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Estado de sítio (17)

por João Távora, em 07.04.20

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Coronavírus hoje em Portugal – 12.422 casos, 345 vítimas mortais

No Domingo de Ramos, depois de assistirmos à missa dominical celebrada pelo Cardeal Patriarca na Sé e transmitida pela televisão, o almoço foi encomendado do restaurante aqui debaixo e tirámos uma “selfie” de família para memória futura. Na segunda-feira a minha enteada retomou o seu trabalho em Lisboa no restauro duns azulejos numa obra da baixa, facto que prenuncia uma nova fase das nossas vidas que eu acredito se irá gradualmente a generalizar depois da Páscoa: vamos todos ter de nos habituar a viver com o vírus durante muito tempo, fazendo uma vida tão normal quanto possível protegendo os mais vulneráveis. Antecipando-se um período relativamente longo até que seja disponibilizada uma vacina contra o COVID-19, receio muito que a maior sequela do vírus venha a revelar-se no refreamento das nossas expressões de afecto em sociedade. O perigo que antevejo não é o de adoptarmos os costumes frios dos nórdicos, é passarmos a saudar-nos como os chineses, coisa que será uma suprema ironia. Alguém me sabe informar onde se podem adquirir as máscaras aconselhadas pela ministra da saúde? 
Enquanto a curva dos infectados em Portugal vai dando sinais de que a epidemia está controlada, os meus miúdos mais novos arrastam-se com uma indolência incrível, para mais agora com o argumento engatilhado na ponta da língua de que estão de férias – estão adaptados demais. Já consegui arrancar o mais pequeno ao pufe duas vezes para fazermos ginástica juntos, pois desconfio que esta inactividade contínua não faça nada bem a uma criança de 13 anos. Como não sou um psicólogo brilhante nem tenho um grande espírito maternal, o miúdo ao princípio fica chateado mas depois conforma-se (talvez seja preguiça). Entretanto proibi-o de se tornar adolescente durante o estado de emergência. Para cada dia, basta a sua pena.
Portugal possui um perfil sociológico e económico muito próprio, com demasiada gente a viver da função pública, rendas e pensões, pode dar-se ao luxo de ser hipocondríaco. São esses portugueses que maioritariamente votam, e receio que o problema venha a ser por este país outra vez na rua.
O desafio esta semana será o de prepararmos condignamente os nossos espíritos para a Páscoa de Jesus Cristo sem os rituais comunitários a que estávamos habituados.
Deus nos ajude. 

Ciência e política

por João Távora, em 05.04.20

Quando houver máscaras disponíveis no mercado passam a ser aconselhadas pela DGS, que já nos tinha avisado que o coronavírus não chegava cá, que depois nos avisou do perigo da "ilusão de segurança" dos testes ao COVID 19 e das máscaras. Obviamente a coisa não era ciência, tratava-se de política. Reparem que não estou a criticar, mas pensem bem quando me quiserem calar com o argumento da "ciência".
Fiquem-se com a vossa fé, que eu sinto-me mais confortado a rezar, e hoje começa a Semana Santa que é uma coisa séria.

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Fico sempre inquieto quando não tenho grandezas numéricas do que estamos a discutir. Procurei e não encontrei nada que me satisfizesse a curiosidade.

Decidi, então, fazer as minhas próprias contas. Qualquer tentativa de chegar a valores rigorosos quanto à quantidade de mortos prováveis, está sempre condenada ao falhanço, já que nunca se sabe efectivamente quantos infectados existem e porque as próprias taxas de mortalidade variam no tempo e no espaço em função de uma miríade de circunstâncias.

Os valores obtidos, como ordens de grandeza , acredito que são muito úteis. Em função dos dados demográficos Portugueses que utilizei, da PopulationPyramid.net e dos dados sobre Itália, os piores mas potencialmente mais próximos da nossa realidade (em Espanha, para já os resultados são mais benignos) calculei valores de mortes por segmento populacional para 3 cenários:

  • Cenário 1 : infecção de 100% da população;

Neste caso, o grupo de maiores de 60 anos apresentariam um numero de mortes de 271.955, e a população até 59 anos, um valor de 24.910 vitimas.

  • Cenário 2:  infecção de apenas 70% da população já que a vacina de grupo teria entretanto impedido a sua propagação;

Neste caso, o grupo de maiores de 60 anos apresentariam um numero de mortes de 190.368, e a população até 59 anos, um valor de 17.488 vitimas.

  • Cenário 3: Cenário 2 corrigido da variável que mais se questiona: o verdadeiro número de infectados e não a quantidade de infectados reportados que, unanimemente são considerados uma fracção da realidade. Assumi que por cada infectado reportado existem outros 5 (a maior parte das estimativas aponta para 10);

Neste caso, o grupo de maiores de 60 anos apresentariam um numero de mortes de 38.074, e a população até 59 anos, um valor de 3,488 vitimas.

Apesar da severidade dos números, fiquei surpreendido com a sua grandeza, inferior ao que tinha imaginado, sobretudo do cenário 3, o mais razoável e que segundo as medias gerais, ainda apresenta o dobro dos valores estimativo, mesmo sem qualquer esforço de isolamento.

Parece-me cada vez mais claro que depois da primeira vitória, lá para os fins de Abril, inicio de Maio, justifica-se uma mudança radical de estratégia, mantendo o isolamento dos mais vulneráveis e vigiando todos os outros com testes sistemáticos, mas em “liberdade” quase absoluta.

Para os  mais curiosos, junto os dados e os cálculos que justificam os valores apresentados.

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José Miguel Roque Martins
Convidado Especial*

* As opiniões manifestadas nos textos de convidados com a assinatura "Corta-fitas" só comprometem os seus autores.

