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Rita Barata Silvério

por João Villalobos, em 20.06.08

 

 

Cristiano Ronaldo

 

Acabei de ler a reportagem de duas páginas sobre o Cristiano Ronaldo no El País. Tem graça como os perfis jornalísticos das estrelas do momento tendem a mostrar virtudes comuns a qualquer pessoa de bem como exclusivas dos heróis desta nossa década (alguém se atreve a falar de século?) de fortunas imediatas e de gente famosa graças a séries de televisão de três temporadas e duas capas no suplemento de domingo do jornal. A culpa desta elevação aos altares da perfeição, imagino, não deve nem ser do rapaz, cujo único dom (e que dom!) é jogar maravilhosamente ao futebol e saber que este era o único meio de fugir da miséria onde o pariram, da vida com o pai alcoólico, da casa a precisar de cimento e poder tirar essa mãe da cozinha e o irmão da droga, e ajudar as irmãs, enfim, a ser alguma coisa na vida. Nem todos os donos de um talento portentoso têm essa força de vontade ou a valentia para, roçando o analfabetismo, sair lá do cu de Judas e ir para uma Lisboa inóspita, para arrancar a família às urtigas para que estavam destinados.

Mas lá está ele, nas páginas principais do El Pais, de chupa-chupa na boca, com as sobrancelhas arranjadas e uns brutos de uns brilhantes nas orelhas, símbolo de um novo Portugal jovem e que ganha muito dinheiro no estrangeiro, de um Portugal feito a si próprio, mas que não passa da barreira do novo-riquismo e que, por tanto, não me orgulha tanto como deveria. E isso irrita-me. Porque eu, palavra de honra, admiro o chavalo e acho que é muito mais esperto do que lhe querem fazer parecer e que se tem jipe caro, gaja boa e diamante de quilo e meio é porque o merece e se fartou de trabalhar para isso, caramba!
Talvez o erro esteja nos motivos da elevação, das honras, que a mim não me encaixam. Ao Cristiano não o contrataram para representar um banco pelo amor incondicional que sente pela família, o orgulho nas origens humildes, ou porque representa o trabalho duro, a responsabilidade por manter um determinado nível de exigência ou a fidelidade a uns valores anteriores ao êxito. Ninguém o admira pela decência que demonstrou na sua carreira. Ser boa pessoa (ou directamente não ser um cabrão que envergonha os seus à mínima que se vê como protagonista de um anúncio de calças de ganga) não parece ser razão de maravilha. Não. Os putos querem ser como o Cristiano para ter as mesmas coisas que ele, não pelo que simboliza a fuga do bairro da Quinta do Falcão. O nosso novo D. Sebastião não nos salvará pelo exemplo do trabalho bem feito, mas pela inveja da conta bancária e isso a mim diz-me muito mal dos valores, não do puto Cristiano, mas do país que pretendem que represente. Se fosse ele, deixava-me estar por Manchester, longe daqui.      
(Autora do blogue Rititi) 

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Cristina Vieira

por João Távora, em 17.06.08

O futuro e o erro

 
Porque será que tanta gente se sente amedrontada com o novo, com o desconhecido, com a incerteza das probabilidades? Porque persiste tanta gente nas certezas arcaicas e ultrapassadas só por medo de que a futura realidade lhes fuja por entre os dedos (como se não fugisse já!), pelo conforto da sensação de que se controla o que nos rodeia? Vergamo-nos tantas vezes sob o peso dum fardo que ainda não carregámos, que quase o obrigamos a tornar-se real. O futuro não pode constituir uma ameaça maior que o passado. E faz-se disso: de incertezas, de um sem número de possibilidades de erro, de críticas, de insucessos, mas felizmente, também, e não há outro caminho, de conquistas e vitórias.
Pior do que qualquer desaire é deixarmo-nos definhar na ilusória segurança do conhecido e dos danos calculados. Não pretendo com isto dizer que o risco não deva ser avaliado e ponderado, mas, apenas, que há uma boa dose de imprevisto em grande parte das decisões importantes que tomamos e que este facto não nos deve travar o desejo de mudança. Ainda que devagar, ainda que à custa de pequenos recuos se necessário, mas sem medos. A diferença entre a euforia estéril e o avanço responsável de uma sociedade é exactamente esse: reconhecer os erros e emendar. Trabalhar as dúvidas e apostar nas convicções, com a ressalva de que não há soluções milagrosas. Mas há vontade, determinação e confiança. E humildade suficiente para aprender, sempre. É isso que nos salva.
 
