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Minha querida família

por João Távora, em 10.10.15

Wall familia canta 1906.jpg

Nunca ninguém garantiu que a liberdade, a escolaridade e a prosperidade democratizassem o sentido de responsabilidade ou o bom senso. Vem isto a propósito de um fenómeno que o "inverno demográfico" esconde: se é previsível que daqui a dez ou quinze anos tenhamos metade das escolas ao abandono, mais graves serão as consequências duma  crise que se adivinha na "família" como célula mãe da sociedade, capaz de corroer de forma dramática os alicerces da nossa civilização. 

Sou daqueles que teve a sorte de crescer numa família tradicional - sem dúvida um espaço alicerçado no equilíbrio entre a tolerância e repressão - daquelas com abrangência alargada, com casa dos avós, tios, primos e tudo; como que um mosaico de pequenas comunidades, mais ou menos interligadas numa rede de solidariedade, afectos e partilha de história comum - e que de forma decisiva em tempos me socorreu. É certo que para que este antigo e eficaz modelo se generalizasse na sociedade contemporânea, concorreu uma equívoca mistificação do casamento romântico na geração dos nossos pais: O casamento tradicional foi-lhes "vendido" por Hollywood como um conto happily ever after e resultou num estrondoso baby boom. Completamente fora de moda por estes dias, denúnciada a família como “instituição burguesa,decadente e repressora” pela geração do Maio de 68, não se prevê que eu tenha grande sucesso explicando-o aos meus filhos como instituição ligada à responsabilidade, ao altruísmo, à perseverança e ao prazer diferido. A verdade não vende, como não ganha eleições. 

Como bem sabemos, cada vez há menos casamentos, no sentido da formação de novas “casas”, modelo de sucesso comprovado inspirado na aristocracia liberal europeia. Consta que no ano passado, das poucas crianças nascidas, mais de metade terão sido fora do casamento. Por exemplo, durante o ano de 2014 na paróquia do Monte da Caparica na margem sul do Tejo – sei bem que é um microcosmos algo especial - realizaram-se apenas quatro casamentos católicos. Curioso como no meio conservador que frequento também são cada vez mais raros os sinais de cedência dos jovens a esse modelo, sendo frequentes as relações amorosas "liberais" prolongadas, assumidas com um pé dentro e com outro fora da casa dos pais – julgam que obtêm assim o melhor dos dois mundos. Por ironia trata-se do reconhecimento de como a casa de família que alguém edificou e mantém para eles, é afinal útil e virtuosa instituição como seu último reduto de refúgio e reconhecimento, apesar de votada à extinção.

Temo que estejamos a criar uma sociedade de indivíduos isolados e frágeis com pertenças difusas, precárias ou inexistentes até. A família como eu conheci, como um organismo intermédio, projecto perene, crivo cultural com história própria, território protector do grande monstro igualitário da cultura dominante para a formação de seres críticos e livres, atravessa uma grave crise. Essa família que ainda hoje acolhe os deambulantes jovens adultos, quais eternos filhos pródigos que adiam assumir as suas opções e uma realização plena, por troca dum prato de lentilhas ou um smartphone de última geração, símbolo da sua “liberdade individual”. Se calhar ao definir este fenómeno como se de uma crise se tratasse, estarei a ser optimista. Porque esse termo por definição designa algo passageiro – e eu estou longe de pressentir alguma mudança no rumo da história.  

 

Fotografia daqui

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Tanto "progresso" que até dói...

por João Távora, em 21.05.13

Segundo um estudo da União de Mulheres Alternativa e Resposta (?!) 885 alunos, com idades dos 11 aos 18 anos, consideram legítimos comportamentos abusivos com as namoradas ou namorados. Nomeadamente entre os rapazes, 5% considera que agredir a namorada ao ponto de deixar marcas não é ser violento. 25% dos rapazes e 13,3% das raparigas entendem que humilhar a namorada/o é legítimo e que ameaçar a namorada ou o namorado é normal. 

