muito popular de um escritor alemão, o filme americano mostrava a passagem pelo inferno da primeira guerra mundial de quatro soldados alemães. Este era, pois, um objecto estranho: um filme em que os heróis eram soldados inimigos, afinal exactamente como "nós".
O filme levou-me a ler o livro de Erich Maria Remarque com o mesmo título, sem dúvida uma das obras-primas da literatura do século XX. Este é um pequeno romance de grande pureza, reduzido ao essencial e sem fogo-de-artifício técnico. Assim despido, tem a força de um exército.
Vendo à distância, a versão de cinema não atinge as mesmas altitudes, pois não se resiste à tentação sentimental da época. Milestone era um técnico competente (um judeu russo, imigrante, chamado Milstein) e manteve-se o mais próximo possível da narrativa original, mas há passagens algo lamechas, com excessos ainda típicos do cinema mudo, que se extinguira poucos anos antes.
Estes defeitos não explicam a forma como o filme também se apagou. Quatro anos depois, Hitler estava no poder na Alemanha e, uma década depois, o mundo estava de novo em guerra. O actor principal, Lew Ayres (um curioso nome português), tentou ser um pacifista na segunda guerra e condenou a carreira, perdendo a sua oportunidade. Lew Ayres tem uma história interessantíssima, com altos e baixos que fazem deste, de facto, o seu único filme importante. Ayres foi casado com Ginger Rogers, que surge neste blogue, alguns posts mais abaixo.
Enfim, A Oeste Nada de Novo motivou um remake, em 1979, uma película sem qualquer interesse, que se limita a actualizar as imagens da versão de 1930.
Claro, é preciso ver a pobreza do segundo para se perceber a força do primeiro. Não existe a mesma consciência do peso das sombras e das trevas do inferno. A segunda versão é um banal filme de guerra, com personagens fardadas. O primeiro é um filme contra todas as guerras, um panfleto que ninguém soube ler.

As emoções básicas (crónica) XII

por Luís Naves, em 09.09.07



Os derrotados da história

No meu habitual passeio pela blogosfera, deparei com uma estranha discussão entre dois indivíduos. No seu Arrastão, Daniel Oliveira, comentava um comentário de Blasfémias nos tradicionais termos contundentes. Fui ler o que os liberais tinham escrito e deparei com um texto de JCD sobre a Festa do Avante, onde teria sido celebrado o 90º aniversário da Revolução de Outubro, a da Rússia de 1917. "É angustiante ver toda aquela gente, na Festa do Avante, comemorar os 90 anos de uma das maiores tragédias da humanidade", escrevia JCD. Seguia-se um parágrafo mais explicativo da "tragédia", com o seu rol de mortos e, à frente, a seguinte frase, bastante retórica, que indignara Daniel Oliveira: "não seria muito diferente celebrar a peste negra, o holocausto, o último tsunami ou a SIDA".
O autor de Arrastão respondia com uma tirada dramática: "o grande problema dos que se julgam no lugar certo da história, sejam eles comunistas ou liberais, é que rapidamente se deixam de dar ao trabalho de pensar. Não é que não consigam, apenas ninguém lhes exige esse esforço quando falam dos derrotados".
JCD ficou-se a rir e eu fiquei fascinado com esta última frase. Para Daniel Oliveira, as pessoas que celebram a revolução de Outubro, o leninismo, são os derrotados da história. Daniel podia ter demolido a fraqueza das comparações de JCD como quem acalma leões, mas saiu-lhe assim. É que não faz sentido comparar Revolução de Outubro com peste negra. A coisa ainda passava se fosse com a revolução francesa. Podia ter escrito: "não seria muito diferente do que celebrar a revolução francesa", mas não o fez, apesar da comparação ser possível, com o rol de mortos, de injustiças e guerra civil, apesar de tudo numa escala mais modesta. Será que JCD se angustia todos os 14 de Julho?
Digo isto por estar fascinado com o uso da palavra "angustiante" por JCD, na primeira frase do seu post: "É angustiante ver toda aquela gente a comemorar os 90 anos...". As religiões mataram incontáveis vítimas e todos os dias são celebradas em cerimónias públicas. Acontece em todo o mundo, e JCD deve andar muito deprimido. Um pequeno exemplo: os cristãos falharam de forma clamorosa na protecção dos judeus europeus, nos anos 30 e 40; o Papa até pediu anteontem desculpa, embora sem se colocar no lado dos derrotados da história; o cristianismo cometeu outros crimes, da Inquisição à conversão forçada de milhões de pessoas; o mesmo se pode dizer de outras religiões; mas talvez isto tenha mais a ver com pessoas do que com ideologias, embora eu não esteja certo de que JCD concorde comigo.
A revolução de Outubro não foi exactamente uma peste negra, ou um tsunami, pois não teve nada de catástrofe natural. Foi uma catástrofe provocada pelo Homem, por homens de uma determinada época, com as motivações do seu tempo. É o que acontece na construção de qualquer beco sem saída. Ao longo da história, houve sociedades, civilizações inteiras, que se suicidaram. As provas são mais ténues, mas sabe-se hoje que os Maias viviam em constante conflito interno, com devastações regulares de cidades-Estado rivais. Alguns arqueólogos pensam que o colapso desta civilização se deve a algum azar, mas sobretudo a problemas ecológicos graves, devido ao excesso de uso de recursos escassos. De qualquer forma, tratava-se de um cultura violenta, com uma religião que praticava sacrifícios humanos.
Será que JCD se teria angustiado, ao ver-me a escalar pirâmides maias, boquiaberto com a sua magnificência?
Neste género de texto, os factos são como as cerejas e, de súbito, lembrei-me de um pequeno crime da minha autoria. (Não, não vos vou contar uma história policial passada nas ruínas de uma cidade maia)...
Em Chichen Itzá, decidi (mal) saltar um muro que me pareceu sólido, mas aquilo era tão frágil que, com o (enorme) peso do meu corpo, se soltou uma pedra. Para meu horror, vi a ancestral relíquia rolar pela relva. Em pânico, peguei naquele frágil testemunho do passado (que pesava um horror) e tentei colocá-lo de novo no muro, mas a construção ainda era bastante alta e não tive força. Estava calor, confesso que fiquei enervado. Olhei para um lado e outro e (cobarde) deixei a pedra onde ela tinha caído, a dois metros do sítio onde mil anos a tinham deixado, até ao meu inqualificável acto de vandalismo.
Ajudei, pois, a arruinar uma pérola do património mundial, como um qualquer turista americano.
Ah! Felizmente, os guardas eram todos maias, portanto, derrotados da história.
Na vergonhosa fuga ainda vi pessoas a celebrarem uma espécie de religião inventada, na escadaria da pirâmide principal, vestidas com roupas pós-modernas. A cerimónia incluía umas rezas, murmuradas de frente para o sol, que desmaiava no final de tarde. Os celebrantes estavam de braços abertos, ar compenetrado de quem fala com deuses apenas adormecidos.
Os pós-modernos ignoraram-me tanto como os guardas. Eu sentia a culpa de ter transformado em ruínas uma sábia cultura antiga, mas confiei no lusco-fusco. O céu estava cheio de nuvens coloridas e a grande pirâmide parecia feita de ouro, banhada pela luz exuberante, que se retirava no horizonte. Foi uma visão breve. Depois, a montanha de pedra tombou na escuridão da noite...

