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Pelo fim da manhã
Fumar ou não fumar
Duas iniciativas legislativas aparentemente não relacionadas entre si merecem alguma reflexão: estou a referir-me à lei do tabaco entrada em vigor no início do presente ano e às alterações que o governo pretende introduzir no código do trabalho. Imagine-se alguém que tendo desempenhado as suas funções sem qualquer problema até 31 de Dezembro passado, fumador inveterado, cujo local de trabalho é por exemplo um 6º andar, impossibilitado de fumar nas instalações onde exerce funções, se desloca durante um dia de trabalho umas cinco ou seis vezes à rua, estamos a falar dum médio fumador, dez minutos cada cigarro, mais elevador, subir e descer, irá gastar cerca de hora e meia diária com o seu vício, agravadas pela quebra de ritmo, pelo que será previsível uma baixa de produtividade de tal trabalhador.
Será legítimo que a sua entidade patronal, face à quebra de produtividade do seu empregado, o vá penalizar em termos salariais, podendo inclusive ponderar a sua substituição por outro isento de hábitos tabagísticos? Será exigivel à entidade patronal continuar a suportar os custos e actualizar se possível o salário de tal trabalhador quando o mesmo já não apresenta os resultados anteriores? E se tais resultados eram absolutamente necessários à sobrevivência da empresa? Ficará esta amarrada à manutenção deste funcionário, obrigada a contratar um terceiro para fazer parte das tarefas que o primeiro até aqui assegurava? E se a empresa apenas conseguir honrar um dos compromissos salariais?
Permitirá o código do trabalho, a bem da sobrevivência económica duma empresa, discriminar alguém apenas por ser viciado em cigarros? Despedido o trabalhador, iremos todos enquanto sociedade suportar os custos do subsídio de desemprego a tal cidadão, e ainda onerar o SNS com consultas de desabituação tabágica, acrescidas da despesa que a SS irá realizar na comparticipação dos medicamentos?
De todo este problema que aqui apresentei, o qual poderá estar a ocorrer num qualquer escritório perto de nós, qual terá sido a variante da equação capaz de causar todo um drama? Porque se a empresa decidir tolerar o hábito do seu funcionário sabemos as multas em que incorre e quem são os ninjas de serviço prontos para a acção, bem como os rostos que irão justificar tal actuação.
António de Almeida (do blogue Direito de Opinião)
À espera de Copérnico antes que chegue Godot
A palavra (sentimento?) que mais palpita nestes tempos é crise. Pelo petróleo, pela comida e pela vida. Por isto, aquilo e aqueloutro.
Talvez estejamos mesmo na dita cuja. Mas talvez ainda não estejamos tão aflitos quanto se pensa. Afinal, quando ela aperta mesmo, deixamos de lado as palavras e procuramos mais os actos que nos sirvam para, pelo menos, minorar a condição declinada.
De qualquer modo, a crise, do Ocidente, entenda-se, pois é dessa que falamos, é um sinal destes tempos. Como se pode falar de crise noutros pontos do globo, se muitos tudo dariam para ter a crise que nós temos? Que para algumas bem significaria o paraíso!
O pulsar do globo começa a mudar. Vivemos num tempo de profunda transformação. Como nunca se verificou desde os tempos de Roma. Os centros de poder, decisão e influência começam a dar os primeiros passos de transferência.
As margens do Atlântico norte dão por si, paulatinamente, a perder poder. Que margens no Índico e no Pacífico ganham. E, a médio prazo, perspectiva-se que o Atlântico Sul também obtenha mais proveitos.
Enquanto isto sucede, o Ocidente vai sofrendo nestes dias com o sentimento do tapete escapar-lhe do chão. E pensa-se, e foca-se, apenas, nas questões nacionais, como se fossem estas, isoladas do enquadramento global, o problema. Mas não são. São questões transversais e comuns. E, nada de ilusões! Apesar do aparente e apelativo convite dos nacionalismos, com as suas respostas simples, sem sentido nem fundamento, esses argumentos foram a forma mais célere e desastrada para o infortúnio.
Por mais que se resista e/ou não apreciem estes tempos, os desafios são comuns aos blocos geográficos e culturais. E as respostas que se pretendem dar, isoladamente, a qualquer desafio, estão condenadas ao fracasso, porque uma nova realidade, multipolar, está a emergir como nunca se verificou antes.
