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Mais uma crónica moralista

por João Távora, em 19.09.14

Ontem á tarde, depois de umas voltas a pé pelo Chiado ocorreu-me o sugestivo achado de que, se até ao século XIX as crianças se ataviavam como adultos, hoje em dia os adultos querem é vestir-se como as crianças, por exemplo, com boné americano, t-shirt garrida com um excesso qualquer, calções e sapatilhas de Basquete (na melhor das hipóteses). 
De facto é especialmente durante o século XX que se verifica um crescente cuidado na diferenciação com o trajar infantil, na assunção da sua especificidade face aos adultos, expresso através de elementos coloridos e resistentes que evidenciassem a inocência dos petizes favorecendo a liberdade de movimentos que a brincadeira requer. Daí à proliferação de modistas e lojas especializadas foi um salto, e imagino que tardando em relação aos outros países ocidentais, nos anos sessenta já existiam em Lisboa pelo menos dois casos sérios na matéria, a italiana Brummel e a portuguesíssima sapataria Bambi para gáudio das mães mais extremosas e endinheiradas. Facto não despiciendo, é que o trabalho infantil só vem a ser proibido bastante mais tarde.
Democratizada como objecto de consumo acessível e transversal no ocidente, a moda é hoje inevitavelmente um reflexo do "espírito do tempo". Talvez por isso o adulto resista a qualquer formalismo e sofisticação, mais preocupado em vestir-se para chamar a atenção... pelo espanto. Idealizada a infância, acontece que ela é a representação aproximada do “bom selvagem” o devaneio de Rosseau, bem-aventurado, livre e inocente porque desligado de quaisquer normas e espectativas sociais que o corromperão (e quem é que inventou essa de que a infância é na sua natureza tempo de felicidade e inocência?!). Deste modo por estes dias a forma de vestir tende para uma cada vez maior informalidade, mas anacronicamente esmerada e até dispendiosa - todos diferentes, todos iguais, numa mensagem de emancipação e afirmação de inconsequência, exterioridade, descomprometimento, completa e inexoravelmente só. 

Em defesa deste discurso moralista tenho a dizer que me admiro tanto com uma garota de biquíni subindo a Avenida da Liberdade quanto um homem de fato e gravata no areal duma praia. E que acredito na liberdade de escolha individual como valor fundamental, e que ao fim do dia todos temos o direito de nos imaginar até um artista de rock. O que me parece trágico é que, se a evolução estética ocorrida na moda infantil durante o século XIX e XX reconhecia essencialmente a especificidades da criança com inequívocos direitos a um desenvolvimento no sentido da responsabilização e urbanidade, hoje os seus filhos ou netos parecem reclamar através das mais bizarros trajes um estatuto de total puerilidade, como uma geração que recusa ou resiste a crescer e assumir a sua quota de responsabilidade para o sustento ou avanço da civilização.
No outro dia duas pessoas à porta do colégio dos meus filhos, despedindo-se utilizavam uma expressão aparentemente vulgar e incipiente mesmo entre duas caricaturas de adultos: "Adeus, pá, porta-te mal se puderes!". Talvez pelo enquadramento a coisa deixou-me a pensar. Certamente não quer dizer nada e não me lembro de como estavam vestidos. 

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Outono

por João Távora, em 14.09.14

Parece mentira mas ao Verão, a estação que, conformados, todos já enterrámos na areia há algum tempo, ainda lhe falta mais de uma semana para acabar, prova de que a substância tem preponderância sobre a forma. Para além da meteorologia, acresce que amanhã a criançada regressa em força às aulas, o definitivo reforço da exigência das rotinas que relegam as férias para uma longínqua memória. De um momento para o outro os dias irão tornar-se muito mais atarefados, mal despertos ao lusco-fusco, com mochilas, trabalhos de casa e dentes lavados para monitorizar, engarrafamentos no trânsito e rotinas para enfrentar. Está na hora de reforçar o ânimo e extirpar de dentro a luminosidade que se vai extinguindo no sol cada vez mais mandrião.  

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Admirável mundo novo

por João Távora, em 22.08.14

Isto dos "telefones espertos" vai-se a ver e são muito úteis para diferentes situações, como a de nos refugiar naqueles intermináveis momentos de intimidade forçada nos elevadores, ou como passatempo enquanto esperamos pela nossa extremosa "mais que tudo" retida numa loja de indumentária feminina.

