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Repensar o Natal?

por João Távora, em 09.10.20

A pretensão de Graça Freitas, Marcelo e outros fanáticos sanitários de impedir as "bolhas familiares", proibir o convívio dos jovens, e a socialização de adultos saudáveis por um prazo ilimitado, revela uma delirante falta de realismo e, direi mesmo, de humanidade. É uma vez mais a velha e perigosa tentação da reeducação do Ser Humano que só pode dar maus resultados, pois o pessoal é manso mas o pavio acaba. Um país não é um hospital e as cidades não são enfermarias governadas por zelosos médicos. Isto ainda vai acabar mal, e não será por causa do Coronavírus.

PS.: E agora sobre a eficácia das sacrossantas medidas sanitárias que o Henrique fala aqui: é interessante perceber a incidência não só sazonal (deixou-se de usar máscara a partir do final de Setembro?) mas geográfica do Vírus. São todos uns badalhocos no planalto central de Madrid em Marselha e na Polónia onde os casos por estes dias crescem especialmente?

Fascismo higiénico também mata

por João Távora, em 25.09.20

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A maior parte das vezes são os casos que nos tocam de perto que nos despertam para determinados problemas que doutro modo nos passavam ao lado. É por isso que, de há uns anos para cá, por causa da minha mãe que sofre de uma grave doença respiratória degenerativa, a gripe sazonal e o receio de uma consequente pneumonia, me atormenta todos os invernos. Necessitada de assistência respiratória 24h por dia, com a sua autonomia física em constante degradação, viu-se ela obrigada a ingressar numa residência onde pudesse passar os seus últimos anos de vida com algum conforto, e foi assim que encontrámos um refúgio abençoado num lar de uma paróquia de Lisboa. Trata-se de uma casa com ambiente familiar e cristão com capacidade para cerca de dez senhoras de diferentes origens sociais, todas elas extremamente dependentes mas cheias de dignidade, que são assistidas com grande humanidade por uma pequena equipa incansável de profissionais e voluntários – não existem suficientes palavras para aqui expressar a gratidão que sinto.
 
Foi neste ambiente, que ao longo dos anos, com a ajuda da família, a minha mãe conquistou o direito de viver num quarto que em grande medida é reflexo das suas origens e interesses. Desde o retrato do Rei Dom Miguel na parede, a sua pequena biblioteca de biografias e romances, bibelots e muitas fotografias da sua família, pais, irmãos, filhos e netos; e uma decoração alegre criada em cumplicidade com a minha mulher. Tudo à sua volta existe para lhe proporcionar um ambiente acolhedor e ligação às raízes, coisa que estou certo tem contribuído para a ligar ao mundo e à vida, que apesar da sua doença amarga, merece ser desejada, em harmonia e na proximidade possível com os seus.
 
A epidemia do Covid19 veio abalar todos estes precários equilíbrios. Há mais de seis meses que nos tivemos de conformar e enfrentar mais este tormento, que ameaça ser fatal para a frágil saúde da minha mãe, não tanto por causa do vírus mas por causa das contingências a ele ligadas, nomeadamente ao isolamento e consequente solidão e degradação do seu estado psicológico.
 
Isto vem a propósito de uma reunião ocorrida ontem na dita paróquia para a qual os familiares das senhoras residentes foram convocados pelo director da residência - uma reunião de filhos, como lhe chamei. Ela serviu para nos comunicar que as nossas familiares dentro do possível se encontram bem, que a equipa de assistentes se tem desdobrado em esforço e precauções para que o ambiente se mantenha salubre, tanto psicológica quanto sanitariamente. Foi assim que soubemos da pressão a que aquele lar (é fundamental mantê-lo em anonimato para que não aumentem as represálias do Estado) tem sido submetido em constates inspecções feitas ao desafio pelas diferentes tutelas, com o aparente objectivo não de proteger os residentes, mas antes a si próprias; sempre com mais e mais exigências que colocam em causa a subsistência económica da estrutura, muitas delas contraditórias, extremamente difíceis de cumprir numa casa com aquelas especificidades. Da exigência de distanciamento físico entre as residentes dentro das instalações (são 10 senhoras por Deus!), que obrigou a criarem-se turnos para frequência da sala de estar e de jantar, do distanciamento milimétrico das camas nos quartos duplos, como se aquela pequena comunidade não fosse como uma família; a obrigação das janelas constantemente abertas, requisito que muito em breve poderá ser causa de pneumonias; e da nova e perturbadora proibição das residentes terem nos seus quartos objectos pessoais, livros, fotografias e decoração (até as cortinas foram retiradas), para a salvaguarda de um ambiente asséptico “fácil de desinfectar”. Como se não bastasse as senhoras estarem há 6 meses impedidas de sair e entrar na casa; que as visitas, retomadas em Junho, sejam feitas através dum acrílico na porta para as escadas que dificulta tremendamente a audição; como se não bastasse tudo isto, pretendem estes burocratas soviéticos, que as senhoras vivam encerradas em paredes brancas, por tempo indeterminado como se fossem presidiárias.
 
Pela minha parte estou convencido que, se os nossos entes queridos não morrerem por causa do Novo Coronavírus, irão morrer de desespero e solidão por causa desta sanha normativa que trata as pessoas como se fossem números de quem as brigadas do governo a qualquer preço se querem proteger. O número de mortes excessivas está aí para nos alertar das consequências da desproporcionalidade dos meios em relação aos fins. O centralismo burocrático e o fascismo higiénico matam mais que a epidemia.

A infindável novela

por João Távora, em 12.08.20

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Quando esta epidemia passar os jornais terão de arranjar outra doença para continuarem a excitar os consumidores mais susceptíveis. A novela não pode parar pois o vazio é insuportável.

Vão faltar peças quando formos apanhar os cacos

por João Távora, em 10.08.20

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O distanciamento social é um fenómeno contrário à democracia, dizia há tempos Bernard  Henry-Levy numa entrevista do Pedro Mexia publicada no Expresso, e eu atrevo-me a sugerir que o distanciamento social, mais que antidemocrático, é pouco cristão.  E o pior é que suspeito que demorará muito tempo a apanhar os cacos e vão faltar peças para restaurar a normalidade nas relações humanas como as conhecíamos.

