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Um passeio na Graça

por Luísa Correia, em 14.04.14
Cumpriu-se o programa, apesar do intenso nevoeiro matinal.

O passeio iniciou-se na Senhora do Monte, onde encontrei, finalmente, a porta da Igreja aberta. Posso assim dar testemunho de que a cadeira de S. Gens não é um mito. Remeto para terceiros a prova das suas virtualidades...

Seguiu-se a visita a algumas das típicas vilas da Graça, operárias ou não. O Bairro Estrella d'Ouro, por exemplo...

... com as suas calçadas estreladas...

...e o seu cinema, hoje dado a outra serventia.

E a Vila Berta...

...sempre cuidada e florida.

O passeio terminou no Miradouro da Graça, onde o nevoeiro continuava a encurtar horizontes.

Mas nem os horizontes enevoados tiram à Graça a graça que tem. 

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Aventuras na Pequena Alface: toca a rufar...

por Luísa Correia, em 03.10.10

 

Não tenho convicções monárquicas – não tenho, aliás, convicções sobre a política real, nem sobre as alternativas que oferece, porque detecto, numa e noutras, inversões e falácias ideológicas que recomendam a maior prudência na tomada de posições. Ainda assim, sei que não tenho convicções monárquicas, porque descreio dos méritos do seu esquema de sucessão hereditária. A ideia da exclusão apriorística de um cidadão justo do acesso a um cargo do poder, qualquer que ele seja, contém em si mesma um embrião de injustiça que me coíbe de uma adesão sem condições. Terei, então, convicções republicanas – se ignorar esta minha crescente atracção por uma anarquia expurgada do temeroso batalhão «viral» que constitui a classe política. Mas tal não significa que encare com simpatia os rumos que a República tomou em Portugal. Pelo contrário, o que tenho aprendido do que foi a Primeira República e o que tenho observado e vivido nos últimos trinta anos deram causa a uma desconfiança profunda na «eficiência» dos regimes democráticos ou simplesmente representativos no nosso país, pelo menos enquanto o senso crítico dos seus habitantes oscilar tão ao sabor das correntes mediáticas ou do sentido de oportunidade. Foi por isso, porque estou desiludida e céptica, que há dias, quando me achei, no Terreiro do Paço, involuntariamente cercada pelo pequeno grupo que assistia ao hastear da bandeira nacional sob o arco da Rua Augusta, ao som do hino interpretado pela banda da GNR, não tive, devo confessá-lo, o menor estremecimento patriótico e só quis escapulir-me dali. Mas vibrei tremendamente quando, mais adiante, me cruzei com a orquestra juvenil de percussão «Toca a rufar». O crescendo da sua batucada provocou, em mim, o efeito ansioso, expectante, emocionado da aproximação de uma cavalgada heróica, e não resisti a segui-la e fotografá-la na sua muito acompanhada e aplaudida progressão. Afinal, mais do que um animal político de pendor republicano, sou, como pessoa, um feixe de nervos sensíveis aos ritmos primordiais da vida.

Nota: soube que, no mesmo dia da cerimónia ou no seguinte, os cabos que sustinham a bandeira cederam e esta veio abaixo. Terá sido, presumo, rapidamente reposta no lugar, mas nem por isso o episódio deixa de ter uma certa, triste, carga simbólica. 

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É de Gore Vidal, desde há muito instalado na costa amalfitana da velha bota europeia, esta curiosa afirmação: «I daresay the fact that I have spent most of my life in Roman Catholic countries has […] also convinced me that Roman Catholic societies are more agreable to live in than Protestant ones, because they are not in the slightest degree Christian». Não me atrevo a comentar o juízo contido numa tal frase, desde logo porque não tenho experiência de vida nem capacidade de análise comparáveis à do escritor. Há um ponto, contudo, em que não hesito em lhe dar razão. As sociedades ditas católicas devem contar-se, actualmente, entre as mais tolerantes, na medida em que o católico urbano, atormentado pela «dúvida existencial» e pelo peso das culpas «históricas», optou por adoptar, no tocante à sua religião, uma atitude de absoluto relaxe e, no tocante à diferença e à heterodoxia, uma atitude de absoluta compreensão. E nesse processo, fez por esquecer boa parte das suas devoções e rituais, sacrificando-os ao padrão de conduta que, no rescaldo da sua tormenta psíquica, achou que lhe emprestaria uma aparência lúcida, moderna e consensual. Por tudo isto, não resisto a descrever o «fenómeno» que há dias presenciei numa curta deslocação entre Santa Apolónia e Santo Amaro. O taxista era um homem de meia-idade, de pescoço taurino, cabelo denso, mas bem aparado, sobrancelha hirsuta e comportamento sóbrio. Recebeu indicação do destino e recolheu-se ao silêncio que se espera do condutor atento aos perigos do asfalto. Mas quando passámos diante da Igreja da Conceição-Velha, retirou a mão direita do volante e persignou-se. Voltou a fazê-lo na passagem pela Igreja do Corpo Santo e, de novo, defronte da Igreja das Flamengas. E mais igrejas houvesse no trajecto, mais sinais da cruz teria esboçado. Porque não vi, no automóvel, nenhum ícone ou vestígio de fé ardente, o seu gesto foi totalmente inesperado. E como tudo o que é inesperado num mundo que se conforta no mimetismo, foi também um tanto assustador. A respiração, confesso, só se me soltou quando paguei a conta e fechei delicadamente a porta. Mas revendo, de seguida, o percurso, dei nota de uma viagem suavíssima, sem travagens bruscas, manobras arriscadas, pinotes, nem altas velocidades. O que terá feito que, por um quarto de hora, as ruas da minha Pequena Alface se tivessem transformado em lisas e desafogadas pistas de «tartan»… não quero nem imaginar.