Andam os iluminados arquitectos do mundo há trezentos anos a regular o mundo para isto...

 

Notícia daqui

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Manifestar solidariedade

por João Távora, em 28.01.13


A propósito de alguns infortúnios, tenho ouvido nos últimos tempos nas notícias - e hoje de novo a propósito do acidente na Sertã, a expressão “manifestar solidariedade”. Ora, eu não sei o que isso é ou qual a sua utilidade para os familiares das vítimas. Aqui entre nós, agrada-me que me manifestem simpatia, alguns (poucos) ternura, e em casos trágicos agradeço uma manifestação de pesar.
Suspeito que “manifestar solidariedade” signifique assim mais ou menos uma fórmula laica de rezar por intenção de alguém, mas sem Interlocutor. Uma modernice: bate na parede e não serve para nada.

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Recolher obrigatório...

por João Távora, em 14.10.12

É com enorme espanto que constato pelo Diário de Notícias que há em média desde o início do mês de Outubro mais de um milhão e 500 mil portugueses (entre os quais 89.820 crianças entre os 4 e os catorze anos) a ver televisão entre a meia-noite e as 02,30 da manhã, fenómeno preocupante com claras consequências na salubridade e rendimento indígena segundo os especialistas consultados Pedro Boucherie Mendes e o psiquiatra Eduardo Sá.
Se somarmos a esta malta os jovens e menos jovens que deambulam de bar em bar, de copo em copo, de garrafa em garrafa aos milhares pelas movidas e bas-fonds das nas nossas cidades;  e se a estes somarmos os ébrios benfiquistas que frequentam o bar aqui debaixo no meu prédio (aliás, do meu quarto) aos urros entertidos noite dentro com a música alto a vilipendiar os árbitros, a política e o Sr. Pinto da Costa, percebemos porque é que este país não tem remédio.
De resto, parece-me uma enorme irresponsabilidade a direcção do DN deixar publicar uma notícia destas sem ser devidamente encriptada, pois está-se mesmo a ver que o caso vai chegar aos ouvidos da Senhora Merkel, e não tarda a Tróica para além de mais austeridade vai exigir-nos o recolher obrigatório.  

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Estádio Nacional

por João Távora, em 21.05.12

 

Podia ter sido assim, ontem. Ir ao Estádio Nacional ver futebol é uma  tradição, uma inaudita experiência que a asae cuidará de extinguir em nome da moral e dos bons costumes: é que o pessoal hoje tem medo da chuva, dos apertos, das abelhas e dos pinheiros, enfim; de fazer chichi sem secar as mãos num secador eléctrico. Quer é o bufete, amais o "speaker", uma cadeira de cinema e já agora um ecrãzito para ver as repetições. Tal e qual como em casa.

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Sexo, e então?!

por João Távora, em 07.10.11

 

Nas férias que há pouco terminam, o meu pequenito e eu fizemos uma descoberta: o Zig-zag, um programa infantil do Canal 2 do Estado com uma original oferta de animações de diferentes origens. Parecia-me uma boa solução para fugir à preponderante produção norte-americana que também consegue atingir a mais confrangedora vulgaridade plástica. Até que um dia destes, num intervalo da série “Jerónimo Stilton” cujo genérico aprendemos a cantar os dois, apareceu uma reportagem sobre uma iniciativa do Pavilhão do Conhecimento,  a exposição “ Sexo e então?!”. Atónito, na convicção de que aquele assunto ultrapassaria o entendimento duma criança de quatro anos, assisti a alguns minutos duma visita guiada pelos mais espantosos maquinismos, jogos e figurações sobre os órgãos usos e práticas, tudo na perspectiva de desmistificar o relacionamento sexual nas mais inventivas recriações. Nessa noite ao jantar o miúdo balbuciou uma estranha pergunta com referência a facas que saíam da boca e se espetavam noutra cabeça. Perante o espanto geral, eu relacionei a descrição com um mecanismo apresentado na rubrica televisiva que consistia em duas cabeças de criança frente a frente, com colossais bocas abertas donde saíam enormes línguas que manipuladas como fantoches pelos petizes penetravam a outra boca, numa atroz caricatura de um beijo.