Cristina Vieira (do blogue Contra Capa)
 

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Elisabeth Butterfly

por João Villalobos, em 13.06.08

Da Caveira de Cristal à concretização de Portugal

 
Fui ontem ver Indiana Jones. “If not goldie, sou pelo menos uma oldie”. Cresci a ver Harrison Ford envelhecer – como só os melhores vinhos envelhecem – no papel de Doctor Jones, não podia resistir a meter-me na estreia para ver o filme.
 
As estreias têm sempre um ar de hora de ponta na marginal. Com a única diferença que não levamos carro e não corremos o risco de apanhar a brigada de trânsito. Em vez disso, obrigam-nos a lutar para não acabarmos tragicamente atropelados pelas pipocas comidas desabridamente ou aspirados pelo cone de ar libertado pelo escape dos refrigerantes sorvidos de baldes de litro, de maneira alarve, por super palhinhas multicoloridas. Chegamos ao ponto de pensar que podemos até puxar por um cigarro... Mas como a sala está escura que nem breu, e não podemos assegurar-nos que o nosso primeiro ministro não está por perto, lá resistimos enquanto chupamos um rebuçado. Ninguém gosta de acabar na televisão acusado de ter fumado ao lado de José Sócrates.
 
Ver este Indy levou-me de volta ao grande cinema americano. O trio Lucas-Spielberg-Ford é realmente imbatível. Mesmo para quem – como eu – acredita que não há great american heroes no celulóide deste século. A Caveira de Cristal transformou-me numa espécie de salteadora da idade perdida à medida que me devolveu aos dezoito anos.
 
Contudo, misteriosamente a meio do filme, recordei-me de uma coisa importante: a verdadeira essência da vida assenta no Conhecimento. Ele há coisas do demo. De repente Indiana Jones levou-me à ideia antiga de uma nova dimensão para o país português, que Portugal não tem porque ainda não conseguimos recordar-nos, enquanto colectivo de cidadãos, da verdade básica que fui reencontrar naquela sala Lusomundo.
 
Esquecidos os cigarros maricas, que agora dei em fumar para fingir que fumo mais saudavelmente, dei comigo a desejar que estivesse ali o nosso pm (merde... veja-se lá o que pode fazer-me um homem como Harrison Ford). Se possível – pensei – ao lado de Ricardo Salgado, Balsemão e Belmiro de Azevedo. Entre outros, também eles conseguiram trabalhar para o nobre feito da elite nacional que foi transformar este país no que é: uma república de sonhos perdidos, esquecida pelos mundos que – com a Espanha – deu ao mundo naquilo que foi a primeira globalização. Talvez, ao verem Indiana e o Reino da Caveira de Cristal compreendessem mesmo que a grandeza de um país não se mede em área geográfica, mas pela sua verdadeira dimensão: o valor que cria ao mundo onde está – porque tem que estar – realmente inserido, se quiser existir. Recordemos a propósito a sábia mensagem de S.Exa o senhor Presidente da República quando falava na necessidade de inserção... Precisamos de nos esforçar mais por inserir Portugal no globo e, se o fizermos, estará garantida a evolução deste povo e o desenvolvimento nacional. Só então haverá inserção efectiva porque a exclusão social dá-se sempre melhor em ambientes de maior atraso cultural como é este português.
 
 
Não sou portuguesa, I’m sorry. Mas sinto-me portuguesa em alma, gosto de fado, e pago impostos. Este canto lusitano, que Camões tão bem cantou, tem na sua própria história o maior valor. Devíamos ser um país feliz, de gente voltada para a prestação de serviços, com uma identidade cultural forte e a respirar cultura pelos poros. Gente orgulhosa da sua história, com esperança no seu futuro. Gente a quem não fosse necessário vir alguém de fora para desfraldar a bandeira nacional...
 
Devíamos servir de referência aos povos do mundo como berço mundial de cultura, e atrair as gentes sedentas de Conhecimento até aos caminhos de um Portugal realmente português. Podíamos ter nesse novo turismo cultural – recuperados para a hotelaria os castelos medievais e outras referências obrigatórias da arquitectura maior como é o Convento de Cristo – uma nova fonte de reconhecimento que transformasse este país, por inteiro, em autêntico património mundial.
 
Não temos. Em vez disso...
 
Fazemos alarido quando um pintor português é rematado em leilão por pouco mais de centena e meia de milhares de euros ou, no caso do desenho mais célebre do mestre Almada, por menos de uma dezena de milhares. Devíamos calar-nos. Devíamos fazer segredo e não contar a ninguém porque qualquer obra de artistas internacionais, como os grafitis levados à tela de Jean Michel Basquiat ou as fotografias porno de Jeff Koons, bate várias vezes esses valores. O problema, claro está, não reside na falta de talento dos nossos artistas. Germina na falta de fé dos nossos investidores e de visão dos nossos governantes. Não souberam nem quiseram desenvolver em conjunto uma acção virada para a cultura e preferiram perder-se em busca da quimera de um PIB decente que não nos chegará tão cedo certamente.
 