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Aventuras na Pequena Alface: mesa marcada*

por Luísa Correia, em 04.08.10

 

Tinha tido tão boas referências daqueles cachorros quentes, que combinei logo um encontro no quiosque do patamar inferior do Miradouro de São Pedro de Alcântara. Começámos, naturalmente, por louvar a beleza do panorama – uma dessas belezas que nunca se apaga, nem na indiferença do excesso de familiaridade – e o arranjo cuidado do Jardim - notando embora que a canícula fizera estragos, roubando algum viço às composições branco-rubras dos canteiros. E louvámos - depois de ter feito o pedido - a brisa que soprava de Norte e o sossego ambiente. Era o clima perfeito para uma hora de boa conversa e melhor repouso, saboreando, regada com uma imperial fresquinha, a afamada «pièce de résistance» do lugar. Mas quando o tabuleiro chegou à mesa, estalou a «revolução». De repente, a brisa ganhou fôlego de vendaval e arrancou ao pão, fazendo voar em estilhaços, a dose de batatas fritas nele entalada. Acudimos com guardanapos, mas também estes nos escaparam das mãos, redemoinhando no ar em movimentos desconexos, que não nos permitiam recolhê-los discretamente. No chão, um batalhão histérico de pombos, de olho gordo nas batatas, avançou por entre os nossos pés, com ameaças de bicada. E sobre o tampo, a desordem tornava-se indisfarçável, deslustrando a imagem de compostura que procuramos vender nos espaços públicos. A conversa e o repouso ficaram, portanto, sem qualquer efeito, esquecidos no esforço de domínio da situação. É que, pior para a elegância de um comensal do que semelhantes cachorros quentes, só conheço, francamente, a massa folhada, o esparguete e o choco com tinta. Já sobre o impacto dos ditos cujos num palato e num estômago… pois, não garantindo, na circunstância, imparcialidade, prefiro calar-me. Que se pronuncie um especialista!

 

*título roubado a um dos blogues muito nossos…

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Aventuras na Pequena Alface: Domingos sobre rodas

por Luísa Correia, em 25.07.10

Foi a propósito deste post do José, e com um olho nuns pastelinhos de bacalhau e outro nas belas imagens de Paris, transmitidas no pequeno ecrã a pretexto da conclusão da volta à França em bicicleta, que relembrei os Domingos estivais do meu mais ou menos remoto passado. Eram Domingos domésticos, abrigados nas sombras frescas intra-muros – os caminhos do mar estando, nesses dias, invariavelmente sobrelotados - … mas nem por isso a aventura ficava à porta. O alvoroço começava, aliás, na Sexta-Feira anterior, com os treinos de qualificação. E atingia o seu clímax no Domingo, com o Grande Prémio de Fórmula 1. Os duelos que se travavam nas pistas absorviam a atenção, não apenas no par de horas por que se alongavam, mas durante toda a jornada, de manhã à noite, desde logo na especulação sobre as condições dos asfaltos e das atmosferas, e na aposta sobre os vencedores; e depois, na revisão e no comentário das tácticas, das manobras, dos percalços, dos acidentes e até de algumas perdas pessoais, que lastimava sem nunca realmente desligar do espectáculo, e que talvez até desvalorizasse – como tendencialmente se desdramatizam as mortes doces. Há nomes que não vou esquecer pelo fastio que baniram das minhas tardes dominicais: Jackie Stewart, François Cévert (lindíssimo homem!), Jacky Ickx, Niki Lauda, Nelson Piquet, Gilles Villeneuve, Alain Prost, Ayrton Senna, Nigel Mansell, Michael Schumacher… No tempo dos primeiros, a vibração centrava-se ainda nos virtuosismos automobilísticos dos pilotos, demonstrados numa competição taco-a-taco, em que a tecnologia dos motores, a sofisticação dos chassis ou a velocidade dos abastecimentos – ou, em quatro palavras, a força da escuderia - não parecia interferir. No tempo dos últimos, outros nomes se foram impondo, os nomes de casas como a Ferrari, a McLaren, a Renault e a Williams, cujo sistema organizativo passou a condicionar o desfecho das corridas. Mas há um terceiro conjunto de nomes que também releva: o dos circuitos. E neste conjunto, realçaria o circuito urbano do Mónaco, onde as emoções, pela estreiteza das vias, pelo aperto das curvas, pela dificuldade das ultrapassagens e pelo ambiente geral, tão requintado, quanto cosmopolita, atingiam o ponto alto de cada campeonato. Não sei quando perdi o rasto ao «circo» da Fórmula 1. Foi, se calhar, quando a RTP2 o erradicou da sua programação… Ou quando deixei de acreditar em heróis…

