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República do nosso descontentamento

por João Távora, em 05.10.16

republica.jpg

Curioso que na data em que se celebra o aniversário do Tratado de Zamora assinado a 5 de Outubro de 1143 e no qual que se fundou a nossa nacionalidade o regime insista festejar a revolução com que se deu início ao período mais negro da história recente de Portugal, que não foi mais do que o da institucionalização do ódio e ressentimento social. Se é verdade que todas as Nações convivem com esta moléstia feita arma de arremesso politico que mina a convivialidade e a promoção de consensos - que são o motor do progresso e do bem estar; é para mim uma trágica constatação que as elites emergentes do final da monarquia constitucional tenham capitulado perante esse funesto modelo estético alicerçado no ressabiamento e no ódio de classes que nos vem condenando a este triste destino que é o de nos mantermos ingovernáveis na cauda do mundo civilizado a perorar contra inimigos externos e imaginários – à falta de melhor.

Há quanto a mim essencialmente duas formas de uma comunidade se afirmar: ou através duma cultura da promoção do sucesso, tendo-se como virtude o desejo de triunfar e de ser feliz, e uma outra que é o da instigação da inveja e do rancor, modelo que se instituiu entre nós definitivamente através do ideário populista triunfante do PRP de Afonso Costa. Foi essa lógica que prevaleceu no fim da Monarquia Constitucional sequestrada por uma pequena minoria radical, com regicídio em primeiro lugar e com a revolução do 5 de Outubro dois anos depois. Assim se deitou por terra um longo e atribulado período de aprendizagem democrática que foi a segunda metade do século XIX. 

Passados mais de cem anos constatamos com mágoa e angustia que de nada valeu o sangue derramado pelo Rei D. Carlos e pelo seu filho Luís Filipe, de nada valeram as revoluções, os golpes e brutalidades que se lhe seguiram, os despotismos, a repressão, os regimes mais ou menos ortopédicos e suas vítimas silenciadas. Acontece que um País não se resgata através da destruição dos seus símbolos e instituições, muito menos pela instigação ao ódio. Esse legado é execrável, e ainda hoje pesa nas nossas costas e reflecte-se na disputa política. Com as mesmas duvidosas intenções, brincamos com o fogo no tabuleiro do jogo do poder, é o que é. 

 

 

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2 comentários

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De jo a 05.10.2016 às 12:45

É duvidoso que a nacionalidade tenha nascido com o tratado de Zamora. As coisas são um pouco mais complicadas que isso. A data faz jeito mas é forçada.
A monarquia portuguesa, como todas as do seu tempo, não foi particularmente isenta de sangue. Desde o Marquês de Pombal às campanhas em África, passando pelas guerras liberais, não estamos a falar exatamente de gente que se recomende pela sua brandura. Na altura do regicídio o país estava a ser governado em ditadura.
Escolher um sistema em que o próximo governante máximo é sempre o filho do atual, por muito idiota que ele seja (e Portugal teve bastantes reis idiotas) não parece muito consensual. Já agora quais foram os resultados das eleições que instituíram a Monarquia? Parece que o consenso para um monárquico consiste em dizer: É assim porque eu quero.
A facto da República ter vingado apesar do pouco entusiamo popular é uma pista de como já toda a gente estava farta dos nossos reis.
"Há quanto a mim essencialmente duas formas de uma comunidade se afirmar: ou através duma cultura da promoção do sucesso, tendo-se como virtude o desejo de triunfar e de ser feliz, e uma outra que é o da instigação da inveja e do rancor". A Monarquia é a negação da promoção do sucesso. A menos que se considere que basta um sucesso - ter os pais certos - para se ser reconhecido. Claro que quando se está bem e alguém contesta diz-se sempre - tu tens é inveja - é o argumento de quem não tem mais nenhum.
"Passados mais de cem anos constatamos com mágoa e angustia que de nada valeu o sangue derramado pelo Rei D. Carlos e pelo seu filho Luís Filipe" . O assassínio como arma política é sempre condenável, mas não transforma glutões que dissipam parte do erário público (os adiantamentos), em caçadas e amantes em heróis ascetas.
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De José Domingos a 05.10.2016 às 17:42


Uma "revolução" que é imposta ao povo, que começa por um acto terrorista, normalmente acaba mal.
A continuidade monárquica, pelos vistos, não acabou.
Basta lembrar a câmara de Lisboa. Sai a. costinha entra por nomeção medina........

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