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Suplentes que não querem jogar

por Jose Miguel Roque Martins, em 24.11.20

A propósito de um destacamento de 500 militares para reforçarem os serviços de rastreio da pandemia, a associação de sargentos foi lembrando, de acordo com o Expresso, que “os militares não podem ser sempre pau para toda a obra”.

Fiquei surpreendido, já que sempre achei que os militares sentiriam orgulho em contribuir da forma como pudessem para a sociedade. E não tenho visto assim tantos exemplos de serviços públicos pelos militares que expliquem a exaustão implícita no recado dos sargentos. Não percebo a afirmação, mas espero que implicitamente não tenham apenas dito, “só faltava porem-nos a trabalhar!”

Este episódio lembrou-me uma questão que sempre me perturbou: porque razão temos tantas instituições preparadas para estados de excepção? Em Portugal, e na maior parte dos países desenvolvidos, temos 3 instituições: as forças armadas, os bombeiros e a protecção civil, que só são accionadas em caso de necessidade (guerra ou acções humanitárias, fogo ou acidentes e catástrofes).

Não há dúvida que o ideal é ter 3 robustas instituições, já que é sempre possível virmos a ter guerra, catástrofes e incêndios ao mesmo tempo e sem pré-aviso. Mas... não será um luxo de ricos ?

Apesar de forte diminuição de contingentes nos últimos anos, não estamos a falar de pequenos números. De acordo com o Pordata, eram mais de 23.000 militares e 27.000 bombeiros em 2019.

Durante a maior parte da história da humanidade, não existiam nem corpos militares ou corpo de bombeiros permanentes.  Quando deles havia necessidade, constituíam-se de forma mais ou menos formal. É evidente que não era o ideal. E o aumento da sofisticação e conhecimentos técnicos aumentou num nível que não permite que em poucos minutos ou dias, seja possível a alguém travestir-se em especialista de guerra, de fogo, ou de catástrofes.

Obviamente não sou especialista em nenhum destes sectores. Mas até cumpri o serviço militar e passei fins de semana de serviço integrado numa brigada de prevenção para incêndios. E apesar de criativo, não consigo imaginar que  haja assim tanto para fazer, estudar e preparar em tempos de paz ou quando não há incêndios, para não ter disponibilidade para fazer alguma coisa no entretanto.

Sempre me questionei porque as forças armadas não eram soldados da paz quando não estamos em estado de guerra. Gerações de militares, felizmente, nunca viram o teatro de guerra. Simplesmente nunca exerceram a sua profissão. Apenas se prepararam. Porque precisamos de duplicar recursos importantes e valiosos, para estarem na maior parte do tempo á espera de serem necessários?

Certamente não poderíamos ficar apenas com o numero de um dos contingentes. Há claramente missões e funções no exercito e sobretudo na força aérea e marinha, que não podem ser aproveitadas no combate a incêndios e acidentes. Embora quanto à protecção civil, em Portugal com mais de 10 vezes os generais para o mesmo numero de soldados do que no Reino Unido, poderíamos certamente constituir um elenco de luxo.

Poderão existir razões que desconheço e que expliquem este fenómeno em tantos países. E nem sequer importa se esta solução é exequível. A questão é se a sociedade se pode dar o luxo, da injustiça,  de ter suplentes que não estão disponíveis para jogar, quando finalmente podem ir a jogo.  

Confesso, fiquei mal disposto,  com a tirada da associação dos Sargentos. Como aliás fico normalmente com as reivindicações de associações de interesses, que só olham para o próprio umbigo.



8 comentários

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De Anónimo a 24.11.2020 às 12:08

É simples: a Associação de Sargentos, que eu saiba, não representa as Forças Armadas, reservatório de grande dignidade, apesar do desinvestimento em material e formação humana. Esse tipo de argumentação é primo do que condena a compra de submarinos...
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De Anónimo a 24.11.2020 às 12:29