Estado de sítio (16)

por João Távora, em 04.04.20

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Coronavírus hoje em Portugal – 10.524 casos, 266 vítimas mortais

As coisas estão a correr melhor do que seria de esperar, a rampa ascendente de internados e de óbitos (que é o que me interessa) parece estar a abrandar com consistência, as medidas de confinamento em Portugal parecem estar a resultar de uma forma que nem os mais optimistas se atreveriam a supor. Julgo que contribuem para isso principalmente dois factores específicos da realidade cultural portuguesa, que sendo eles intrinsecamente "defeitos", por uma vez jogam a nosso favor: o nosso perfil económico e geográfico periférico e a unidade política e administrativa de Portugal, o chamado “centralismo”, que favorece a passagem fácil duma mensagem de alarme para a mobilização de uma comunidade nacional identitariamente muito sólida. Perante a apreensão das nossas gentes não é difícil a António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa assumirem um papel paternal e maternal que é sofregamente desejado pelas gentes assustadas, carentes de orientação e referências. Estamos-lhes reverentes, venerandos e obrigados, por uma vez sem ironia.

Ontem de manhã vesti a minha melhor camisa engomada (há que poupar pois a nossa empregada também está em confinamento) para percorrer com a minha mulher os cerca de 800 metros de casa ao centro de São João do Estoril para meter umas cartas no correio. Desse modo usufruirmos em cumplicidade uma falsa mas saborosa sensação de liberdade. A paisagem com que nos deparámos junto à estação dos comboios pareceu-me aterradora de desolação com as múltiplas lojas de comércio local com as portadas corridas onde sobressaíam obscenos grafitis. Quantas delas voltarão a abrir?

Confesso-vos: mesmo gostando da minha casa e ter muito com que me entreter, sofro de bicho-carpinteiro (os médicos chamam-lhe ansiedade, mas como todos sabemos não os podemos levar demasiado a sério) é só com a ajuda de uma corrida matinal à socapa e dum terço em família a Nossa Senhora ao final da tarde que tenho sobrevivido ao confinamento. Aliás, a boa notícia que esta crise nos traz é a oração familiar que praticamos como nunca antes acontecia. 

De resto uma “União Nacional” acrítica à volta das medidas de confinamento por tempo indefinido é perigosa, porque é insustentável. Percebo que seja difícil a quem decide obter os extraordinários resultados do confinamento sem meter muito medo ao pessoal. Mas se a coisa não vira, daqui a pouco tempo metade dos portugueses estará a pão e água e a outra, na melhor das hipóteses a bater com a cabeça nas paredes.

Têm reparado os meus amigos como ultimamente se têm reduzido a partilha de piadas pelas redes sociais, que, diga-se, nas primeiras semanas da crise foram um autêntico consolo? Suspeito que as pessoas estão a perceber que não, que não “vai ficar tudo bem”. De resto eu sou um daqueles privilegiados a quem só cabe obedecer e (insisto) a quem ainda não começou a faltar trabalho.

Tributo a David Neeleman

por Corta-fitas, em 03.04.20

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O céu caiu com todo o seu peso sobre as companhias aéreas. David Neeleman, o fundador da Blue Air e da Azul e a força por trás do actual projecto da TAP, provavelmente está condenado a perder todas as suas empresas.

Não conheço o trabalho dele na  Blue Air. Da Azul só sei que conseguiu, num pais muito difícil, erguer uma companhia aérea de primeira grandeza. Na TAP, iniciou um projecto tão arrojado como inteligente: aproveitar a posição geográfica única de Portugal, o mais ocidental dos países Europeus, para tornar Lisboa e a TAP num hub de ligação dos continentes americano e africano à Europa. Simplesmente brilhante.

Mesmo que perca tudo o que criou, fica a sua genialidade. Serei para sempre um seu admirador. Mesmo que os beneficiários financeiros da sua estratégia sejam outros ou simplesmente se perca na confusão dos tempos.

As melhores universidades de gestão dos Estados Unidos insistem em separar a análise das acções do seu resultado prático: há que distinguir o azar da visão que as inspirou e reconhecer a nossa insignificância na possibilidade de controlar todas as variáveis. O que raramente acontece num mundo, especialmente o latino,  em que só os resultados parecem  importar. Em que boas iniciativas que falham são menosprezadas, e a mediocridade, mesmo que com êxito fortuito, é aplaudida. Lamentável.

Como diria Vinicius de Morais, saravá David!

José Miguel Roque Martins
Convidado Especial*

* As opiniões manifestadas nos textos de convidados com a assinatura "Corta-fitas" só comprometem os seus autores.

Tomar a nuvem por Juno

por Corta-fitas, em 02.04.20

Depois de um primeiro e forte embate provocado pela emergência pandémica, já temos informação e tempo suficientes para análises mais serenas e informadas.

Em 26 de Março foi publicado este estudo muito oportuno, interessante, que vale a pena ler  e que faz uma análise do que se passou nos Estados Unidos durante a epidemia de gripe Espanhola. As conclusões são claras: as medidas de confinamento, quanto mais rápidas e severas, melhores resultados produziram.  Quer em termos sanitários (menos mortes), quer na recuperação económica que permitirão depois da epidemia.

Apesar de completamente convencido do valor deste estudo e da bondade das suas conclusões, assusta-me que estas conclusões sejam indevidamente generalizadas.

Existem muitas diferenças entre o que se passou em 1918 e a atual pandemia. A mais relevante é o facto de a gripe espanhola ser francamente menos discriminatória  relativamente aos seus efeitos, não permitindo demarcar um grupo restrito de risco, como acontece atualmente com o Coronavírus.

Sabemos, hoje, que a quase totalidade das vítimas mortais do Covid 19 são os maiores de 70 anos e os portadores de um leque de doenças crónicas já identificadas.

Compreendem-se as medidas de confinamento gerais e severas como as que estão a ser usadas, quando não existia o conhecimento de qual a extensão e comportamento da epidemia. Parece ser pouco razoável não fazer evoluir as medidas em função da nova informação.