Este tema que escolhi não será nunca fácil de abordar numa crónica. Mas, como somos todos políticos, um pouco como vamos sendo treinadores de sofá, resolvi-me a entrar pelo lado difícil que é pensar neste país... Contudo, e aproveitando neste ponto para agradecer o convite amável do corta fitas, resta-me o espaço para recordar a visão de Agostinho da Silva, talvez um dos últimos grandes lusitanos. Em Portugal o primeiro ministro devia ser um ministro da cultura. Contudo, porque nem sempre podemos ter o que desejamos e os ministros da cultura são o que são, resta-nos um Sócrates cujo percurso académico é o que se sabe ou... a incerteza que vem dos lados do PSD.
 
Temos mesmo muito a aprender com este Indiana Jones. Da Caveira de Cristal à concretização do Império português vai só um salto pequeno... Mas enquanto não estivermos preparados para saltar...
 
Fiquem com um beijo de borboleta. Desta, que apesar de estrangeira, procurou absorver aquilo que é hoje o maior Império de Portugal: o Português!

(do blogue Butterfly Pepper's)

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Sónia Morais Santos

por João Villalobos, em 10.06.08

 

 

 

Espero que este país cresça depressa

 

 

 

Quando se tem um blog intimista como o meu Cocó na Fralda, escrever no Corta Fitas é mais ou menos como ser jornalista do Diário da Picheleira e ser convidado para botar prosa no Expresso. Mas cá vai disto, prometo fazer o melhor possível, e quem dá o que tem a mais não é obrigado.

 

Quando, nas últimas semanas, disse a três pessoas distintas que até gostaria de ir ao terceiro filho, fui surpreendida por uma reacção chocada, transida, quase de nojo até: “Outro?! Credo!!! E tinhas outro filho para quê?” Ora bem, a pergunta, retoricamente falando, é interessante. Para que é que temos filhos? Para perpetuar a espécie? Porque queremos ver como nos saímos nessa missão? Porque queremos um bebé lá em casa? Porque desejamos repetir (ou contrariar) a família que tivemos? Por tudo isto, suponho. Já tenho dois filhos e ainda hoje não sei porque é que os tive. E não sei dizer com segurança porque é que gostava de ter mais um. Eles tomam-me muito tempo, dão-me muito que fazer, fazem demasiado barulho, portam-se consideravelmente mal, riscam-me o sofá, moem-me a paciência. Mas são a minha melhor obra, e se calhar sou do género artista insatisfeito.

Uma das pessoas, que me deitou esse olhar, é uma grande amiga. Moderna, culta, inteligentíssima. Com ela, nunca posso falar dos meus filhos. Sinto-me uma sopeira. E mesmo quando contrario a coisa, “Que parvoíce, isto deve ser impressão minha”, a verdade é que vejo como ela fica incomodada. Depois de um “Os meus miúdos estão tão queridos, estão a passar uma fase giríssima” dito à mesa do restaurante, ela endireita-se na cadeira, como se me rogasse que baixasse o tom de voz. Pela testa dela vejo passarem as legendas: “Pronto, eis-nos chegadas à fase foleira das criancinhas.” E é vê-la a alta velocidade a mudar para o tema, esse sim interessantíssimo, da minha carreira, que novas histórias fiz, que reportagem, que aventura vivi, que figuras públicas conheci recentemente.

O que me chateia nisto é esta ideia de que ter filhos é incompatível com uma vida, não digo profissional, digo mesmo vida em sentido lato. Como se uma mulher com filhos ficasse imediatamente catalogada como uma matrona de tempos idos, uma espécie de dona de casa ideal, relegada para o fogão, alguém a quem se pode pedir conselhos sobre que desengordurante usar, mas nunca nada sobre bares, festas, hotéis ou experiências cool. Não parece possível, pois não? Mas é. A verdade é que, perto de muita-muita gente, eu posso falar dos meus filhos, mas tem de ser um falar desapegado, como quem fala de outra coisa qualquer. Dizer que os miúdos são lindos é pimba. Mostrar as fotografias é antiquado, é intolerável, é repugnante. E mesmo o meu blog foi recebido por alguns com gritos de gáudio, por “não ser um baby blog piegas e choramingas sobre a prole”.

É possível que, como democracia recente, estejamos a viver a era das carreiristas. Só elas, as mulheres tipo Sexo e a Cidade, de saltos altos, roupas fashion e conversas sobre gajos, reuniões e malas, só essas têm interesse. Como se fosse impossível que uma mulher com filhos pudesse ser isso, também. Espero que este país cresça depressa. Até lá, vou reservar as minhas mariquices só para alguns. E um dia destes passo-me e tenho mesmo mais um. Agora… por favor, não me perguntem como é que se cose uma meia. Mas se quiserem saber onde passar uns dias românticos a dois respondo sem hesitar.