Não me surpreendeu em nada este tipo de regurgitação vinda de onde vem, nada mais do que a maior concentração de parasitas do país.
Pode-se dizer que a culpa tem sido dos sucessivos governos que foram deixando degradar a instituição militar desde o 25 de Abril, tanto em meios como em pessoas de carácter. O facto é que hoje a instituição militar, com excepção da marinha pelas razões obvias da maior zona económica exclusiva que temos, não passa de um enorme sorvedouro de dinheiros públicos sem qualquer utilidade prática. São milhares e milhares de salários pagos, alguns a peso de ouro, mordomias escandalosas e com retorno ZERO. O exemplo gritante está no numero de generais, são mais de duzentos para cerca de 30.000 soldados!! Temos o exemplo flagrante do flagelo dos incêndios que anualmente assolam o país e apenas no ano passado se viu "alguma mas pouca" mobilização de meios militares para patrulhamento e combate a incêndios. Por outro lado, quem for mais atento vai lendo os sucessivos escândalos, nas messes militares, nos contratos de compra de equipamentos e a cereja no topo do bolo com o furto de tancos onde os próprios militares ajudaram a roubar material de guerra.
É caso para se questionar para que serve sustentar a peso de ouro uma instituição cujo retorno é zero. Se é para mandar destacamentos pagos a peso de ouro para africa ao serviço na ONU, para ficar bem na fotografia, fica mais barato sub-contratar mercenários, pois onde eles realmente fariam falta, no apoio a comunidades portuguesas em países ditos "irmãos" que já pediram a nossa ajuda, nem vê-los, como é o caso recente de Moçambique. 
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De Anónimo a 24.11.2020 às 12:43

Os militares não actuam de livre vontade. Tem que haver estratégia e direcção. Esse exemplo do controlo florestal é demagogia barata, eles são postos de parte há anos! 
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De Jose Miguel Roque Martins a 24.11.2020 às 12:52

 O problema é parecer ou  querer serem postos de parte!
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De Anónimo a 24.11.2020 às 12:56

Pois! Isso foi notícia. Mas é claro, indignnações seletivas, vá-se lá saber porquê.
Isto é que ainda não vi publicado em lado nenhum...


"Aqui ao lado, em Espanha, a chegada do Podemos ao governo já trouxe uma legitimação prática de ocupações de casas de centenas de espanhóis que, em ausências de férias ou por causa do confinamento, se viram despojados das suas habitações por um movimento “Okupa”, que lá como cá (com o BE) foi criado e incentivado pelo Podemos, que se especializou em explorar as lacunas da lei para se apoderar das casas dos seus legítimos proprietários. Este é um problema sério com que se confrontam neste momento os espanhóis e que começa a gerar um sério problema económico ao país. O direito à propriedade individual está posto em causa em nome da ideologia.

Na educação, a Espanha está também a assistir a uma revolução que, como não podia deixar de ser, está a afectar o direito à liberdade de educação. A chamada lei “Cella” acabou com o convénio existente com escolas estatais e privadas, agravando os custos da educação e limitando a liberdade de escolha.

(...) tão mau é um voto no Chega, como no BE ou no PCP e que apesar do discurso adocicado dos partidos à esquerda do PS, na hora da verdade, se e quando ela chegar, André Ventura e Catarina Martins encontrar-se-ão à beira da mesma fogueira a discutir se devemos queimar ciganos e pedófilos ou capitalistas e católicos conservadores."

Raquel Abecassis, Observador

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De Vasco Silveira a 24.11.2020 às 18:05

..." temos 3 instituições: as forças armadas, os bombeiros e a protecção civil, que só são accionadas em caso de necessidade (guerra ou acções humanitárias, fogo ou acidentes e catástrofes)."



Caro Senhor
Não consigo encontrar qualquer justificação para as razões que o levaram a escrever ainfeliz  frase que acima transcrevo.
As forças armadas , ta lcomo o corpo diplomático, são preparadas para responder às ameaças externas de um país, não podendo de forma nenhuma ser confundidas com organizações semi-militarizadas de defesa de ordem pública ou proteção de acidentes naturais.
Um militar é um sujeito preponderante da soberania e segurança nacional, pela qual jurou dar a vida se necessário, e que não pode, nem deve, de forma alguma ser sujeito e parte de políticas administrativas internas.
Peço-lhe pois o favor de não comparar nunca um militar com um bombeiro, ou um agente da polícia; todos têm a sua função e dignidade, mas os militares não apagam incêndios florestais, nem controlam o trânsito: os militares defendem a soberania nacional, que é um valor último de um estado que se respeita.