Numa missa de domingo na Igreja Matriz do Cadaval em que participei recentemente, fiquei triste ao encontrar o templo quase vazio. O meu grupo de onze pessoas foi acolhido com espanto e foi dificil explicar que eramos a mesma família e que não fazia mal ficarmos juntos. Estou a falar de uma freguesia que, sendo dispersa territorialmente, é próspera, e julgo ser bastante povoada mesmo em Agosto. Fico com a ideia de que boa parte dos católicos não desconfinaram verdadeiramente, ao mesmo tempo que o “higienismo”, que é uma forma de idolatria, tomou conta da liturgia com milícias de zelosos paroquianos que fanaticamente arrumam os crentes nos bancos da igreja e os aspergem insistentemente com álcool à entrada, outra vez antes da eucaristia, outra vez depois, e finalmente mais uma borrifadela à saída. Fico com a ideia que as missas no sofá, pela televisão ou pelas redes sociais, em que involuntariamente se relativizou o valor transcendental do sacramento da “comunhão” (palavra com significado oposto a “distanciamento social”) constituiu um forte abalo no cada vez mais fragilizado costume dos crentes se encontrarem fisicamente ao Domingo para a Missa. Foi Jesus Cristo que afirmou a importância do encontro comunitário: “Pois onde se reunirem dois ou três em meu nome, ali eu estou no meio deles" (Mateus 18:20).

Mas como é bom de ver, este não é apenas um problema da Igreja e das paróquias, que são dos últimos bastiões das antigas comunidades locais relativamente autónomas. A pandemia apenas veio acelerar o processo de descristianização e atomização social que há muito vem fazendo o seu caminho. A consequência são os exércitos de indivíduos inaptos para as relações sociais, cada vez mais isolados e dependentes do Estado, do Centro de Saúde ou da Segurança Social. E fiquem sabendo que admiro a tenacidade dos comunistas que insistem fazer a sua festa. 

Contou-me a minha mulher que antes da pandemia já vigorava a nova moda sanitária sobre os bebés recém-nascidos que são aconselhados pelos médicos a viver os dois primeiros meses isolados com os pais, sem saídas, visitas ou contacto físico com os avós, tios ou outros parentes, obrigados a conformarem-se com uma “story” no Instagram. E depois já repararam como é ineficiente o teletrabalho, a promiscuidade entre o trabalho, a família e o lazer? Já repararam na aberração dos jovens entretidos com gadgets electrónicos impedidos de ir à escola ou nos miúdos sem acesso aos parques infantis ainda selados pela fúria higienista e pelo medo da segunda vaga?

Quando é que nos vamos encontrar todos outra vez?

Prontuário alfabético da pandemia

por João Távora, em 12.07.20

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A

Aerossóis – Perdigotos voadores

António Costa – Comunicador e animador televisivo, amado líder, salvador da Pátria, líder e autor de tudo o que corra bem, isento de culpa em tudo o que corra mal.

Assintomático – infiltrado

Aviação – nova área de especialização de António Costa (2015) e Pedro Nuno Santos (2020). Ramo de negócio da próxima falência socialista.

B

Bolsonaro – bobo da corte global 

C

Cerca sanitária – cerco policial e noticioso a uma comunidade contagiada (desde que a autarquia não seja comunista ou socialista).

China – fabricante de vírus, anti-vírus, máscaras e ventiladores.

Confinamento – Prisão domiciliária voluntária enquanto o governo compra os meios que as cativações encurtaram.

Crise sanitária –momento em que as cativações nos orçamentos da saúde ameaçam ter resultados fatais.

Clusters – De onde sai muita gente vinda de sítios diferentes

Contágio – aquilo que os jovens ou «os privados» conseguem quando convivem, e os passageiros dos transportes públicos sobrelotados não.

Corredores de passagem – o distanciamento físico em movimento.

Culpa – é da pandemia

Curva epidemiológica – a progressão da epidemiologia em gráfico

D

Desconfinamento – Ordem geral de soltura quando as sucessivas excepções para comunistas, governo, presidência e palhaços do regime começam a enjoar.

Distanciamento social – Distância entre uma motoreta e o Porsche do Pedro Nuno Santos, ou entre os transportes públicos e os Mercedes série S do governo.

Distância física – Distância entre dois corpos vivos ou inanimados, ou aquilo que separa os governantes transportados em Mercedes série S e Audi A8 dos utilizadores dos transportes públicos

E

Epidemia – doença que alastra numa comunidade por contacto directo ou indirecto.

Epidemiologia – a ciência que estuda as dinâmicas das epidemias

Estado de Calamidade – o controlo da epidemia está nas nossas mãos

Estado de Emergência – o controlo da epidemia nas mãos do governo

Estado de alerta – se te portares mal vem o estado de emergência

F

Falsa transmissão comunitária – aparência de transmissão do vírus quando ocorrida entre habitantes de autarquias comunistas ou socialistas, e que se deve na verdade à especulação imobiliária e às manobras do capital; aparência de transmissão em manifs e comícios de esquerda, ou festas e espectáculos do regime (ver também transmissão comunitária).

Fernando Medina – herdeiro putativo de António Costa, e nessa medida mais conhecedor de temas de saúde que qualquer ministra ou directora nomeada pelo mesmo António Costa.

Ferro Rodrigues – a melhor publicidade à máscara

Freitas, Graça – pessoa a despedir se a coisa correr mal (ver também Temido, Marta).

Fronteiras – o vírus do vizinho é mais contagioso que o meu.

Funcionários públicos – pessoas que recebem os salários por inteiro, mesmo que não seja possível contribuírem com teletrabalho ou outro trabalho qualquer.

Funcionários privados – pessoas que só recebem se trabalharem ou as respectivas empresas não morrerem

G

Gotículas – perdigotos

H

Hidrocloroquina – remédio que a OMS diz que é inútil e que o Trump e o  Bolsonaro tomam ou remédio que a OMS diz que afinal é útil e que não nos lembramos se o Trump e o Bolsonaro andam a tomar.

Higienização – quando asseios mínimos como tomar banho e lavar as mãos são promovidos a terapêuticas.

I

Impostos – tão certos como a morte; sobem como a morte a pretexto de pandemias.

Isolamento profiláctico – prisão preventiva

J

Jovens  - culpados de tudo se se juntarem mais que 2

L

Lares – Confinamento de risco para os velhotes; estudo introdutório à figura da eutanásia.