O que se deveria pretender combater são os malefícios da infecção, não a infecção. O objectivo é prevenir mortes, não doentes assintomáticos ou que recuperam sem mazelas importantes.  Valerá a pena arrancar todos os dentes a alguém que só tem um dente infectado? Não seria mais adequado, de forma cirúrgica,  garantir a proteção ao grupo realmente vulnerável e que já foi delimitado? Direcionando todos os meios necessários para garantir o seu conforto e segurança?

Para quem considere ser insuportável uma discriminação entre cidadãos, lembro que quem discriminou o  grupo vulnerável  não foi a sociedade, foi o vírus.

Certo é que até à vacina ou tratamento, vamos ter Covid19 e as medidas de confinamento gerais são insustentáveis a longo prazo. Abordagens alternativas precisam-se. Esta poderá ser uma delas.

A fome, subnutrição e desespero também matam. E sacrifícios desnecessários são absurdos.

José Miguel Roque Martins
Convidado Especial*

* As opiniões manifestadas nos textos de convidados com a assinatura "Corta-fitas" só comprometem os seus autores.

Estado de sítio (15)

por João Távora, em 02.04.20

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Coronavírus hoje em Portugal – 9.034 casos, 209 vítimas mortais

Fiquei muito impressionado ontem à noite quando num zapping entre os noticiários, depois duma notícia com Jair Bolsonaro (devidamente depreciado pela jornalista) nos seus modos grosseiros a relativizar os efeitos do coronavírus na saúde das pessoas, me deparo com uma outra vinda da India, onde também foi decretado o estado de emergência e o confinamento. A reportagem documentava a brutalidade da polícia armada de chibatas a expulsar os miseráveis feirantes num mercado, e milhares de trabalhadores sazonais subitamente sem emprego a retornarem aos seus locais de origem; uns aos magotes a tentarem entrar nos comboios e outros ainda mais pobres, a palmilharem esse caminho a pé com uma trouxa às costas. Com este murro no estômago fiquei a perceber melhor o discurso absurdo do presidente brasileiro: em certos países com muita pobreza, em que grande parte da população vive de expedientes diários para se alimentar, por causa do confinamento a fome e a miséria prenunciam-se dantescas. 

Cá por casa a vida confinada continua, e esta manhã cruzei-me na sala com a minha filha que assistia no seu computador portátil a uma aula de direito das sucessões, vestida com pijama e pantufas nos pés. Não me pareceu apropriado.

Estado de sítio (14)

por João Távora, em 31.03.20

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Coronavírus hoje em Portugal – 7.443 casos, 160 vítimas mortais

À terceira semana de confinamento, fica comprovado que ensinar é uma especialização importante, e que se compreende que um pai esteja dispensado de ser professor dos seus filhos. É um enorme desafio assumir os dois papéis, mais ainda quando a idade da criança se aproxima perigosamente da adolescência, obcecada por comida, youtubers e jogos electrónicos. Custa-me desperdiçar estes últimos tempos de alguma cumplicidade zangado por causa duma redacção preguiçosa ou com um ataque de nervos à conta duns exercícios de matemática trapalhões que eu não sei corrigir. O potencial desgaste a que nos expomos é considerável, para mais em prisão domiciliária. De resto a vida continua, um dia de cada vez, diz que somos uns privilegiados, principalmente se comparando com a família de Anne Frank.
Quanto ao mais continuo a torcer o nariz a este clima de medo que vem sendo instigado, e a duvidar da sustentabilidade do confinamento a médio prazo, que como bem assinala hoje João Miguel Tavares, é um privilégio burguês. Se a solidão descamba em paranóia, a fome mata mesmo.
Enquanto Graça Freitas e a DGS se desgastam diariamente com estatísticas engatadas e sucessivas contradições (vai acontecer com as máscaras o que está a acontecer com os testes laboratoriais, depois de menosprezado o seu uso ainda vai ser obrigatório assim cheguem ao mercado) o nosso primeiro-ministro transfigura-se em estadista, profere sentenças fofinhas e até já prenuncia as consoantes quase todas, decidido que está em disputar um lugar na História segundo os especialistas. E arrisco a uma previsão: quando o pico da crise de saúde pública passar e vier a pesada factura duma economia em frangalhos, com o país na rua a reclamar empregos e pão, à primeira oportunidade António Costa sai de cena e passará a batata quente a outro(s). Incensado como mártir das circunstâncias, para chegar a presidente, só terá de se recolher com discrição para o sofá com um pacote de pipocas. Só temos aquilo que merecemos.

Não se pode esperar que perante uma crise de tamanhas proporções, como a provocada pelo coronavírus, o Estado tenha meios para suportar todos os custos, evitando prejuízos para cada cidadão. A pandemia do COVID 19 é um choque inesperado, duro, em que ninguém, governo, trabalhadores e empresas, pode ser responsabilizados.

Os trabalhadores atingidos, contarão com o amparo do subsidio de desemprego ou do Lay-off  simplificado que significarão importantes sacrifícios para aqueles que vivem no limiar da subsistência.

Para as empresas, o Estado multiplica as suas declarações de apoio, apelos para evitar os despedimentos e anuncia medidas em catadupa. Que depois de espremidas, significam que são as empresas que terão de ajudar o Estado e assumir todos os prejuízos.

Todas as medidas, até hoje anunciadas, têm em comum não dar ou compensar nada, rigorosamente nada, às empresas. Só adiar pagamentos, o que não sendo desprezível, não resolve o problema.

O Lay off simplificado é uma medida que permite que o Estado não tenha que pagar o subsidio de desemprego por inteiro, como lhe competiria. O trabalhador continua a descontar 11% da sua contribuição e a empresa paga outros 30%. Uma poupança de 41% para o Estado. As empresas aceitam a esmola pois a alternativa, o despedimento, é tão difícil, moroso e caro, que implica em muitos casos uma inevitável falência, ao invés apenas desse risco protelado.  O que implicaria para o  Estado ter que pagar integralmente o subsidio de desemprego aos trabalhadores: o verdadeiro objectivo desta lei.