As Emoções Básicas (crónica) X

por Luís Naves, em 25.07.07

O sonho
Vivemos num tempo estranho, quando a única época em que as nossas mentes descansam se chama silly season, a época tola. Podemos preguiçar, esticar os braços, contemplar o que é belo, sem nos preocuparmos com as coisas "importantes" que habitualmente nos ocupam: a medíocre política, o trabalho insano, a competição inútil e as riquezas materiais.
(Numa história taoísta, um homem muito pobre que procurava ouro ia a caminhar no meio de uma rua cheia de gente; ao ver passar alguém que transportava um saco de ouro, correu para roubar o saco, mas foi apanhado pela multidão; o juiz perguntou-lhe 'como pudeste ser tão inábil, roubar à vista de tanta gente’; e o homem respondeu que não vira a multidão, só conseguira ver o ouro).
...Parecemos às vezes este homem que só conseguia ver o ouro. Corremos atrás de algo que nos foge sempre e que não nos satisfaz, por ser sempre tão escasso, algo que apenas brilha, um brilho frio e distante...
Não pensem que esta é uma crónica moralista, não venho dar lições que não posso dar. Queria escrever sobre a tristeza, sobre a nostalgia, mas está um dia solar e vivemos na silly season. Esta é uma crónica sobre a ausência de tema, sobre a futilidade, sobre o tempo que passa, sobre o sonho.
Na minha preguiça, estava a ler uma história da antiga sabedoria chinesa, um pequeno texto chamado "sonhos", de um mestre taoísta Lieh-Tzu que terá vivido no quarto século antes de Cristo, ou talvez não, (talvez tudo isto seja um devaneio), tal como era um sonho o que sentia o rei Mu, governante da terra de Chou, que mandou construir um grande palácio em honra de um mágico que podia atravessar fogo e água, metal e pedra, que podia voar e acalmar as inquietações humanas.
E nesse palácio o rei reuniu as melhores concubinas e mandou fazer os melhores repastos, mas o mágico nunca se contentava. E, um dia, o mágico levou o rei a voar muito acima das nuvens e os dois chegaram a um palácio esplendoroso, que era o palácio do mestre mágico, e o palácio terreno deixou de fazer sentido, pois não passava de uma miserável cabana, em comparação. E, depois, o mágico levou o rei de Mu a viajar até um local muito escuro, o sítio do grande abismo, e deixou-o cair... Foi então que o rei acordou. Perguntou às pessoas à sua volta o que acontecera e disseram-lhe que estivera sempre no mesmo sítio e que passara pouco tempo. E o mágico explicou-lhe que ambos os palácios eram irreais. E este magnífico texto, que aqui tento resumir sem habilidade, termina assim: "Sem sairmos de portas, podemos conhecer o mundo inteiro; sem olharmos pela janela, podemos ver o caminho do céu; quanto mais longe viajarmos, menos poderemos saber".
Acho que esta história chinesa se aplica à ânsia ocidental: na busca incessante da felicidade, acabamos por não encontrar coisa alguma; e perdemos a noção dos pequenos sonhos, dos ínfimos prazeres, que estão ali, ao pé de nós, à mão de semear.
É por isso que a época do descanso e da preguiça (quando temos tempo para pensar dentro de nós) nos parece tola, mas isso é erro nosso, ilusão e devaneio.