LVT – Clusters de Lisboa.

Lay off simplificado – Processo complexo de fornecimento de oxigénio fiado.

M

Máscara – produto ausente da cadeia de consumo, e cuja utilização daria uma falsa ilusão de segurança; produto vendido pela China e amigos do poder, e cuja utilização é obrigatória.

Moratória – pagas depois, está bem?

Marcelo Rebelo de Sousa – Animador e pivot televisivo para Governo e DGS

Morbilidade – Perigo de morte.

N

Nacionalismo – convicção em alta a opor às exclusões declaradas pela pérfida Albion; credo retrógrado e criminoso quando esperamos solidariedade e esmolas da EU.

O ?

P

Planalto – Bom vinho

Protocolo respiratório – não me cuspas para cima

Positivar – contagiado

R

Raiododesinvir - ou lá o que é e que pode ser bom ou não conforme quem o toma (ver também hidrocloroquina).

Rastreio – Brincar ao gato e ao rato.

Recessão – a coisa de que os media falam para fingirem que não há nem vai haver austeridade (foi o PM que mandou).

Recuperados – Boas notícias.

Regras de segurança – aquilo ou o contrário que Governo e DGS decidirem de ontem para hoje, ou de hoje para amanhã.

Restrições – Uma calamidade

S

Salvador Malheiro – O desafiador de Fernando Medina, na disputa regional.

Surto – sítio onde o vírus ainda não tinha sido detectado, mas agora foi.

T

TAP – companhia aérea do outro herdeiro putativo de Costa, PNS.

Taxa de mortalidade – ninguém escapa

Tele-ensino – Trabalhos para casa

Temido, Marta – outra pessoa a despedir se as coisas correrem mal.

Transmissão comunitária – transmissão do vírus exclusiva de festas privadas ou ajuntamentos de mais de 2 jovens.

Transmissão vertical – das mães aos fetos.

Transmissão horizontal – entre gente de todas as famílias e idades.

Turismo – sector mais atingido pela pandemia devido aos cancelamentos de visitas por cerca de 90% dos turistas.

Turistas – indesejáveis que as televisões denunciam por desrespeitarem o confinamento e as regras em Portugal.

Teletrabalho – Faz-se o que se pode

Testagem – Cada cavadela uma minhoca

Testes sorológicos – testes ao sangue

Trump – bullying

U

UCI – Estás feito ao bife.

V

Vacina – Nem o pai morre…

Ventiladores – Negócios da China.

Virologista – Técnico que estuda os vírus.

W

Wuhan – Cidade natal do Covid19

Z

Zaragatoa – um pauzinho que se enfia no nariz do suspeito de infecção.

Zoom – reuniões virtuais. Cada um leva o seu copo de vinho.

 

João Távora com José Mendonça da Cruz e Duarte Calvão

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(Des)confiança

por João Távora, em 10.07.20

O que esta pandemia deixou a nu foi a arrogância dos políticos que pretenderam serem capazes de a controlar (os bezerros de ouro sempre foram uma tentação para os pategos). O maior problema é que o povo não deixará de lhes cobrar os seus efeitos quando não tiver pão para por na mesa. As moratórias e o Lay-off não vão durar sempre, e cada mês que passa, mais serão os empresários em desespero que como recompensa de tentarem por as suas empresas a carburar apesar das quebras de facturação significativas perderam a elegibilidade para os apoios do Estado. Não há recuperação económica sem confiança e não vai ser fácil inverter-se a narrativa do medo que com tanto denodo foi fomentada. Continuemos a brincar às máscaras e limpem as mãos às paredes, que o Inverno vem aí, o vírus por cá andará e a tragédia não será na enfermaria.  

Que fazer?

por henrique pereira dos santos, em 10.07.20

A pergunta de Lenine continua muito útil.

Com a regularidade de um relógio suíço lá veio o aviso semanal do Secretário Geral da Organização Mundial de Saúde: "a pandemia "não está controlada na maior parte dos países, está a piorar"".

Penso que já terei deixado claro que não percebo esta insistência na ideia de que está tudo a ficar muito pior, que se baseia nestes dados de casos diários notificados à OMS:

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E a razão de não perceber esta insistência, está nestes dados, de mortes diárias

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Ou seja, os menos de 100 mil casos diários de Abril resultavam em mais sete mil mortos diarios, e os mais de 200 mil casos de agora resultam em pouco mais de cinco mil mortos diários, e todas as semanas a OMS omite os últimos dados para repetir, pela enésima vez, que está tudo muito mau e vai ficar ainda pior.

No país que reporta mais casos diários (USA) os 40 mil casos diários de Abril resultavam em cerca de 2 500 mortos diários, e os 60 mil casos diários actuais resultam em cerca de mil mortos diários, mas parece que devemos concluir que está tudo pior.

No estado americano que mais casos reportou ontem (Texas) de Abril para agora o número de casos diários aumentou dez vezes e o número de mortos diários duplicou. Aqui sim, é possível dizer que a situação agora é pior que em Abril, mas está longe de ser uma situação dramática (150 mortos num pico de mortalidade de uma doença, numa população de 30 milhões, não é irrelevante, mas deve ser vista no contexto da mortalidade diária média que anda acima dos 500. Note-se que estou a usar um número claramente excessivo, a média dos últimos sete dias para mortalidade anda pelos 65 mortos) e, sobretudo, podemos dizer que estamos a lidar cada vez melhor com casos positivos, do que resulta uma mortalidade proporcionalmente mais baixa.

Mas admitindo que nada disto tem importância, e que a OMS tem totalmente razão para dizer o que diz, o que não entendo é como se responde então à pergunta de Lenine: que fazer?

Ou posto de outra maneira, o que quer mais a OMS que se faça?

O normal, para mim, seria dizer que é preciso ser mais eficaz na protecção dos grupos mais frágeis, que a coabitação é o principal factor de aumento de novos casos e que portanto é preciso olhar com especial atenção para as grandes infraestruturas onde coabita muita gente por muito tempo - dormitórios de trabalhadores, hospitais, lares, quarteis, prisões, residências estudantis, etc., sabendo que é muitíssimo difícil impedir a entrada deste vírus em estruturas destas. E deixarmos de gastar recursos a combater moinhos de vento, porque sabemos perfeitamente que é aqui que está o problema.