É por isso que precisamos de um Copérnico na política europeia, que refira e nos faça sentir, a nós, europeus, que o globo já não gira à volta apenas e para o apêndice asiático que controlou o mundo durante séculos. Nem considerar, como o pensamento ancilosado da Guerra-Fria ainda dominante em alguns círculos europeus, que na outra margem está uma potência rival e sem problemas. O Tio Sam também está a sentir certas coisas a fugirem-lhe da esfera de controlo.
É preciso mudar de paradigma, para que não fiquemos à espera de Godot.
Carlos Manuel Castro (do blogue Palavra Aberta)
O convite
Corta-Fitas
Do Miniscente para vós
Houve um tempo em que blogar se traduzia por um frenético delírio. Como as guitarras eléctricas a meados dos sixties. Som pelo som, imagem pela imagem. Fluxo pelo fluxo. Assim aconteceu ao sabor da redenção instantânea, da edição própria e ainda das névoas baixas que, nas cidades portuárias, sugerem as maiores proximidades. E paixões. Todos nos conhecíamos – por vezes, horroriza-me este átono “nos” –, como se o neo-botequim veneziano aproximasse a pele, as canduras, os olhares e a espuma líquida do ser. As polémicas sabiam a pouco. E grande parte do afã tornava-se num esforço menor, tal era a intensidade que a descoberta do novo meio ia suscitando. A mais bela ilusão das auroras boreais, pois então. E foi assim que, de um momento para o outro, o “link” se tornou na síndroma da novíssima coerência. Ou na deusa voadora que tramaria a inocência de qualquer misantropo mais desprevenido. Correctíssimo: pecava todo aquele que não decidisse “linkar” (houve mesmo quem generosamente propusesse o verbo “lincar”). Os mandamentos imploravam resposta, não diria urgente, mas, no mínimo, soprada e moldada no agora-aqui. Com fulgor irrequieto, resoluto e imediato. Todas estas transpirações foram feitas de pura paixão, de procura de tom e de alguma – mínima – adequação. Sim, houve a necessidade de encaixar as linguagens herdadas a um meio para o qual não haviam sido afinal inventadas. Foi essa, também, a grande paixão. Pela rede pessoalizada. Pelo oceano da expressão radicalmente autónoma: essa matéria que fez disparar o corpo para além do corpo e que transformou a vertigem numa estalactite sem gruta, nem direcção. Estalactite omnipresente. E tão fértil. E agora? Agora, sem meta nem corredor que se possam medir, a blogosfera aportou. Ancorou. E a palavra já circula a bordo do cais e, ao mesmo tempo, no éter intempestivo e no vácuo. A palavra e as imagens a que as neuro-aparições chamaram blogue. É verdade, a blogosfera está cansada da paixão e só já quer que a deixem em paz. Que a deixem os princípios, as polémicas esvaziadas, as metalinguagens das tartarugas, os ‘sitemeters’ e as compulsões adolescentes. A blogosfera só já quer que lhe dêem conforto (reparem como foi incorporada pelos media formatados: jornais, sites e portais de televisões, etc.). Hoje, ser blogue passou a ser ‘ser gente’. E não mais ‘ser visionário à beira de um quebra-gelos ilimitado’. Hoje a blogosfera cansou-se de ser uma coisa extraordinária, ímpar e incomum. Hoje a blogosfera pede que a alimentem com a mansidão dos ninhos primaveris. A blogosfera está cansada e é por isso, muito provavelmente, que, só ontem, dois blogues - far-se-ão ver em breve! - me convidaram para enviar um texto, digo… um post. Sem parágrafos. Cá vai ele. Com prazer, já agora. Do Miniscente para todos vós.
(do blogue Miniscente)
Taninos e sabores frutados
Problema número 1 - “Caros senhores, recebi com surpresa e agrado o vosso convite para cortar uma fita aí na vossa elegante mansão”, respondi ainda atordoado. Ao júbilo do primeiro momento foi-se acrescentado o pânico e a dúvida, algo me gritava aos ouvidos “não estás a ver que eles se enganaram?”, pelas reduzidas capacidades do meu cérebro, agora ainda mais reduzidas pelo choque do e-mail acabado de ler e que “só pode ter vindo parar à morada errada ou então é spam, já não me chegava ter a Brenda, e Ana e a Patricia a prometerem um “penis enlargement” de fazer inveja ao John Holmes, agora também recebo disto”.