As Emoções Básicas (Crónica) VI

por Luís Naves, em 08.07.07

A Europa

(Aviso: quem não tiver pachorra para 800 palavras, siga para um blogue ao lado)
Duas semanas passadas sobre um acordo importante e a uma semana decorrida de presidência portuguesa da UE, muito se tem escrito sobre Europa. Os textos que li eram sobretudo de dois tipos: de um lado, estavam os defensores do futuro tratado europeu e críticos do referendo; do outro, os críticos do tratado e defensores do referendo.
Há evidentemente muitas matizes nos argumentos, mas o primeiro grupo acha que são muito substanciais as alterações ao Tratado Constitucional (TC, para quem não se recorda, texto chumbado pelos franceses e holandeses), o que justifica não haver a consulta popular que tinha sido prometida para o falecido documento; o segundo grupo lembra que o povo deve ser consultado por uma questão de democracia, afirma que não existe debate e lamenta o conluio dos chefes de governo numa decisão não-democrática.
Este é um tema muito difícil de abordar, na medida em que as duas teses ocuparam todo o espaço de reflexão. O ruído é tão intenso, que parece impossível explicar que ambos os lados da barricada imaginária têm razão e, paradoxalmente, estão desprovidos dela.
O ponto que não vi referido em lado algum (não tendo lido tudo, peço antecipadamente desculpa a algum autor que o tenha afirmado) é algo de muito simples: não há nenhum chefe de Governo que não deseje o novo tratado. Nem sequer os gémeos polacos, ao contrário do mito que se tenta impingir. Os líderes eleitos são todos pró-tratado.
Há um aspecto pouco compreendido sobre a União Europeia que convém reter: o conselho europeu é, de longe, o órgão mais importante da UE.
Se fizermos o exercício de comparar o sistema europeu ao americano, verificamos isso mesmo. O tribunal de justiça tem muito menos influência do que o supremo, com decisões importantes de cinco em cinco anos; nos EUA, o órgão mais relevante é a presidência, que não existe na Europa; o chefe de Estado forma um Governo, que é infinitamente mais poderoso do que o seu quase equivalente europeu, a comissão, que no fundo é uma entidade ao serviço do conselho e do Parlamento; a câmara baixa do congresso americano tem um poder vastamente superior ao do Parlamento europeu; mas as coisas invertem-se na câmara alta: o senado é menos influente no sistema do que o seu equivalente europeu, o conselho. Basta uma visita a um conselho para perceber isto: na política europeia, aquela é a entidade decisiva.
Ora, não há um único primeiro-ministro que não queira o novo tratado. Isto já era assim há dois anos, quando os chefes de governo eram quase todos diferentes; houve eleições, mudaram os responsáveis, mas a política é a mesma. Há dois anos, quando foi aprovado o TC, um terço do conselho europeu era diferente do actual. A senhora Merkel tinha acabado de chegar. Quem assinou por Portugal foi Santana Lopes, mas quem lançou a negociação, do lado português, foi o governo de Durão Barroso. E, no entanto, o novo tratado será praticamente igual ao que foi chumbado pelos franceses.
[Não consigo evitar um tema que me faz urticária, quando ouço os críticos do novo tratado dizer que esta é uma questão democrática e que "os povos rejeitaram" o tratado. Alguém me explica por que razão os franceses têm de decidir pelos portugueses e, aliás, por todos os outros?]
Esta crónica vai longa e estará certamente a provocar nos leitores alguma perplexidade. Sempre fui contra o referendo, por saber que ninguém iria discutir o tratado. Acho que a palhaçada da democracia, o seu simulacro, é algo de perigoso, que abre caminho ao populismo.
Na realidade, a decisão de Bruxelas, há duas semanas, não é anti-democrática, mas resulta de uma negociação que dura há cinco anos, com dois anos de suspensão. Estão envolvidos 27 países e, talvez, mais de 40 primeiros-ministros. Não me atrevo a calcular o número de partidos que participaram.
À presidência portuguesa cabe concluir o novo tratado reformador. Há políticos que exigem referendar esse tratado de Lisboa, embora não expliquem o que faríamos se a resposta fosse não. Levantam os braços, enrolam os olhos, como se a questão fosse espúria, e depois atiram um "logo se vê, o importante é dar voz aos povos", como se os povos não se tivessem pronunciado.
Li muitos comentários, sobretudo em blogues, onde surge o vago argumento anti-europeu, no fundo, o instinto essencial da nossa elite, que sempre teve aversão à Europa. No género, estão-nos a enganar, isto é uma choldra; mas mais subtil, onde se insinua que podia ser uma boa oportunidade para dizermos não a esta certa Europa dirigida por directório dos poderosos e onde os "povos" nunca têm a palavra, pois o poder vem de cima para baixo, e etc.
Apetece dizer que isto ainda vai acabar mal. Um dos lados tenta afirmar o indefensável, de que TR não é a continuidade de TC; o outro lado parece não compreender que o destino de Portugal está intimamente ligado ao futuro dessa estranha entidade chamada União Europeia, onde tudo é negociação e acordo. É complicado, sim. Mas não há volta a dar. Teremos isso ou o regresso ao passado.