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A primeira aventura de qualquer recém-chegado por ar à Pequena Alface é, sem dúvida, pôr o pé em terra. A construção da Portela no centro moderno da capital obriga os viajantes a seguir a aproximação ao aeroporto com um encantamento que se dilui em mil sobressaltos, quando, sobrevoado o Tejo, dão por que conseguem distinguir a olho nu os interiores do casario, os moradores e, sendo caso de horário vespertino, a própria ementa dos seus jantares. A noção do risco preocupa, presumo, toda a gente: os que ocupam o avião e os que, cá de baixo, o vêem passar. E só não preocupará os pilotos - benza-os Deus! - porque é na sua auto-confiança que reside a esperança de sobrevivência de uns e outros. Uma auto-confiança que, tratando-se dos pilotos da TAP, a minha escassa experiência me diz ser férrea, indestrutível, dada, até, a pequenas ousadias, que vou achando divertidas na medida em que as condições não beneficiariam de cedências ao terror. O voo da semana passada foi mais um exemplo da audácia serena dos nossos aeronautas: fenómeno que, curiosamente, só tenho testemunhado – mas é a terceira vez que o faço – nas carreiras luso-italianas. Aqueles heróis avançam para a pista de descolagem com os motores já tensos, nervosos, desenham a curva de entrada nela em palpitações e, antes mesmo de a concluírem, à curva, disparam asfalto fora, acertando posições na corrida, numa modalidade «racing» de que nunca tive oportunidade de gozar a emoção em nenhuma outra companhia afim. O costume é parar, para cobrar fôlego e foco. Mas na TAP não há tempo a perder, nem para um suspiro. Talvez por isso, há uns anos, quando regressava de Roma numa cabine pejada de peregrinos a Fátima e o avião se imobilizou incólume na Portela depois de uma arrancada vibrantíssima de Fiumicino e do tradicional mergulho entre os «arranha-céus» das nossas Avenidas Novas, foi sem surpresa que ouvi essas almas simples, não apenas aplaudir o senhor comandante, como, sob a batuta do seu lúcido «pastor», rezar uma sonora, fervorosa e grata ave-maria. Foi em italiano, mas eu rezei também.

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O táxi acabara de sair da Segunda Circular quando, na curva para a Rotunda do Aeroporto, um de nós declarou, surpreendido, desconhecer que uma certa rua se situava ali. Foi o despoletar da artilharia informativa que palpitava na criatura de mãos no volante. A expressão alargou-se-lhe num sorriso de confirmação, suportado por veementes acenos de cabeça, seguindo-se o disparo da tal pergunta a que esta mulher não sabe – ou não sabia - responder: «E os senhores conseguem dizer-me onde fica a Primeira Circular?» Não conseguimos. A solução do enigma apresentou-se, por isso, triunfante: «A Primeira Circular é, nem mais, nem menos do que a Avenida Infante D. Henrique!». «Circular?», interrogámo-nos, cépticos, recordando o trajecto rectilíneo que costumamos percorrer. «Circular!», insistiu. «Faz a ligação de Moscavide ao centro da capital, ou seja, ao Terreiro do Paço». Perante o pasmo e a admiração de que prodigalizámos ruidosas manifestações, atirou-nos segundo disparo: «E qual é a maior rua de Lisboa?» Entreolhámo-nos, perplexos. «É a Rua Maria Pia», avançou rapidamente, quando se apercebeu de que entrávamos no jogo dos palpites. Podíamos acertar… «E qual é a maior estrada de Lisboa?» A Estrada de Benfica, aventámos. Validou a hipótese, sobriamente, e voltou à carga: «E a maior avenida?» Confessámos a nossa ignorância e ripostou, ufano: «É a Avenida Infante D. Henrique!». Aí tínhamos, de novo, a Primeira Circular. «E qual é a rua de Lisboa que tem trânsito de peões e automóveis, mas não tem uma única porta?» A mudança de registo deixou-nos descalços. «É a Rua Henriques Nogueira», esclareceu. Mas como continuássemos descalços, esmiuçou o esclarecimento: «Fica nas traseiras da Câmara Municipal, uma viela sombria, que abre sobre a Rua do Arsenal». Aaaah! Não pude, lamentavelmente, apontar todas as curiosíssimas questões que nos colocou. Mas retive ainda que o nosso taxista já tinha escrito um livro sobre Lisboa – ou, precisando, já colaborara, com a sua sapiência, na elaboração de um livro escrito por terceiro, cujo nome não desvendou; e que, não morando nos Olivais, era capaz de localizar qualquer ponto do bairro ao nível dos números de polícia. No momento da despedida, pensei em pedir um contacto a esta preciosidade para as minhas «notas olisiponenses». Mas acanhei-me… Sou, definitivamente, uma corta-fiteira de meia-tigela.

