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Sempre fiz propostas parvas

por henrique pereira dos santos, em 22.04.19

Desde que me lembro que me lembro de fazer propostas parvas.

Em determinada altura era preciso encontrar medidas compensatórias para impactos de parques eólicos sobre a população de lobos a Sul do Douro (a minha opinião sobre esses impactos era irrelevante porque os funcionários públicos são pagos para aplicarem a lei os procedimentos, não para usarem o Estado para imporem as suas opiniões à sociedade).

Tendo em atenção a natureza das medidas compensatórias a definir no contexto da aplicação da Rede Natura 2000 - um conceito muito mal compreendido, nomeadamente por quem tem de o aplicar - era preciso que fossem medidas que impactassem positivamente a população de lobo na mesma medida (pelo menos) dos impactos negativos causados pelos parques eólicos.

Identificada a falta de alimento como um factor limitante que actuava negativamente sobre esta população, e não sendo realista esperar que as medidas para a expansão de corço tivessem resultados no curto prazo em que se notariam os impactos negativos, resolvi (naturalmente a decisão foi escrutinada e validade em vários níveis, mas neste caso fui mesmo eu que fui responsável pela medida existir) que a proposta mais razoável era obrigar cada produtor a ter duas cabras por cada megawatt instalado.

Com razão, quer a medida, quer eu, fomos alvo de muita chacota, mas como só havia autorização com o nosso parecer positivo, lá começaram a perceber que não era uma piada, era só uma proposta parva. E porque todos sabíamos ser uma proposta parva (embora exequível e perfeitamente razoável no contexto), a proposta tinha um acrescento: ou qualquer outra proposta feita pelos promotores que cumprisse o mesmo objectivo e fosse aceitável.

Os promotores, cujo negócio não é apascentar cabras para servirem e alimento a lobos, acabaram por propôr a criação de um fundo para a conservação do lobo ibérico, alimentado pelo valor de duas cabras por megawatt, e com um regulamento de aplicação muito restritivo (infelizmente depois alterado, desvirtuando-o). O cuidado no regulamento de aplicação do fundo justificava-se porque o normal é alguém pegar no dinheiro e gastá-lo em estudos (que os lobos nao lêem) e em centros de educação ambiental (que os lobos não frequentam), com muito mais proveito para os estudiosos do lobo que para os lobos em si.

E hoje esse fundo existe e financia a conservação do lobo (a Montis, associação de que sou presidente, até beneficia desse fundo, cinco mil euros por ano aplicados na gestão de 100 hectares, contra demonstração do trabalho feito, mas gostaria de deixar claro que entre a história que contei acima e o benefício de uma associação de que sou presidente passaram mais de dez anos, se não estou enganado, não há qualquer hipótese de que a decisão em causa tivesse sido em causa própria).

Em relação a esta coisa da sustentabilidade, da descarbonificação e mobilidade suave já há tempos fiz uma proposta que agora reitero, tão parva como a proposta das cabras.

Acredito que seja uma proposta muito menos mediática que as propostas de Greta Thundberg, que acredito que sejam óptimas mas desconheço em absoluto porque nunca ouvi nada do que disse nem leio nada sobre as suas actividades. Não vejo grande utilidade em ouvir uma criança de 16 anos a falar sobre um assunto tecnicamente complexo, economicamente problemático, socialmente desafiante e politicamente sensível sem ter formação científica, sem saber alguma coisa de economia, ter alguma experiência do mundo e ter alguma vez tido a responsabilidade de tomar uma decisão política.

A minha proposta é mesmo simples: o Governo que faça a sua parte nos roteiros para a neutralidade carbónica tomando a decisão, e aplicando-a de forma escrutinável, de que 10% das deslocações oficiais dos seus membros (incluindo membros dos gabinetes), pelo menos, sejam feitas em transportes colectivos (excluindo avião), a pé ou de bicicleta.

Eu sei, é uma proposta parva, mas tem a vantagem de ser simples e de apenas depender da vontade do governo fazer a demonstração prática daquilo que pretende (e, devo dizer, bem) para os outros.