Adiar o pagamento de impostos, dá a ilusão do esforço público. Que provavelmente não representa uma real perda de receita, já que muitas empresas, de outra forma, não poderiam pagar. Em troca do perdão de multas, impõe-se a obrigação de pagar uma menor percentagem das obrigações, garantindo o esforço supremo dos contribuintes, na esperança de escaparem a uma dívida maior. A concessão de empréstimos, alivia a tesouraria das empresas no curto prazo.  Mas representa mais dívida e dificuldades futuras, para as poucas que o conseguirem.

O pagamento de rendas comerciais (de estabelecimentos encerrados) são adiadas, imperialmente transpondo o governo para os senhorios o dever de financiar as empresas prostradas. É aliás sempre surpreendente a facilidade com que o Estado faz os terceiros indefesos e de boa fé, pagarem pelas suas políticas.

A palavra de ordem é "endividem-se", mas continuem a assumir os custos e pagamentos que são do Estado. Dever. Dever acima de tudo.

Numa economia de mercado, não compete ao Estado subsidiar empresas. A sorte e o azar são factos inevitáveis na vida de pessoas e empresas. Parece-me até razoável que se deixe falir aquelas que não têm viabilidade, que possam ser substituídas por outras no futuro próximo. E a justiça não é normalmente um critério de decisão política quando não represente votos em número significativo. Nada de novo.

Há apenas dois pormenores que me deixam profundamente irritado: que um Estado de direito obrigue empresas a fechar por interesse público, mas não as compense de coisa nenhuma. Que as vítimas dessas políticas ainda tenham que se congratular "venerandos e obrigados" dos  excepcionais esforços na sua pretensa salvação.  

José Miguel Roque Martins
Convidado Especial*

* As opiniões manifestadas nos textos de convidados com a assinatura "Corta-fitas" só comprometem os seus autores.

Estado de sítio (13)

por João Távora, em 29.03.20

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Coronavírus hoje em Portugal – 5.962 casos, 119 vítimas mortais

O mais difícil destas rotinas informes é a falta dos rituais inerentes a cada um dos dias, coisa que transforma a semana num amálgama de tempo indistinto, para além do dia e da noite.  As idas ao escritório durante a semana, os dias de ginásio, os jantares com os amigos ou idas ao futebol, as reuniões profissionais ou políticas, as datas festivas e celebrações religiosas conferem uma plasticidade ao calendário que faz mais falta do que poderíamos pensar. Cá por casa a passagem do tempo é marcada pelas refeições, mais o almoço servido à mesa com alguma formalidade e empenho culinário, e pela recitação do terço ao fim da tarde. Para minha sanidade mental nos últimos tempos tenho assistido no máximo a uma hora diária de notícias na televisão. A parte que mais tenho gostado são as vistas aéreas da minha cidade semi-deserta. Para não desgastar com demasiadas exigências a salubridade mental da nossa pequena comunidade familiar os jantares são volantes, com relativa flexibilidade de horário. Nesse sentido ao domingo ninguém é obrigado a tarefas da escola ou laborais, os computadores preferem-se desconectados e eu não fui fazer a minha corrida matinal. Este dia também é marcado pela carência da missa dominical comunitária, e o facto de hoje não poder cumprir a visita semanal à minha mãe que sofre de um severo enfisema pulmonar causa-me alguma amargura – toda a gente sabe que a solidão também mata, quase tanto quanto a pobreza com que muitos se confrontarão nos próximos temos. Em compensação, a minha mãe com quem tenho falado todos os dias por telefone, parece estar a levar esta crise com algum fair play. Fumadora inveterada durante quase toda a vida, está habituada a respirar pouco.

Hoje foi dia de reabastecimento no supermercado, que me pareceu adaptado à crise, bem apetrechado com produtos frescos em todas as secções. A propósito: aqueles vídeos a ilustrar os comentadores de economia dos noticiários a falar da severa crise financeira a que estamos condenados com máquinas de contar notas de 50 e 100 euros em loop são só para nos enervar, não são? Na Suécia, que como sabemos são uns bárbaros, estão a enfrentar a epidemia de forma diferente da nossa, a vida prossegue com muito mais normalidade que aqui. Espero que sejam eles os enganados.  

Voltando à irritação de António Costa com os holandeses na sexta-feira: é curioso notar que nem os enormes movimentos migratórios das últimas décadas mudaram velhos preconceitos e rivalidades nacionais. É disso que são feitas as nações e não é obrigatoriamente mau.

Estado de sítio (12)

por João Távora, em 27.03.20

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Coronavírus hoje em Portugal – 4.268 casos, 76 vítimas mortais

“Ninguém se salva sozinho” foi a ideia reforçada hoje pelo Papa Francisco na bênção “Urbi et Orbi” transmitida da Praça de São Pedro deserta para todo o mundo. Impressionante, é o mínimo que podemos dizer.
Cá por casa o confinamento já se tornou rotina, e o sentimento inicial de euforia pela anormalidade das circunstâncias já se esvaiu. Se estar sozinho deve ser difícil, também não é fácil a convivência de cinco pessoas numa casa relativamente exígua de três adultos, uma jovem universitária e um adolescente. Requer sensibilidade no respeito pelo espaço físico e psicológico de cada um, aceitando com o mínimo de disciplina o papel exigido a cada um das tarefas domésticas e outros deveres. Vale a pena o esforço pois desta inaudita aventura “Ninguém se salva sozinho”.
Sempre gostei muito da minha casa, ao longo dos anos decorada em cumplicidade com a minha mulher, apetrechada com bons livros, muitos deles por ler, que coexistem com boa música e boas condições de audição. Trabalho à distância para nós há muito que é o nosso modo de vida, e ainda não nos falta dramaticamente. Mas é diferente quando nos vemos impedidos das actividades sociais e cívicas em que normalmente estávamos empenhados. A angústia causada é a prova que a caridade e o “serviço” cívico são aspectos vitais para a nossa salvação. “Mal de quem não tem a quem (a que) servir, não me canso de repetir.
Hoje, para dar um ar de normalidade, recebemos da gráfica pelo correio o "ozalid" (prova para revisão) do próximo livro da chancela Razões Reais da Real Associação de Lisboa intitulado "Quando o Povo quiser". Trata-se de uma antologia comemorativa dos 10 anos da revista Correio Real onde se reúnem os melhores ensaios e crónicas nela publicados. Não é sem alguma ansiedade que esperamos pela oportunidade de agendar o seu lançamento, com a devida pompa. Disso daremos notícias na devida altura.
Com isto tudo, chegámos a sexta-feira e com ela ao inicio das férias da Páscoa, um facto que no confinamento do lar não fará grande diferença. Mas talvez mereça uma celebração com um Whisky irlandês ao final da tarde. Rejubilemos.
Entretanto o Expresso noticiou que "Marcelo e Ferro querem comemorar o 25 de Abril". Mas afinal não foram canceladas todas e quaisquer celebrações religiosas?