 

Sónia Morais Santos (do blogue Cocó na Fralda)

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Ana Cláudia Vicente

por Pedro Correia, em 09.06.08

 

 

Estação de Entre-Gentes

 

À entrada da rua com nome de flor está um marco postado pelo Senado de Lisboa. Vinca o termo da capital na qual os que agora e aqui passam fazem vida, sem vagar para atentar num traço antigo, que não se vê. Os que vão e vêm por este caminho que já não é real, ou pelo caminho férreo, os que cruzam bairros nascidos sobre searas e olivais, esses vivem agora e aqui outros traços. São gente que apanha o comboio em Queluz-Belas, ou em Agualva-Cacém, gente que não lamenta horário trabalhador-estudantil, gente que preferia não ir ao Hospital Amadora-Sintra, gente que troca de metro na Baixa-Chiado, que regressa demasiado depressa pelo IC-19, gente que não se entende no seu modo luso-afro-sino-russo-brasileiro. Gente na corda bamba da urbanidade - que faz cidade entre esta estação e a que se lhe seguirá.

 

Ana Cláudia Vicente

(dos blogues O Amigo do Povo e Quatro Caminhos)

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Isabela

por Pedro Correia, em 08.06.08

Um preço a loucura no horizonte

 

O meu pai conduzia a Bedford branca na picada que atravessava toda a Matola Nova até à estrada de alcatrão que ligava Lourenço Marques à Matola Velha. Eu não ia de branco. Guiava depressa demais, porque estávamos atrasados para o voo. Eu vinha nesse dia para a Metrópole. O voo era ao final da tarde, e sabia-se que precisaria de umas boas horas para  cumprimento de todos os trâmites alfandegários. Conferência de documentos. Vasculhar as malas. Passar no controle de metais, no apalpamento...

 
Ouvia o estrondo dos cabos de electricidade, sacudidos pelos buracos da picada, na caixa da carrinha, lá atrás, esse lugar que ia deixar atrás, atrás; íamos a passar junto à cantina, mais de meio caminho, do lado direito de quem ia, onde os negros esperavam pelas boleias, e vendiam tudo, lenha, montes de carvão, galinhas, cabritos, capulanas e raízes para mascar. Era aí que eu pedia  para ir comprar garrafas de cerveja Laurentina ou 2M ou Seven Up, ou bocados de gelo ou enxofre ou óleo ou azeite, ou assim qualquer coisa de que a minha mãe se tivesse esquecido de todo, e não houvesse outra solução porque o meu pai não estava por perto. Podia descalçar-me às escondidas no mato, e ir clandestinamente descalça, a ver se conseguia que os meus pés ficassem como os pés dos negros, de dedos abertos e sola dura, rachada. E gingava como uma preta, para experimentar o que era ser preta. E as mamanas passavam por mim e riam-se, e os negros também. E diziam-me coisas que eu não percebia, riam-se, a branca, a branca, essa branca do electricista. E eu ria-me. Tinham reparado em mim. Tinham-se rido. Ia descalça. E não podia.

 
À passagem da carrinha levantava-se uma nuvem de poeira vermelha que caía sobre a carapinha dos pretos e a pele castanha dos pretos e os tornava irreais, seres tão medonhos, tão extraterrenos, intensos, proibidos. Tão misteriosos. Sei que não ia de branco, porque era o dia da minha partida para a Metrópole, e tenho a certeza que cheguei a Lisboa com com calças de terilene azul-marinho. E foi junto à cantina, essa cantina, que o meu pai teve de voltar atrás. Esquecera-se de alguma coisa que fazia parte da minha bagagem. O anel de esmeraldas da minha madrinha que eu teria de passar na alfândega, no dedo médio; estava muito largo, ataram-lhe cordel para mo cintar ao dedo; mesmo assim, largo: era de ouro branco, com umas pedras desprezíveis;  tinha outra ideia do que deveria ser uma esmeralda; a minha madrinha, quando retornasse, não tinha dedos que chegassem para os anéis, pelo que os ia distribuindo.
 