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Lisboa tem vários tipos de mendigos. Tem os que mendigam por razões de «conjuntura» (neste conceito cabendo a crise do país ou a falta de condições de «empregabilidade» de uns quantos), e tem os que mendigam porque mendigam, porque tomaram o hábito e o gosto à mendicidade. E também tem os que pensam e os que não pensam. Ora, de entre os que mendigam por hábito e gosto, e não pensam, merecem destaque os pombos da cidade, essas criaturas aladas, meio bravas, meio rafeiras, que nos rondam submissamente os pés e assestam em nós o bugalho expectante e assustadiço, na mira de sacar a esmola de uma migalha. Com os pombos, confesso, não sou caridosa. Não distingo neles um átomo de encanto, nem de dignidade animal. O mesmo não digo dos pardalitos da Graça, que também mendigam, como os pombos, mas são delicados, ariscos… e pensam. Desde logo, não nos cercam, nem apontam olhares súplices, antes revelando uma saudável desconfiança da nossa espécie. E depois, se nos ocorre oferecer-lhes um pedaço de pão ou de batata frita, descem a recolher a oferta ao jeito do beija-flor - as asas acelerando como pás de ventoinha até à invisibilidade, os corpinhos planando junto aos nossos dedos - mas disparam, imediatamente, pelos céus fora, numa afirmação de independência e vitalidade. É certo que, se lhes oferecemos um pedaço de pão ou de batata frita, teremos de oferecer outro e outro e mais outro, porque os pardalitos da Graça voltam a reclamá-los, esvoaçando, com porte imperativo, diante dos nossos narizes. Os pardalitos da Graça não são, bem vistas as coisas, verdadeiros mendigos. São eles que definem as regras do jogo. E ainda nos retribuem com o inesperado e delicioso espectáculo da sua inteligência. Ensaiei, com eles, a aventura de uma fotografia. Mas todos me trocaram as voltas, preferindo o anonimato. Todos ou quase todos…

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Esta aventura é das menos empolgantes que Lisboa pode proporcionar (e proporciona, lamentavelmente, com grande prodigalidade): a aventura da sobrevivência ao ruído de obras radicais em andares de cima ou de baixo. O batuque contínuo das maças e as vibrações «trombónicas» dos martelos pneumáticos, abrindo roços e perfurando paredes, ecoam dolorosamente no espaço das nossas caixas cranianas, das salas em que estamos, da casa, da rua, da cidade, do país, do planeta, do sistema solar… E parece, de facto, que não deixam pedra sobre pedra, como não deixam neurónio sobre neurónio. Na incapacidade circunstancial de ler, escrever ou, simplesmente, compreender o que faço, vou escapulir-me para outra galáxia nos próximos dois, três dias da primeira ofensiva, que é, em regra, a mais impiedosa. Mas volto logo, logo que a coisa amaine.

 

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Aventuras na Pequena Alface: acrobacia nos telhados

por Luísa Correia, em 25.04.10

Não me lembro, no meio século que levo de habitante consciente da Pequena Alface, de alguma vez ter visto, circulando pelos seus telhados, seres que não fossem providos de asas. Excepciono o caso de há precisamente trinta e seis anos. Alertada, nesse 25 de Abril, por um telefonema amigo, para a revolução que alastrava pela cidade, vi-me aconselhada a faltar às aulas e a permanecer em casa. A ideia teve excelente acolhimento, mas o sentimento de clausura acabou por me assanhar o apetite de ar livre e dei por mim a rondar as janelas. Foi assim que surpreendi, sobre o meu telhado e os telhados contíguos, os vultos dos militares que vigiavam as instalações do extinto Rádio Clube, todos eles ostentando intimidativamente o seu arsenal bélico, todos eles assumindo a pose tensa e aguerrida do bravo que se apronta a suster, isolado, a ofensiva inimiga. E foi assim, também, que pasmei com a súbita entrada em cena do meu vizinho do andar de cima, uma personagem de que já conhecia a sobranceria arrimada a uns fumos de nobreza, mas de que só então fiquei a conhecer a cor do pijama e dos chinelos. Pois o meu vizinho, em tais preparos, proporcionou-me o espectáculo de um arriscadíssimo número de equilibrismo sobre caleiras e algerozes, com a única meta de oferecer, ao militar destacado no topo do prédio, um fumegante cafezinho da paz. Julgo que ambos abandonaram o terreno da acrobacia nesse mesmo dia. O primeiro ter-se-á reunido à soldadesca que, nas semanas seguintes, vagueou pelas ruas da capital de queixais peludos, camisas desfraldadas, alpergatas nos pés e cravos nas bocas das espingardas. E o segundo terá entrado, em igual período, a penitenciar-se dos seus ímpetos demófilos. Presumo, aliás, que só não tentou reaver o cafezinho, porque não seria prático acomodar o produto da devolução de semelhante consumível.