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A insustentável consciência de Ser

por João Távora, em 18.08.14


“É curioso, mas não posso ler um anúncio de qualquer medicamento sem concluir que sofro precisamente da doença em questão e logo na sua forma mais perigosa”.

J.K. Jerome in

Três Homens num Bote

 

 

O desconcertante suicídio dum comediante no pico das férias de Verão, época tão propensa a superficialidades, trouxe para as redes sociais o sedutor tema da depressão e do suicídio, que à boleia concedeu um inaudito protagonismo à disciplina da psicologia, uma “ciência” de extraordinária inexactidão e subjectividade que como uma religião, por estes dias exerce um enorme fascínio popular. Talvez porque, como reza o ditado, “de médico e de louco todos temos um pouco”, nessa medida todos sejamos também psicólogos experimentados, autorizados a conjecturar e opinar, e o mais perigoso, a diagnosticar aqui e ali as mais rebuscadas patologias crónicas, de preferência e com um nome difícil de pronunciar.
De facto, ao final de algum tempo de passagem por este mundo, a incomensurável complexidade de cada pessoa integra no seu legado genético e cultural a sua história, também feita de frustrações e mazelas mais ou menos insanáveis. O resultando é um carácter, uma pessoa, cuja explicação definitiva, para além de irrealizável, seria totalmente inútil. Acontece que todos nascemos marcados pelo “pecado original” da consciência da morte, da dúvida existencial, da intuição do absoluto em oposição ao relativo, e da capacidade para tudo colocar em causa na procura de um sentido para a vida.
Se o número de suicídios que são praticados todos os anos nos alerta para a necessidade de reforço de uma consciência sobre a importância da saúde mental (e quem sabe para a urgência de aprendermos melhor a “tomar (em) conta” uns dos outros), tenho ideia que a banalização duma abordagem pseudocientífica de laivos deterministas a respeito da dor da tristeza, se por um lado corresponde aos interesses económicos dos lobbies industriais e profissionais que a indústria da saúde mental envolve, tais conceitos constituem essencialmente uma ameaça ao livre arbítrio do individuo que afinal só se realiza verdadeiramente na plena assunção e superação da sua realidade. De resto, como é sabido, existem
 remédios muito eficazes para a extinção radical do sofrimento, como é o exemplo da heroína uma droga ainda hoje muito em voga. Fatalmente, como acontece com as outras soluções exteriores à pessoa, vai o bebé pela janela fora com a água do banho.
Irónico que num mundo utópico projectado pelo Homem, assim como não envelheceria ele também não entristeceria jamais. Se as consequências previsíveis da primeira seriam catastróficas, sem a dor da depressão, a maior parte das obras-primas da humanidade jamais teriam visto a luz do dia. A depressão o mais das vezes é apenas o meio-caminho para sermos gente inteira. Sem as dores dilacerantes desse abismo que é a incompletude humana jamais procuraríamos a redenção. Acontece que a causa mais profunda da inquietação humana é o confronto com a solidão ontológica, "disfarçada" com perigosos entretenimentos narcísicos e outros ilusionismos. E suspeito, pelo que me foi dado experimentar, que o único “tratamento” definitivo para esse mal está na Fé, num caminho de pedras que é a construção dum encontro com Deus, com uma ordem superior das coisas que concede sentido ao sacrifício (palavra maldita, eu sei). Justamente a saída que a sociedade urbana, científica e materialista, na sua arrogância pretende deitar para o caixote do lixo da história. Como consequência e no seu lugar, a indústria vem “pesquisando” as mais improváveis Causas biológicas e culturais, rotulando e justificando “cientificamente” as mais imaginativas propensões, moléstias e manias, produzindo dispendiosas mezinhas para tranquilizar tanta inquietação. O pior, é que como observava Chesterton “o homem quando não acredita em Deus tende a acreditar em tudo”.
A propósito de um caso concreto acontecido com alguém que me é muito próximo, confidenciava eu há dias a um amigo que estas incontornáveis ciências novas, deveriam inspirar dos seus profissionais, aprendizes de feitiçaria, uma enorme modéstia e realismo quanto às limitações das técnicas com que operam – Graças a Deus, afinal. 

