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Emoções básicas (53)

por Luís Naves, em 24.04.09

Ah, o passado do futuro!

Leonor Barros, no sempre excelente Delito de Opinião, lembra a série de televisão Espaço 1999. Infelizmente, o post não comenta essa memória (ficamos sem saber a opinião da autora) e lembrei-me de escrever qualquer coisa sobre este tema feliz.

Como muitos recordam, Espaço 1999 contava as aventuras da tripulação de uma base lunar após a Lua ser ejectada da órbita terrestre por um acidente. Transformada em gigantesca nave espacial descontrolada, a Lua perdia-se no espaço, evitando colidir com estrelas, enquanto os protagonistas procuravam em cada oportunidade encontrar um planeta onde pudessem sobreviver.

A parte mais curiosa desta série italiano-britânica dos anos 70 era o facto de só haver perigos no exterior. Em cada episódio, os náufragos à deriva enfrentavam uma qualquer ameaça alienígena, que lhes iria restringir as liberdades ou transformá-los em saborosa comida.

A série ignorava alegremente as impossibilidades científicas da história básica, mas o pressuposto permitia o aparecimento de uma colorida galeria de visitantes cheios de surpresas (muitos humanóides e versados em inglês, naturalmente), num rosário de mal-entendidos galácticos, referências mitológicas e reflexões filosóficas sobre a existência de Deus e a pequenez do Homem.

Espaço 1999 era um hino à imaginação, que oscilava entre a aventura delirante, o politicamente correcto da época e uns pozinhos de soft horror. Também recordo as cores berrantes e as máquinas engraçadíssimas (que até talvez voassem) ou os uniformes com calças à boca-de-sino. O comandante Koenig era um imbatível, talvez o maior destruidor involuntário de civilizações extraterrestres na história da televisão.  

 

Emoções básicas (25)

por Luís Naves, em 09.10.08

 

Certezas
O meu camarada de redacção Ferreira Fernandes fez-me uma crítica útil. Ele tem lido algumas coisas que escrevi no DN e, presumo, outras que escrevi no Corta-Fitas. Resumidamente, ele ia a passar e disse, como quem não quer a coisa, que me tenho enganado em algumas análises e opiniões, pois sou “demasiado taxativo”.
Acho que, apesar de tudo, a crítica inclui aquele pudor que tenta embelezar uma verdade incómoda.
De facto, bem vistas as coisa, sou demasiado taxativo e costumo enganar-me. A realidade faz sempre uma visita às previsões imprudentes. Se não acreditam, leiam com atenção textos mais antigos que escrevi. Sobre as eleições americanas há autênticos clássicos de nonsense. Pensei que Hillary Clinton seria a candidata democrata e nunca acreditei em Barack Obama, tornado vencedor após o colapso da Lehman Brothers (bolas, lá estou eu...).
Nem sequer tenho desculpa, pois li um interessante livro, o Cisne Negro, de Nassim Nicholas Taleb, onde o autor faz uma demolição da seriedade das previsões económicas e políticas. Usando as ideias da teoria do caos, Taleb mostra a impossibilidade de se compreenderem os sistemas complexos e de antecipar a sua evolução. Tudo depende de tantos factores que ninguém pode verdadeiramente saber o que acontecerá a seguir. Veja-se, por exemplo, o que se passa com o clima, com a crise financeira internacional ou com o PSD.
Sabemos que as flutuações são cíclicas e que os sistemas complexos costumam encontrar uma solução qualquer para as suas crises, mas quando tentamos entrar nos detalhes, tudo se torna mais difícil.
Mas existe um truque feliz para não falharmos numa previsão taxativa: adivinhar o fim do mundo (parece que muita gente está a fazer isto, na crise financeira, no clima, no PSD).
Se o pior cenário não se confirma, podemos sempre dizer que ainda não foi desta, mas que será da próxima. Se acabar o mundo, lá estaremos todos para felicitar o autor de uma previsão bem feita.

Emoções básicas (8)

por Luís Naves, em 07.09.08

 

Quando tento explicar a minha tese de que Hollywood atravessa uma profunda crise, as pessoas reagem como se eu fosse marciano. Foi a reacção do Nuno Galopim, em conversa recente.

E, no entanto, nem todas as épocas têm a mesma fertilidade criativa e a nossa parece ser particularmente infértil, talvez por ser superficial, devido à nossa obsessão com o consumo.

Vejo a História do cinema da seguinte forma: houve um período de invenção da linguagem; depois, uma época dourada, que costuma ser chamada clássica; e uma fase de decadência.

A invenção da linguagem foi feita sobretudo na Europa (russos, alemães, italianos); a fase clássica de Hollywood durou entre o início dos anos 30 e o final dos anos 50, ou seja, pouco mais de 20 anos. Produziu talvez uma trintena de obras-primas, incluindo algumas europeias e japonesas.

Na fase da decadência, há um período de grande vitalidade europeia (italianos, franceses, um sueco) e alguns cantos da sereia, devido à inércia, até meados dos anos 70. A última obra-prima indiscutível, a meu ver, foi Blade Runner, já nos anos 80, mas é um filme extraterrestre.