Ninguém se salva sozinho

por João Távora, em 27.03.20

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Homilia do Papa Francisco na celebração extraordinária de oração pela pandemia da Covid-19

Ao entardecer…» (Mc 4, 35): assim começa o Evangelho, que ouvimos. Desde há semanas que parece o entardecer, parece cair a noite. Densas trevas cobriram as nossas praças, ruas e cidades; apoderaram-se das nossas vidas, enchendo tudo dum silêncio ensurdecedor e um vazio desolador, que paralisa tudo à sua passagem: pressente-se no ar, nota-se nos gestos, dizem-no os olhares. Revemo-nos temerosos e perdidos. À semelhança dos discípulos do Evangelho, fomos surpreendidos por uma tempestade inesperada e furibunda. Demo-nos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados mas ao mesmo tempo importantes e necessários: todos chamados a remar juntos, todos carecidos de mútuo encorajamento. E, neste barco, estamos todos, todos. Tal como os discípulos que, falando a uma só voz, dizem angustiados «vamos perecer» (cf. 4, 38), assim também nós nos apercebemos de que não podemos continuar estrada cada qual por conta própria, mas só o conseguiremos juntos.

Rever-nos nesta narrativa, é fácil; difícil é entender o comportamento de Jesus. Enquanto os discípulos naturalmente se sentem alarmados e desesperados, Ele está na popa, na parte do barco que se afunda primeiro... E que faz? Não obstante a tempestade, dorme tranquilamente, confiado no Pai (é a única vez no Evangelho que vemos Jesus a dormir). Acordam-No; mas, depois de acalmar o vento e as águas, Ele volta-Se para os discípulos em tom de censura: «Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?» (4, 40).

Procuremos compreender. Em que consiste esta falta de fé dos discípulos, que se contrapõe à confiança de Jesus? Não é que deixaram de crer N’Ele, pois invocam-No; mas vejamos como O invocam: «Mestre, não Te importas que pereçamos?» (4, 38) Não Te importas: pensam que Jesus Se tenha desinteressado deles, não cuide deles. Entre nós, nas nossas famílias, uma das coisas que mais dói é ouvirmos dizer: «Não te importas de mim». É uma frase que fere e desencadeia turbulência no coração. Terá abalado também Jesus, pois não há ninguém que se importe mais de nós do que Ele. De facto, uma vez invocado, salva os seus discípulos desalentados.

A tempestade desmascara a nossa vulnerabilidade e deixa a descoberto as falsas e supérfluas seguranças com que construímos os nossos programas, os nossos projetos, os nossos hábitos e prioridades. Mostra-nos como deixamos adormecido e abandonado aquilo que nutre, sustenta e dá força à nossa vida e à nossa comunidade. A tempestade põe a descoberto todos os propósitos de «empacotar» e esquecer o que alimentou a alma dos nossos povos; todas as tentativas de anestesiar com hábitos aparentemente «salvadores», incapazes de fazer apelo às nossas raízes e evocar a memória dos nossos idosos, privando-nos assim da imunidade necessária para enfrentar as adversidades.

Com a tempestade, caiu a maquilhagem dos estereótipos com que mascaramos o nosso «eu» sempre preocupado com a própria imagem; e ficou a descoberto, uma vez mais, aquela abençoada pertença comum a que não nos podemos subtrair: a pertença como irmãos.

«Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?» Nesta tarde, Senhor, a tua Palavra atinge e toca-nos a todos. Neste nosso mundo, que Tu amas mais do que nós, avançamos a toda velocidade, sentindo-nos em tudo fortes e capazes. Na nossa avidez de lucro, deixamo-nos absorver pelas coisas e transtornar pela pressa. Não nos detivemos perante os teus apelos, não despertamos face a guerras e injustiças planetárias, não ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo. Avançamos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente. Agora nós, sentindo-nos em mar agitado, imploramos-Te: «Acorda, Senhor!»

«Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?» Senhor, lanças-nos um apelo, um apelo à fé. Esta não é tanto acreditar que Tu existes, como sobretudo vir a Ti e fiar-se de Ti. Nesta Quaresma, ressoa o teu apelo urgente: «Convertei-vos…». «Convertei-Vos a Mim de todo o vosso coração» (Jl 2, 12). Chamas-nos a aproveitar este tempo de prova como um tempo de decisão. Não é o tempo do teu juízo, mas do nosso juízo: o tempo de decidir o que conta e o que passa, de separar o que é necessário daquilo que não o é. É o tempo de reajustar a rota da vida rumo a Ti, Senhor, e aos outros. E podemos ver tantos companheiros de viagem exemplares, que, no medo, reagiram oferecendo a própria vida. É a força operante do Espírito derramada e plasmada em entregas corajosas e generosas. É a vida do Espírito, capaz de resgatar, valorizar e mostrar como as nossas vidas são tecidas e sustentadas por pessoas comuns (habitualmente esquecidas), que não aparecem nas manchetes dos jornais e revistas, nem nas grandes passarelas do último espetáculo, mas que hoje estão, sem dúvida, a escrever os acontecimentos decisivos da nossa história: médicos, enfermeiros e enfermeiras, trabalhadores dos supermercados, pessoal da limpeza, curadores, transportadores, forças policiais, voluntários, sacerdotes, religiosas e muitos – mas muitos – outros que compreenderam que ninguém se salva sozinho.
Perante o sofrimento, onde se mede o verdadeiro desenvolvimento dos nossos povos, descobrimos e experimentamos a oração sacerdotal de Jesus: «Que todos sejam um só» (Jo 17, 21). Quantas pessoas dia a dia exercitam a paciência e infundem esperança, tendo a peito não semear pânico, mas corresponsabilidade! Quantos pais, mães, avôs e avós, professores mostram às nossas crianças, com pequenos gestos do dia a dia, como enfrentar e atravessar uma crise, readaptando hábitos, levantando o olhar e estimulando a oração! Quantas pessoas rezam, se imolam e intercedem pelo bem de todos! A oração e o serviço silencioso: são as nossas armas vencedoras.

«Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?» O início da fé é reconhecer-se necessitado de salvação. Não somos autossuficientes, sozinhos afundamos: precisamos do Senhor como os antigos navegadores das estrelas. Convidemos Jesus a subir para o barco da nossa vida. Confiemos-Lhe os nossos medos, para que Ele os vença. Com Ele a bordo, experimentaremos – como os discípulos – que não há naufrágio. Porque esta é a força de Deus: fazer resultar em bem tudo o que nos acontece, mesmo as coisas más. Ele serena as nossas tempestades, porque, com Deus, a vida nunca morre.

O Senhor interpela-nos e, no meio da nossa tempestade, convida-nos a despertar e ativar a solidariedade e a esperança, capazes de dar solidez, apoio e significado a estas horas em que tudo parece naufragar.
O Senhor desperta, para acordar e reanimar a nossa fé pascal. Temos uma âncora: na sua cruz, fomos salvos. Temos um leme: na sua cruz, fomos resgatados. Temos uma esperança: na sua cruz, fomos curados e abraçados, para que nada e ninguém nos separe do seu amor redentor. No meio deste isolamento que nos faz padecer a limitação de afetos e encontros e experimentar a falta de tantas coisas, ouçamos mais uma vez o anúncio que nos salva: Ele ressuscitou e vive ao nosso lado. Da sua cruz, o Senhor desafia-nos a encontrar a vida que nos espera, a olhar para aqueles que nos reclamam, a reforçar, reconhecer e incentivar a graça que mora em nós. Não apaguemos a mecha que ainda fumega (cf. Is 42, 3), que nunca adoece, e deixemos que reacenda a esperança.

Abraçar a sua cruz significa encontrar a coragem de abraçar todas as contrariedades da hora atual, abandonando por um momento a nossa ânsia de omnipotência e possessão, para dar espaço à criatividade que só o Espírito é capaz de suscitar. Significa encontrar a coragem de abrir espaços onde todos possam sentir-se chamados e permitir novas formas de hospitalidade, de fraternidade e de solidariedade. Na sua cruz, fomos salvos para acolher a esperança e deixar que seja ela a fortalecer e sustentar todas as medidas e estradas que nos possam ajudar a salvaguardar-nos e a salvaguardar. Abraçar o Senhor, para abraçar a esperança. Aqui está a força da fé, que liberta do medo e dá esperança.

«Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?» Queridos irmãos e irmãs, deste lugar que atesta a fé rochosa de Pedro, gostaria nesta tarde de vos confiar a todos ao Senhor, pela intercessão de Nossa Senhora, saúde do seu povo, estrela do mar em tempestade. Desta colunata que abraça Roma e o mundo desça sobre vós, como um abraço consolador, a bênção de Deus. Senhor, abençoa o mundo, dá saúde aos corpos e conforto aos corações! Pedes-nos para não ter medo; a nossa fé, porém, é fraca e sentimo-nos temerosos. Mas Tu, Senhor, não nos deixes à mercê da tempestade. Continua a repetir-nos: «Não tenhais medo!» (Mt 14, 27). E nós, juntamente com Pedro, «confiamos-Te todas as nossas preocupações, porque Tu tens cuidado de nós» (cf. 1 Ped 5, 7).

Vaticano, 27 de março de 2020

Vai ficar tudo como eles sempre quiseram

por João Távora, em 26.03.20

"Pois bem, tudo indica que o paraíso desejado, devidamente decorado por artistas, escritores e humoristas que já se estão a posicionar, instalados nas frisas, esteja mesmo para chegar."

Pouco mudou, afinal, em Portugal. O grande inimigo dos pensadores nacionais continua a ser a Padaria Portuguesa.
Esta nossa inclinação infantil e apressada de odiar os nossos ódios em matilha é só mais uma das razões por sermos um país pobre como, temo, descobriremos duramente nos próximos meses.
Achar que a PP (e outras empresas) deviam ter bolsos sem fundos para prever um evento como que vivemos é rasteiro e cobarde.
Por definição, e para quem não sabe, a boa gestão é feita através de investimentos e não de guardar montanhas de moedas como fazia o Tio Patinhas ou notas debaixo do colchão. A riqueza nas sociedades humanas acontece porque houve - e há - quem tome riscos. Nem todos os Descobrimentos a meio do milénio passado, foram feitos por conta do Estado como os portugueses. Já naquele tempo houve "privados" que se atravessaram. As coisas, dos ventiladores às broas de mel do Pingo Doce, não caem do céu. Existem, quase sempre, porque quem as faz, acha que vai ganhar com isso. Ganhar o quê? Dinheiro pois então, riqueza.
Achar que os "liberais" não podem recorrer ao estado durante um evento incomparável como que o vivemos é desonesto, estúpido e em especial inumano. Porque assinala que quem pensa e faz diferente - os tais liberais ou a PP entre milhares de outros - deve ser devidamente punido por isso, nem que seja com uma pandemia no focinho.
Pelos sorrisos e tom de certos escritos e ditos, quase que arriscaria dizer que a p**a da pandemia já valeu a pena, quanto mais não fosse para arrumar de vez com a Padaria e os liberais.
Pois bem, tudo indica que o paraíso desejado, devidamente decorado por artistas, escritores e humoristas que já se estão a posicionar, instalados nas frisas, esteja mesmo para chegar.
Vai ficar tudo como eles sempre quiseram.

