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Para além de ter os miúdos de férias em casa, um pequeno giro matinal deu-me para constatar que os correios, a junta de freguesia e a farmácia estão fechados. De Cavaco nos anos oitenta à actualidade de Passos Coelho e da Troika comprova-se que o Carnaval para os portugueses é uma fatalidade. As coisas são como são: foliemos, portanto.
Nunca aderi espontaneamente à festa do Carnaval. A chegada das serpentinas, máscaras e bombinhas às montras das tabacarias despertava-me algum interesse, mas esse não superava um leve sentimento de melancolia provocado pelas recém-finalizadas festas natalícias e pelo reinício da implacável disciplina escolar.
medonho, à entrada da sala de jantar. Era feito de roupas e enchimento em cima de um cabide de fato e usava o chapéu do meu avô João. Os croquetes feitos com algodão e outras partidas célebres desses Carnavais da Avenida não alcança a minha memória.
que eu e os meus colegas da escola experimentávamos as mais endiabradas aventuras com bisnagas, bombas e “estalinhos”. Com cinco tostões comprávamos cinco estalinhos ou… uma bomba verdadeiramente assustadora. Com cinco escudos adquiríamos um verdadeiro arsenal. À saída da escola, munidos de uma carteira de fósforos, corríamos o bairro, de caminho para casa a rebentar bombas nos sítios mais insólitos: nada como uma boa explosão dentro de uma funda sarjeta, ou na escadaria de pedra de um prédio. Até os vidros tremiam, enquanto já a milhas corríamos em fuga. Ainda pelas ruas de Campo d’ Ourique armados com coloridas pistolas espaciais, esgueirávamo-nos à volta dos carros estacionados disparando potentes esguichos de água uns aos outros. Até esbarrarmos com uns quaisquer índios do Casal Ventoso que, violentos, com uns gritos e uns socos se apoderavam das nossas preciosas armas. Era a lei da rua, a lei do mais forte.
metragens do Charlot em Super 8.
pais, com quem me cruzava a andar de bicicleta no Jardim da Estrela. Que tristonhas “espanholas” e “noivas do Minho”, que expressões infelizes exibiam aqueles inúmeros “Zorros” e “campinos”, de bochechas maquilhadas e olhos esborratados. Com uma matinée no cinema Europa, umas voltas de bicicleta e muita televisão se passavam as minhas férias. No final de contas, que bem me sabiam aqueles cinco dias sem ir à escola!O Carnaval e o Clima Ameno neste jardim à beira mar plantado: dois mitos que, um apesar do outro, suplantam teimosamente a realidade dos factos.
Este glorioso tempo, luminoso e soalheiro com acentuado aroma primaveril, se não se tratasse duma calamidade climática, seria uma grosseira provocação a Passos Coelho, um descarado convite para férias ou feiras, uma atípica promessa de êxito aos Corsos que por tantos anos resistiram entre aguaceiros e saraivada de granizo. Concluindo, a meteorologia por estes dias é uma cínica gargalhada arremessada à nossa trágica realidade. Sambemos então até às Cinzas!
Muitos portugueses ainda não terão entendido bem a gravidade da situação nacional, e o perigo de bancarrota que nos espreita, menos ainda as consequências de tal acontecimento. Seja qual for o desenlace, o certo é que vivemos uma mudança de paradigma, uma esquina da História, daquelas que inevitavelmente marcarão por muitos anos os manuais escolares do ensino obrigatório.
Agora, virem os líricos que nos conduziram a esta desgraça liderados pelo herdeiro Seguro, reclamar contra o corte da "tolerância de ponte" do Carnaval, uma festa confrangedora, uma exibição patética de pobreza que algumas autarquias teimam em queimar euros que não possuem, parece-me trágico no mínimo. O mesmo juízo aplico aos que julgam a “medida certa no tempo errado”: num país em vias de extinção, dependentes por um fio de cabelo dos credores estrangeiros que vão mantendo dinheiro a circular nas nossas caixas de multibanco, numa república sem economia, sem qualquer autonomia energética, sem indústria, agricultura ou pescas, dependente dos outros nos bens mais básicos, que penhora o feriado da independência perante a indiferença geral, estas vozes parecem-me profundamente desafinadas com a realidade. Oh gente, que se lixe o Carnaval, deixemo-nos de cabeçudos, mãos à obra e restauremos Portugal!