Se houvesse dúvidas, para o caso português, os recentes surtos em hospitais, lares e residências de estudantes seriam suficientes para demonstrar a dificuldade em impedir a entrada do vírus, mesmo em estruturas como hospitais e localizações fora dos grandes focos de casos, como Reguengos ou a Guarda, ou seja, o máximo que podemos fazer é trabalhar para reduzir a probabilidade mas sabendo que nunca haverá possibilidade de impedir que aconteça aqui e ali.

Mas não, como um pai severo a OMS continua a acusar os estados de não fazerem o suficiente e irmos todos arder no fogo do inferno se não fizermos o que temos de fazer que, por sinal, a OMS na realidade não diz o que é e onde estão os exemplos que demonstram a eficácia das generalidades que diz.

Esta peça do Observador é exemplar no que mostra das consequências institucionais da loucura instalada: um general cuja única preocupação é repetir vezes sem conta que não tem responsabilidade nenhuma e que os soldados é não são exemplares, numa demonstração de cobardia institucional deprimente.

Tudo gira à volta de uma suposta festa que ninguém demonstra que tenha tido nada de relevante (o que não impede o Ministério Público de a investigar), sem que ninguém, nem a jornalista, se pergunte de onde apareceu o vírus na festa.

A coisa é extraordinária: uma rapariga tem sintomas sem nenhum problema, testa positivo, desata toda a gente a ser testada e, milagre, aparecem não sei quantos testes positivos (27, para ser mais preciso), dos quais 17 estão internados.

17 internados já é um número de respeito e surpreendente para um surto com poucos dezenas de testes positivos em gente bastante nova, mas só é surpreendente até ao momento em que se percebe que os 17 internados nem sintomas têm, mas como são estudantes maioritariamente de São Tomé e Príncipe, a viver em residências colectivas - universitárias ou não, mas aparentemente universitárias na sua maioria - estão internados porque é a maneira de cumprirem o isolamento que foi determinado.

Eu não entendo toda esta loucura, o normal seria avisar toda a gente de que havia um teste positivo e que se alguém tivesse sintomas fosse ao hospital para ser tratado e, se quiserem, testado (saber se a pessoa testa positivo ou não para a covid é clinicamente irrelevante, não existem tratamentos específicos e portanto o que se vai fazer é controlar os sintomas, sejam eles provocados por covid ou por outra coisa qualquer).

E a vida continuava naturalmente, sem grandes perturbações, com uma avaliação da situação que ajudasse a melhorar o desempenho nos contágios, sobretudo no caso de haver pessoas de maior risco.

Haver infecção sem doença sempre foi considerado bom, é preciso repetir isto vezes sem conta, até uns malucos começarem a dizer que era preciso ir atrás do vírus para resolver o problema na fonte, coisa que até hoje nunca foi feita e sobre a qual não existe a menor evidência empírica de que seja boa ideia, fora de fases muito iniciais de uma doença, quando ainda tem só um foco bem delimitado e geográficamente restrito.

Bem sei que me vão responder que não sabemos se há imunidade e se persiste, havendo alguns indícios de que talvez não perdure muito.

Este argumento tem um problema: se não há imunidade, ou se ela desaparece rapidamente, então esqueçam a vacina.

Ou seja, a famosa preparação para o pior cenário deveria ter esta base: o que fazemos se não houver vacina?

Continuamos todos a funcionar assim ad aeternum ou, na melhor das hipóteses, até que haja algum tratamento específico?

O simples absurdo desta hipótese, ou da alternativa ainda mais absurda de liquidar o vírus através de medidas sociais, deveria ser suficiente para nos deixarmos de fantasias e lidar com a doença de forma normal: estudando, identificando riscos, adoptando medidas sensatas de gestão de risco, tratando os doentes (o que não é o mesmo de internar pessoas assintomáticas que testam positivo) e "viver como habitualmente".

A menos que alguém apareça com uma resposta clara à pergunta: o que fazer se não houver vacina?

Ou, de outra maneira: qual é o plano para sair disto, no pior cenário?

Vai tudo ficar bem?

por João Távora, em 07.07.20

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É para mim evidente que o coronavírus é uma ameaça que a prudência obriga a que cada um assuma uma atitude profiláctica, principalmente para se proteger os membros mais frágeis da comunidade. Dito isto, está nos manuais, toda a gente sabe que um dos assuntos que mais vendem jornais é a doença - e isto é um assunto sério. É sabido que uma epidemia é um pitéu para vender notícias, mais ainda se o ‘media’ for sensacionalista, que assim se dispõe a dar ao povo a emoção alienante por que anseia, com uma justificação moral do “quem te avisa teu amigo é”.
A minha dúvida é como é que se pretende animar a economia com mensagens tão contraditórias. É irónico que os media lamentem a exclusão de Portugal dos corredores aéreos britânicos para o turismo ao mesmo tempo que andam à cata de mosquitos na outra banda, seja de residuais complicações da infecção em jovens ou da propagação do COVID19 por aerossóis. Perante o medo instalado estará a generalidade das pessoas disposta a ver as esplanadas de Albufeira ou de Alfama cheia de ingleses eufóricos a beber cervejas? Não me parece.
Definitivamente não existe um ambiente propício para a urgente retoma económica, para mais num país tão dependente dos negócios hoteleiros - tornámo-nos na taberna fina da Europa (nada contra!). Do lado de lá da fronteira e… do lado de cá. Experimentem dar uma volta nocturna no centro da vila de Cascais, Bairro Alto ou Vilamoura para se ter a noção do tamanho do desastre que se avizinha. Enquanto a metade do País que vive de rendimentos garantidos se enrosca assustada no sofá ao serão a ver telejornais transmitidos em directo duma qualquer enfermaria de hospital. Acreditam mesmo que isto vai tudo ficar bem?

Santo Efraim nos valha...

por João Távora, em 24.06.20

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Isto agora do governo pretender que depende do comportamento de cada um não ser infectado com o COVID 19 é uma crença tão conveniente quanto perigosa, a despertar os magotes de torquemadas adormecidos. Sem que isso dispense a prudência, enquanto não houver uma vacina a doença será uma ameaça de que ninguém está livre a não ser que se encerre dentro duma redoma. Já dizia Santo Efraim, compositor e doutor da igreja (306 - 373 DC) que são 3 as grandes tentações com que nos confronta uma crise como a que vivemos: a preguiça, o desânimo e a ânsia de domínio – esta última é no meu entender a mais daninha.