Tenho para mim que entre o arcaico preconceito puritano, com raízes na ancestral (e bem-sucedida) cultura europeia de controlo de natalidade e a banalização do sexo como mero “apetrecho de prazer consumista” há um enorme território de bons princípios que não são reconhecidos pelo Estado que sustento com os meus impostos. É nesse sentido que considero meu dever formar e proteger os meus filhos desta catequese adolescentocrática que sobrevive aos diferentes governos cuja trágica impotência “ideológica” os limita ao “pragmatismo” da medíocre gestão económica da coisa pública. Enquanto isso, resta-nos erguer muralhas em torno das nossas comunidades familiares e construir "arcas" que resistam ao dilúvio da escura noite civilizacional do ocidente cujo mais elementar bom senso nos deveria fazer temer. 

 

Imagens daqui

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Você sabe com quem está a falar?!!

por João Távora, em 08.07.11

 

Acontece que estes modernos tempos de igualitária república "democratizaram" uma casta de gente mesmo “importante”, que se reproduz como coelhos de aviário, com supostas e ocultas ligações ao poder. Há momentos testemunhei aqui na rua aquela cena clássica que já todos um dia testemunhámos, em que um palerma enfarpelado, junto ao seu carro topo de gama mal estacionado, intimida um jovem polícia com um “você sabe com quem está a falar?!”.

Presumo que esta vulgar fórmula bem portuguesa da intimidação, atravessando os tempos até aos nossos dias, tenha origem no advento dos celebres “cidadãos limpos”, do devorismo liberal, cuja cartola, casaca e polainas não chegavam para os distinguir na sua intrínseca incorruptibilidade e inopinado poderio social.

Pela minha parte, que iniciei a minha vida profissional na hotelaria, mundo em que experimentei quase todos os papéis quase sempre em contacto com público, confesso que ainda hoje me revolta visceralmente este “guião” de profunda arrogância com que se identifica um tuga endinheirado… quase sempre um pobre diabo, afinal. Se não perante a lei, certamente perante Deus.

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D. Augusta Duarte Martinho: uma maçada

por João Távora, em 11.02.11

A história da senhora D. Augusta Duarte Martinho é toda ela uma macabra parábola sobre a cidade, a de cimento e a outra, dos homens, que vimos construindo na ilusão de civilização. De todas as responsabilidades que haja a apurar, do ministério público, à polícia, aos vizinhos ou familiares, não me parece que alguém se possa pôr de fora desta trama. Acusar uma "sociedade doente", é a melhor forma de cada um se descartar da sua cumplicidade. A “sociedade” em si é inimputável. Mas não as pessoas que a compõe, com as suas escolhas e atitudes. Com que se moldam e arquitectam vidas, algumas que degeneram em sofrimento e solidão, e que se finam todos os dias abandonadas num apartamento qualquer perto de nós. Mais perto do que queremos acreditar: só quem anda muito distraído se surpreende.

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Um novo ciclo

por João Távora, em 08.12.10

 

Sinal de decadência duma anafada burguesia de ideais perdidos foram os recentes anos iludidos com a bolha do experimentalismo social, traduzida em farta legislação fracturante, desconstrutiva. O preço será pago com altos juros, e é chegado o tempo de olharmos para o que se torna aberrantemente prioritário: a pobreza das pessoas. Aquelas que não frequentam bares do Bairro Alto, que não frequentam os blogues ou vernissages. Aqueles que não têm dinheiro para fazer uma sopa, ou dar um presente a um filho. Deslocados, escondidos, sozinhos, vivem envergonhados do mundo, sem pagar ou receber pensão de alimentos. A pobreza é humilhação e solidão; corrói a humanidade da pessoa, é dor profunda. Há demasiados portugueses em sofrimento e é tempo de se atender à realidade e acudirmos às pessoas. De deixarmos as discussões estéreis.