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5 comentários

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De Anónimo a 22.04.2019 às 18:47


O Síndrome, Transtorno de Asperger -reconhecido pela própria- apresenta "... padrões de comportamento repetitivos e interesses restritos....". Por acaso concentrou-se obsesivamente numa das faces da moeda, como podia ter sido na outra....

A capacidade de este tipo de orador influenciar a opinião pública diz volumes sobre os influentes discursos de políticos e líderes religiosos. E sobre a susceptibilidade das multidões.
Assiste-se ao precoce treinar das criancinhas na arte de não pensar.
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De marta a 23.04.2019 às 12:45






As propostas da Greta não são óptimas, nem péssimas... só não são. Aliás, o discurso é genérico e catastrofista e tem como ideia única "quero que façam", "não nos falhem", "quero que entrem em pânico", etc...  E não é minimamente questionada, ninguém se atreve a fazer-lhe uma pergunta que seja, não tarda e atinge o estatuto de guru. 


Ter uma discussão racional sobre ambiente/clima tornou-se quase impossível... qualquer pessoa com um mínimo de formação científica que conteste o discurso activista é uma vendida ao dinheiro e ao sistema capitalista, e que tem, pasme-se, interesses. Ou então é uma exibicionista de conhecimento, que quer mostrar a sua superioridade intelectual face ao comum cidadão (que é naturalmente, uma vítima do sistema incapaz de pensar por si próprio). Cada vez mais a discussão assume um tom profundamente moralista e beato, em que os factos não interessam muito, o que interessa é a pureza de intenções e exibição pública de comportamento virtuoso. 


Deixo-lhe dois links sobre a ida da Greta Thunberg ao Parlamento Europeu. Se tiver paciência, leia. A atitude de deslumbramento dos deputados é só assustadora...   


https://www.theguardian.com/environment/2019/apr/16/greta-thunberg-urges-eu-leaders-wake-up-climate-change-school-strike-movement (https://www.theguardian.com/environment/2019/apr/16/greta-thunberg-urges-eu-leaders-wake-up-climate-change-school-strike-movement)


https://www.politico.eu/article/global-climate-icon-finds-that-political-change-is-complicated/ (https://www.politico.eu/article/global-climate-icon-finds-that-political-change-is-complicated/)



E continue a fazer propostas parvas! 
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De Anónimo a 25.04.2019 às 01:36


Marta,
Comentário soberbo. A irracionalidade impera, raiando mesmo o fanatismo. E se podemos tentar compreender algumas destas atitudes em pessoas com pouca ou nenhuma formação científica, rodeados de informação de carácter apocalítico, observá-las em cientistas/investigadores é penoso. Há uns meses assisti a uma comunicação científica onde apresentava as causas da redução da floresta amazónica no Brasil: construção de estradas, produção de madeira, agricultura, mineração a céu aberto, etc. No final, a palestrante concluía que tudo era devido às alterações climáticas (AC). Quando foi interpelada se a acção directa do Homem não seria a responsável respondeu que como somos responsáveis pelas AC, logo...E esse é um dos meus medos: não se discutirem temas de mais fácil resolução (sabemos como "resolver" o clima?), como por exemplo a poluição, o desmatamento, por acharmos que não vale a pena, face à grande catástrofe que se avizinha. Temos um problema, mas não o resolveremos com ameaças de extinção a termo. No início do século XXI alguém disse que tínhamos 10 anos, passados quase 20 sobre essa data, voltamos a ter 10 anos. Tal só nos leva a duas atitudes: ao descrédito da problemática (que se lixe, vou gozar isto enquanto der) ou a catastrofistas em pânico. Neste contexto, a razão pouco vale. 


PS - também aprecio propostas parvas; muitas vezes o rei vai nú.
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De xico a 23.04.2019 às 20:15

E que impacto têm sobre os lobos, os parques eólicos?
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De Anónimo a 24.04.2019 às 10:47

O que é que a Greta tem que eu não tenho?
Esta coisa dos lobos fez-me pensar muito..., ponho-me a olhar-me, a olhar-me, a medir-me, a cismar-me...- eu acho que sou mesmo calhau!
Vivam as gretas!!

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