Melhores cumprimentos


Vasco Silveira 
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De Anónimo a 25.11.2020 às 07:45

Concordo com o que o autor escreveu.
Muitas vezes pergunto a mim próprio a que título muitos oficiais - concretamente os de alta patente - exibem condecorações.
Ganhas em guerra ? Em paz não creio ao ler o comunicado da Associação de Sargentos que avisa os militares não são pau para toda a obra.
Ou serão condecorações tipo a "la Marcelo Rebelo de Sousa" que dá ou concede uma dita cuja a troco de nada? 
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De Luis ALves a 25.11.2020 às 14:23

Para que não restem dúvidas começo por informar que sou militar. Assim, após esta declaração de interesses começo por chamar a atenção que a Associação Nacional de Sargentos apenas representa os seus associados, como tal, inferir das suas declarações que são a posição de todos os militares é manifestamente exagerado.
Alguns aspectos do texto são naturalmente opinativos, e já foi feito um comentário pelo sr. Vasco Silveira bastante pertinente sobre a diferença entre militares, polícias e bombeiros, pelo que não me alongarei sobre este assunto. No entanto a afirmação que passo a transcrever causou-me alguma estupefação: "E não tenho visto assim tantos exemplos de serviços públicos pelos militares que expliquem a exaustão implícita no recado dos sargentos."
A simples existência de Forças Armadas (e consequentemente, de militares) já é, por si só, um serviço público da maior relevância (remeto novamente para o comentário do sr. Vasco Silveira). Ainda assim, relembro que todos os dias, 24 horas por dia, existem militares em missão (isto é, afastados das famílias) para procederem a busca e salvamento marítimo, evacuação médica, transporte de órgãos, entre outros. Adicionalmente, no período crítico de incêndios e durante a época balnear existem inúmeros militares na vigilância florestal, operações de rescaldo de incêndios, apoio logístico aos bombeiros e população e vigilância balnear. Durante a actual pandemia têm sido empenhados em diversas missões em apoio a outros organismos (desinfeções, ações de formação, acolhimento de doentes, etc.). Nas situações de catástrofe e calamidade têm estado na linha da frente, em Portugal e no estrangeiro (aluvião da Madeira, incêndios de Pedrógão Grande, furacão Lorenzo nos Açores, ciclone Idai em Moçambique, só para citar alguns dos mais recentes). Estas missões têm sido amplamente divulgadas pela comunicação social, daí a minha estupefação pelo autor do artigo afirmar desconhecer a colaboração de militares nas chamadas missões de interesse público.
Toda estas tarefas têm sido desempenhadas com elevado sentido de missão e eficácia, como é amplamente testemunhado pelos que delas beneficiam, desde autoridades civis a simples cidadãos anónimos, mesmo tendo em consideração a elevada escassez de pessoal atualmente nas fileiras, o que condiciona a continuação da execução das tarefas fundamentais das Forças Armadas ao mesmo tempo que introduz um fator de desgaste que dificulta a posterior regeneração do pessoal. 
Os militares não se eximem a avançar quando e como for necessário, no entanto é compreensível que militares que ano após ano vêm as suas férias serem interrompidas, a fazerem serviço de escala de 3 em 3 dias durante anos a fio e com vencimentos significativamente inferiores a outras profissões de referência (como algumas que foram citadas no texto) se questionem de onde virão os recursos para fazer face a cada vez mais tarefas que são chamados a cumprir.
Se é certo que, como em todas as profissões e sectores, alguns apenas  usufruem contribuindo pouco para a missão, a minha experiência diz-me que não se podem tomar esses exemplos como a norma. Também chamo a atenção que a realidade vivida em algumas unidades militares durante o serviço militar obrigatório já faz parte da história, pelo que invocar essa experiência já não tem validade nos dias que correm.
Em resumo, o autor na tentativa de combater um grupo de interesse que aparenta apenas olhar para o seu umbigo, profere uma afirmação errada e profundamente injusta.


Com os melhores cumprimentos,


Luis Alves

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