Este é o meu tempo!

por João Távora, em 17.09.06

Tenho uma pequena fotografia minha de 1968, onde eu, em grande plano e de olhos piscos, estou sentado num minúsculo barco de borracha que (lembro-me bem) agilmente remava com as mãos, na praia em Vila Nova de Milfontes. Fazia parte de um conjunto de cinco retratos nossos, os cinco irmãos, e que por muitos anos estiveram expostos na sala da casa dos meus pais. Garanto que estas fotografias, hoje monocromáticas em tons amarelados, um dia tiveram cores bem vivas! Explico isto um pouco aflito às minhas incrédulas crianças: a descoloração foi obra do tempo, talvez por causa da exposição à luz… Como as folhas no Outono, as fotografias antigas perdem a cor. Como acontece com a vida?

Agora lembro-me de íntimas conversas com o meu irmão, em que fantasiávamos sobre a infância e juventude dos nossos pais e avós… como se tivessem vivido e crescido num tristonho mundo a preto e branco, de saias compridas e chapéus na cabeça.

Comentávamos – na nossa doce ilusão – o privilégio de ter nascido numa idade de tanta sabedoria, luz e cor. Esta ilusão provinha da nossa experiência, não só com o cinema mais antigo, mas da visualização dos álbuns fotográficos e reportagens em super-8 existentes em casa dos nossos avós. Estranho mundo aquele, tão formal e monocromático.

Noutra moldura na minha sala, tenho o meu avô homónimo, orgulhosamente acenando de dentro do biplano dos anos 30, com óculos e capacete à Barão Vermelho: sem nunca ter possuído cor (será?!), esta imagem hoje reflecte tanta modernidade quanto aquela minha no rio Mira, tirada no ano da chegada de Armstrong à Lua…

Alarmante é o que se passa com as fotografias digitais tiradas há menos de dois anos e afanosamente impressas em casa. As minhas empenhadas provas de contemporaneidade estão aceleradamente a perder a cor. É do papel? Será dos tinteiros? Ou eu não controlo mais o tempo que passa? Aliás, desconfio que os nossos miúdos consideram-se os únicos donos deste tempo, dos downloads, do iPod, do Harry Potter, do terrorismo muçulmano e do hip hop.

Pela manhã, repito pela milionésima vez os preceitos higiénicos. Ao espelho, passo a lâmina pela espuma branca, num gesto intemporal. E sem querer, reparo que o meu cabelo também está a ficar a “preto e branco”… Quero dizer: mais branco. Como nas fotografias, o original perde todos os dias a cor, sem se dar por isso.

Mas o meu olhar sai de dentro do mesmo ser que há quase trinta anos, no Liceu Pedro Nunes, saltava o muro do Cemitério dos Ingleses para ir buscar uma bola perdida. E, de pasta na mão, pronto para sair, despeço-me do pessoal e uma ponta de vaidade me assalta. O meu barco navega, este é o meu tempo, e o mundo mantém inalterável a sua paleta infinita de cores, mistérios, poesia e paixão. Graças a Deus.


Corta-fitas

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