Estava a meio caminho de atirar com a mensagem do "Desassosego" para o lixo quando um último relampejo de socialidade e fé no futuro me soprou para os ouvidos “olha lá o melhor é responderes ao remetente, o Pedro Correia não vai ficar chateado contigo por isso, quando muito confirma-te as suspeitas”:
- Caro Hélder Franco por razões que não lhe consigo explicar esse e-mail chegou à sua caixa de correio, na realidade pretendia convidar o Omar Telo, do blogue Ónus do Vil Metal, mas o corrector ortográfico fez das dele. (…)
Puro engano, ou uma generosidade do outro mundo, a resposta foi na realidade: “contamos consigo”. Ora esta mensagem entregou-me ao problema número dois: “Mas o que raio vou eu escrever?”. No meu quadro de ardósia mental, escreveram-se tópicos, assuntos e parvoíces – por azar vieram mesmo calhar a esta última as decisões finais desta missiva. Política – Deus me livre, isso era o mesmo que assinar o meu pedido de extradição para um gulag na Sibéria; Ferreira Leite e Pacheco Pereira – lembra-te de não fulanizares a coisa que eles conhecem os senhores em questão muito melhor que tu; Cinema – isso era coisa para levares uns 7-1 –deixa mas é de ser parvo; Desporto – ah e tal e coisa e não sei quê, quando isso sair já os teus dotes de professor Karamba estão desactualizados e a selecção voltou para casa, carregada em ombros pela energia positiva de quem empurra o autocarro que o gasóleo está caro.
Depois de cinco dias nisto desisti. Mandei um e-mail ao Pedro Correia em que fiz questão de agradecer o convite e lembrei-me da única coisa que poderia fazer a quem tão amavelmente me recebeu: fica já guardada uma garrafa de Quinta de Sant’Ana 2006 para que estejam etilizados o suficiente na hora de apreciar este texto. Azarado como sou, o Duarte Calvão ainda me vai trucidar com os taninos, aromas frutados e outras coisas que tais, porque isto na realidade há dias em que nem os textos devem sair de casa.
Helder Franco (do blogue Os Anos do Metal)
Tulipas & gramofones
Mesmo um ilhéu cibernético tenta sempre imitar o que qualquer cavalheiro há muito aprendeu: recusar convite de gentleman requintado é o mesmo que dama espezinhar flor oferecida.
E se o convite for para abandonar o arquipélago de silêncios e escrever em página de “panegíricos e vitupérios” como esta, que quase nem precisava das belas e desnudas sextas-feiras – muitas delas capazes de tentarem qualquer Robinson a morrer na sua ilha sem nome se tivesse tal companhia... –, tal recusa seria o cúmulo da deselegância.
Esgotei as linhas que um post deve ter – se se pretende que alguém o leia – a elogiar este sítio em que as palavras marcham constantemente, qual jornal d’ideias, e que tem o poder de um tigre a passear no galinheiro da blogosfera indígena.
E, leitor d’início, aqui regressarei sempre, em busca de uma tulipa da madrugada, de um sorriso de mulher bonita, de qualquer memória de gramofone.
Fernando Madaíl (do blogue Ilhas Sem Farol)
Bilhete de Identidade
Quando recebi o convite do Pedro para participar com um texto aqui no Corta-fitas, fiquei a pensar com os meus botões sobre o que escrever e que interessasse à plateia urbana que frequenta esta casa.
Eu, um tipo da província – já lhe chamaram Alentejo profundo e mais recentemente deserto – que isco poderia lançar para atrair os habituais e mais alguns leitores?
Colocou-se-me logo uma questão: se faço uma coisa muito bonitinha, vou fazer crescer as audiências do Corta e, assim, dar mais visibilidade à concorrência.
Sim, o que é que pensam? Isto de andar a escrever em blogs é, para além do que se possa pensar na Câmara Municipal de Santarém, uma luta desenfreada na conquista de cliks e page views. Sem uma Entidade que regule o que por aqui se passa – há entidades que não regulam bem, mas isso fica para a resposta ao próximo convite do Pedro (se for a Cristina FA também não me importo), sem definição exacta do prime time blogosférico, isto de escrever em blogs, dizia eu, é uma verdadeira selva e uma grande chatice, para além dos riscos que acarreta uma exposição assim descontrolada.
