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Uma pouca vergonha

por Rui Crull Tabosa, em 28.01.11

Já se sabia do pouco respeito que Carlos César tem pelo dinheiro dos contribuintes portugueses.

Permitir que a sua mulher e dois assessores estourassem mais de 27 mil euros numa viagenzita de cinco dias ao Canadá já seria digno de participação ao Ministério Público.

No final do ano passado ficámos a saber que o soba dos Açores resolveu dar um subsídio aos funcionários do governo regional, o qual, na prática, anula os cortes salariais que os restantes trabalhadores da administração pública estão a sofrer desde o início deste mês.

Agora, a criatura foi ainda mais longe, estendendo o referido subsídio aos trabalhadores das autarquias e das empresas municipais dos Açores.

Claro que o facto de as próximas eleições regionais deverem ocorrer em 2012, ou seja, já no próximo ano, é um simples pormenor…

Mas o que esta atitude revela é a mais descarada falta de solidariedade nacional, da parte de um aparachic socialista que não tem já sequer o elementar escrúpulo de ser solidário com as decisões que o seu próprio partido impôs ao País, o que revela bem como José Sócrates está a perder a autoridade junto dos seus apaniguados, para mais atentas as criticas que, em vão, fez ao demagogo açoriano.

Neste contexto, resta esperar que essas ilhas afortunadas não venham a precisar da solidariedade nacional que, por culpa de uns irresponsáveis de vistas curtas, se preparam novamente para recusar aos restantes Portugueses.

Se vierem a precisar, não tenho dúvidas de que o régulo regional virá cá ao Continente tecer loas sobre o seu portuguesismo, que agora enjeita, e a necessidade de os contribuintes, então, apoiarem uma vez mais os Açores.

Por mim, esperarei que ele antes devolva ao País o dinheiro que lhe está a roubar, desviando fundos que seguramente não têm como finalidade anular as medidas de redução da despesa pública, com o claro mas inconfessado objectivo de comprar o voto dos açorianos nas próximas eleições regionais.

Enquanto ele não se lembrar de vir pedir esmola à República, faço votos para que não apareça por cá a gozar com o zé povinho e, acima de tudo, para que o próximo Orçamento do Estado reduza as transferências para aquela região no montante dos desvios agora efectuados.

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Açores, maravilhas e contrariedades

por Vasco M. Rosa, em 13.09.10

 

 

A atribuição de Maravilha a dois sítios do arquipélago não colhe surpresa alguma, a não ser a quem os não conheça pessoalmente.

Mas não nos esqueçamos de duas coisas.

Uma, é que a maioria das pessoas, por simplificação de linguagem mas também por algum menosprezo pela condição insular (em contrapartida, ela é uma das mais instigantes da humanidade, pelo desejo de partir e também pela visão da imensidade marítima circundante), se refere a Portugal unicamente como a parte continental, baldando os dois belos e admiráveis arquipélagos atlânticos — aliás, bem mais dotados e cotados que os seus correspondentes espanhóis.

Outra, é que essa integração geográfica ainda por fazer precisa também de uma outra, sempre essencial, que é a das coisas culturais. É caso para dizer que estamos a muitas milhas de distância…Nas últimas décadas, os governos regionais e as universidades locais realizaram uma obra editorial que não aparece ou aparece fugazmente em Lisboa, e nos dias que correm, uma das obras-primas de Raul Brandão, precisamente relatando uma viagem aos Açores, intitulada «As Ilhas Desconhecidas», é tão desconhecida quanto elas. Quem encontrar um exemplar à venda, é um herói...

Editores distraídos e emburrados: olhem aqui e agora, uma boa altura de reverter a situação!

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São Miguel sempre

por Pedro Correia, em 12.10.07

Lagoa das Furnas vista do Pico de Ferro. A imagem ideal para me despedir de São Miguel. Levo-a comigo para sempre.

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Memorando pessoal

por Pedro Correia, em 11.10.07

Não te esqueças de levar para Lisboa:
- queijo do Pico
- bolo lêvedo
- licor de ananás
- queijadas de Vila Franca do Campo

Porquê?
Porque sim.

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Ilha do Pico

por Pedro Correia, em 11.10.07

O verdelho tomado no Lajido. O perfil do Faial recortando-se do lado de lá do canal. Os "currais" cobertos de vinhedo, muito dele de geração espontânea. A vegetação rasteira, batida pelo vento à beira-mar. O queijo com massa sovada. O ponto mais alto de Portugal. O tempo que passa mais devagar. A comunhão perfeita com a natureza. E a certeza de regressar um dia para absorver ainda melhor esta paisagem agreste, de uma beleza perene. Esmagadora.

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Porto Pim, Faial

por Pedro Correia, em 09.10.07

E, de súbito, a baía de Porto Pim. Lanço-lhe um olhar demorado, como se quisesse reter para sempre este quadro na memória. Partirei em breve. Mas apetecia-me permanecer num recanto desta praia hipnótica, sem urgências de qualquer espécie. Relendo Mau Tempo no Canal, um dos mais admiráveis romances alguma vez escritos na língua portuguesa.

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Inesquecível

por Pedro Correia, em 08.10.07

Nascer do sol sobre o porto da Horta. Mar chão, com o Pico a recortar-se em fundo. Há paisagens que nos fazem lavar por dentro até ao mais recôndito da alma. Esta é uma delas.

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Angra, de vislumbre

por Pedro Correia, em 06.10.07

Angra do Heroísmo, património cultural da humanidade. Acabo de confirmar: a UNESCO não poderia ter escolhido melhor.