Se necessário fosse, a crise do coronavírus demonstrou à saciedade como há demasiadas pessoas conformadas e até contentinhas com o sombrio destino do nosso país, acomodado como um pedinte na cauda da Europa. Vai ficar para a história a forma disciplinada como nos fechámos todos em casa e toureámos o vírus que se dá mal nas periferias - um orgulho nacional. Somos óptimos a estar quietos.

PS.: O número nacional de infectados de hoje (285 novos casos quase todos localizados em Lisboa e Vale do Tejo) está muito próximo da média diária na mesma região no pico da crise. Vão mandar o pessoal fechar-se todo em casa, ou mudou alguma coisa?

Ninguém gosta de quem duvida do pai natal

por Convidado, em 25.05.20

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Não é um tema novo ou sequer muito relevante neste momento. Mas a repetição ad nauseam de críticas estúpidas á opção Sueca, começa a ser insuportável e merece resposta. Sobretudo quando acontece em jornais respeitáveis como o DN, que voltou ao ataque sob o titulo, a Suécia fez diferente. E foi mau na saúde e mau na economia. Como exemplo de mau jornalismo parece-me perfeito: não é objectivo, os factos são irrelevantes e as conclusões são basicamente todas erradas.

É tão evidentemente possível criticar o caminho seguido pelos suecos como a resposta padrão do confinamento compulsivo seguida por quase todos os países. O que não é aceitável é faze-lo de forma tão pouco inteligente, incorreta e pouco séria, como costuma ser feita, e de que o ultimo artigo do Diário de Noticias,  em titulo, é um perfeito exemplo.

Há que lembrar que os suecos, ao contrario dos outros Europeus, não foram tratados como crianças ou inimputáveis. Só este facto merece destaque pela positiva e justifica a opção por eles assumida. Será esta a razão para ser tão raivosamente atacada as diferença de opções dos políticos suecos?

Há que lembrar, que nenhum país, com uma economia aberta, pode ter bons resultados económicos, quando todos os outros confinaram e entraram em recessão profunda. 
É simplesmente alarmante que num jornal como o DN, assumam previsões como realidades absolutas que permitam julgamentos. E pior, que não percebam que as previsões usadas para a Suécia, são menos negativas do que as de países que realizaram confinamentos mais rigorosos. Ou seja, apesar dos inevitavelmente  maus resultados previstos para a Suécia, estes são menos maus que os das previsões de outros países. A conclusão que se poderia tirar é exatamente a contraria da conclusão apresentada: economicamente a opção Sueca foi melhor.

A bandeira negra da superior mortalidade apresentada pela Suécia, relativamente a alguns países, nomeadamente Escandinavos e Portugal é um argumento tão errado como tendencioso. Um confinamento, mais ou menos rigorosos, tem uma tradução diferente no número de infectados. O confinamento protege-nos da possibilidade de ficar infectados. A mortalidade depende da virulência da infecção, das condições físicas gerais do infectado  e de outras variáveis, algumas ainda desconhecidas. Mas que nada têm a ver com o modelo de confinamento!

As criticas á possibilidade de ser atingida a imunidade de grupo são em simultâneo  alarves e um tiro no próprio pé do autor do artigo, quem quer que seja o infeliz. Os argumentos que ridicularizam a possibilidade de atingir a imunidade de grupo, são o não estar provada a imunidade de quem tenha sido infectado (o que não é verdade) e não se saber por quanto tempo essa possível imunidade seja efetiva (desvalorizando uma imunidade da mesma forma que se pode desvalorizar a valia de qualquer vacina). Finalmente critica a real possibilidade de atingir essa imunidade de grupo, porque os dados objectivos do número de pessoas infectadas são inferiores às previsões (que tentam corrigir os números daqueles que já foram infectados mas ainda não apresentam anticorpos) e representam um número pequeno, demasiado pequeno (neste caso 7,3% da população) para poder aspirar a uma imunidade de grupo. Esquecendo que se assim for, o que está a  demonstrar é que o modelo Sueco não é assim tão diferente em termos dos resultados do confinamento convencional.   Uma critica brilhante!

A grande diferença do modelo sueco, para além do respeito ao cidadão, é que ao contrario do seguido pela generalidade dos países, não é um modelo optimista. Posto de forma simples, os suecos não acreditam no pai Natal. Que vai fazer desaparecer o vírus por si só, trazer uma vacina em tempo útil ou fazer chover um remedio milagroso. Só estes milagres podem justificar a opção seguida pela generalidade dos outros países: impedir infecções a todo o custo, até á solução definitiva do problema. Sem milagres, só

a imunidade de grupo poderá parar a pandemia. E a discussão é apenas esta: acreditar ou não acreditar que vai existir uma solução que não passe pela infecção de uma  percentagem da população, qualquer que ela seja, que a liquide, por imunidade de grupo. Neste momento, ambos os cenários são possíveis, embora, de acordo com a OMS, seja mais provável que a pandemia se extinga por ela própria.
Sem milagre no horizonte,  o ideal é que sejam os grupos não de risco que sejam infectados, e que o tempo da infecção seja o mais rápido possível sem ultrapassar os limites dos sistemas de saúde. Tal como está a ser pretendido na Suécia. 
De resto, respeitando os seus cidadãos, assumem, tal como os outros, a proteção (e os grandes falhanços) relativamente aos mais vulneráveis e medidas de distanciamento social, embora menos restritivas e mais sustentáveis no tempo. O que, curiosamente, os “furiosos” do confinamento estão agora a adoptar. Não o assumindo,  ou reconhecendo que menos desconfinamento, é sempre maior risco de infecção. Mas que deve ser enfrentado porque é necessário regressar á vida normal, sob pena de falência grave das sociedades.  A sanha às respostas diferentes àquela seguida pela generalidade dos países, é tanto mais estranha, porque não devia suscitar insegurança dos mais conformistas, de tão acompanhados que estão. Será porque ninguém gosta dos que duvidam do pai natal?