Isso contrariou-me. Não o anel. Voltar atrás. Perder 20 minutos. Vestiria o que me pedissem, colocaria nos dedos os anéis que me entregassem, se quisessem até os engolia, ou entalava-os debaixo das mamas, como se fazia com as notas e as moedas. Era só pedir. Queria sair dali para fora o mais depressa possível. O resto era amendoins.
Tinha ficado tão feliz quando soube que na decisão final sobre o meu futuro tinha vencido a partida. Houve uma decisão? Não interessa. Que se tinha decidido que eu me ia embora no primeiro avião disponível. Qualquer desculpa servia: os estudos, a segurança, a minha virgindade... Dali para fora. A andar. Rápido. Queria, como uma criminosa de guerra, voltar às costas a toda aquela esquizofrenia que não me permitia ser legitimamente quem eu era nem o que eles eram; ninguém poderia ver-me ou sequer ver-se. Precisava de uma identidade. De uma gramática. Melhor, de poder mostrá-las sem medo. Sou isto, pronto, sou isto, assim, agora, olhem, arranjem-se.
 
Vestiam-me e calçavam-me de branco, mandavam-me pisar o raio da terra tão negra e húmida que chiava debaixo dos pés, ou tão vermelha que o verniz ou o couro se pintavam de uma aguarela de sangue claro. Não havia forma de poupar o meu corpo às manchas da terra, contudo estava proibida de me manchar dela. Não havia forma de me libertarem dessa necessidade de me manter imaculadamente branca. Na minha memória estou sempre vestida de branco, preocupada em não me sujar. O vestido branco que não usei nesse dia é a mais clamorosa metáfora da minha vida de pequena colona: uma branca de branco, agarrada à saia que não pode sujar, olhando os sapatos brancos que não pode empoar. É assim que me vejo, na cabina da Bedford branca, encolhida debaixo da roupa, preocupada com a poeira que entra pelas janelas.
Era Novembro, fazia muito calor e eu usava um vestido branco em tecido crepe canelado. Não me podia sujar. Tudo isto parece certo, mas é mentira. Eu vestia de azul.

 
Do lado do volante, o meu pai. Vais para a minha terra. Vais gostar. Pede à tua avó que te faça toucinho entremeado com couve branca. Do lado da janela, a minha mãe. Não te sujes. Tem cuidado para que nada chegue partido. Olha o anel da tua madrinha.
Sim, olharia por tudo. A quem entreguei o anel da minha madrinha?
 Agora, depressa, para o aeroporto. A vida na colónia era impossível. Ou se era colono, ou se era colonizado, não se podia ser qualquer coisa pelo meio, no meio daquilo, sem um preço a loucura no horizonte. 
 

Isabela (do blogue O Mundo Perfeito)

 

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Sofia Loureiro dos Santos

por Pedro Correia, em 06.06.08

 

Regresso a casa

 

Sinto sempre uma desconfiança instintiva quando ouço falar de políticas de apoio à natalidade e à maternidade. Arrepio-me de cada vez que se enaltecem as qualidades das mulheres que cuidam dos seus rebentos, que quereriam estar em casa 6 meses, 8 meses, 12 meses, para amamentarem, para darem papas e banhos e para assistirem ao gatinhar, ao rir, ao andar dos seus rebentos.

Estranho a enorme quantidade de consultas a que têm que ir acompanhadas dos respectivos companheiros, quer eles queiram quer não, esperando horas infinitas para poderem ouvir os dois que o feto ainda na barriga da mãe tem que ter a companhia do pai, o amor, o apoio, enfim, toda aquela retórica que acompanha o amor e a educação primorosa que nos ensinam que é a correcta e única possível.

É claro que acho muitíssimo bem que quem quiser fique em casa a cuidar dos filhos. O que me parece é que, encapotada e subliminarmente, se vai fazendo de novo uma lavagem ao cérebro da sociedade ensinando às mulheres que a sua função primordial é procriar, amamentar e acompanhar os filhos, e que só o não fazem por razões económicas.

Se o tempo gozado em licença de maternidade fosse dividido entre o pai e a mãe, ambos teriam oportunidade de acompanhar os filhos e de prosseguirem as suas careiras profissionais. A coberto de um grande apoio social à família e à mulher, empurra-se de novo o género feminino para a sua função reprodutora, esquecendo que as mulheres são maioritárias no desemprego em geral e no desemprego de longa duração, em particular.

As políticas de apoio à natalidade deveriam ser igualitárias, com a existência de creches na proximidade dos locais de trabalho, horários em part-time, teletrabalho, tudo o que facilite a vida de quem tem filhos, mas em pé de igualdade para ambos os sexos. Em vez de se insistir para que os homens ajudem e acompanhem a gravidez das mulheres como uma obrigação, por vezes ridícula e sem justificação, olhando quem não o faz como um machista sem remédio, seria melhor que se insistisse na necessidade de os homens ficarem em casa metade da licença de parto, no acompanhamento dos filhos ao médico e aos infantários, na facilidade com que os podem alimentar, exactamente da mesma forma que as mães. E não condenar as mães que optam por dar biberão, que querem regressar ao trabalho rapidamente após o nascimento da criança, que também gostam de beber um copo com amigos ou colegas de trabalho ao fim da tarde, que adoram a sua independência económica, que não gostam de ficar em casa. Não são piores mães por isso.

