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Sinal e ruído

por henrique pereira dos santos, em 31.01.21

Pelo que li sumariamente, a distinção entre sinal e ruído vem das telecomunicações e no fundo procura distinguir a comunicação que se pretende - o sinal - do ruído de fundo, que só atrapalha.

Intuitivamente é fácil perceber que quanto melhor for o sinal e menor o ruído, melhor é a comunicação.

Hoje usa-se muito esta ideia quer do lado da comunicação, quer do lado da estatístisca.

Já várias vezes ouvi falar do livro que tem exactamente este título "The signal and the noise", que nunca li, e quando escolhi o título do post, evidentemente a partir do título desse livro, resolvi certificar-me que não tinha uma ideia completamente ao lado do que verdadeiramente era o livro em causa.

Sem grande surpresa, porque entre as pessoas que fui ouvindo falar do livro estão pessoas ligados à epidemiologia clássica, isto é, à epidemiologia que sabe que a gestão de uma epidemia é essencialmente gestão de informação, e não gestão médica, verifico que entre os exemplos do livro tanto estão campanhas políticas, como previsões sobre o efeito de furacões ou, surpresa, o avanço de uma epidemia perigosa. Pode ser que ainda venha a ler o livro.

Vem tudo isto a propósito dos gráficos básicos que vou fazendo para me orientar no nevoeiro de informação sobre a epidemia, como o que está abaixo em que está a evolução diária de casos, do Natal até agora, a respectiva média a sete dias e os resultados do modelo da equipa de Manuel Carmos Gomes que foram usados na reunião do Infarmed de 12 de Janeiro, em que se pretendeu convencer o governo a fechar escolas (em boa verdade, e tudo o resto).

casos e prev.jpg

Qualquer pessoa se apercebe do nível de ruído que existe nos dados diários, todos sabemos que uma epidemia não evolui aos solavancos, nós é que tratamos informação aos solavancos. Uma boa parte do jornalismo esquece esta questão básica e trata os números de cada dia sem qualquer cuidado em eliminar o ruído e, pelo contrário, ampliando o ruído (não confundir com a opção de escolher sempre o indicador mais dramático, o número de casos, ou de mortes, ou de hospitalizações ou de cuidados intensivos. O que disse primeiro é incompetência, esta opção é má-fé).

Porque é assim, porque existe um ciclo semanal de tratamento da informação, usa-se a média de sete dias para eliminar parte do ruído, tornando mais claro o sinal.

Por exemplo, do dia 29 para 30 de Dezembro o número de casos quase duplica (passando de 3336 para 6049). Como se está numa fase de aumento de incidência da epidemia, um aumento diário é normal, mas grande parte deste aumento é o que acontece entre todas as terças e quartas, o que é facilmente contornável olhando para a média de sete dias, que "apenas" aumenta de 3049 casos para 3256.

O que interessa, ou seja, o que nos dá o sinal, são as diferenças de umas terças para as outras terças ou de umas quartas para as outras quartas, que na verdade é o que conseguimos ver no andamento da média dos sete dias.

Existem técnicas matemáticas para eliminar, tanto quanto possível, ruído de dados, umas que conheço rudimentarmente, outras que desconheço perfeitamente. Um dos trabalhos dos modeladores é escolher a forma de tratar os dados de modo a extrair deles o máximo de sinal, com o mínimo de ruído.

O que é especialmente interessante neste mês de Janeiro em Portugal é o efeito do ruído introduzido pelos modeladores.

Não há nenhuma especificidade portuguesa no papel dos modeladores enquanto produtores de ruído, tem sido debatida a fractura geracional entre os velhos epidemiologistas, que preferem usar ferramentas que conhecem a processos que desconhecem, e os jovens lobos que acham boa ideia usar novas ferramentas, não testadas, em circunstâncias de elevada incerteza intrínseca, como é uma epidemia.

Os principais pilares dessa clivagem geracional é a substituição da clínica por técnicas laboratoriais para definir o que é um caso, e a substituição de visões mais abrangentes dos factores em presença na evolução de uma epidemia pela concentração, matematicamente sofisticada, apenas num factor: o contacto como condição sine qua non do contágio. O corolário é que a gestão de uma epidemia se faz gerindo contactos e não gerindo os efeitos sociais da epidemia (esta clivagem é ilustrada pela abordagem predominante, patrocinada pela Organização Mundial de Saúde após a manobra de propagando do regime chinês, e a Great Barrington Declaration, que assenta na epidemiologia clássica).

O que é interessante e especificamente português é que dois fenómenos completamente autónomos ocorreram a partir da mesma data, o que permite estudar os efeitos dessa introdução de ruído: a celebração do Natal e a entrada de uma anomalia meteorológica que, em condições normais, seria imediatamente entendida como tendo influência provável na incidência de doenças respiratórias.

O que o gráfico acima ilustra, com a enxertia dos resultados simplificados dos modelos matemáticos em uso, é que os modeladores que estão a influenciar a gestão desta epidemia, obcecados com o tandem "contacto/ contágio", depois de eliminarem o ruído decorrente do ciclo semanal de produção de informação, atribuíram a totalidade do sinal ao aumento de contactos e projectaram para o futuro o efeito que estavam a observar, dando origem a projecções completamente delirantes, como a realidade veio mostrar.

Note-se que, logo na altura, seria normal que se perguntassem como seria possível ter duas a três vezes mais casos que os que hoje se verificam, quando já hoje somos o país do mundo com maior número de casos por milhão, isto é, a obsessão com o tandem "contacto/ contágio", aparentemente, impediu os modeladores de se perguntarem a si mesmos como era possível ter resultados tão extraordinários e tão fora do que têm sido os padrões pelo mundo fora.

Um bocadinho mais de humildade e, sobretudo, atenção aos factores essenciais de evolução de epidemias, que dificilmente podem ignorar as condições ambientais em cada momento, teria, provavelmente, levado equipas mais velhas, com mais experiência de gestão de epidemias (note-se que Carlos Antunes, o mais influente dos modeladores, nunca tinha trabalhado em epidemias, é um geofísico especialista em alterações climáticas, um campo em que o alarmismo é considerado um bom instrumento para nos conduzir ao bem comum), a olhar em simultâneo para os contactos do Natal e para a anomalia meteorológica.

Seria normal procurar identificar no sinal o que era resultado de mais contactos (os dados existentes sobre contactos no Natal não mostram nenhum aumento verdadeiramente relevante de contactos em relação aos dias anteriores, o que deveria ter acendido as luzes de alerta de modeladores com menos certezas) e o que era resultado de uma situação meteorológica excepcional, permitindo calibrar melhor o modelo e ter previsões que não representem, como as que foram feitas representam, uma ruptura incompreensível do histórico de evolução da epidemia e do que se sabe a partir do resto do mundo.



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