Pedro Boucherie Mendes no Facebook

Estado de sítio (11)

por João Távora, em 25.03.20

aquario.jpgCoronavírus hoje em Portugal – 2.995 casos, 43 vítimas mortais

As rotinas começam a implantar-se: pela fresca, antes de me sentar ao computador, atrevo-me a uma corrida de meia hora pelas redondezas, um exercício físico que me garante sanidade mental para o confinamento a que nos vamos habituando com o passar dos dias - com disciplina e menos altercações do que seria de esperar. Esta manhã quando batiam as 11,00hs nós os cinco respondemos ao desafio do Papa Francisco e rezámos um Pai Nosso em comunhão global. A oração em família é fundamental não só para fazer chegar o nosso clamor aos Céus, mas também para estimular o sentimento de corpo do grupo.
Com a família toda em casa dia após dia, temos estado a cozinhar a todo o vapor, a tentar agradar às hostes, mas chega a uma altura que o frigorífico se enche de caixinhas e tachos com restos, que hoje ao almoço serviram como uma refeição “extra”. O miúdo mais pequeno lá vai cumprindo as tarefas escolares a custo. Do colégio mandam-nos fichas e somos nós, os pais inocentes, que temos de assumir o difícil papel de professores. Comprova-se assim que o provérbio popular que diz “santos da casa não fazem milagres” não está longe da verdade. Ontem, quando nos apanhou a meio de uma conversa a respeito do COVID19 e a possibilidade de se alargarem os testes, disse logo que não, que sem aulas se recusava fazer testes.  
De resto foi sem grande espanto que constatei por uma sondagem do ICS e ISCTE para a SIC a união nacional que impera (acima dos 70%), na confiança depositada nas instituições nacionais pelos portugueses na gestão da crise. Nem Salazar nos seus melhores sonhos e melhores dias ambicionou tanta unanimidade. Perante o medo implantado e o estado de emergência, o governo e o presidente da república passeiam-se impantes na revista às tropas antes da grande batalha que está por vir. Não lhes desejo mal, mas sempre digo porque sei do que falo, que a propaganda é sempre a parte mais fácil (e mais frágil) da equação e os actores em causa nisso são artistas.
Hoje, dia de aniversário do nosso Príncipe da Beira Dom Afonso de Bragança, herdeiro da chefia da Casa Real Portuguesa, cá em casa rezaremos por ele e pelas intenções da sua família: que Deus os inspire e guie os seus passos, no difícil papel que lhes cabe nestes dias de aflição de estar ao serviço dos portugueses.
Finalmente, soubemos há pouco que, depois do Príncipe Alberto do Mónaco, agora foi o Príncipe Carlos do Reino Unido a dar positivo no teste do coronavírus. Definitivamente o vírus é republicano.

Estado de sítio (10)

por João Távora, em 23.03.20

Yellow-Submarine.jpg

Coronavírus hoje em Portugal – 2.060 casos, 23 vítimas mortais

Aqui no confinamento os dias começam a ser muito iguais uns aos outros, não inspiram grandes crónicas. A nossa gente está bem, os nossos trabalhos a partir de casa e a gestão das tarefas domésticas começam a tornar-se rotina – a tripulação cumpre as tarefas e adapta-se à nova vida, conquistando os seus recantos de privacidade para sanidade mental de todos.
Tentando olhar mais à frente: desconfio que nos espera um governo do bloco central para gerir a crise. Não é preciso ser muito imaginativo para adivinhar o que aí vem quando voltarmos à rua e o centro político em protesto tiver mudado de posição. O regime como o conhecemos vai ter de se segurar ao parapeito, e isso é uma coisa boa.
Não nos falhe o ganha-pão, que por cá temos muita literatura e boa música. 

Portugal, no ranking da União Europeia, está em décimo no conjunto dos 27 países, no que toca ao número de infectados com a pandemia Covid-19. O que é uma boa notícia. É também uma boa notícia o facto de não haver uma explosão de casos de contaminação e sobretudo o de não haver um grande número de mortes e a maioria dos infectados detectados ter apenas sintomas ligeiros.

Mas a mesma sorte o país não vai ter na economia. A verdadeira mortandade vai-se dar nas empresas.

Primeiro porque as linhas de crédito com garantia do Estado tendem a ser destinadas a empresas com capitais próprios positivos e com resultados fechados. Ora há uma fatia de PME que não cumpre nenhum dos requisitos.

Os bancos estão a conceder esses créditos com garantia mútua a uns juros de 2% e 3%, muito acima do preço a que se financiam.

A ideia do Governo adiar o pagamento de impostos e contribuições sociais é muito positiva, mas se não se resolver o problema de liquidez das empresas a medida não tem grande eficácia.

Sobre o chamado lay-off simplificado, que é a capacidade das empresas suspenderem os contratos de trabalho por três meses porque a atividade está diminuída, pagando o Estado uma parte desse salário, é de lembrar que se aplica a empresas que têm 40% da redução do seu rendimento comparado com o ano anterior. Mas para beneficiar disso as empresas têm de provar que a quebra das receitas é reportada aos dois meses anteriores. Ora a crise começou em março pelo que as empresas só podem apresentar o pedido em maio (60 dias depois de março). Até lá quem vai pagar salários se a atividade parou? 

Quanto tempo aguentam as empresas sem atividade ou sem clientes?

Depois com isto virão os salários em atraso e os despedimentos, e dispara o malparado (aguardemos pelas moratórias), tudo porque a economia fechou.

