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Resolver a caspa com uma decapitação

por henrique pereira dos santos, em 29.10.20

A imagem do título não é minha, é de Frank Zappa numa sessão do senado a propósito de umas audições a músicos (exemplar a forma como John Denver não tem a menor hesitação em se pôr do lado da defesa da liberdade de expressão, quando muitos poderiam esperar que o músico bem comportado não quisesse alinhar com os depravados), conduzidas por um então relativamente jovem senador Al Gore, em que se discutia a necessidade de intervenção do Estado para obrigar a indústria musical a regular a linguagem dos grupos de rock que estaria a corromper a juventude da América, perante a impotência das famílias se defenderem dessa agressão.

Curiosamente lá aparece um senador a explicar que se a indústria não se auto-regulasse, a intervenção do Estado se tornava necessária, na linha da inevitabilidade do autoritarismo das acções de controlo da epidemia, só na medida em que as pessoas não as queiram cumprir voluntariamente.

O ponto da epidemia em que estamos pode ser definido como uma encruzilhada onde se encontram:

1) o medo das pessoas comuns perante uma ameaça que não controlam e não sabem como controlar;

2) a militância de uma imprensa obcecada com a demonstração do seu papel de serviço público, em detrimento da produção de informação, o único valor social que a imprensa tem de carregar às costas;

3) o vislumbre dos sistemas e técnicos de saúde de uma oportunidade histórica para dar à saúde pública e aos sistemas de saúde, em especial à saúde preventiva, uma centralidade que a falta de dinheiro tem impedido;

4) governos apanhados numa armadilha em que sabem, neste momento, que os efeitos negativos das medidas de controlo sugeridas pelos técnicos podem ser largamente superiores aos seus efeitos positivos, mas em algum caso podem deixar crescer a ideia de que não fizeram tudo o que era possível para salvar vidas.

Desta situação resulta:

a) um população que aceita tudo o que lhe pareça que sirva para diminuir a ameaça, mesmo que não perceba como e em que dimensão altera a ameaça;

b) um clamor publicado que essencialmente repete discursos milenaristas sobre o apocalipse que chegará amanhã se não nos juntarmos todos nos mesmos rituais de exorcismo;

c) um discurso sobre a saúde essencialmente moral, sem grande base factual e racional, baseado no diferimento da recompensa dos sacrifícios de hoje, tanto mais eficazes quando maiores forem esses sacrifícios;

d) governos que decidem coisas, quaisquer que sejam, à espera que dessa forma não sejam responsabilizados pelos efeitos de uma epidemia que está para lá da sua (e da nossa) capacidade de controlo.

Assim sendo, não vale a pena remar contra a maré: vêem moinhos, são moinhos, vêem gigantes, são gigantes.

Parece ser tempo de deixar assentar a poeira, não há forma de salvar quem não quer ser salvo, quem quiser que marque uma ou duas noites na pensão da vila para ir visitar a família sem problemas (faz parte das excepções para se poder circular entre concelhos), e quem quiser que se esconda do mundo e aproveite para experiências místicas.

Por mim, vou comer uma laranja e beber um dedal de vinho tinto em cima.



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