E também se pode ter liberdade de escolher não ter filhos.

Depois da revolução da pílula, da conquista da independência económica e da realização profissional, a sociedade parece quer fazer sentir de novo que as mulheres têm uma obrigação imperiosa, da qual depende até a sobrevivência da espécie, de regressar a casa.

Sofia Loureiro dos Santos (do blogue Defender o Quadrado)

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Leonor Barros

por Pedro Correia, em 02.06.08

 

Um muro de letras

 

Na altura em que o tomate Raf estava a dois euro e quarenta e nove cêntimos, eles entraram a meu lado no supermercado. Vinham algures pela direita e demos passagem uns aos outros, eu dei-lha a eles, eles deram-ma a mim, e entretanto, sem saber já quem entrou primeiro, absolutamente irrelevante no contexto, encontrei-me dentro do estabelecimento propriamente dito. Comecei pela habitual ronda das saladas, há que viver saudável e os vegetais, diz-se, são parte integrante do bem-estar físico, que naturalmente produz efeitos imediatos, assim se espera, sobre essa nebulosa da harmonia interior anunciada e vendida também nos coloridos suplementos dominicais. Os frutos vermelhos, por exemplo, são antioxidantes poderosos. Quem sabe levada por isso abeirei–me da enorme banca onde estavam dispostos os tão apregoados Raf, feios, mas saborosos, a publicidade naqueles dias era inequívoca.

Do lado oposto ao meu, debruçado sobre o mesmo expositor, encontrava-se o casal com quem me cruzara à entrada. Julgava-os deambulando algures noutro corredor, a decisão das saladas nem sempre é pacífica e na languidez do dia que entardecia deixara a pressa amarrada ao poste do stresse pretérito. Abordaram-me entretanto Ó menina, a que preço é o tomate? O preço estava bem visível: dois euro e quarenta e nove o quilo e, não fora a intervenção rápida da mulher, leitora perspicaz de rostos alheios, jamais teria compreendido a razão da pergunta. Lamentarei o resto da vida a expressão desconfiada e incrédula que soltei sem sequer balbuciar palavra. A mulher acrescentou então em auxílio do marido A gente não sabe ler. Preferia pensar que o meu rubor era reflexo dos frutos à minha frente e não o constrangimento perante a situação. Respondi de imediato e fui à minha vidinha cheia de letras e números e sinais e símbolos que sei descodificar e que me orientam por esse mundo fora. Não era o caso do casal que deixara para trás. A realidade conhecida, em Portugal a taxa de iliteracia não é prestigiante, tinha, a partir de agora, dois rostos desorientados perante um mero preço de supermercado, a diferença significativa entre as estatísticas e as pessoas. Um homem e uma mulher à mercê da disponibilidade alheia, prisioneiros da sua incapacidade de descodificar mensagens escritas. Dois mundos separados por um muro de palavras e letras incompreensíveis.

E assim é em pleno século XXI. Enquanto os sorrisos pendurados alardeiam as virtudes das novas oportunidades, selados com beijos e apertos de mão vigorosos, e o choque tecnológico ocupa o lugar cimeiro das preocupações governamentais, alguns permanecem excluídos. Não têm rosto, não ficam bem na fotografia e não dão votos. Não são ninguém.

 

Leonor Barros (dos blogues A Curva da Estrada e Geração Rasca)

 

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Isabel Goulão

por Francisco Almeida Leite, em 30.05.08

 

Caros leitores do Corta-Fitas,

 