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Esta coisa da idade não é só desvantagens, a experiência e a memória podem ajuda-nos a descodificar certas modas caricatas como esta da pulseira POWER BALANCE®. Quem não se lembra duma muito semelhante, ocorrida nos anos oitenta e que consta enriqueceu o João Rocha, o antigo presidente do Sporting? Tratava-se duma pulseira de bronze, em forma de ferradura, cujas extremidades eram rematadas com duas esferas. Dela também se dizia que afastava maus espíritos, e outros desequilíbrios provocados por malvadas frequências electromagnéticas.

Trinta anos depois a receita é recuperada com sucesso, de novo à boleia duma crise, impulsionada pelo espírito da estação tola e quem sabe em substituição dos fetiches regulamentares, como a bela gravata, relógio caro ou o carro da empresa que não dá jeito levar para a praia. Um insuspeito amigo meu que encontrei aqui em Milfontes, engenheiro de formação académica adquirida em dia útil, garantia-me, orgulhoso da sua POWER BALANCE® de trinta e cinco euros, que não tinha a certeza dos efeitos, mas que achava que sim, que notava mais equilíbrio a andar de mota, e que “temos que acreditar nalguma coisa, João”.

Admirável é como esta irresistível moda que começou no pulso duns quantos mediáticos, jogadores de futebol e figurantes de entretenimento, que vem crescendo por conta de alguns artigos de jornais e revistas, torna-se uma onda imparável, um grande, enorme negócio: daqui a duas ou três semanas, uns quantos terão feito fortuna com este Conto do Vigário; milhões e milhões de pulseiras vendidas, incluindo novas versões, mais clássicas ou arrojadas, incluindo a da loja do chinês, igualzinha às outras, acessível à mulher-a-dias e usada pelo empregado de mesa da estância balnear. Será esse o ponto de retorno: a coisa cairá então em fulminante desuso e descrença, anátema de provincianismo, de mau gosto e classe baixa.

É assim a história das pessoas, que precisam de acreditar em alguma coisa, de ter o conforto e a auto-estima, a esperança depositada num qualquer fetiche, trapo ou horóscopo. No fundo sendo tudo isto uma tontaria inofensiva, é uma história que nos revela para além da falta de uma Fé madura e experimentada, muita, mas muita, fragilidade escondida.

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Tempos de mudança, tudo na mesma

por João Távora, em 23.06.10

 

Ainda pensámos aliviar o espaço, mas decidimos que vamos manter o velhinho leitor de CDs na estante do escritório lá de casa. É aí que os miúdos quando pequenos, empoleirados na cadeira, tocam, tiram, mudam e põe as suas cantigas de roda, histórias de encantar, bandas sonoras e outros sucessos, enquanto a mãe tamborila veloz no teclado as suas intermináveis traduções.

Hoje, a desmaterialização da música descarregada em bites e baites do mp3, num computador ou noutro artefacto, é coisa de adolescentes ingratos ou graúdos armados em espertos. Os pequenitos, como eu há mais de quarenta anos, merecem a experiencia táctil do objecto, do fascínio da capa com folhetos, e ouvir, e até estragar os seus discos com figuras, à distância mágica dum simples botão “ligar e desligar”.

Sei bem que, mal-agradecidos, seguirão os passos dos irmãos, tapando também os ouvidos com uns fones a zunir, e que jamais entenderão a minha excentricidade de ouvir um sólido vinil, que afinal têm um “altar” condigno no sitio mais nobre da sala, para os meus raros momentos recreativos, de puro e solitário deleite.