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Aventuras na Pequena Alface: sons de guitarra.

por Luísa Correia, em 19.04.10

Já me aconteceu duas vezes, não sei se com o mesmo homem. Penso que sim. A criatura tem características que a sua circunstância torna originais: não é magro, nem parece consumido pela exigente demanda da perfeição artística; tem mãos de cavador, de dedos grossos e calosos; e a sua expressão é de um pragmático, que procura alcançar as moedas do almoço, mais do que o êxtase da assistência. Diria, no entanto, que é um virtuoso. E que a sua guitarra transforma a atmosfera dos locais em que toca. Encontrei-o, da primeira vez, no pequeno pátio «andaluz» de São Vicente de Fora, e mal transpus o arco de entrada, a minha alma subiu aos céus. Não sei que melodias interpretava, mas os sons que arrancava às cordas sintonizavam com os sussurros da água do tanque, estremeciam os cachos das buganvílias e a folhagem tenra das laranjeiras, e vinham afagar não sei que fibras do meu corpo - como (suponho) dos corpos de quantos ali estacionavam em silêncio, a tomar café ou, simplesmente, a ouvir – criando um desses momentos completos e felizes em que, como escreve o poeta, «L'on aime ardemment sans amour cependant». Reencontrei-o há dias, no Castelo. E se, desta vez, os sons que arrancava às cordas não roçavam buganvílias nem laranjeiras, mas caracoleavam por entre as altas muralhas de pedra, o efeito não foi menos encantatório, sacudindo as nuvens cinzentas que carregavam o panorama e me toldavam, vagamente, o espírito. O meu circuito fechou-se, de imediato, nos limites do alcance das suas dedilhações e o que sobrava do Castelo ficou adiado para nova visita. Eis por que me pergunto quanto não teria a ganhar a Lisboa velha, suja, escalavrada e tão negligente com boa música em cada esquina. O meu «amor ardente» ganharia decerto… talvez não suportado num amor verdadeiro, mas insuflado de uma emocionada e infinita benevolência.

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Aventuras na Pequena Alface: «mal de macadam»

por Luísa Correia, em 05.04.10

Sempre sofri do chamado «mal de mer». Não posso pousar um pé num barco, que não seja acometida pela tontura. E embora me digam que as soluções são fixar o olhar no horizonte longínquo ou ter o estômago atestado, a terapêutica só funciona enquanto o barco está atracado ou em navegação veloz. Se abranda, ou se a onda lhe bate de través, o horizonte reduz-se-me imediatamente ao círculo estreito do fundo de um balde e o mundo desaba sobre mim com a violência do irreversível. Porque sofro do «mal de mer», sei que sofro também do «mal de chameau». Por isso, nas minhas curtas deambulações pelo Norte de África, nunca arrisquei aventuras em dorsos de camelos, não obstante a simpatia que estes primitivos, exóticos, doces, polivalentes e sobreviventes ruminantes me despertam. O que não sabia, e fiquei agora a saber, era que sofria, ainda, do «mal de macadam». Mas ontem, num percurso alfacinha particularmente crivado de valas e buracos (presumo que abertos pelos últimos chuviscos), as rodas ziguezagueando pelos troços menos acidentados da pista para escapar às grandes crateras, o automóvel bamboleando no efeito amortecedor das suspensões, tive, subitamente, indícios da sintomática tontura. Salvou-me do resto, que se antecipa, não um horizonte abreviado pelo skyline urbano, mas um estômago muitíssimo confortado com dois ou três nacos de delicioso folar de Chaves. Seria bom, em todo o caso, que a edilidade, que está consciente das fragilidades das nossas pavimentações e até já orçamentou alguns milhões para a reparação dos estragos invernosos, se apressasse a entrar em acção… porque eu não tenho balde no carro e do folar de Chaves não sobrou migalha.