A propósito de riscos – e isto é um pequeno parêntesis – sabem que há uns tempos o meu carro foi por várias vezes atacado por vândalos que lhe deixaram marcas por todo o lado? Pois, é o que dá andar a escrever coisas em blogs e ainda por cima daquelas coisas que irritam os directores das nossas freguesias,
Mas adiante.
Retomando o primeiro parágrafo, a dúvida principal que se me colocou foi: escrevo em português, alentejano ou em alemão? Vou arriscar-me na nova ortografia ou deixo-me estar como estou?
A parte de escrever em alemão até me agradou. Ninguém – ou poucos – iria entender do que se falava, linkava o texto na comunidade fotográfica a que pertenço mas, mais uma vez, cá estava eu dar milho à concorrência. Não, isso é que não, apesar de poder depois pegar no texto (auf deutsch!) e levá-lo ao meu chefe dizendo-lhe que havia suplantado os objectivos, pelo que a classificação do desempenho profissional deveria reflectir-se num pequeno suplemento monetário, que a vida não está fácil e a gasolina está cara.
Às voltas com o tema para esta crónica, também pensei em falar sobre a minha aldeia, dos fregueses que ainda cá sobrevivem, do aborrecido que se tornou viver longe das filas da 2ª circular ou das que alimentam a auto-estrada para o Algarve no primeiro de Agosto, também me passou pela cabeça debitar aqui sobre a diferença entre açorda e migas, entre paio e chouriço ou, calcule-se, sobre os prodígios da hortelã-da-ribeira, que muitos confundem com poejos, ervas que ainda não foram alvo das entidades reguladoras ou das autoridades que pugnam pela nossa segurança alimentar. São sabores e aromas que poderão experimentar, se pagarem, numa bela almoçarada, regada com néctares alentejanos e onde, espero, haja os sons do meu Alentejo.
E assim, aos trambolhões no pensamento, decidi-me por escrever sobre o tudo e o nada, que é uma prática muito em voga nas terras do interior e até mesmo nos montes onde a Internet ainda é só uma ideia muito simplex.
Aqui fica a crónica possível, onde não falei de sexo nem do Cristiano Ronaldo, coisas que, como todos sabemos, trazem muitas visitas aos nossos blogs.
João Espinho (do blogue Praça da República)
Só estavam juntos por causa do gato
Projecções
Na essência, o Cinema surgiu com uma missão simples: documentar a realidade. Captar fragmentos da vida e projectá-los na alvura da tela. Depois veio a necessidade de distracção e, por arrastamento, a magia deslumbrante e a capacidade inesgotável de nos fazer sonhar com as peripécias de todos aqueles que foram sendo projectados no ecrã e se foram alojando na escuridão íntima de todos nós.
Ficamos na fronteira entre o mundo que vivemos e o mundo que foi projectado. Apesar de tudo, acabamos por nos deixar seduzir pela sala escura: é o fascínio, a mística, enfim, a curiosidade da criança que temos em nós. E será sempre com um brilhozinho nos olhos que veremos a sucessão de bonecos de luz fluir.
É um Mundo que satisfaz os nossos desejos e, ao mesmo tempo, espicaça a nossa curiosidade. Fugimos da vida que ficou à porta, junto à bilheteira, e passamos a fazer parte de outra. Uma vez acabada a projecção e acesas as luzes, abandonamos o nosso santuário e ora somos abraçados, ora somos esbofeteados pelo frio da avenida, voltando à espuma dos dias que tão bem conhecemos, mas de forma ligeiramente diferente.
O Cinema não acabou com o fim da projecção. Continua em nós, atormentando-nos e consolando-nos e, também, fazendo-nos interrogar a realidade que sentimos: desde o engraxador que nos lembra Umberto D, passando pelo empregado de balcão cujo sorriso malandro lembra Alberto Sordi, bem como a criança de olhar vazio colada ao vidro como Antoine Doinel. Visões excêntricas? Então o que dizer de famílias sentadas à mesa como nos filmes de Ozu ou de funcionários de gesto maquinal, tal e qual como um modelo de Bresson? Mais importante: actua sobre a realidade e faz com que teçamos analogias com aquilo que bem conhecemos. Basta pensar no homem que, a abrir Sicilia!, contempla a imensidão do mar, tal como nós, lusitanamente habituados a hiperbolizar o passado e a amaldiçoar o presente, negando-o.