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Catrapum!

por João Távora, em 13.06.10

 

 

Pffsss!, glugluuuuu!, pum! Zipppp! jnaslacccc! são supostamente ruídos duma cópula reproduzidos em fidedignas onomatopeias pela inenarrável Mart@ Crawford na sua destacada crónica de fim-de-semana Jornal i. Sem esta ousada abordagem, talvez inspirada no atrito sonoro das vuvuzelas durante um jogo do mundial, certamente seriamos todos mais labregos, menos cosmopolitas; encerrados em preconceituosas inibições e tabus. A insubmissa sexóloga, possuidora dum invejável traquejo (o termo não é inocente) de prática clínica, não se abstém de classificar alguns destes ruídos de “embaraçosos” e “íntimos”, conferindo esta última característica mais gozo à autora a dissecar o importante tema. No entanto atrevo-me a corrigi-la a respeito do som jnaslacccc, que na minha limitada mas já longa experiência de vida mais me sugere um pé a descalçar um sapato molhado. Enfim, desde os imemoriais tempos de Nina Hagen que não me deparava com tanto despudor e audácia. Uma rebelde e abnegada educadora do povo é o que é esta arrojada sexólog@.

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O triunfo do desamor

por João Távora, em 11.04.10

 

O provedor do ouvinte da Antena 1 Adelino Gomes, ao mesmo tempo que veio dar razão à queixa de um ouvinte sobre a inaceitável evocação de Deus por um locutor de futebol numa rádio com serviço público, veio uma semana depois defender e legitimar o conteúdo e horário de transmissão duma crónica duma tal de Raquel Freire no programa da manhã sobre o clitóris em que a senhora proclamava com entusiasmo as vantagens duma mulher se masturbar “uma vez por dia”. Sem ter nada a favor ou contra a masturbação, tenho profundas dúvidas sobre o benefício dum exacerbado egocentrismo nos afectos para felicidade dos indivíduos. Ao contrário, e no que refere ao erotismo, estou plenamente convencido de que é na partilha, no plena entrega e descoberta "do outro" que uma Pessoa se realiza e descobre. Mas isto, claro, é beatice; crendice pura, perigosos preconceitos, que eu aliás inculco nas minhas indefesas crias as quais afinal não consigo resguardar desta contraditória adolescentocracia carregada de novas culpas, superstições e obscuras quimeras.

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O Dia do Pai

por João Távora, em 22.03.10


Foi com um quentinho no peito que hoje estreei no escritório os desajeitados presentes que recebi dos miúdos no Dia do Pai. A coincidência desta data se celebrar no dia de S. José, pai "adoptivo" de Jesus, quanto a mim está carregada dum profundo simbolismo que jamais deveria ser menosprezado. Sob o bombardeio da nossa cultura hedonista e consequente delapidação da família e do tecido social, este dia deveria constituir uma privilegiada ocasião para se reclamar de todos os pais o seu insubstituível papel e responsabilidade na defesa dum núcleo familiar tão saudável quanto irredutível. Numa época em que se festejam com estridência os mais inusitados dias de Tudo O Que Mexe e Mais um Par de Botas, o “do Pai” deveria ser um daqueles para mais a sério ser levado. Quem sabe deveria merecer a dignidade dum feriado, que para não pesar na economia poderia substituir o disparate do 5 de Outubro. Tudo isto porque, para lá das efémeras delícias inerentes ao acasalamento e à paternidade, dos encantadores afectos trocados com os amorosos infantes quando eles são nossos incondicionais, a tarefa vem afinal a constituir a mais desafiante, dura e arriscada missão que um homem pode ambicionar: a criação de seres responsáveis, justos e felizes. Uma empreitada que confere pouco “prestigio” ou carreira, mas que é decididamente prioritária e indeclinável.

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Admirável mundo novo

por João Távora, em 15.03.10

 

Entre os canais temáticos de televisão, os sms por telemóveis com jogos, "fones" com mp3 nos ouvidos, amizades no facebook e demais traquitana, era só o que faltava um ecrã de dvd para as criancinhas se distraírem nas viagens. Assim se liquidam os últimos espaços vazios, bárbaros intervalos de "entretenimento", ou prazer virtual. Afinal, neste admirável mundo novo, em que o livro é uma bizarria, a rua é inóspita e o futebol se joga com os polegares, os jacarandás em flor, o emproado Aqueduto sobre o vale d’ Alcântara ou os ninhos das cegonhas numa torre junto ao Sado talvez se possam encontrar no youtube ou na wikipédia através do Magalhães.

