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Sobre dias como estes

por henrique pereira dos santos, em 05.09.19

Paulo Fernandes escrevia ontem ou anteontem que embora as condições favoráveis ao fogo sejam muito acentuadas nestes dias (mais de 50% de probabilidade de um fogo maior que 100 hectares em vários distritos e mais de 50% de probabilidade de um fogo maior que 1000 hectares em dois deles, Viseu e Santarém, se não me engano), a verdade é que as condições mais críticas se localizavam em áreas extensamente ardidas nos últimos anos, portanto a probabilidade de um grande desastre está muito diminuída.

Isto é uma boa demonstração da necessidade de reduzir combustíveis para reduzir o risco, porque não é melhorando o sistema de combate e diminuindo ignições (já agora, as ignições, em Portugal, diminuíram 30% nos últimos anos, sem nenhum efeito prático na área ardida) que vamos lá.

O que se está a passar nas tais áreas ardidas há dois anos ou três anos é simplesmente deprimente.

Não por estarem a rebentar os eucaliptos ou por estar a verificar-se uma intensa recuperação da vegetação, isso é da natureza das coisas e uma riqueza, mas simplesmente porque não se vislumbra de que forma se está a aumentar a gestão do território que permita gerir esses combustíveis.

Num horizonte de dez a quinze anos, a manter-se a situação, dias como estes que agora começam, até Domingo, trazem sempre consigo um enorme potencial de tragédia. E, mais grave, se se conseguir gerir a situação em dias como estes, com um dispositivo muito eficaz na supressão do fogo, está-se apenas a criar as condições para um desastre maior em dias ainda mais agrestes, que também os há.

Até Dezembro sou presidente de uma associação que acabou de comprar uns terrenos (11 hectares) em Pampilhosa da Serra. Neste Sábado temos em Cabril um colóquio sobre a paisagem de todos, gerida por todos, ou um tema assim, onde vamos ter gente a falar da forma como estão a gerir terrenos aqui e ali.

Pois bem, a Câmara não consegue ter ninguém para lá dar um salto, nem que seja para dar as boas vindas, o Presidente de Câmara nem sequer responde aos mails de apresentação de um minúsculo operador que vem trazer um bocadinho de gestão a paisagens completamente ao abandono (é uma coisa estranha, eu mando um mail para um professor de Harvard ou de uma dessa universidades de topo mundiais, e recebo uma resposta, eu mando um mail para o assistente estagiário de uma universidade portuguesa, e não tenho qualquer resposta, há, em Portugal, instalada uma cultura de ausência de resposta a contactos que não entendo de todo).

Isto seria o menos, nós somos um pequeno operador, a área que gerimos é mínima, não temos dinheiro e portanto o efeito do que fazemos, por si, claro que não resolve nada em Pampilhosa da Serra.

O problema é que o Estado central também acha que contar com quem faz alguma coisa é irrelevante, e prefere desenhar programas de apoio para quem acha que devia fazer alguma coisa, da forma como o governo entende, nos sítios que o governo entende, mesmo que, ano após ano, os que fazem alguma coisa (pastores, alguns gestores de baldios, proprietários, etc.) continuem a fazê-lo em esforço, quando não desistem, e o dinheiro atirado para cima dos problemas desapareça, mas o problema não.

O problema é que o Estado central mobiliza a GNR para garantir a repressão dos comportamentos que o Estado acha ilegítimos, mas é incapaz de mobilizar e capacitar a GNR para apoiar os que por lá andam a fazer alguma coisa, trabalhando o fogo controlado, percebendo os constrangimentos que impedem as pessoas de gerir o território (umas vezes são económicos, mas outras vezes são adminitrativos, regulamentares, de conhecimento ou de falta de parceiros, etc.) ou simplesmente estando presentes quando fazem falta.

O problema é o Estado central se estar nas tintas para a enorme dimensão dos roubos em espaço rural, roubos de gado, roubos de pinhas, roubos de cortiça, roubo de equipamentos, roubo do combustível das máquinas que trabalham por esses confins do mundo, demitindo-se das funções básicas que lhe compete assegurar, como a segurança de pessoas e bens.

Por estes dias o que não faltam são pessoas coladas aos ecráns e olhar para a linha do horizonte para tentar mitigar o efeito dramático que o abandono provoca nos fogos florestais.

Mas no resto do ano, no resto dos dias, quando na verdade se poderia começar a ir gerindo o problema do fogo do próximo Verão, são na verdade muito poucos os que continuam a insistir que assim não vamos lá, é mesmo preciso desencantar o conhecimento e outros recursos sem os quais não vai haver gestão nenhuma destas terras.

E, sem isso, tanto pode ser nestes dias ou num outro Verão, o resultado não tem como ser outro.

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1 comentário

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De Anónimo a 05.09.2019 às 17:51

arde no Alto do Pina em Lisboa
ardeu uma cam 5 feridos


um dia vai o 'pulmão' de Monsanto

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