 

Banda sonora Trouble Will Find Me The National.

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Os nossos heróis *

por João Távora, em 14.08.14

Não vêm nos jornais nem atraem as televisões, não deixam obra científica ou literária mas marcam o mundo. São heróis anónimos, “atletas da existência”, vidas venturosas realizadas na relação que cura, no resgate do outro nos territórios mais obscuros do sofrimento e desesperança. Seres de luz que tecem laboriosa e persistentemente uma rede de vida, entrega verdadeira, incontornável legado de humanidade que faz da nossa terra um sítio decente.

Identifico-me com aqueles a quem a aspereza, as contrariedades e a tensão acesa pelo desafio cavam rugas de expressão. Aqueles que não disfarçam o desassossego de uma meta que resvala com o horizonte, aquela da escolha de seguirem o modelo de Cristo. Uma caminhada inconformada, exposta às tortuosas perplexidades de uma vida abraçada de peito aberto. Todos sabemos quais os traços com que se esboça um herói – com o mais cristalino júbilo e a mais insuportável das dores. O resultado é aquele que nos deixa o mais preciso tesouro como herança – o de acreditarmos que é possível.

 

* Dedicado ao Zala, incansável cuidador de "escangalhados", que Deus o tenha em sua infinita glória. 

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Fragilidade

por João Távora, em 14.08.14

Herdadas ou adquiridas são muito nossas e intrínsecas as fragilidades que fatalmente nos moldaram desde o berço ou antes disso, quais buracos negros havidos de morte. Foi um engano, uma arrogância, quando pensámos que as eliminávamos com o músculo do nosso querer treinado pelos anos. É desconcertante verificar como basta uma faca afiada que entre as couraças das nossas defesas encontre o caminho para aquela carne viva, para que a dor lancinante nos recorde as debilidades de que afinal sempre fomos feitos, apesar das grossas muralhas, que não podemos negligenciar: estão lá porque somos frágeis, não porque somos fortes. 

 

 

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Felicidade

por João Távora, em 16.05.14

Arrisco-me a dizer que ela só existe quando a chamamos, e ainda é preciso reconhecê-la, condão que a muitos falta.

 

 J. Rentes de Carvalho, Tempo Contado.

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O que é o amor?

por João Távora, em 15.05.14

Casamento - Foto Instagram minha

 

Sobre o Amor romântico sei dizer pouco: ao fim de quase 50 anos de leituras os testemunhos dos poetas deixam-me sem palavras, Filipe. Sobre o casamento acho que já sei alguma coisa. Que ninguém está tão pouco casado quanto um par de noivos à saída da Igreja - falta ainda tudo. Que é construção, é civilização, e por isso não é relativo aos apetites de cada individuo.  Sei que o amor ajuda, mas precisa resistir às suas próprias sombras. Que é racionalidade, arte e projecto: eu estou aqui e quero chegar ali, àquela finalidade àquele final feliz. O Criar os filhos, sim. Dar-lhes educação. Construir uma casa. Partilhar um legado, ajudá-los a crescer, moldar-lhes as almas com boas memórias. Ter uma companhia, uma testemunha privilegiada de cada passo da existência de cada um. Alguém com quem escrever uma história. Alguém a quem ler histórias. Alguém com quem dormimos. Já pensaste a extraordinária cumplicidade de adormecer ao lado de alguém, Filipe? Pode isso ser banal?
Tive um amigo que até aos trinta e poucos anos já tinha casado quatro vezes - não sei se verdadeiramente chegou a adormecer com alguma delas. Na altura testemunhei a sincera paixão e entusiasmo com que ele seduzia a quinta noiva, de quem como é óbvio, dois anos depois se estava a divorciar – a pobre ficou um destroço. Era obrigatório casar? Não. Suspeito que o Amor romântico é egoísta, é auto-contentamento e ganâncioso, tem pouco a ver com Casamento que é fazer família. Suspeito que perder uma tarde de Sábado com a mulher na Baixa à procura de um candeeiro ideal para montar naquele canto da sala para onde parece ter sido projectado de propósito, vale tanto ou mais quanto uma noite num hotel romântico. Desconfio que a biblioteca que marido e mulher constroem, tem o dom duma bênção divina – não separe o homem aquilo que Deus uniu. Assim como o grupo de catequese de casais que religiosamente os dois frequentam todos os meses, há anos e anos a fio, e onde resiste um viúvo com uma cadeira de lembranças e saudade ao seu lado. Suspeito que muita gente achará esta perspectiva muito romântica. Que afinal me refiro ao Amor. Que isto não é possível sem amor. Ora, se tudo o que refiro não são histórias de amor, o amor não existe.