 

 

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O português profundo

por João Távora, em 12.03.10

Já por diversas vezes reparei quando venho na bicha da auto-estrada do Estoril para Lisboa nos muitos condutores que, para ultrapassarem uns quantos automóveis, metem para dentro da bomba de gasolina de Carcavelos onde aceleram a fundo naqueles cerca de duzentos metros. Igual patranha é frequente ali ao lado na Marginal, por altura dos semáforos da Parede em direcção a Lisboa, onde os chicos espertos contornam o cruzamento, guinando em direcção ao parque de estacionamento da praia, para apanhar a estrada uns metros à frente no perigoso entroncamento.

São estes e muitos outros exemplos da arreigada grosseria indígena que me levam a descrer profundamente na maturidade dos portugueses em geral e no futuro de Portugal em particular. Afinal é desta cruel realidade sociológica que emergem os diversos poderes que passamos a vida a verberar. Afinal, mais do que termos aquilo que merecemos, somos aquilo que somos. Uns inabaláveis burgessos.

 

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Regras & boa educação

por João Távora, em 02.03.10

 

 

O aparente milagre observado nos milhares de automóveis que se cruzam, seguem e ultrapassam animadamente numa cidade sem se enfaixarem mais vezes uns nos outros, explica-se através do inexorável cumprimento dumas poucas regras absolutas, que estabelecem uma confiança e ordem entre os condutores. Por exemplo, é esse fenómeno que nos autoriza a atravessar sem hesitações um cruzamento a cinquenta km hora simplesmente porque o semáforo nos indica a cor verde. 

O drama do português é manter militantemente num mínimo dos mínimos esse número de regras impreteríveis, de forma poder reinterpreta-las e negocia-las a cada momento consoante os seus interesses: legitima-se assim o estacionamento em cima do passeio ou em segunda fila, não parar totalmente o carro no sinal de stop (uma extravagância normativa do legislador), concede-se uma generosa margem ao limite de velocidade estabelecido, e a prioridade de passagem dum peão numa passadeira torna-se numa voluntária cortesia, dependente do estado de espírito do condutor. Neste último caso, a relativização das regras, tanto por condutores como por peões que gostam de desafiar o perigo, tem como trágico resultado um número assinalável de atropelamentos mortais

Quando há alguns anos vivi numa ruela no centro da vila de Cascais, não foi sem alguma surpresa que me apercebi da forma inflexível  como é assumida a prioridade dos peões nas passagens assinaladas. Este “estranho” hábito autocne acontece inexoravelmente por toda a cidade, e não tem unicamente a ver com a sua morfologia urbana, suspeito que se deva a um fenómeno sociológico contagioso, relacionado com boa educação. Se assim é, para se generalizar este prodígio no resto do território suspeito que demore algumas gerações.  

 

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A felicidade dos outros

por João Távora, em 25.02.10

Conheço imensas pessoas que vivem oprimidas por inusitados preconceitos ou toleimas, algumas delas que até não conseguem esconder claros sinais de infelicidade ou trejeitos de ressentimento. E como o mundo seria um local mais aprazível se todos fossemos felizes... à minha maneira! 

A História está cheia de exemplos de como, em nome de uma noção de felicidade, se podem cometer as maiores barbaridades. É neste sentido que a liberdade das pessoas, tida como último reduto civilizacional, tem de ser preservada a todo o custo como um conceito neutro, isento de opinião. É perigoso misturar as coisas: como afirma Isaiah Berlin "liberdade é liberdade, não é igualdade, nem equidade, nem justiça, nem cultura, nem felicidade humana, nem consciência tranquila". É como cristão que considero que esta liberdade, desde que não interfira com a dos outros ou que não profane a integridade física do próprio  tem que ser salvaguardada. 

Vem isto a propósito deste artigo, a respeito da discussão sobre a legitimidade da proibição em França da burca ou do xador, artefactos (sórdidos, na minha opinião) utilizados por algumas mulheres muçulmanas que interpretam de forma extremada a exigência de circunspecção por parte da mulher no Alcorão.