Eis a grandeza do Cinema: agir sobre nós, dominando-nos e fazendo-nos habitar um mundo de espectros projectados na nossa alma, enquanto vamos aplicando à realidade aquilo que vimos. Sempre assim: entre a realidade e a ficção. Um manto diáfano que mais não é do que uma forma de filtrar o que os nossos olhos vêem e aquilo que a nossa vontade quer ver, fazendo com que, voluntária ou involuntariamente, acabemos por criticar o mundo que conhecemos. E assim continuamos, vagueando pela imensidão da cidade como o Samouraï de Melville, ou, em bom rigor, como uma personagem de Antonioni. À procura da vida que a monotonia do quotidiano nega.
Hugo Ramos Alves (do blogue Amarcord)
Alheamento do Inferno
Os indisputáveis
Manuela Ferreira Leite venceu as directas do PSD, as primárias de Rui Rio, mas isso de pouco lhe valerá. A disputa interna não disputou coisa nenhuma e os 30% de Pedro Santana Lopes significam que, muito para além de uma corrente interna, o ex-presidente tem um PSD interno. Um partido radicalmente diferente do partido que venceu e que, quando foi vencedor, nunca deixou de ser algo radicalmente diferente do partido vencido. Parece um jogo de palavras, mas não é: sucedem-se as eleições internas e ali permanece um magma ideológico inamovível, "indisputável", que mais cedo ou mais tarde ditará a cisão do PSD. Ela já anda por aí, há anos.
Tiago Barbosa Ribeiro (do blogue Kontratempos)
Sócrates, Paulo Bento e a imaginação do poder
Memória da escrita
E agora, como “descalço eu esta bota”?
Eu que gosto de escrever sobre temas que me interessam, sem que, muitas vezes, tenham particular interesse para outros... Num rápido flashback, sobre o que tenho escrito ultimamente? Eleições nos Estados Unidos; recordações dos dez anos da EXPO’98; os decisivos jogos de futebol de final de época... enfim, nada realmente palpitante; nada mais que um mero fixar de memória(s), qual arquivista ou coleccionador.
E que, tendencialmente, me vou esquivando à análise da espuma dos dias, numa agenda mediática que vai desde a lei anti-tabágica aos preços dos combustíveis, passando pelas eleições partidárias; sem, todavia, conseguir evitar uma colherada na questão do acordo ortográfico… por isso mesmo, por ter também a ver com a “Memória”, no caso, da escrita.
Memória que começara por ser oral – com “homens-memória” como guardiões da história –, tendo os primeiros meios gráficos surgido há cerca de vinte mil anos, datando as mais antigas formas de escrita a cerca de seis mil anos, no que constituiria uma nova forma de preservação dessa memória e de comunicação, transpondo as barreiras do tempo e do espaço.
Somos ainda tributários dos escribas ou copistas que, no seu scriptorium, ajudaram a perpetuar a memória (da) escrita, escrevendo, primeiro sobre rolos de papiro, só mais tarde em pergaminho, precursores do que viria, com o advento dos caracteres móveis e da imprensa (apenas cerca de 1450), a tornar-se num meio de expressão de difusão universal.
E, assim, aqui aproveito também a oportunidade que me foi proporcionada para, publicamente, prestar uma singela homenagem aos que, ainda nos dias de hoje, continuam a dedicar-se ao estudo dos materiais de escrita, das formas gráficas, à leitura dos documentos e livros, assim como dos mais antigos testemunhos do português enquanto língua escrita, a partir da segunda metade do século XII.
Numa era em que a palavra escrita parece viver momentos de crise, chegando mesmo a projectar-se o hipotético eclipse de livros e jornais, com o hipertexto (forma de escrita não sequencial já antecipada por Leonardo Da Vinci nas múltiplas anotações aos seus textos) virtual a conquistar cada vez mais preponderância, são igualmente de louvar iniciativas como a da UNESCO que, preocupada com a preservação, criação e manutenção das diferentes instituições de memória e dos seus acervos, criou o Programa “Memória do Mundo”, propondo que se intensifiquem os esforços visando a preservação de documentos e arquivos históricos.
Também a preservação da memória virtual – a Internet como “memória colectiva da Humanidade” – não poderá deixar de constituir igualmente uma outra preocupação, nomeadamente no que respeita a questões como a longevidade dos suportes ou as restrições de acesso.