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Tive, há dias, notícia de que a afamada gelateria Santini se propõe abrir um balcão em Lisboa. Presumo que o instalará no Chiado, zona que já concentra alguma concorrência, e concorrência tanto mais digna de respeito quanto tem oferta compatível com todas as estações. Veremos como se comporta, neste novo enquadramento, uma casa que pauta a sua actividade pelo ciclo balnear da nossa Costa do Sol. Falo em novo enquadramento, mas não me esqueço de que o Santini não vem, mas volta a Lisboa. É um reencontro, que se consuma ao cabo do que julgo serem quarenta anos de separação. Poucos se lembrarão, talvez, de que o Santini teve loja na Rua Padre António Vieira, uma das perpendiculares à Rua Castilho e ao contíguo Parque Eduardo VII. Eu lembro-me, porque morava então nas redondezas, e porque era o Santini que, nos meses quentes e modorrentos do Verão, nos fornecia a sobremesa dos almoços dominicais. Desses tempos remotos da minha infância, guardo imagens saudosíssimas de como, no regresso da missa, a que assistíamos na igrejinha de São Sebastião da Pedreira, assávamos sob os raios com que o astro-rei nos dardejava na travessia do alto do Parque, indiferentes aos encantos da pequena Alface, que dali se espreguiçava até ao rio, e ciosos apenas das sombras com que os pinheiros mansos salpicavam frugalmente o percurso. No cruzamento com a Alameda Edgar Cardoso, cortávamos em diagonal pelo relvado, para apanhar as folhas dos eucaliptos, cujo aroma espantava mosquitos e infecções, diziam, mas que a mim apenas espantava parte do torpor de uma caminhada castigada pela canícula. E penetrávamos, enfim, no oásis dos frondosos castanheiros da Padre António Vieira, onde tiritávamos alegremente com o contraste das temperaturas e visitávamos o Santini, para a compra de um copo de gelado de tamanho familiar, atestado com os seus deliciosos sabores de frutas. Não sei exactamente o que terá provocado a retirada do Santini daquelas imediações. O bairro, reconheço-o, era recolhido e tranquilo, e estivava como os caracóis. E só uns anos mais tarde conheceria, com a construção do Palácio da Justiça na vizinhança da velha Penitenciária, o bulício dos espaços invadidos pelos escritórios de advogados e pelo comércio que invariavelmente os persegue. O Santini terá, por conseguinte, sofrido o revés de uma clientela demasiado restrita. Por isso lhe desejo agora, no frenético Chiado, maior sucesso… contanto que me retribua com os paladares da minha saudade.

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Não sei se alguém consegue cobrir a passo a distância entre o Largo do Carmo e o Campo das Cebolas em menos de quinze minutos. Eu consigo, contanto que meta pela Rua dos Douradores. É que a Rua dos Douradores, não honrando o brilho do seu nome, é a mais soturna de todas as longitudinais do quadriculado da Baixa. O Sol não deve penetrá-la senão nos escassos instantes em que, do zénite, lhe aponta os raios com rigores geométricos de fio de prumo, e nem um «respiradouro» tem que a solte sobre as larguezas do Terreiro do Paço e do contíguo Tejo. Quanto aos renques de estaminés que a forram de um lado e de outro, ainda mantêm aquele aspecto de «covas de parede» de que fala Norberto de Araújo nas suas «Peregrinações em Lisboa», murchando o entusiasmo que os retoques de modernidade dos toldos e das esplanadas poderiam suscitar no transeunte acidental. Por tudo isto, a Rua dos Douradores assombra o meu coração feminino de temores irracionais, e tem o condão de me abrir o compasso das pernas até aos limites compatíveis com o conceito de marcha. Atinjo, neste troço urbano, acelerações olímpicas. De resto, a Rua dos Douradores, quase sempre deserta, não opõe atrito ao movimento. Pelos cantos dos olhos, que levo presos à calçada, entrevejo apenas, nos seus postos de angariação de clientela, os vultos sombrios do pessoal da restauração, empunhando as ementas e acompanhando a minha progressão com a fixidez da serpente que se apresta a lançar o visco ao incauto pardal. Às vezes, abrando à passagem pela lojinha dos cavalos, a meio caminho, e desoprimo o espírito na contemplação das imagens dos garbosos lusitanos que exibe na montra. Mas logo retomo o meu ritmo. E num instante deixo a Rua dos Douradores para trás. É um enigma que semelhante «corredor» ainda sobreviva como espaço de concentração de «tendas e tavernas» -  agora com acrescidas veleidades turísticas – num tempo de obsessões hedonistas e sanitárias, para as quais a luz (ou, quando muito, uma penumbra requintadamente intimista), a cor e a alegria ambiente são tão propícias à boa digestão como um Porto ou uma ginginha. Mas felizmente há estômagos de aço. E há cabeças capazes de descobrir deliciosos exotismos em cenários simplesmente tristes e escalavrados.