Permeável à lisonja, não consegui resistir à promessa feita pelo João Villalobos de que teria uma passadeira vermelha especial à minha espera neste blog, no qual tive em tempos uma modesta colaboração. Devo, porém, confessar que o talento é pouco e a criatividade ainda menos. Que escrever então neste blog, onde todos parecem ter opiniões firmes sobre tantas coisas e com os convidados de honra que me precederam de tão elevado gabarito?
Para não desdourar, vou por onde me posso safar com alguma dignidade (regra número da técnica de blogar), ou seja, deixo algumas linhas sobre a minha experiência enquanto proprietária de um blog individual de classificação duvidosa. Felizmente desobrigado de qualquer “Livro de Estilo”, liberto de constrangimentos estilísticos, um blog nasce, cresce e desaparece à vontade do freguês, que o alimentou de experiências pessoais, opiniões, impressões, paixões, amores, desamores, receitas de culinária, música e tudo aquilo lhe dava na real gana, movido pelas razões mais diversas.
Com maior ou menor fluência, criatividade ou audiência, aprende-se a escrever posts, lendo posts (regra número dois), o que significa que, pouco a pouco, se vá tomando o pulso ao post. Podemos falar de algumas “técnicas” que se vão apurando, como por exemplo, evitar um grande número de links dentro do texto (regra número três) ou posts muito longos. Falo por mim, claro, mas não convém maçar (ainda mais) o leitor, provavelmente já enfastiado.
A verdade é que nenhum de nós vive disto, desta coisa dos blogs. Ninguém nos paga para escrever umas coisas, colocar umas músicas ou escolher videos, gasta-se imenso tempo, energia e por vezes ainda somos insultados. Não conheço ninguém que nunca tenha tido razões de queixa, mas depois, um post lava o outro, fica tudo esquecido, que isto não é a nossa vida, valha-me Deus e quem anda à chuva molha-se.
Uma coisa é certa: quando não abunda o talento, a criatividade, a sabedoria, ou mesmo o tempo, resta a singularidade de cada blog, algum traço que o distinga de tantos outros e que nos faça lá voltar (regra número quatro). Por isso e por causa disso, suponho que deve escrever-se sobre o que se sabe, como se sabe e no registo em que nos sentimos melhor (regra número cinco). Os “desvios” são arriscados e não são para todos.
Falo em particular dos blogs individuais, atacados regularmente por crises de preguiça e falta de assunto. Não é todos os dias que se sobe ao Everest, se apanham ondas fantásticas, mudamos de casa, se vê um filme, se vai a festas, se fazem viagens, nascem crianças ou se altera alguma coisa no blog por motivos impronunciáveis. Coisas nossas. Aliás, quem nunca mandou "recadinhos", que atire o primeiro post.
Há ainda quem mantenha (ou tenha mantido) posts em draft (guardado no blogger), uma espécie de bolsa de drafts, à espera de melhores dias. Grande erro (regra número seis). Pelas suas características, um blog é um diário e assim, o que é hoje pode não ser amanhã. Um post datado é um post requentado, fora do tempo, da circunstância e perdido na sua oportunidade. Num blog colectivo, os seus autores podem espreguiçar-se à vontade, pois mais cedo ou mais tarde há-de aparecer alguém com algum comentário ou histórias para contar.
Está claro que estas regras não são para levar a sério, caro leitor, mas quem me conhece sabe como aprecio um índice bem feito. Coisas minhas.
E despeço-me do Corta-Fitas com o meu bem haja pelo simpático convite, não sem antes informar que já só falta um dia, cinquenta e sete minutos e três segundos para terminarem na televisão os festejos do Maio de 68 e aproveito também para revelar ao mundo que o cozinheiro da selecção de futebol prepara diariamente um arrozinho doce para os jogadores, o que perfaz a regra número sete: um post mal concluído é um post perdido.
 
Isabel Goulão (dos blogues Miss Pearls e O Carmo e a Trindade)
 

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Joana Carvalho Dias

por Pedro Correia, em 27.05.08

Os desafios políticos mais urgentes

I

O PSD prepara-se para eleger um(a) nov(a) líder capaz de se apresentar como alternativa ao nosso primeiro-ministro, e o PS já se sente em época eleitoral. No PSD exige-se tudo a esta nova liderança: um programa coerente, ideias, credibilidade e capacidade de apaziguar o turbulento partido, bem como enfrentar as eleições legislativas de 2009 de igual para igual com José Sócrates.

II

Elaborar programas, dar ideias, encontrar soluções no papel e nos discursos para o País não é difícil. Ideias não faltam nas cabeças inteligentes (a inteligência não é, ao contrário do que pode parecer, um bem escasso) e voluntariosas que se preocupam com o desenvolvimento do País e apontam, e bem, o dedo ao seu atraso crónico; basta um olhar pela blogosfera - por exemplo - e para os debates que, e ainda bem também, nela se desenham para termos as ideias para um esboço de programa de governo. Uns dias para redacção final, os polimentos do marketing comunicacional, o inventar de dois ou três slogans políticos, e já está!

Mas a dificuldade em governar está no facto de que os programas e as ideias esbarram na realidade: no dia a dia das gentes, no País tal como ele é, nas circunstãncias, no mundo global dos nossos dias e nessa interdependência tão grande no nosso caso. Os candidatos a futuros primeiros-ministros deveriam dizer-nos o que farão nos chamados worst-case scenarios que são palco excelente a revelar quer a consistência das políticas quer o carácter do político.