E, com dedicatória, assim completo o círculo; para que serve um blogue se nele não podemos escrever o que queremos?
Leonel Vicente (do blogue Memória Virtual)
Língua-de-sogra
Entre os carros que param de manhã no vermelho da faixa central da Praça de Espanha é comum observar a luta pela sobrevivência de dois homens que, de forma distinta, reflectem boa parte do empresariado português.
Um, o grande e desdentado, de fio com o Crucifixo na ponta, circula de chapéu às três pancadas, mãos postas enquanto recita rezas pela alma dos seus benfeitores. O outro, mais composto, vende sacos de plástico com línguas-de-sogra num preparo que certamente escapa à ASAE.
Dir-se-ia que ali, entre o reconstruído e deslocado arco de pedra e o Centro Comercial Abecasis e nas barbas da sumptuosidade espanhola, as características portuguesas do desenrasca e da pedinchice marcam a razão duma nação. Nem sequer falta o Gulbenkian de pedra, sentado na relva, como patrono do subsídio e os ardinas da nova geração a despacharem os gratuitos pelas frinchas das janelas dos bólides do ano.
Luís Novaes Tito (do blogue A Barbearia do Senhor Luís)
O lado negro da bloga
Respondendo ao convite do Pedro Correia, vou discretear sobre o que considero ser o lado negro da bloga: a intolerância face à opinião do outro. Não me refiro a discordâncias, sempre legítimas, e enriquecedoras da troca de ideias desde que manifestadas com discernimento e assertividade. Não é disso que se trata. O ponto é que a bloga reflecte o défice de democracia da sociedade portuguesa. Sempre que um tema-limite mobiliza a opinião publicada (este publicada inclui textos em linha), o azedume toma conta da comunidade bloguítica. Foi assim com o chamado arrastão de Carcavelos, o dossiê Ota, a guerra entre Israel e o Hamas, o folhetim Esmeralda, a actuação da ASAE, as coteries críticas, o canudo do primeiro-ministro, a marcha dos professores, os cartoons dinamarqueses, a despenalização do aborto, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a lei do tabaco, etc. (Cito de cor, sem obediência à cronologia ou a qualquer hierarquia.) Nessas ocasiões, há sempre quem tente impor o pensamento único. Por razões que a sociologia explicará, os sectores conservadores, à direita e à esquerda, têm um peso significativo na bloga nacional. Em princípio, isso não devia ser um mal nem um bem. Deveria ser apenas uma evidência estatística. Contudo, a realidade traduz o país que somos. Quarenta e oito anos de Estado Novo não se apagam de um momento para outro, sobretudo porque, no outro extremo, a dialéctica dos amanhãs que cantam, em vez de evoluir no confronto dos contrários, propendia à simetria do argumento. Em nenhum outro lugar como na bloga, as obsessões, os procedimentos e os equívocos da ditadura (e do combate que contra ela se fez) têm uma tal nitidez. O manto diáfano da modernidade, tingido, aqui e ali, de uns pós de cosmopolitismo, não é suficiente para disfarçar a pulsão de cartel.
