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Repugnante

por José Mendonça da Cruz, em 30.03.20

É repugnante ouvir um pedinte que desbaratou com clientes e amigos os fundos que lhe confiaram indignar-se quando lhe perguntam se não foi essa uma das causas de estar impreparado para o pior.

É repugnante ver celebrar um défice zero feito à custa de calotes, de cativações e da ruína dos serviços públicos, acompanhados do maior saque fiscal de sempre, da descapitalização das empresas, da asfixia da poupança privada.

É repugnante ouvir dizer que o maior saque fiscal de sempre foi uma baixa de impostos.

É repugnante ouvir um primeiro-ministro dizer que não falta nada a um Serviço Nacional de Saúde que o seu governo colocara em situação de ruptura antes da pandemia, e ao qual, chegada a pandemia, falta dinheiro, pessoal, camas, máscaras, luvas, testes, ventiladores, e muito mais. 

É repugnante ouvir o Presidente desta República repetir, como nos fogos, que se fez o melhor que se pôde.

É repugnante ouvir uma Directora Geral de Saúde dizer que um vírus do chinês nunca vai chegar cá, semanas antes de ele chegar e começar a matar.

É repugnante ouvir a mesma Directora dizer que as luvas não servem para nada porque não há luvas; que as máscaras não servem para nada porque não há máscaras, que os testes não servem para nada porque não há testes nem houve preparação.

É repugnante e incapaz e cúmplice uma oposição que se cala.

É repugnante ver ainda nos mesmos cargos os membros do governo que defendem o combate aos privados, cujo pessoal, instalações e competência agora estão obrigados a «requisitar».

É repugnante ver ainda nos mesmos cargos os irresponsáveis e perdulários que «ofereceram» o horário de trabalho de 35 horas, que, segundo juravam, não teria nem custos, nem consequências no funcionamento dos serviços, mas teve custos proibitivos, e teve consequências graves, e contribuiu gravemente para a ruína do SNS.

É repugnante ouvir o PR que aprovou a medida, prometendo estar «muito atento» a eventuais consequências, estar depois, extremamente distraído das consequências para que fora sobejamente alertado.

É repugnante ouvir quem se apresenta como jornalista dizer que ninguém estava preparado para esta pandemia, sem escrutinar, sem identificar as diferenças entre o imprevisto absoluto, e a impreparação grave de quem arruinou o médio e longo prazo para só tratar do imediato e da propaganda.

É repugnante ouvir os mesmos travestis de jornalistas aplaudirem o fingimento de apoios do governo português ao emprego e às empresas -- aquilo a que Roque Martins chamou bem uma mão cheia de nada --, sem um reparo sobre a burocracia, as demoras, as ilusões, e indignarem-se com os seus ódios de estimação, Boris Johnson e Trump, países onde o apoio directo ao emprego e às empresas representa respectivamente 3,7% e 6,7% do PIB (na UE, 0,3%).

É repugnante ver esses mesmos celebrar o crescimento, enquanto Portugal caminha a passo firme e socialista para país mais pobre da Europa.

É repugnante ouvir os travestis de jornalistas que choravam o desemprego não terem nem uma palavra, nem um comentário, nem uma notícia para o facto de o lay off «simplificado» (palavra!) só produzir efeitos em finais de Abril.

É repugnante ver directores de informação (de desinformação, na verdade) censurar peças, opiniões e programas a pretexto de unidade, mas na realidade por cumplicidade, cobardia e demissão.

É repugnante ver as suas estações de televisão tomarem ares doutorais e condenatórios de quem tem que sair à rua, do mesmo passo que promovem campanhas irresponsáveis e obtusas segundo as quais «vai ficar tudo bem».

É repugnante ver eleitas a nobres actividades as acções «das autoridades» que prendem pessoas que queriam trabalhar. É repugnante a ausência «das autoridades» quando trabalhadores de lares de terceira idade vêm à janela gritar que os salvem da morte.

É repugnante ver celebrar a diminuição da dívida pública em percentagem do PIB, enquanto a dívida subia a novos recordes que deixaram o país mais vulnerável e impreparado perante crise biológicas ou económicas. É repugnante pensar que, depois da pandemia e da recessão trágicas que encontraram o país indefeso, nunca mais esta espécie de governo nem a espécie dos seus criados nos media voltarão a falar desse racio dívida/PIB.

É repugnante relembrar a trupe lamentável que fez da eutanásia uma prioridade, e a cantou, e a celebrou, e vê-la agora caladinha, a ver se ninguém repara que uma pandemia lhes vai oferecer abundância de «eutanásias-sem-querer».

É repugnante ver presidir a tudo isto quem optou pela quarentena sem boa razão para o fazer, e agora fala de unidade, e, em vez de temer a incompetência e o engano, anda preocupado com pesadelos radicais.

É repugnante prever que este governo incapaz e estes media sem brio nem vergonha dirão, no fim, que fizeram o seu melhor (o que, visto quem são, é verdade), que não era possível fazer mais (uma mentira ululante), e que foi tudo culpa -- as infecções, as mortes, a desorganização, as falências, o desemprego, a miséria -- de um evento extravagante .

 



14 comentários

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De Sínico a 30.03.2020 às 23:50

Uma lista de repugnâncias que é de tirar a respiração (e mude lá o "há conta", que na melhor nódoa cai o pano ).
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De José Mendonça da Cruz a 31.03.2020 às 14:02

Obrigado pela oportunidade da correcção, que me precipito a fazer, e pela excessiva bondade de considerar que isto aqui é do melhor pano.
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De José Mendonça da Cruz a 31.03.2020 às 14:03

...ou que esta nódoa é do melhor pano
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De Anónimo a 31.03.2020 às 11:23

Muito bom! 
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De Isabel a 31.03.2020 às 12:18

Parabéns. É a melhor descrição que eu já li sobre a situação política no país.
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De Sínico a 31.03.2020 às 13:09

Para que não restem dúvidas: a mais completa lista das "repugnâncias" que este regime suscita. E ainda haveria mais algumas para citar, como recentemente este caso do SEF. Fala-se tanto na DGS...
PS (honni soit...) - Rectificando o pedido de rectificação: o lapso gramatical está no segundo parágrafo, mas a qualidade do português não fica deslustrada "há conta" disso. Parabéns ao autor!
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De António a 31.03.2020 às 13:33

Bravo!
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De Anónimo a 31.03.2020 às 13:49

Continue a dar-lhes! No fim havemos de tirar o escalpe a esta gente
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De Anónimo a 31.03.2020 às 15:26

Isto é que é Serviço Público.
Bondade sua o eufemismo "travestis de jornalistas" :  são mesmo putas.
Cpmts.


JSP
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De Anónimo a 31.03.2020 às 15:31

'a ver a BUNDA passar cantando coisas de amor'
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De Anónimo a 31.03.2020 às 18:19

Faltou só a invisivel ministra da agricultura que afirmou ainda lucrariamos com a epidemia.
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De Anónimo a 31.03.2020 às 19:43


José Mendonça da Cruz,
um abraço pela trabalheira que teve aqui. Para mim, evidentemente que tem razão.
.....
Tendo vivido muitas décadas, tenho por razoável que 80% dos portugueses são estúpidos. Assim, por esta característica, estes 80% são também ignorantes. Não espantará que esta 'praga' atinja os professores (desde a primária à faculdade), os funcionários públicos e todas as organizações tidas como os pilares deste estado.
Sendo um país estúpido dele não poderá sair decisão assisada.
Cumprimenta,
ao

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