P.S.: Hoje o Carnaval, com os seus traços de frivolidade, folgança e luxúria impera em todo o calendário de festividades: a mais radical diversão e toda a espécie de devaneios, fantasias e alienações, encontram-se disponíveis no mercado, todos os dias a todas as horas, para todas as bolsas. Isso explica o patético espectáculo em que caíram estas descontextuadas e incaracterísticas festas, alimentadas e mantidas em desespero por algumas teimosas autarquias. Um confrangedora exibição de pobreza. Ler mais»»»
Tempos houve em que o Carnaval desfilava na Av. Da Liberdade e no imaginário da comunidade urbana que vivia sob grande influência do Calendário Litúrgico. Então, este era um período de folia e de excessos que precedia a sobriedade e o recolhimento da Quaresma que transpunha as portas das igrejas para o quotidiano das pessoas comuns, como ciclos que seguiam o ritmo da natureza, no temor da morte e celebração da vida. Hoje, o Carnaval é quando um homem quiser.
Hoje o Entrudo, com os seus traços de frivolidade, folgança e luxúria imperam em todo o calendário de festividades: a mais radical diversão e toda a espécie de devaneios, fantasias e alienações, encontram-se disponíveis no mercado, todos os dias a todas as horas, para todas as bolsas. Isso explica o patético espectáculo em que caíram estas descontextuadas e incaracterísticas festas, alimentadas e mantidas em desespero por algumas teimosas autarquias. Um confrangedora exibição de pobreza.
Fotos: Av. da Liberdade 1906 - Desfile de Carnaval.
Nunca aderi espontaneamente à festa do Carnaval. A chegada das serpentinas, máscaras e bombinhas às montras das tabacarias despertava-me algum interesse, mas esse não superava um leve sentimento de melancolia provocado pelas recém-finalizadas festas natalícias e pelo reinício da implacável disciplina escolar.
medonho, à entrada da sala de jantar. Era feito de roupas e enchimento em cima de um cabide de fato e usava o chapéu do meu avô João. Os croquetes feitos com algodão e outras partidas célebres desses Carnavais da Avenida não alcança a minha memória.
que eu e os meus colegas da escola experimentávamos as mais endiabradas aventuras com bisnagas, bombas e “estalinhos”. Com cinco tostões comprávamos cinco estalinhos ou… uma bomba verdadeiramente assustadora. Com cinco escudos adquiríamos um verdadeiro arsenal. À saída da escola, munidos de uma carteira de fósforos, corríamos o bairro, de caminho para casa a rebentar bombas nos sítios mais insólitos: nada como uma boa explosão dentro de uma funda sarjeta, ou na escadaria de pedra de um prédio. Até os vidros tremiam, enquanto já a milhas corríamos em fuga. Ainda pelas ruas de Campo d’ Ourique armados com coloridas pistolas espaciais, esgueirávamo-nos à volta dos carros estacionados disparando potentes esguichos de água uns aos outros. Até esbarrarmos com uns quaisquer índios do Casal Ventoso que, violentos, com uns gritos e uns socos se apoderavam das nossas preciosas armas. Era a lei da rua, a lei do mais forte.
metragens do Charlot em Super 8.
pais, com quem me cruzava a andar de bicicleta no Jardim da Estrela. Que tristonhas “espanholas” e “noivas do Minho”, que expressões infelizes exibiam aqueles inúmeros “Zorros” e “campinos”, de bochechas maquilhadas e olhos esborratados. Com uma matinée no cinema Europa, umas voltas de bicicleta e muita televisão se passavam as minhas férias. No final de contas, que bem me sabiam aqueles cinco dias sem ir à escola!
Do Francisco José Viegas, um excelente texto (já antigo) sobre o Carnaval lusitano.A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.