Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Se eu soubesse o que sei hoje

por João Távora, em 21.08.19

Fonte-urinol-Marcel-Duchamp-1917.jpg

Na segunda metade dos anos setenta, no meu gira-discos, nas festas de garagem ou do liceu, tocavam as mais excêntricas batidas e desconcertantes sentenças bramidas por bandas que fariam corar de vergonha os mais atrevidos millennials que por aí deambulam a consumir “experiências”. Respaldado por uma família bem estruturada, debaixo de um ambiente político ainda dominado pelos militares e pela ortodoxia do conservadorismo comunista, a estética insolente e luxuriosa do Rock e de alguma música contestatária que então ecoava proveniente de Inglaterra e dos EUA, constituíam uma saudável fenda numa cultura profundamente castradora que era o “mainstream“ que sobreveio ao Estado Novo. Naqueles anos loucos, neste jardim à beira mar plantado, havia muros verdadeiramente por derrubar e limites por explorar, a moda explodira cá com 10 anos de atraso. A desconstrução é um processo crítico de reinvenção que funciona quando o objecto combatido é experimentado, sólido e tem pilares firmes. O que é trágico é que hoje já não há instituições tradicionais para desconstruir, não se desconstrói o que está feito em cacos. Se é certo que uma família consegue assimilar um “excêntrico” no seu seio, demasiados excêntricos arruínam uma família e receio que o mesmo suceda com uma cidade ou com uma civilização. Pela parte que me toca, a liberdade que experimento hoje, foi construída com o pão que o diabo amassou, em cima de muitas escolhas equívocas e até de erros crassos. Mas o facto é que quando foi necessário, tive uma alternativa, um caminho de volta, proveram-me um atalho de volta a “casa”.

Aqui chegados, a barafunda de referências que as novas gerações encontram parece-me letal. Os corpos intermédios, fundamentais para darem massa crítica a uma comunidade, os chamados contrapesos, estão cada vez mais fragilizados. Se o esvaziamento do interior, das antigas vilas e aldeias, é compensado pelo crescimento das grandes metrópoles, aí predomina o hiperindividualismo, uma sociedade profundamente fragmentada. Nelas sobrevivem com dificuldade as velhas paróquias, clubes de bairro e as associações culturais. A família, que deveria ser a célula base da sociedade, já viu melhores dias: Portugal é o país com a taxa de divórcios mais alta da Europa com 64,2 divórcios por cada 100 casamentos, os quais como sabemos são pouco fecundos – cada vez nascem menos crianças; os casais são eternos namorados e muitos contentam-se com a companhia de um animal de estimação. Cada vez mais as pessoas nascem e crescem isoladas e sem pertença, formadas para dependerem em tudo do Estado, que tudo regula e a todos domestica, com regras viciadas para a tribalização da comunidade, promovendo toda a sorte de excentricidades e aberrações numa lógica de dividir para reinar.

Lembrei-me disto tudo a propósito do Despacho dos Secretários de Estado da Igualdade e da Educação que saiu na semana passada com medidas administrativas para as escolas promovem a “autodeterminação de género”, com base na tal doutrina que afirma ser o género uma questão de vontade individual e não um desígnio biológico. Pretendem eles em última análise, que haverá tantos géneros quanto pessoas e as suas sensibilidades, ou seja, não há nenhum. Estranho é que este despacho tenha sido publicado enquanto o Tribunal Constitucional aprecia o pedido de fiscalização sucessiva de duas normas da Lei a pedido de 85 deputados liderados por Miguel Morgado.
Que estes caprichos adolescentes tenham sido cantados por bandas dos anos 60 e 70 eu percebo, em função do contexto e da época. Hoje, esta história de quererem fazer da Escola um acampamento do Bloco de Esquerda cheira a esturro, a não ser que eles tenham perdido de vez a vergonha, e queiram mesmo deitar isto tudo abaixo para dar lugar ao tal Homem Novo, criado, domesticado e regulado pelo governo, sem filhos, sem família, sem Deus ou ligação. Todos com um chip na cabeça, que será a única fórmula de controlar a rapaziada num balneário universal.

Imagem: Fonte, Marcel Duchamp (1917)




Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com




Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Anónimo

    Se Portugal é um pseudo país não sei o que estás c...

  • Rui

    Quantas ligações OPO-LIS estão previstas. Já viu? ...

  • Rui

    Total desconhecimento da realidade económica do pa...

  • Rui

    Verdade, desde que seja um hub. Por acaso o senhor...

  • Anónimo

    concordoPor isso eu tenho a ideia que a democracia...


Links

Muito nossos

  •  
  •  
  • Outros blogs

  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2008
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D
    170. 2007
    171. J
    172. F
    173. M
    174. A
    175. M
    176. J
    177. J
    178. A
    179. S
    180. O
    181. N
    182. D
    183. 2006
    184. J
    185. F
    186. M
    187. A
    188. M
    189. J
    190. J
    191. A
    192. S
    193. O
    194. N
    195. D