 

PS: Nesta pandemia, não vou ficar com imagens de solidariedade humana que costumam aparecer nos momentos mais terríveis da história da humanidade. O que me impressionou foi a recusa tão determinada e aflitiva à inevitabilidade ou mera possibilidade da morte. E o enorme egoísmo de quem achou a pandemia perigosíssima, mas achou normal e devidos os enormes riscos assumidos por quem teve que continuar a trabalhar para não morrermos todos à míngua.

José Miguel Roque Martins
Convidado Especial*

* As opiniões manifestadas pelos nossos convidados são da sua exclusiva responsabilidade.

Bons exemplos

por Convidado, em 18.05.20

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Estou farto de estar a criticar e, por isso, decidi escrever sobre alguma coisa boa, o que é muito mais agradável mas muito mais difícil de encontrar no meio desta crise.

Ontem a Suécia ultrapassou Portugal no número de infectados confirmados. Nunca escondi o minha preferência pela estratégia sueca. Em primeiro lugar, por ser tendencialmente mais sustentável do que a nossa. Em segundo lugar, porque o Estado não trata os Suecos como inconscientes, como aconteceu em Portugal.

O futuro irá confirmar quem consegue melhores resultados. Mas confesso que independentemente do que acontecer, dificilmente deixarei de pensar que eles foram os campeões europeus do Coronavírus. Entendo a estratégia , aprecio a serena coragem e deliro com o respeito ao cidadão.

Não resisto a juntar o gráfico de infecções diárias do  worldometer da Suécia:

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Ao contrario da generalidade dos Países, não se nota uma queda evidente das infeções ao longo do tempo, o que confirma as medidas mais leves e menos potentes de distanciamento social que a Suécia implementou. Suficientes, no entanto, para impedir um crescimento exponencial dos casos, como foi garantido por muitos autores.

Embora muito ligeira, descortina-se uma ligeiríssima queda das infeções, eventualmente explicada pela comunicada baixa de casos em Estocolmo, onde, supostamente, 25% da população já está infectada e por isso já existe um grau relativo de imunidade de grupo.

As mortes continuam a ser, para já, muito superiores aos outros países da Escandinávia, mas muito inferiores aos dos países mais fustigados pela letalidade. Em termos práticos, tudo está em aberto, mas já se nota uma diminuição expressiva das criticas á “louca roleta russa” ou “capítulo vergonhoso da história do pais” como já a vi ser citado. Um bom exemplo para continuarmos a acreditar ser possível a liberdade e o bom senso.

 

PS: Uma confinação menos severa, não foi determinada para atingir a imunidade de grupo e muito menos por interesses económicos. A consciência de que a pandemia será prolongada no tempo, tornou evidente a futilidade de medidas

José Miguel Roque Martins
Convidado Especial*

* As opiniões manifestadas pelos nossos convidados são da sua exclusiva responsabilidade. 

Uma questão de decência

por João Távora, em 14.05.20

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Ontem voltei a Lisboa utilizando os transportes públicos e andando na rua como costumo fazer com gosto nas minhas voltas, para sentir o pulsar e usufruir dos encantos da minha cidade natal. Curioso é como comboios da linha de Cascais deixaram de ter revisores que foram substituídos por polícias aos pares a corrigir com voz grossa a forma como os passageiros usam a máscara. Estão impantes com o estado de excepção e ainda receei que descobrissem que a minha não é certificada.

A crise que temos vivido tem o condão de por a nu a profunda divisão entre a maioria da população que é privilegiada e os mais desfavorecidos, operários e trabalhadores não qualificados, que quando eram muitos foram pretexto para as causas populistas dos partidos de esquerda, que agora os abandonaram, entretidos com os conflitos de costumes. Para perceber o panorama que ontem encontrei no Cais do Sodré ao fim da tarde, é imaginar-se como era a estação antes do coronavírus, e subtrair os turistas, os estudantes, os reformados e alguns funcionários e profissionais liberais que não gostam de engarrafamentos no trânsito. O que sobra é um formigueiro de gente humilde, maioritariamente imigrantes, trabalhadores braçais, empregadas de limpeza, que enfrentam o medo do vírus com o pragmatismo dos sobreviventes. Foi isso que eu testemunhei ontem.

Digo-vos uma coisa: aconselho-vos vivamente a saírem quanto antes das vossas bolhas, para perceberem que não existe coisa mais reaccionária (classista) que o confinamento, o teletrabalho e o “distanciamento social” que afinal sempre foi capricho dos possidónios. Que as pessoas saudáveis retomem uma vida normal, pois é a melhor maneira de evitarmos a discriminação e impedir a miséria. É uma questão de decência.

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Graves parecem-me as declarações de António Costa que li no Observador e no Diário de Noticias na semana passada: “Questionado sobre se não partilha da ideia de que podíamos controlar apenas as pessoas mais velhas e quem cuida deles, deixando os restantes ser contaminados e curar-se naturalmente, Costa diz que em Portugal “essa estratégia não seria socialmente compreendida”. Prova disso é que antes mesmo das ordens de encerramento, o povo português teve um sentimento geral de autoproteção. “Não podemos adoptar uma estratégia que não consiga mobilizar os portugueses”, explica.” “O que eu acho que era a estratégia correta para mobilizar o conjunto do país era a ideia de que temos de nos proteger uns aos outros”, diz.

Noutra entrevista, no Diário de Noticias, defendia que, ao contrario do que aconteceu no Estado de emergência, era tempo de deixar de tratar de forma diferenciada os mais velhos, já que poderia provocar a estigmatização deste grupo.

Aparentemente, para António Costa, não importam os reais méritos de diferentes opções de políticas sanitárias (que nem se discutem), importa apenas o que ele sente serem os humores do povo, aquilo que o possa “mobilizar”. Estratégias mais eficazes não merecem ser seguidas, defendidas ou até apresentadas, se não corresponderem à ideia que o Governo tem do que o povo mais aprecia. A governação é então a arte de ter bons palpites relativamente ao que motiva o votante, desconsiderando a valia intrínseca de opções disponíveis. Compete ao Governo ir legalizando o que sente ser o desejo popular.