A minha tese é a seguinte: nos últimos vinte anos não foi feito nada que se compare a obras-primas sem discussão, tais como They Were Expendable, O Vale Era Verde, A Dama de Xangai, Citizen Kane, Spellbound, Lawrence da Arábia, Barry Lyndon, O Padrinho, O Homem que Matou Liberty Valence, Ladrões de Bicicletas, La Dolce Vita, Morangos Silvestres ou À Bout de Souffle.

Podia citar aqui mais duas dúzias (não está aqui nenhum Rossellini, nenhum Kurosawa, nenhum de Fritz Lang ou Howard Hawks). E esta lista não inclui o muito bom, que existe em quantidades brutais nos períodos que mencionei. Falo apenas da excelência que resiste ao tempo. Dentro de 50 anos, estes filmes serão todos vistos com o mesmo fascínio.

Por outro lado, nos últimos vinte anos foram feitos filmes muito bons mas algo mudou, que impede o sublime. Talvez isto resulte da ditadura da técnica, da pobreza das histórias ou do excesso de fogo-de-artifício e de efeitos visuais sem substância.    

As emoções básicas (crónica) XV

por Luís Naves, em 02.10.07



Máscaras

Uma crónica a sério deve ter relação com o tempo. Não sendo tão imediato como uma notícia ou uma reportagem, este tipo de texto jornalístico parte da actualidade, de uma pequena observação ou da reflexão do autor sobre acontecimentos gerais, mesmo que não passe da constatação de uma minúcia, de um pequenino costume.
É por isso que estas emoções básicas não são crónicas verdadeiras. No fundo, algumas nem tiveram tema. Infelizmente, não consegui reflectir sobre nenhum dos assuntos que afligem o país. Podia ter falado da crise dos partidos, dar a minha opinião sobre a forma como em cada um deles se degrada a qualidade média dos dirigentes; podia ter mencionado o pecado fundamental da política, de como os poderosos esquecem as promessas que fazem em campanha, uma vez atingido o poder. Além disso, o nosso sistema bipartidário parece não ter solução: um dos partidos atraiçoou a sua própria base eleitoral e o outro abandonou as suas elites numa ilha deserta. Quando houver eleições, as pessoas não irão votar.
Era sem dúvida um excelente assunto, escrever aqui sobre as razões do pessimismo português (o segundo pior da Europa, dizem). Mas confesso que não as entendo. Só poderia dizer banalidades.
Também não cumpri outra das regras de ouro da crónica: embora a forma desta seja criativa, o conteúdo tem de ser rigorosamente verdadeiro. E pelo menos um dos textos da série era totalmente inventado, na realidade um pequeno conto sobre uma parvoíce governamental. E confesso que havia farrapos de ficção noutros textos.
Mas é esta a liberdade que nos dá a chamada blogoesfera. Estas pseudo-crónicas são muito pessoais, quase diarísticas, ao sabor do capricho e esquecidas das boas regras.
Ao ver o que escrevi até agora, percebo que nunca mencionei aqui a emoção da alegria. Falei das outras emoções básicas (do desprezo, até, que alguns psicólogos duvidam pertencer ao grupo essencial, que limitam a seis). Na sua maioria, os textos são sobre a surpresa, talvez porque esta seja a emoção mais apropriada para crónica, já que o mundo nos surpreende em todas as suas variações, e constantemente.
Apeteceu-me, várias vezes, colocar outra palavra na emoção básica que servia de mote e talvez esta lista devesse ter muitas mais, da inveja ao fanatismo, da serenidade ao fascínio, da piedade ao pavor.
Em tempos de pessimismo, no início do Outono, é estranho querer falar sobre a alegria. O céu está cinzento e a rua caótica. As pessoas andam taciturnas e o País parece estar a viver numa espécie de semi-pesadelo, ou pelo menos num sonho intranquilo.
As primeiras chuvas originaram inundações, como se ninguém estivesse preparado para as situações previsíveis. E, se procuro indícios de alegria nas pessoas, encontro sobretudo uma inquietação sem nome: em dois dias, viajei quatro vezes de táxi e três dos motoristas guiavam totalmente passados. O primeiro, furioso, contou-me uma confusa história de um tenente-coronel bêbado que ele transportara e que o insultou à chegada; o homem tinha sido soldado na guerra e jurou-me que o oficial escapara a um bom correctivo; o segundo taxista quase abalroou meia dúzia de carros, sem razão aparente; e o terceiro começou de repente a insultar outro motorista que não tinha feito nenhum erro visível.
No outro dia, pus-me a olhar para a cara das pessoas na rua. A caminho dos empregos maçadores, todas pareciam usar máscaras sombrias. Tinham dormido pouco. Andavam como sonâmbulos no passeio, as faces fechadas, o olhar zonzo, um ar triste.
E como se tornou estranho ouvir de repente o riso de um desconhecido. Parece que aquela gargalhada súbita, saída do nada, é uma espécie de insulto ao nosso fardo de problemas.
Sim, até parece que a alegria já não tem lugar na nossa comunidade. E bastava andarmos um pouco menos distraídos no interior dos nossos pensamentos. Porque de repente, o sol irrompe do tecto de nuvens e desce pela calçada um homem que assobia uma melodia na moda. E, mais à frente, uma rapariga bonita sorri e até parece que com esse pequeno gesto regressou a Primavera.



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