Perante o dilema colocado, não é sem alguma hesitação que concluo por uma opinião contra a proibição. Assim, parece-me que aos Estados civilizados, e suas boas consciências, lhes resta reforçar uma  efectiva batalha pela educação com base na assumpção da tradição cultural que lhes deu origem e por uma justiça actuante que, garanta a dignidade e o livre arbítrio de todos os cidadãos. Por muito que isso às vezes custe. 

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A Guerra dos Sexos

por João Távora, em 17.02.10

 

Ontem quando levávamos os pequenos com a primalhada ao cinema para ver a "Princesa e o Sapo" (magnifico musical animado à boa maneira Disney), alguém sugeriu que o filme talvez não fosse indicado para rapazes. Após uma súbita insegurança, lembrei-me que, a mim ou aos meus pais jamais terá passado pela cabeça que filmes como a "Branca de Neve" a "Gata Borralheira", ou a "Bela Adormecida" fossem para meninas. Eram simplesmente para as crianças, verem e brincarem desaustinados em correias nos intervalos das matinées.

Mas não deixa de ser irónico que, quase cinquenta anos depois delas se vestirem de calças e terem queimado os soutiens, após ter sido decretado o ensino unisexo e rifado o mesmo por troca com o acético "género", conquistadas as quotas que precedem a vitória final, se tenha afinal nos dias d’hoje tornado tão radical a diferenciação simbólica entre sexos. Acontece que as meninas modernas apropriaram-se da monarquia, querem ser princesas e viver em palácios, monopolizaram o roxo e o cor-de-rosa, consomem em exclusivo uma parafernália de símbolos, séries e roupas, as "Winx", "Hello Kitty", "The Saddle Club", "Hanna Montana", "Demi Lovato", "Dora a Exploradora", o "Mundo de Patty", toda uma iconografia menino não entra.  Enfim, suspeito que em tempos de domínio relativista e "revolução de costumes", uma bizarra contra-revolução avança silenciosa: as miúdas, de pequenas conquistam e demarcam impiedosamente o seu território, nada de misturas, nada de meias-tintas. Afinal a guerra dos sexos não é a luta de classes, é garantia e perpetuação da incontornável  atracção dos opostos.

 

Com a colaboração especial da minha filhota querida

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Do preconceito à realidade

por João Távora, em 27.01.10

Não conheço o género, não sei a quem se dirige ou a quem se refere o António Leite Matos neste seu azedo trecho "à João Gonçalves" (enganou-me bem!). Confesso que não costumo encontrar ninguém de “perna cruzada” nas igrejas que frequento, a não ser algum dos meus filhos uns segundos antes de levar um safanão para se por em ordem e com atenção. 

De resto pergunto-me se, para embirrarmos uns com os outros, já não bastam as escolhas e convicções políticas mais ou menos profundas com que acicatamos uns aos outros. Nesse contexto qual será a importância real dos tiques e vernizes com que costumamos revestir a nossa precária condição?

Tempos perigosos houve neste país de revolucionários, em que era prudente disfarçar um nome sonante e era precavida uma pose “vulgar”. Hoje não é tanto assim, mas em vez disso vigora uma incómoda tendência de uniformização estética, simplista e segmentada por idades ou "públicos alvos". Esse igualitarismo que serve as oligarquias,  de pouco serve as pessoas: a desconcertante diversidade, a história, a complexidade esconde-se no interior do individuo e jamais deveria constituir uma ameaça para ninguém. Isto, caríssimo António é o que descobrimos para lá dos livros e dos gabinetes, para além das nossas convenientes muralhas e complexos sociais. De resto já o disse aqui uma vez: parece-me que os preconceitos só nos impedem de ver mais longe, de sermos mais livres. A verdadeira erudição nunca é preconceituosa. 

 

Nota: também não percebo o que faz uma fotografia de Sofia Loren de vestido de festa a ilustrar o post (o que confirma que o problema só pode ser meu).

 

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