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Soluções e desilusões

por João Távora, em 22.01.26

dom carlos.jpg

Tenho uma profunda aversão a revoluções. Na minha experiência pessoal, presenciei uma revolução e toda a instabilidade que dela resultou, quase originando um regime ainda mais opressivo do que o Estado Novo. A História mostra que este é um padrão recorrente: sem recorrer ao exemplo extremo da Revolução Francesa, basta recordar o impacto negativo da acção revolucionária do Marquês de Pombal, das revoluções liberais e da consequente guerra civil, culminando décadas depois na revolução republicana. Na minha família correm histórias terríveis sobre todos esses períodos conturbados.

Analisando o último caso, é evidente que a revolução republicana prosperou, sobretudo nas duas últimas décadas da monarquia, graças a uma estratégia populista e nacionalista implacável aplicada nos meios urbanos, alimentando sistematicamente o ressentimento e provocando emoções básicas, como o medo e a revolta. O contexto português favorecia este cenário: incapacidade de reformar instituições e processos leva invariavelmente a mudanças abruptas, frequentemente violentas, que acabam por manter tudo igual ou, por vezes, agravar os erros e os vícios, apenas trocando clientelas e mascarando as instituições. Assim aconteceu no final da monarquia: a propaganda republicana explorava a miséria do povo, atacava duramente o rei, acusava os jesuítas de raptarem crianças e os padres de manterem o povo no obscurantismo. Os muitos jornais populares amplificavam denúncias contra as velhas elites e a Igreja, promovendo rancores e ideias nacionalistas.

Em reacção à humilhação da crise do Mapa Cor de Rosa, um dos momentos mais baixos do constitucionalismo monárquico, os republicanos criaram uma Comissão de Subscrição Nacional para financiar a aquisição de um navio de guerra, com o objectivo de enfrentar o Império Britânico – uma ideia inusitada! Os muitos jornais republicanos que circulavam, tal como hoje acontece nas “redes sociais”, difundiam mentiras sobre a Família Real, usando termos insultuosos para se referirem a Dom Carlos, como “déspota insensível”, “parasita do erário” ou “inimigo do povo”, reforçando uma imagem negativa da Casa Real. A Rainha D. Amélia era alvo de críticas pelos seus supostos gastos e vida privada promíscua (imagine-se!), enquanto se explorava a Questão dos Adiantamentos, polémica sobre despesas de representação da Coroa sempre muito acima do orçamentado, valor que nunca fora actualizado desde o reinado de D. João VI, sendo o défice coberto por “adiantamentos” autorizados por um ministro, sem aprovação do Parlamento. Curiosamente, tudo isto acontecia num dos países mais livres da Europa, que, mesmo assim, não era dos mais pobres. O populismo é receita de sucesso por cá.

Todos sabemos como terminou esse processo. Como afirmava recentemente Pedro Gomes Sanches, “as sociedades avançam quando as suas elites são responsáveis; colapsam quando enlouquecem, se infantilizam ou se demitem”. Esta tendência é visível em vários países e, em particular, em Portugal, que considero um ecossistema especialmente vulnerável à histeria e à irracionalidade.

Como podemos alterar o rumo dos acontecimentos sem que tudo descambe numa completa ingovernabilidade? Ao contrário do que muitos pensam, nem tudo está errado no nosso país. Grande parte das nossas elites, mesmo que por vezes afastadas da realidade, não deve ser menosprezada – pelo contrário, merece ser valorizada. Muitos avanços importantes foram alcançados desde o 25 de Abril; foram décadas valiosas para aprendermos a viver em liberdade. Aprendemos lentamente, é certo. Já o século XIX parece ter sido um tempo perdido, se olharmos para o desfecho de 5 de Outubro.

Quanto a mim, enquanto monárquico, sinto-me desobrigado de legitimar com o meu voto uma Chefia de Estado que nos foi imposta à força, uma fórmula na qual não acredito. Assim evito desilusões. No próximo dia 8 de Fevereiro, data de nascimento do meu saudoso pai, terei o privilégio de escapar a um grande dilema anulando o meu voto. Mas continuarei a empenhar-me sem descanso por um país que se desenvolva aprazível para lá das inevitáveis divisões e dos conflitos. Um lugar onde os meus netos possam crescer, de forma prospera e cristã.

cr_jesuitas_recorte_a_cidade_peq (1).jpg

Imagem acima: destaque de capa no jornal "A Cidade" sobre a finalidade dos supostos raptos de crianças para produção de um "óleo". 

Publicado originalmente aqui


9 comentários

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De Anónimo a 22.01.2026 às 14:33


Na minha família correm histórias terríveis sobre todos esses períodos conturbados.


É normal que, para quem está bem instalado na vida, períodos conturbados sejam (no mínimo) assustadores.
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De João Távora a 23.01.2026 às 00:25

O que é que sabe sobre o assunto? 
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De balio a 22.01.2026 às 14:38


sinto-me desobrigado de legitimar com o meu voto uma Chefia de Estado que nos foi imposta à força


O João Távora continua a viver como se estivéssemos em 1910. Isso já foi há muito tempo, João! A República, na atualidade, é o estado natural das coisas - ela não é imposta à força por ninguém. Foi imposta à força em 1910 --- agora já não é.
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De Anónimo a 22.01.2026 às 18:49

Seria certamente, um "estado natural das coisas" bastante mais límpido e arejado se fosse referendado.
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De balio a 23.01.2026 às 11:50


Nenhum regime referenda a sua própria existência.
Ademais, seria ridículo referendar a monarquia quando não há mais do que um punhado de monárquicos ativos.
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De Anónimo a 23.01.2026 às 17:17

 Caro Balio


Admitindo que nenhum regime se auto-referende, não significa ser melhor não referendar.


Referendar significa acabar com zonas de sombra e esclarecer dúvidas o que por norma é melhor.


Acresce que haver "um punhado de monárquicos ativos" não significa serem esses os únicos monárquicos.


Os referendos tem a grande vantagem de esclarecer, clarificar e oxigenar  este e outros tipo de questões pelo que se tornam altamente recomendáveis.


Respirasse melhor
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De Silva a 22.01.2026 às 14:44

"Tenho uma profunda aversão a revoluções."


Entretanto, o próprio governo através do ministro Adjunto e da Reforma do Estado Gonçalo Matias já veio anunciar que o governo já está a preparar o voto electrónico.


Na minha opinião, trata-se claramente duma revolução silenciosa, pois irá permitir que o sigilo de voto desapareça, irá permitir a manipulação e a fraude eleitoral em futuras eleições.
Uma palhaçada "democrática".


"Como podemos alterar o rumo dos acontecimentos sem que tudo descambe numa completa ingovernabilidade?"


Obviamente com vontade/coragem política, caso contrário, teremos de esperar pelo aumento da pressão financeira para que haja ajustamentos intensamente suaves.


Ou reformas estruturais, ou "cernelhamentos" intensamente suaves à medida que a pressão financeira aumenta.

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De bb a 22.01.2026 às 18:23

Quando for possível votar em casa, ai, ai...........
São cerca de 5 milhões de eleitores.............
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De balio a 23.01.2026 às 09:50

Quando fôr possível votar em casa, a fraude eleitoral no seio das famílias vai ser imensa. Vai haver mulheres a votar pelos maridos (ou vice-versa), e ambos a votarem pelos filhos e pelos pais idosos. Até os deficientes mentais passarão a votar. O forrobodó vai ser imenso.

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