 

* Errata (30/3/2010): a escuridão que impera nas ruas estreitas da Baixa e a minha miopia dificultam-me, frequentemente, a sua identificação nas respectivas placas toponímicas. Esta, em que decorre a aventura e sobre que pende o enigma, é, afinal - como bem corrige o caro comentador JSP - a Rua dos Correeiros e não a Rua dos Douradores, situada mais a Oriente. Penitenciando-me pelo engano, acrescento já que a Rua do Correeiros faz, afinal, absoluta justiça ao seu nome, pois, como arruamento dedicado aos ofícios de correeiro e seleiro, patrocina as acelerações.

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Não tenho memória deste bairro sobranceiro ao Rato, até ao momento em que dei nota de que começavam a concentrar-se nele os melhores estabelecimentos de móveis, tecidos e decoração da capital, comércio que tem o condão de me esquecer do valor do dinheiro. Antes disso, tinha-o por um bairro eminentemente residencial, parco em atractivos e servido pelo «nove», um autocarro que me exasperava porque o via passar cinco e seis vezes enquanto aguardava o meu esquivo «três». O bairro tinha, no entanto, para os rapazes da minha geração, a virtude de alojar, na Rua Saraiva de Carvalho, o alfaiate de Campo de Ourique. Falo de uma geração que agora ronda o meio século e que antecede os «yuppies» de cerca de uma década, mais coisa, menos coisa; de uma geração que gostava de vestir bem, mas não fazia desta a questão central da sua vida; de uma geração que queria proteger o corpo com fazendas confortáveis, talhadas com uma elegância despretensiosa, mas não pretendia forjar um corpo novo, modelado pelos cortes «souples», mas firmes e indestrutíveis como armaduras, dos grandes costureiros internacionais, mormente britânicos e italianos; de uma geração, cujas ambições de imagem o alfaiate de Campo de Ourique, com a sua produção «pré-fabricada» e os seus custos módicos, satisfazia plenamente, remetendo para a clientela dos anciãos o luxo das casas afamadas pelo pesponto manual e pelos preços proibitivos. Não consigo precisar no tempo o período áureo do alfaiate de Campo de Ourique. Mas quando, há uns vinte anos, o conheci, o seu espaço, que me diziam discreto, já sugeria um andar do Corte Inglês. A tentação expansionista, movida pelo advento do «yuppismo» e suas sequelas, roubara-lhe a simplicidade e a compostura da tabela, fazendo antecipar um final infeliz. Naquele formato, na verdade, não respondia às aspirações de ninguém, nem dos rapazes da minha geração, nem de uns quantos da geração seguinte, nascidos, sabe Deus por força de que pecado não original, com a marca de um sentido ostentativo que requer etiquetagens Armani ou Zegna, ou, em psicopatias extremadas, a exclusividade das boutiques masculinas de Beverly Hills. Passei, há dias, pela Rua Saraiva de Carvalho - onde me deslumbrei com o vistosíssimo arranjo do velho liceu Machado de Castro, renascido das cinzas como Escola de Hotelaria - e não vi sinais de existência do alfaiate de Campo de Ourique. Terá sobrevivido às tremendas voltas que o mundo deu?

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As minhas deambulações pela nossa Alface - a que chamo pequena porque não há distância que se não transponha, em escassas horas, caminhando - têm, como já referi, características de uma caça ao tesouro. A degradação geral que lhe reconheço não a reduz, longe disso, a um amontoado de ruínas, eriçado de antenas e gruas e amordaçado numa teia de vias esburacadas e entupidas de automóveis. Lisboa oferece-nos recantos e panoramas de uma surpreendente beleza. E, no meu caso, oferece também muitas imagens do passado, que os lugares me arrancam ao arquivo do esquecimento, para me divertirem e, quase sempre, encherem de saudade. Foi o caso, há dias, quando, saindo das Amoreiras pela Rua Silva Carvalho, decidi, na embocadura da Rua do Cabo, meter por esta, que não percorria desde que, há dois anos, adoptei o hábito saudável das longas explorações fotográficas. A Rua do Cabo, que nunca, realmente, tinha visto com olhos de ver, não me encantou. É uma rua incaracterística, demarcada por prédios incaracterísticos, que a modernidade enfeitou com caixilhos de alumínio e redes de cabos. Desenha uma curva larga para a esquerda e, uns metros adiante, bifurca. Pois foi no ponto da bifurcação que vislumbrei, subitamente, a tal casinha de gaveto que já tinha esquecida, os seus dois pisos agora abandonados, escalavrados e tristes, a porta encimada pela enorme tabuleta da Rua da Páscoa – o segundo «ramal» que, de relance, parece bem menos vistoso do que a própria placa toponímica. E nesse mesmo ponto da bifurcação recuei trinta anos para revisitar o «Ovo», um bar cujo tamanho fazia justiça ao nome, mas que era familiar e acolhedor, que ocupava a cave da casinha de gaveto então alegre, que tinha uns sofás «embutidos» nas paredes e almofadados em tons de amarelo, e que nos servia, a mim e a uma roda de amigos que a vida dispersou, os melhores hambúrgueres de que havia notícia em toda a capital, numa confecção original e aprimoradíssima, que amesquinha os sucessos da idolatrada «cozinha de autor». Que bons tempos e que excelentes hambúrgueres! Por que razão não voltei a provar hambúrgueres tão bons, não sei. Mas talvez esteja delirando, numa nostalgia de pequenos bares e de grandes hambúrgueres… Será que mais alguém se lembra?