Como é que Portugal vai enfrentar uma conjuntura internacional de baixo crescimento económico, não só possível como provável, com o euro forte, uma subida de preço dos combustíveis e sobretudo da alimentação? O que se faz se as exportações não crescerem, as falências continuarem o seu caminho de inevitabilidade e o desemprego continuar a aumentar? Como se enfrenta o descontentamento dos eleitores estrangulados com a carga fiscal, empréstimo da casa e preço da alimentação? Como se reforma o Estado nestas circunstâncias? Onde se corta a sua despesa? Como se encontra equilíbrio entre os interesses legítimos dos diferentes grupos, das classes, os direitos adquiridos de uns, todos eles de alguma forma dependentes do estado, face ao mais abstracto bem ou face ao mais mensurável desenvolvimento da nação?

III

Deveríamos perguntar aos futuros candidatos a primeiro-ministro o que farão eles de cada vez que as suas políticas reformistas forem alvo de grande descontentamento popular. Lembrando o caso do SNS, recuariam deixando cair o ministro e as políticas? Ou enfrentariam, e como, o descontentamento social e o povo na rua? Pergunto-me porque é que hoje já não morrem pessoas nas ambulâncias, nem nascem crianças nas ambulâncias ou pelo menos, se morrem e nascem, já não sabemos. Porque é que esta ministra ao tomar posse afirmou que a política para o SNS não mudava, mas já não há notícias de fechos de serviços de urgências, e porque é que a reforma do SNS deixou de ser um problema que se debate e discute? Dizer que se quer acabar com as listas de esperas longuíssimas para cirurgias é fácil, mas como se negoceia com as administrações dos hospitais, como se colmata o problema criado pelo próprio estado (no acesso às faculdades de medicina) da falta de médicos, como se dialoga, ou enfrenta a classe médica, ou a classe dos enfermeiros? Ou perguntar porque é que ainda não se liberalizaram as farmácias, tal como prontamente anunciado pelo nosso primeiro-ministro?

IV

Na Justiça, os anúncios e as reformas não são visíveis aos olhos do contribuinte. Os ímpetos e excessos legislativos têm como efeito reforçar a desconfiança e o sentimento de incompreensão da Lei. Os resultados dos casos mediáticos Casa Pia, Apito Dourado, Esmeralda, Maddie, por exemplo, são a face da fragilidade da nossa Justiça e investigação criminal. Quem ou o que é que impede as reformas? Na Educação, escrever num programa de governo da bondade da autonomia das escolas, das virtudes dos cheques-ensino, da liberdade de escolha, é simples. Mas como se vai enfrentar o descontentamento das famílias quando, por causa de uma boa medida que é a obrigatoriedade do ensino, os resultados das políticas de não-retenção (palavra politicamente correcta para reprovação) de alunos se fizer sentir nas turmas e no aproveitamento dos outros alunos? E as diferenças se notarem nas escolas autónomas?

V

A enumeração destes exemplos só serve para mostrar que a pressão para inverter as políticas reformistas ou o boicote às mesmas se faz sentir de forma real, e era importante saber como é que os futuros candidatos a primeiro-ministro reagem. Tentar adivinhar a consistência das políticas bem como o carácter do líder são dados tão importantes como avaliar as políticas e as medidas reformistas, para percebermos se abandonam as reformas mudando a cara de um ministro, por exemplo, ou se propõem reformas a passo e passo, ou se se preparam para enfrentar o descontentamento sabendo que podem perder o apoio popular e perder eleições.

 

Joana Carvalho Dias (do blogue Hole Horror)

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Ana Vidal

por Pedro Correia, em 25.05.08

 

 

 

Alecrim e Manjerona

Esta notícia do DN dá-nos conta de uma guerra de Alecrim e Manjerona travada nos corredores do Ministério dos Negócios Estrangeiros que daria uma boa opereta, com libretto escrito pelo Eça. Ficamos a saber que há movimentações subterrâneas e revoltas surdas entre os punhos de renda e as luvas de pelica, entre as casacas e os sapatos de verniz, entre os papillons e os botões dourados.

Não posso deixar de sorrir com o que leio: perante as imensas e graves dificuldades que o País atravessa, estas insólitas batalhas no Olimpo passam totalmente ao lado de uma população que tenta sobreviver às crises económicas sucessivas que lhe põem à frente. De uma população que, se inquirida, diria sem hesitar que esta opera buffa não serve, sequer, para divertir o pagode, e que os actores estão todos a mais no palco do quadro de miséria em que vivemos. Não subscrevo esta opinião, mas entendo-a. Sei que a diplomacia faz falta e que tem um papel importante na imagem de qualquer país civilizado. Sei que não poderíamos abrir mão de representações que nos dignificam perante o mundo, e que os veleiros palacianos são, muitas vezes, a única opção para chegar a portos difíceis. Mas não posso deixar de reflectir sobre a profunda clivagem que se agrava todos os dias entre governantes e governados, que faz parecer supérfluo, e até irreal, tudo o que não se trata do simples pão para a boca.

 
Ana Vidal (do blogue Porta do Vento)

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