 

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Alegoria

por João Távora, em 10.05.14

Um produto como um detergente da louça pode dar-nos uma lição de vida: lançado com forte poder abrasivo e cheiro a limão só não economiza a espuma que extravasa. Depois, aparece em cores pastel, aromas exóticos, propriedades dermatológicas e... deixa de lavar pratos.

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Gente realmente importante *

por João Távora, em 24.03.14

 

Foi na discrição com que habitualmente acontecem os milagres mais decisivos das vidas das pessoas, que se deu este episódio na sexta-feira passada, na plataforma da estação de Entrecampos, a poucos minutos da chegada do comboio Fertagus das 10:30 - Sarita, cabo-verdiana de 23 anos estudante residente na margem sul, assiste aterrorizada à queda na linha de um carrinho com um bebé lá dentro, inadvertidamente empurrado pelo irmão de quatro anos, enquanto a mãe de ambos, alheada, lutava com a máquina de venda de bebidas. Perante uma estação quase deserta, a cerca de quatro minutos da chegada do comboio, Sarita encheu-se de coragem e precipitou-se para a linha, de onde conseguiu a custo resgatar o bebé. Mas a jovem não ganhou para o susto, tanto mais que só após várias tentativas e socorrida por um passageiro entretanto chegado se conseguiu elevar para a plataforma, pondo-se a salvo a poucos segundos da chegada do comboio. 
Sem parangonas nos jornais, medalha de mérito ou outro reconhecimento que não seja o dos que testemunharam este pavoroso susto, ou quem a conhecendo bem, ouviu da sua boca trémula pela emoção o milagre por si vivido, esta jovem junta-se ao clube dos grandes heróis, que nos fazem sentir orgulho da nossa divina natureza. Com um enorme sorriso de Deus. 

 

* Titulo roubado ao meu homónimo e correligionário João Afonso Machado 

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Sou do tempo do telex

por João Távora, em 28.01.14

Por favor senhores cientistas e engenheiros informáticos parem por uns aninhos de inventar coisas novas e "disrruptivas" que eu estou cansado de me actualizar e não tenho mais saco para ser moderno.

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Ingratidão

por João Távora, em 15.01.14

Nota-se bem à mesa do jantar: os miúdos pequenos só não nos contam tudo porque não se sabem expressar. Quando crescem e aprendem, se for possível não nos contam nada.

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Aflições

por João Távora, em 01.01.14

Há principalmente dois tipos de pessoas: os que vivem numa aflição por viver mal e os que vivem numa aflição para viver bem.

 

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Eternidade

por João Távora, em 26.09.13

Juntar as pontas do tempo integrando as suas infindáveis (pequenas) histórias, é o que nesta vida mais nos aproxima da eternidade.

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Futurologia

por João Távora, em 23.09.13

A cada momento todos nós somos chamados a prever o futuro com relativo sucesso - guiar um automóvel é desse exercício um bom exemplo. A dificuldade de antecipação dispara na proporção do alargamento do espaço e do período de tempo em equação (segundos, minutos?) com a consequente desmultiplicação de variáveis que temos de considerar


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Uma maçada...

por João Távora, em 24.08.13

Difíceis não são audácias, conquistas ou tarefas hercúleas. O grande desafio é a manutenção de uma vida normal e decente. 