Eduardo Pitta (do blogue Da Literatura)
andar aos cartões
quando folgo ao sábado há uma coisa que me dá um gozo imenso, sair para a rua com disposição caminhante e errar avenida abaixo até ao rossio, ruas da prata e do ouro, martim moniz com passagem pelo supermercado chinês, laréu pelo largo de são domingos qual ginja district, praça da figueira, enfim, todos os locais onde o degredo, o insólito e o pitoresco pululam. sucede que hoje, ao encontrar o zarolho traficante de cromos que me cobrou dois euros pelo último da colecção mundial 2006, louvada seja a panini, lembrei-me que o seu outro mister está exactamente abaixo da espada de dâmocles, neste país que se quer moderno e informatizado: o cartão do cidadão. o zarolho, como outras aves raras da baixa, plastifica, que é como quem diz, envolve os nossos documentos numa película semi-rígida que permite a sobrevivência duradoura dos nossos cartões de eleitor e da segurança social, aliás, suspeito que muitos desses cartões sobreviverão à própria SS, veja-se lá a sigla que arranjaram para a protecção social, já que hoje em dia bom, bom é atrelarmo-nos a uma seguradura que nos conforte a velhice, que a solidariedade entre gerações é coisa que se fica agora pelos concertos dos rolling stones. pois bem, o cartão do cidadão, ornado de chips, bandas magnéticas e data information, atacado por um outro liberal da nossa praça saudoso dos tempos de oxford e da inexistência de bilhete de identidade, dará uma machadada fatal nos plastificadores, quais operários do vale do ave, que perderão a matéria-prima de sustento em favor da tecnologia, e assim lá se vai mais uma marca de humanidade da baixa que eu aprecio. ninguém sabe de bola mais do que eles, de gossips governamentais e de mamas de turistas, já viram de tudo, milhares de identidades já lhes passaram pelos dedos, em matéria de x-actos e películas aderentes ninguém os bate, tudo agrupado em banquinhas desmontáveis que mais parecem uma curta do kusturica, tal é a parafernália digna de um pai de santo ambulante. adivinha-se então a extinção dos plastificadores, numa cidade que é cada vez mais tecnocrata, moderna e oca, em vez de gente temos key account managers, top sales qualquer coisa, chief executive accounts, shareholders, gestores de produto, utentes em vez de pacientes, colaboradores em vez de trabalhadores, muitos entretidos ao entardecer numa cave de são sebastião, meio harrod's meio pipocolândia, onde se degustam umas tapas que podem não ser mais do que uma sandocha de lula frita mas que ganham o estatuto de bocadillo de calamares, assim mesmo, em estrangeiro. e aposto que a palavra gourmet anda lá pelo meio. eu cá sou suspeito, gosto de couratos, minis e tremoço, de micar os mitras e de vampirizar-lhes o paleio. mais. numa época em que ninguém dá nada a ninguém e em que tirar aos outros é governo de muitos sempre prefiro as artes de casaco à banda e mãozinhas leves dos carteiristas do 28, sem contratos nem letras miudinhas, às facadas na classe média dadas pela euribor ou pela cofidis. é mais a minha praia. quer dizer, a minha cidade.
Pedro Vieira
(dos blogues Cinco Dias, Irmão Lúcia e Sinusite Crónica)
E agora o horror
Uma das mais impressionantes descrições do horror da guerra, da total combustão provocada pelas bombas de enorme potência, da devastação para além do imaginável, foi produzida por Sebald na História Natural da Destruição, ao descrever Hamburgo reduzida, em Julho de 1943, a escombros, fantasmas errantes e cadáveres feitos em papa. E no entanto o escritor alemão referia-se a uma devastação silenciada, olhada durante décadas como justificável por ter acontecido do lado dos vencidos. Não tanto os nazis, que esses puderam sempre suicidar-se ou mudar de identidade, mas todos aqueles, pessoas mais ou menos comuns, que viram desmoronar-se o prometido «Reich de Mil Anos» e deveriam expiar até ao fim, na humilhação, no silêncio e na carne, a cumplicidade, involuntária ou não, com um horror considerado maior pelos vencedores.
Não me surpreende, pois, o emudecimento daqueles que calam hoje os crimes resultantes das bombas largadas nos últimos vinte anos sobre todo esse território, vasto e arenoso, que vai de Gaza até Cabul. Aqueles que mais de perto têm experimentado o seu impacto não estão do lado dos vencedores, pouco sabem do que representou Auschwitz, e jamais ouviram falar do Gulag ou mesmo de Guantánamo. Pouco sabem até das «fronteiras bíblicas» que lhes são atribuídas. Ou da liberdade da qual falam em seu nome. Não escolhem nem sabem que podem escolher, apenas vivem. E o horror que conhecem, e o ruído dos voos rasantes dos F-16 dos quais nos falam os títulos da manhã, apenas lhes importam na medida em que lhes interrompem os hábitos de sobrevivência. Vistos daqui do nosso conforto, ou lá de cima desde os cockpits, são apenas pontos negros que se movem e que olhamos com a mesma dose de piedade que experimentamos ao olharmos as moscas de verão liquidadas com um jacto de spray. O horror dos outros não existe quando o não vemos ou desviamos o olhar.
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.
Nada se salva, mas Corina ao menos, sabe o que faz...
A Máquina do PS tem sem dúvida, uma força tremenda...
Aplaudo e subscrevo integralmente, tudo o expresso...
diplomata ou ''o que vai só até 1/2 da ponte'' tem...
gostava de saber o que acontece às ''merdalhas'' a...