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O mais importante

por Pedro Correia, em 06.10.07

O mais importante do dia de ontem não foi a alocução presidencial sobre os problemas do ensino. Nem o atraso do primeiro-ministro à cerimónia oficial na Praça do Município. Nem a ausência da ministra da Educação nem do ministro do Ensino Superior, que nem assim terão evitado ficar com as orelhas a arder. Nem a confirmação de que José Sócrates evita por sistema responder às mais vulgares questões dos jornalistas, com uma sobranceria insuportável. Nem a entrevista número 738 da doutora Pestalina Cataplana. Nem sequer a chamada do Miguel Veloso à selecção nacional de futebol.
O mais importante, para mim, foi isto:
- A praia dos Moinhos, em Porto Formoso, com a sua magnífica esplanada.
- As Furnas, contempladas do miradouro da Lagoa Seca.
- A estrada que contorna a lagoa das Furnas, que parece mesmo cenário de filme.
- O ilhéu de Vila Franca do Campo, visto da ermida da Senhora da Paz.
- A alcatra no restaurante A Colmeia, provavelmente o melhor de Ponta Delgada.

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Sua bênção, São Miguel

por Pedro Correia, em 05.10.07

Mergulhei a vista na beleza sem par da lagoa das Sete Cidades. Contemplei, mudo de espanto, o hotel fantasma que se encontra lá no topo, com uma vista de 360 graus, varrendo em simultâneo o oceano e a imensa cratera que o rei D. Carlos visitou em 1901, na única visita de um monarca português, conforme atesta placa no local. Hotel Monte Palace, construído em meados da década de 80, em integração perfeita na paisagem, abandonado poucos anos depois - porquê? Tem algo que me lembra o hotel de Shining, de Stanley Kubrick. Dizem-me que hoje é habitado apenas por cães selvagens: triste sina deste edifício hipnótico.
Visito outras lagoas - a do Canário e a enigmática lagoa de Santiago, debruada de um bosque de cedros bravos, estonteantemente bela. De cortar a respiração. Avisto a orla costeira a norte - Santo António, Capelas, Calhetas. Cantoneiros cuidam das bermas das estradas a um ritmo incessante. Eis uma das notas dominantes na paisagem de São Miguel: a extrema limpeza de estradas e ruas. Vacas leiteiras ruminam num mar de verde que apazigua o olhar. Fetos arbóreos e loureiros alternam com as hortênsias, que enfeitam as mais inesperadas curvas do caminho.
Nisto, desço a Lagoa, na costa sul: rochas basálticas à beira-mar. Choveu dez minutos, logo o sol reabre. Apetece ficar ali sem prazo, a escutar o brado manso das ondas. Mas o restaurante, Porto de Carneiros, está fechado. Rumamos à capital: bar-restaurante Aliança, na rua Açoreano Oriental, que apregoa servir "o melhor bife do concelho de Ponta Delgada". Lamento, mas não vou muito em bifes: prefiro filetes de abrótea. Excelentes, tal como o pudim de mel à sobremesa.
A noite tépida convida ao passeio, ao paleio sem fim numa esplanada da marginal. Trauteio o Samba da Bênção, de Vinicius e Baden Powell: saravá, Açores. A vida é demasiado curta para a desperdiçarmos com o que não vale a pena. Isto vale. Tudo.
.................................................................
Fotografia de João Carvalho

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Postal de São Miguel

por Pedro Correia, em 04.10.07
Em Lisboa, os serviços meteorológicos garantiam que havia chuva nos Açores. Por causa desta "chuva", por causa destes serviços meteorológicos, levei tempo de mais a vir aqui. Aterro no aeroporto João Paulo II, em Ponta Delgada, e está sol. Muito sol. Temperatura média: 22 graus. Humidade: 60 por cento. Perfeito para o meu gosto. Na praia do Pópulo, uns tantos felizardos, de toalha estendida, aproveitam o clima. O mesmo acontece nos areais junto à Ponta da Pirâmide, a caminho de Vila Franca do Campo. Apaixono-me por São Miguel na Serra da Água de Pau, juro-lhe amor eterno ao contemplar a Lagoa do Fogo. E é já com a certeza antecipada de que jamais deixarei de gostar dela que almoço no Alabote, contemplando o mar batido da Ribeira Grande - panorama inesquecível. Vem para a mesa um pratinho com queijos variados, que acompanham na perfeição um excelente pão de trigo. A morcela com ananás estava divinal. O polvo assado no forno justificava uma ode de mestre José Quitério. E como poderei esquecer-me da Especial - a imperial da Melo Abreu -, servida à temperatura exacta, estupidamente gelada? Bem me avisara o Francisco José Viegas que esta cerveja faz jus ao nome.
Insistem em Lisboa que chove nos Açores. Let it rain. E venha mais uma Especial. Há que fazer um brinde à vida.

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O chá, as camélias e o mar

por M. Isabel Goulão, em 14.03.07



Nunca tinha visto uma plantação de chá nem tantas cameleiras juntas. Por sua vez, este mar da Ribeira Quente que aqui veêm, já foi testemunha em 1997 de uma grande catástrofe. O homem, a natureza e os elementos têm juntos grandes momentos de beleza e também de enorme tragédia.
Pelo caminho, vindos de um carreiro, com capas garridas, os romeiros da Quaresma, grupos de homens que durante sete semanas da Quaresma percorrem a ilha a pé rezando junto das igrejas e capelas. Depois da beleza das paisagens, da terra que a gente não pode domar, da lagoa encantadora, ferida pela inépcia humana, dos pastos verdes que percorrem a ilha e lhe dão alimento, foi a imagem desta devoção que se mantém comovida no regresso e que a intimidade me impede de revelar.
Para além da terra, do mar, das fumarolas, foram as gentes desta ilha verde que me prenderam. Curiosamente, algo semelhantes às da minha terra: a insularidade e a interioridade.

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