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Da amizade, verdadeira e finita

por João Távora, em 13.08.13

Longe de mim querer o ónus de contrariar os poetas, os idealistas e muito menos os adolescentes. Mas acontece que a verdade exige que de vez em quando lhe prestemos tributo, e é nesse sentido que vos posso garantir que a eterna amizade, tipo “encontramo-nos por aí daqui a vinte anos como se fosse no dia seguinte” é o mais das vezes um mito, talvez inofensivo, mas um rotundo mito. E acreditem no que vos digo, pois que sou um experiente especialista nisso de ter bons amigos, graças a Deus: sempre fui pessoa de grandes amizades, cada uma delas única e lealmente cultivada. De antigamente, lembro-me bem daqueles (sempre poucos é certo) que tanto me marcaram na dobra amarrotada da adolescência: das nossas cumplicidades construídas com a descoberta da vida, no erro e na virtude, das conversas intermináveis em que emergiam soluções definitivas para os problemas do Mundo e da existência, vislumbradas entre fumo e garrafas de cerveja; na interpretação dos nossos ídolos da música, da literatura e da história, como se apenas nós os entendêssemos verdadeiramente, numa egolatria partilhada e consentida. E as emoções vividas em estados limites de exaustão, nas noitadas; de arriscadas e arrepiantes façanhas e aventuras, estados d’alma que sempre convidam ao arrebatamento e ao exagero de juras de fidelidade siamesa, mais-que-eterna, quase sólida.
Mas depois sem pré-aviso, os caminhos desviam-se de forma mais ou menos subtil e a vida separa-nos com uma intrigante naturalidade. Vêm os amores, os casamentos, os filhos e novas famílias. Chegam trabalhos mil, conquistas, falhanços e frustrações. Sim, são possíveis amizades para toda a vida (sei que o meu pai teve uma assim) mas hoje sou obrigado a admitir que mesmo terminadas não deixaram de ter sido genuínas. Deixaram de ser “praticadas”, enterradas que foram após um fortuito reencontro, quem sabe embaraçador, em circunstâncias inesperadas: acontece que vinte ou quarenta anos depois já não somos as mesmas pessoas, o tempo e as circunstâncias fizeram de nós pouco menos do que estranhos, quando já só nos queríamos preservados e incorrompidos nas respectivas memórias. Cúmplices num sentimento incómodo de estranha incompatibilidade, que o bom e velho amigo nunca irá cobrar esta primeira e última traição: "amigo não empata amigo" (frase detestável, esta), a vida continua imparável presenteando-nos cruamente com novos bons amigos, poucos, que isso é da sua natureza. 

 

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Assim como assim, prefiro o segundo

por João Távora, em 06.08.13
Com estilos diversos, o barbeiro e o taxista têm em comum o hábito de fazer conversa fiada. O taxista é muitas vezes desastrado e virulento, aproveita encontro fortuito para aliviar as tensões. De prosa redonda e calculada, o barbeiro, diz-se, é do clube do freguês... que deverá voltar daí a um mês.

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Todos os nomes

por João Távora, em 31.07.13

Todas as pessoas têm direito ao seu nome. Um nome que sintetize a sua genealogia com as memórias da sua existência numa unidade com o presente. Nessas circunstâncias é que pode soar como música alguém nos tratar pelo nome - na acepção de pessoa única e irrepetível, criada à imagem de Deus. Devíamos todos ser capazes de nos tratar uns aos outros pelo nome, um nome carregado com memória viva, que significa interesse pelo outro e pela sua circunstância. Isso é Amor, o único Amor que pode resgatar o Homem da sua precária contingência. De resto, não se é aristocrata por nascimento ou vontade, mas é-o quem desse modo interpreta o sentido da vida.

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Camille Claudel

por Luísa Correia, em 11.03.13

Conhecia mal as circunstâncias da vida de Camille Claudel. Sabia apenas da sua ligação a Rodin, que estimulou ou foi estimulado pelo seu talento, e sabia da sua loucura. Mas desconhecia que, encarcerada no asilo psiquiátrico em Março de 1913, o foi a instâncias da mãe e do irmão, Paul Claudel, poeta, dramaturgo e diplomata francês, que terá cantado loas a Pétain e a De Gaulle com a mesma efusividade.
Camille esteve encarcerada durante trinta anos, até morrer, em 1943, talvez de fome, dado que o racionamento imposto pela guerra afectou particularmente os manicómios por razões que se deduzem das preocupações depurativas do ocupante germânico. Morreu nesse abandono e ignorada do irmão, já então figura proeminente e confortavelmente instalada na vida, que fez ouvidos moucos a quantos o foram informando, ao longo do tempo, da recuperada sanidade mental da escultora.
Dizem alguns que o moviam ciúmes da genialidade dela. E eu estou tentada a subscrever a tese. A "Valsa", aí em cima, não é uma coisa fantástica?

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