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Meti, toda afoita, pela Rua Norberto de Araújo, de olhos postos no perfil irregular da Igreja de Santo Estêvão, destacando-se, com a sua única torre, de entre o casario de Alfama, contra o azul pardacento do Tejo. Mas, duas escadinhas e três becos adiante, estava irremediavelmente perdida no labirinto deste velho bairro alfacinha, onde não creio que alguma vez tenha conseguido, nas já inúmeras explorações que lhe fiz, reproduzir um trajecto. Não se trata de uma dificuldade de orientação: a posição do Sol no firmamento dá-me o sentido dos pontos cardeais, e a pronunciada inclinação do terreno incute-me a confiante certeza de que, se for subindo ou descendo sempre, acabarei por encontrar os espaços desafogados que, a Norte, no Castelo e na Graça, ou a Sul, à beira-rio, me são familiares. Avancei, portanto, com destemor, por essas esquinas e vielas, em que não abunda a presença humana e até o toque-toque dos nossos sapatos nos desassossega, e acabei por desembocar no Largo do Salvador, onde, felicidade suprema, vislumbrei a salvação num polícia que aí cavaqueava com uma pequena amostra de população local. Penitenciando-me pela interrupção da conversa, indaguei sobre o caminho para a Igreja de São Cristóvão. E imediatamente uma onda de genuína inquietação varreu aquela gente. Todos queriam ajudar, mas ninguém sabia como: São Cristóvão?… São Cristóvão era tão longe dali! Então, o meu «salvador» perguntou se não seria de Santo Estêvão que queria saber. E é claro que era de Santo Estêvão que queria saber! Todos se riram do meu equívoco com a exuberância dos grandes alívios, e com a mesma exuberância se desfizeram em mil e uma explicações - segue por aqui, segue por acolá - num clamor de vozes que me seguiu realmente os passos enquanto a curva da Rua Guilherme Braga se não interpôs entre mim e o grupo. Mais tarde, sentada num banco do Largo de Santo Estêvão, à vista do rio, meditava na generosidade deste povo doce, acolhedor, prestável, simples e crédulo. Um povo assim, pensava e penso eu, não merece – nem aceito que mo digam! - a raça maldita de políticos que tem.

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Aventuras na Pequena Alface: a escalada da Penha.

por Luísa Correia, em 15.03.10

Já aí tinha estado no Verão passado, nesse lugar que antigamente chamavam Cabeça de Alperche. E ficara deslumbrada, não apenas com o panorama (que por pouco não fecha os 360 graus em torno do promontório da Igreja), mas também com a inesperada vista do Tejo, rematando o casario da parte oriental de Lisboa como um mar sem fim - ou como o Mar da Palha que é, antes da curva que desenha entre Alfama e o Terreiro do Paço. Voltei lá, há dias, para actualizar o meu arquivo fotográfico. Mas esta segunda visita não teve o sucesso da primeira. Os ventos sopravam fortes e frios para além do Largo da Penha de França, tolhendo-me os movimentos e dificultando os últimos passos da escalada. Depois, quando ofegante e praticamente desoxigenada, cheguei ao topo, esperavam-me, instalados nos bancos dispostos entre duas agrestes oliveiras e o murete sobre a cidade, uns casalinhos demasiado concentrados na exploração de emoções mútuas para darem nota de apreço ao meio circundante. Tinham, naturalmente, toda a legitimidade para ali estar, e até para ocupar mobiliário cuja serventia é obviamente distinta daquela que, no momento, lhe davam. Mas não lhes perdoo que me tenham cortado os melhores ângulos de focagem. Fiz acrobacias e quase me pendurei do abismo para conseguir fotografias «limpas», que preservassem o seu (deles) direito à imagem e o meu (nosso) direito ao decoro. Tão cedo não volto, portanto, ao alto da Penha de França. O recanto foi tomado pela «praga dos namorados indiscretos», que é uma praga ordeira – admito – e teoricamente enternecedora… mas o maior dos embaraços para quem não tenha por hábito impor baias ao movimento dos olhos.

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