Sugere António Costa que, “protegermo-nos uns aos outros” é inconciliável com qualquer outra estratégia senão o confinamento.  A medida que o Povo escolheu e que o Governo implementou. Um ser provavelmente mais instintivo e primário que racional, o homem do povo, é também particularmente teimoso. Uma vez decidido que o seu caminho é a autoproteção, escolhe a forma como esta será exercida (o confinamento) e não admite alterações, mesmo que tudo o resto se altere. Não competirá ao governo, nem alertar para as opções aconselháveis, nem escolher ou sugerir novos caminhos. Há que respeitar o autismo do povo. Desde que ele começou a pretender mais do que pão e circo, é difícil motiva-lo e não se pode contraria-lo (a não ser com novos impostos).

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Finalmente, António Costa, elimina tratamentos diferenciados aos mais velhos, o grupo de maior risco, para que estes não se sintam estigmatizados. Uma ideia que estabelece que o princípio de igualdade, tem que ser aplicado sem consideração por diferenças objectivas de circunstâncias. A seu tempo, parece-me que chegaremos à prescrição do mesmo medicamento para todos, independentemente da doença que aflija cada um, atingindo-se a igualdade plena e nenhuma estigmatização.

Em Portugal e no Mundo, mais de 95% das mortes registadas são de maiores de 60 anos, que, no nosso país, correspondem a menos de 30% da população.

Ignorar factos e diferenças objectivas implica uma variante, para pior,  da tradicional política socialista, que costuma concentrar benefícios em alguns e distribuir os custos por todos. Neste caso, distribui-se e multiplica-se o ónus por todos, sem beneficiar ou isentar ninguém.

Institui-se, então,  uma pretensa igualdade acéfala e que só existe nas eventuais intenções do Governo e no seu formidável discurso político: o “estarmos todos no mesmo barco”.  

Que igualdade existe entre os que têm 20% de taxa de mortalidade e aqueles que têm uma taxa próxima de zero? Que igualdade existe entre os que continuam a trabalhar fora das suas casas, expostos ao vírus, e aqueles que ficam confinados em sua casa, supostamente protegidos? Que igualdade existe entre os que têm o seu rendimento intocado, aqueles que mantêm uma parcela do seu rendimento, aqueles que perderam todo o seu rendimento, aqueles que faliram e aqueles que já passam fome?

Cada vez mais, em Portugal e no Mundo, parece que mais vale cair em graça do que ser engraçado.

PS:  Não nos podemos esquecer que o confinamento, em  termos de sustentabilidade, é muito próximo da solução de suster a respiração e fechar os olhos, para não se ser infectado:  funciona, até ser necessário voltar a respirar. Pelo que parece estar na altura de medidas responsáveis, mesmo que não populares.

José Miguel Roque Martins
Convidado Especial*

* As opiniões manifestadas pelos nossos convidados são da sua exclusiva responsabilidade. 

Estado de sítio (26 e último)

Este país que tudo aguenta...

por João Távora, em 05.05.20

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Coronavírus hoje em Portugal – 25.702 casos, 1.074 vítimas mortais

Ontem retomei o trabalho no meu escritório em Cascais, agora que em casa as rotinas do novo normal estão estabilizadas. Os miúdos têm aulas virtuais com horários e a nossa empregada voltou ao serviço, que significa um considerável alívio nos afazeres domésticos.

Esta manhã à porta do meu escritório fui intimado a manter distância por uma senhora descabelada que passava na rua (bastante afastada diga-se) e que me tirou do sério. Desconfio que haverá muita gente que, sugestionada pelo disparatado cartaz da câmara municipal, não só "perdeu o medo de ter medo", como está a adorar a experiência. Outra impressão que me fica da vila de Cascais por estes dias é que, na ausência de turistas, e estando ainda encerrados ou a meio-gás a maior parte dos organismos públicos, o perfil da população com que nos cruzamos nas ruas é maioritariamente composto por imigrantes, gente que não se pode dar ao luxo do teletrabalho e menos ainda ao confinamento. Será esta pobre gente a maior vítima do coronavírus, suspeito. Nota-se que a maior parte das lojas, tirando os bares e restaurantes, já abriram as portas mas desconfio que os clientes ainda serão poucos. Cascais sem forasteiros não tem economia que lhe valha.

Uma nota ainda sobre o escândalo das celebrações do 1º de Maio na Fonte Luminosa, por decreto presidencial e votado quase unanimemente no parlamento, enquanto as autoridades expulsavam algum afoito cidadão que se atrevesse a ler um livro num banco do jardim: trata-se quanto a mim um paradigmático acontecimento, muito mais grave do que nos querem fazer crer. Aquele circo diz muito sobre a irrelevância da nossa sociedade civil e da tibieza das nossas instituições, que com demasiada facilidade se ajoelham às oligarquias do costume que nos toureiam e tomam por parvos. As desculpas esfarrapadas de Marcelo Rebelo de Sousa são confrangedoras e uma metáfora do país que somos – temos aquilo que merecemos. Sintomática é também a complacência da maior parte da comunicação social “de referência” e das suas principais personalidades que se submetem sem pudor à subterrânea lei dos donos disto tudo. Expulsaram eles os nossos saudosos reis para suportarmos, mansos e venerandos, esta porca miséria. Às vezes tenho vergonha de fazer parte desta charada a que chamam país. Que aguenta tudo, bem sei.

Com esta crónica termino esta série que intitulei “Estado de Sítio”, a modos que o meu testemunho destes tempos estranhos em que um vírus de medo nos contagiou a todos e que nos fez viver confinados nas nossas casas durante quase dois meses. Aqui chegados, sobrevivemos. Espero que os danos sofridos tenham valido a pena, porque suspeito que a mais assustadora peste é o que vem a seguir.

Viva a república! *

1 de Maio em tempo de pandemia

por João Távora, em 01.05.20

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Talvez em termos de salubridade não advenha daqui mal algum. Mas a questão aqui é de regime, do favorecimento às suas oligarquias em contraste com as outras proibições: note-se que estão proibidas as deslocações entre concelhos ou celebrações religiosas.

* Este tipo de fenómeno de submissão aos comunistas estalinistas não acontecem nas democracias mais desenvolvidas.

A soberba do Homem Branco?

por Convidado, em 30.04.20

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Em termos do número de testes realizados, os nossos responsáveis não têm poupado: Portugal é o país com mais de 3 milhões de habitantes, que mais testes efectuou proporcionalmente à sua população. No dia 29 de Abril o valor reportado no worldometer é de 37,223 testes realizados por milhão de habitantes.

