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Ser de quê? Como?

por Luísa Correia, em 29.04.14

A propósito da polémica recorrente sobre o que é ser de esquerda e de direita, e no sentido de me orientar nesse denso nevoeiro conceptual, produzi  a tabela que segue.

 

 

   

Ser de esquerda é...

  Ser de direita é...

Pelo critério do coração

 

 

Deplorar a pobreza, insurgir-se contra a desigualdade de oportunidades, lutar pela liberdade, pensar mais nos outros do que em si próprio. Gostar de mudança.

 

  Ser avarento, ambicioso, egoista, não olhar a meios para atingir os seus fins pessoais, nem aceitar que possa pensar-se de forma diferente. Valorizar a estabilidade. 
Pelo critério da cabeça  

 

Entender que se detém o exclusivo da razão, precisamente porque os fins são belos e românticos.  Entender, também, que esses fins justificam os meios, como a manipulação informativa, a engorda e o reforço do poder do Estado, e a restrição da liberdade individual em prol das «liberdades colectivas» (?). Entender que as mudanças devem fazer-se no seu próprio tempo de vida, recorrendo, no extremo, à política da tábua rasa e a métodos revolucionários e/ou ditatoriais.

 

  Entender que o primado é da liberdade de cada um. Entender que ao Estado compete apenas assegurar a igualdade de oportunidades e o cumprimento de regras mínimas de lisura social e económica. Entender que as mudanças necessárias devem fazer-se por via reformista, «sustentadamente» e no tempo de quantas vidas for. Entender que pode haver perigo nos idealismos de esquerda, - porque os idealismos tendem para a radicalização - e combater esse perigo, recorrendo, no extremo, a métodos golpistas e/ou ditatoriais.
Pelo critério do estômago   

 

Considerar que os primeiros pobres são os de esquerda, porque a esquerda é, por natureza, pobre (e/ou conhece casos traumatizantes de pobreza no seu passado ou ascendência próxima). Acautelar, portanto, prioritariamente, os seus próprios desejos e necessidades.

 

  Considerar a propriedade e a riqueza como direitos individuais legítimos e factores de prestígio e de motivação no trabalho. Preferir, entre as causas de perda de riqueza, aquelas que redundem em benefício palpável de estômagos alheios; ou seja, preferir a caridade à correcção fiscal.
Em síntese   

 

Viver de impulsos românticos, avaliando as consequências de forma leviana.

 

  Avaliar as consequências de forma cautelosa, comedindo os impulsos românticos.

 

Revejo o exercício e o nevoeiro continua cerrado. 

Ainda assim - e na linha conciliadora dos franceses, que reconhecem ter o coração à esquerda e a carteira à direita -, diria que ser-se de esquerda serve razoavelmente a nossa vida privada, em que os idealismos são inócuos, proporcionam divertidas discussões existenciais e compõem uma imagem generosa e apegada aos valores humanistas. Já ser-se de direita serve melhor a nossa vida pública (se a temos), porque o pragmatismo, a eficácia e a paciência são qualidades essenciais à administração do bem comum. Podemos, portanto, ser muitos num só, com ganho de interesse e sem perda de coerência.

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4 comentários

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De jo a 29.04.2014 às 22:51

O vácuo das definições espelha bem a inutilidade da classificação.
No fundo temos os "nossos" e os "outros", e este exercício não passa de uma maneira de arranjar uma palavra para chamar aos outros em vez dos ouvir.
Mal por mal antes o Sporting - Benfica.
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De Atarracha a 29.04.2014 às 23:09

http://www.maquinadelavax.blogspot.pt/2014/04/os-26000-do-fiolhais-de-coimbra.html (http://www.maquinadelavax.blogspot.pt/2014/04/os-26000-do-fiolhais-de-coimbra.html)
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De Meirelovich a 30.04.2014 às 18:16

Não sei qual o critério da definição que apresento, mas no essencial ser de esquerda implica cumprir as seguintes condições:
1) Encontrar significativas diferenças entre o que se é e/ ou o que se possui e aquilo que o próprio entende que lhe seria devido em função do seu auto-juízo;
2) Entender que o locus de controlo é sempre externo; i.e. a situação descrita em 1) nada tem que ver com consequências de decisões e opções tomadas pelo próprio, mas antes com factores sociais, ambientais, culturais ou outros fora do seu controlo;
3) Entender que devem ser os outros, preferencialmente os de direita, a pagar para que a diferença encontrada em 1) seja minimizada ou mesmo eliminada.
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De vasco silveira a 02.05.2014 às 11:00

Cara Luisa Correia

Acrescentaria, a título de curiosidade,  mais uma , pequena,  diferença, que achei tão certeira quando a li ( talvez no 31 da Armada) :
"A esquerda não gosta da polícia; a direita não gosta dos polícias. "

Cumprimentos

Vasco Silveira

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