A análise macroeconómica também não é mais animadora. A flexibilidade da Comissão Europeia aos auxílios do Estado não é suficiente, e no limite pode criar uma crise de dívida soberana. Ao flexibilizar as metas de défice e dívida para todos os países ignorando que cada país membro tem rácios de endividamento diferentes, pode ser o gatilho para uma subida dos juros da dívida soberana e no limite o fecho dos mercados (que trouxe no passado recente a troika).

O Governador do Banco de Portugal defendeu num artigo do Jornal Económico que “é necessária uma resposta conjunta a um desafio comum”.

Carlos Costa defende agora na Reuters que o Mecanismo Europeu de Estabilidade  (MEE) emita Corona bonds a 30 anos.“Tais ‘Corona bonds’ são não só um reforço mas também um complemento necessário ao recém-anunciado Pandemic Emergency Purchase Programme do Banco Central Europeu”, defendeu o Governador do Banco de Portugal no artigo da Reuters.

Carlos Costa lembra que “contrariamente às circunstâncias que conduziram à crise de 2008, a situação com que nos defrontamos agora reflete a propagação de uma crise sanitária para a economia real e desta para o sistema financeiro, com os seus efeitos a serem amplificados pelo sistema financeiro internacional e pelas cadeias de valor globais”.

Estado de sítio (9)

por João Távora, em 22.03.20

Gas masks.jpg

"Senhor, como é bom estarmos aqui!"
Mateus 17:4

Já andamos confinados há alguns dias, o ânimo começa a ser um bem menos abundante, e começa a ser-nos exigido ir buscar toda a boa vontade ao fundo da alma – é proibido embirrar. Hoje seria dia de Missa. É estranho um Domingo sem aquela tradicional agitação matinal para irmos ao Estoril à missa da… uma da tarde. A Igreja de Pedro, esposa de Cristo fica gravemente ferida quando não possa ser vivida em comunidade. O terço a Nossa Senhora, com a leitura do evangelho do dia, tem sido religiosamente cumprido por nós todos, com uma visita ocasional da minha sobrinha Sofia por WhatsApp.
Esta manhã voltei à minha corrida higiénica matinal por ruas normalmente desertas de S. Pedro do Estoril, e surpreendeu-me o número de pessoas e famílias que passeavam sozinhas ou em pequenos grupos a arejar a cabeça. Se o confinamento é para durar, há que arranjar estratégias para aguentar. Da janela, na praceta onde moro, deparo-me com os velhotes que vêm esticar as pernas à rua e que ficam à porta da tabacaria a cavaquear. Como dizia uma “amiga” minha no FB “é trade-off entre probabilidade de infecção e saúde mental”. Mas como também não os vejo aos abracinhos, presumo que o risco não seja grande.
Entretanto, pelos números de infectados dos países nossos vizinhos parece que a Europa do Sul se tornou no “epicentro da Pandemia” e preocupa-me ainda não serem evidentes os efeitos do confinamento social, não havendo provas de que alguma vez o serão. E para lá da importante questão económica (peço desculpa pela inconveniência) quanto tempo aguentaremos uma situação destas?
Termino com a questão que mais me preocupa neste momento: espero estar enganado, mas desconfio que a tragédia em Portugal vai surgir dos lares de velhinhos que, sem material de protecção para os funcionários, não estão preparados para defender os seus residentes.

Como é que é tão difícil a uma civilização que levou o homem à lua isolar os lares de idosos de um vírus?

Estado de sítio (8)

por João Távora, em 21.03.20

mascaras 3.jpg

Coronavírus hoje em Portugal – 1.280 casos, 6 vítimas mortais

Estive o dia fechado em casa, a família a ver séries e eu a ler jornais. Como é evidente que a opção errada é a minha.
Porque é que é sempre tão difícil explicar a temperança e a moderação? E estamos ainda no princípio. Daqui a pouco tempo teremos de aturar os nacionalistas e os ecologistas radicais aos berros a dizer: "Estão a perceber como podemos viver tão bem com uma côdea de pão e com as fronteiras fechadas?"
Deus nos ajude, que vêm aí tempos interessantes, como dizem os chineses, que também percebem disto.

"Tomar esta pandemia como uma batalha pode, no entanto, ser um erro, até porque é cada vez mais provável não ser possível ganha-la. Pelo menos enquanto não existirem vacinas. O vírus continuará a viver entre nós e é bem possível que a única vitória sobre ele seja a sua integração".

Do Editorial do Expresso.

Estado de sítio (7)

por João Távora, em 20.03.20

mascaras.jpg

Coronavírus hoje em Portugal – 785 casos, 6 vítimas mortais

"Senhor, como é bom estarmos aqui!"
Mateus 17:4

Na tabacaria aqui da praceta puseram o balcão à porta e ficou a modos que um quiosque como exige o governo, há sempre maneira de se dar a volta às coisas. Constatei-o pela fresca esta manhã quando fui fazer uma corrida pelas ruas interiores e desertas entre S. Pedro e São João do Estoril. Percorridos cerca de quatro quilómetros, as poucas pessoas com quem me cruzei, levavam cães a passear ou eram todas de idade avançada. A solidão mata tanto ou mais que qualquer epidemia e eu desconfio que tudo irá ser igual em todo o lado. A diferença estará na densidade populacional e nas condições do serviço de saúde de cada país. Podem ficar sossegados, o que não tem resolução, resolvido está.
Os miúdos estão com espírito, a mais velha fez uma sessão de Tai Chi na sala, e os outros mantém a ligação às escolas. Se fazemos almoço à mesa, com todos os Fs e Rs (todos têm de estar vestidos e aprumados), o jantar é informal, só com sopa e sanduiches – amanhã é dia de voltar ao supermercado. Ao fim da tarde reunimo-nos todos para rezar o terço a Nossa Senhora.
Em termos de trabalho é visível a redução de pedidos de orçamento, mas hoje recebemos dois pedidos de traduções de… empresa farmacêuticas. Por uma vez na vida os Távora não podem dizer mal da sorte. Graças a Deus.



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