Os Sul Coreanos, apresentam, na mesma data, 11,980 testes por milhão de habitantes que com menos de um terço dos testes, conseguiram resultados impressionantes. O número de infectados e mortes por milhão de habitantes é de  210 e 5, respectivamente. Muito menores que os valores apresentados em Portugal e de forma geral, pelos países atingidos pela epidemia. Melhor do que os registos acumulados, é o facto de,  depois de um rápido surto que transformou a Coreia do Sul no segundo pais mais atingido, as contra medidas tomadas, controlaram muito rapidamente o surto, baixaram drasticamente os novos casos de infecção diária, que, há já algum tempo, ficam na casa de um dígito .  

A explicação para tão bom desempenho não pode ser atribuída a medidas de distanciamento social especialmente rigorosas, num pais que nunca retirou amplos direitos aos seus cidadãos, como aconteceu na Europa.

Parece que temos muito a aprender e sabemos quem nos pode ensinar. Só não percebo porque nem nós, outros europeus e norte-americanos o fazem! Será a soberba do Homem branco?

PS: Não apenas a Coreia do Sul, mas muitos outros países asiáticos, contrastam muito positivamente com o que está a acontecer na Europa e América do Norte.

José Miguel Roque Martins
Convidado Especial*

* As opiniões manifestadas pelos nossos convidados são da sua exclusiva responsabilidade. 

Estado de sítio (25)

O Pós-guerra

por João Távora, em 29.04.20

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Coronavírus hoje em Portugal – 24.505 casos, 973 vítimas mortais

Não é sem algum incómodo e até angústia que percepciono pelas redes sociais sinais de indignação e resistência ao inevitável retomar da normalidade, que se expressam em diferentes matizes: os rezingões a espreitar da janela as famílias que já se atrevem a sair à rua com as suas crianças, os snobes que bocejam contra o reatamento dos jogos de futebol, e os outros que se sentem ameaçados por uma suposta visão economicista que se estará a sobrepor ao sagrado valor da vida humana, escondida atrás do alívio das medidas de confinamento. Perante isto e a absoluta incerteza quanto à perspectiva duma imunidade ao COVID-19, seja por via natural ou por via de uma vacina disponível para toda a gente, parece-me urgente que cada um assuma a sua responsabilidade no esvaziar da bolha de medo em que comodamente nos instalámos, e na promoção dum retorno progressivo à normalidade. E não me venham com a história de que uma vida humana não tem preço, pois toda a gente sabe que tem, desde logo o sabem as instâncias do Estado que todos os dias rejeitam medicamentos inovadores por avaliação custo vs benefício (o que valem alguns meses de vida para uma pessoa com cancro?).

Assustadora me parece a passividade com que nas últimas semanas prescindimos da nossa liberdade e do sentido crítico, a facilidade com que tantos vigiam, julgam e denunciam outros mais afoitos, rejeitando liminarmente quem recuse a narrativa dominante, a crise vista da enfermaria. Se ser hipocondríaco é um capricho pequeno-burguês, o resto revela-nos bem como vivemos tão conformadamente os 48 anos do Estado Novo.

O que é facto é que ontem num passeio ao centro de S. João do Estoril constatei que o pessoal está a por a cabeça de fora, que as pessoas comuns que não possuam gordas economias, ou vivam de rendimentos ou pensões, estão em vias de desesperar. E que até aos mais resistentes a psicose do isolamento começa a fazer estragos. É urgente que os poderes mudem a narrativa, corrijam o caminho, pois parece evidente que vamos ter de viver com o coronavírus à porta de casa durante muito tempo e este ambiente de medo não pode prevalecer. Temos de assumir o risco e sair das nossas casas, se queremos voltar a reencontrar os nossos pais vivos e não causar danos irreversíveis às nossas crianças em prisão domiciliária. E obter sustento para levar para a mesa.

E a todos que acreditam que estamos a travar uma guerra, é bom que entendam que em face à devastação ocorrida, será no convívio com o inimigo que teremos de dar início ao movimento de reconstrução das nossas vidas, trabalhos de hércules em que todos somos convocados a participar. Quanto antes. 

Socialismo para sempre

por João Távora, em 26.04.20

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"Outras proibições e impedimentos hão-de vir, porque eles lhe tomaram o gosto, descobriram que nada põe o Zé Povinho tão depressa de joelhos, calado, sem vontade de refilar, como o medo da infecção."


Rentes de Carvalho

Estado de sítio (24)

Síndrome de Estocolmo

por João Távora, em 26.04.20

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Coronavírus hoje em Portugal – 23.864 casos, 903 vítimas mortais

Ontem dia 25 de Abril de 2020 um artigo de Francisco Louçã sobre democracia fez capa da revista do Expresso e ninguém se sobressalta, ninguém questiona. Estamos enterrados na porcaria até ao pescoço mas achamos normal. A isto chama-se síndrome de Estocolmo. Aqui na praceta onde moro a efeméride passou ao lado, às 15,00hs fui à janela e népias: os meus vizinhos têm a noção do ridículo. Um amigo, confrontado com o silêncio na sua rua do centro de Lisboa, telefonou-me a alertar que na televisão tinham anunciado que “os portugueses tinham cantado o Grândola à janela”. Ainda bem que existem noticiários para nos chamar à razão.

Entretanto cá por casa a vida segue uma rotina saudável, hoje assistimos em família à missa pela televisão e fiz uma lasanha para o almoço. Comprámos máscaras que usei ontem pela primeira vez quando fui ao supermercado. O truque para as usar é baixar os óculos no nariz para não embaciarem. Acreditamos que em Maio a vida vai normalizar um pouco, as autoridades já avisaram a retoma de venda de passes sociais. Gostava que os miúdos retomassem as aulas, principalmente o mais pequeno, pois desconfio que o confinamento para ele seja especialmente prejudicial por causa dos jogos electrónicos em demasia. Eu já me decidi, vou voltar a trabalhar do meu escritório em Cascais, também na expectativa de sinais de alguma retoma – pelo menos arejo a cabeça. Suspeito que um efeito colateral desta crise em Portugal seja a consolidação do socialismo e de mais pobreza. Nestas alturas é que me calhava um emprego no Estado…



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