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Regras impossíveis de cumprir

por João Távora, em 15.09.20

crianças isoladas.jpg

Quis o destino eu ter nascido com um forte astigmatismo e um estrabismo associado, coisa que resultou numa visão muito deficiente pelo olho direito. Quando eu estava na primária, foi me proposto uma terapêutica oftalmológica muito avançada para a época em que, para lá das 3 consultas semanais em que me era ministrado um tratamento num cubículo escuro com uma máquina onde eu tinha de permanecer a olhar durante um tempo que me parecia uma eternidade, obrigavam-me a andar com uma pala a tapar-me o olho esquerdo, que via bem, para supostamente obrigar o direito a esforçar-se, e desse modo mitigar o estrabismo e recuperar alguma visão. Muito recomendado de casa e pelo médico, o sacrifício foi-me impingido com a promessa de que a cura dependia de mim, da minha força de vontade, de fazer tudo como me diziam, de não tirar a pala a não ser para ir para a cama. Foram tempos muito difíceis: eu que era um miúdo sociável, tive de enfrentar a crueldade infantil de alguns dos meus colegas que troçavam do meu novo aspecto. Mas curiosamente, o que mais me custava era o tratamento me deixar quase cego. Todos sabemos que não se devem criar regras impossíveis de fazer cumprir: como não via um boi com o raio da pala a tapar-me a vista boa, em pouco tempo arranjei um estratagema para dar a volta ao assunto - com um dedo, abria uma folga na pala junto ao nariz, de onde eu à socapa espreitava para ver o mundo fascinante que doutro modo se me escondia. Escusado será dizer que ao fim de um ano o médico e os meus pais desistiram dos seus intentos e eu voltei a ser uma criança feliz.

Vem esta história a propósito dumas imagens que vi inadvertidamente um dia destes num noticiário, sobre a abertura do ano escolar num estabelecimento de ensino na Madeira, com os miúdos no recreio todos disciplinadamente de máscara na cara a fazer pose para as câmaras de TV e para o presidente da Região Autónoma, que se congratulava com o facto de na sua Ilha todos cumprirem as normas que justificavam o baixo número de infecções. Como é óbvio, manter crianças de idade escolar a usar uma máscara todo o dia é um desígnio condenado ao fracasso (uma delas estava a queixar-se da acumulação de suor no interior da máscara). Acontece que as crianças são imprevisíveis e não são domesticáveis assim. Não é possível elas conviverem, correrem, brincarem e… relacionarem-se com o nariz e a boca tapados. Querem-nos fazer acreditar que o meu filho de 13 anos está o dia todo na escola de máscara? Claro que não. Descansem todos os pais, que os vossos filhos vão arranjar maneira de contornar a situação, e conspurcarem-se saudavelmente uns aos outros em nuvens de aerossóis, está na sua natureza. De resto, consola-me saber que os bárbaros dos suecos deixam as suas crianças em paz na escola sem máscaras, que reabriu há um mês sem que as infecções se tenham descontrolado. Os números estão todos aqui.

 

Imagem: sala de aula com distanciamento numa escola no Irão.



1 comentário

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De JPT a 15.09.2020 às 18:11

Hoje, no Guardian, sobre os suecos (ou seja, até ao fim-de-semana vai sair a versão traduzida no Público, DN e/ou Expresso): “While many European countries are seeing their infection rates surge to levels not seen since the peak of the Covid-19 pandemic, Sweden – whose light-touch approach has made it an international outlier – has recorded the fewest daily cases since the virus emerged. The Scandinavian country’s rolling seven-day average of new cases stood at 108 on Tuesday, its lowest level since 13 March. Data from the Swedish national health agency showed only 1.2% of its 120,000 tests last week came back positive. According to the European Centre for Disease Prevention and Control, Sweden’s 14-day cumulative total of new cases is 22.2 per 100,000 inhabitants, against 279 in Spain, 158.5 in France, 118 in the Czech Republic, 77 in Belgium and 59 in the UK, all of which imposed lockdowns this spring.  Sweden also has fewer new daily infections than Norway and Denmark, its Nordic neighbours. Thirteen Covid-19 patients are in intensive care in Swedish hospitals, and its seven-day average of coronavirus-related deaths is zero. “We don’t have the resurgence of the disease that many countries have,” Anders Tegnell, the country’s chief epidemiologist and architect of its no-lockdown strategy, told broadcaster France-24 in an interview, adding that the country was broadly happy with its overall strategy. “In the end, we will see how much difference it will make to have a strategy that’s more sustainable, that you can keep in place for a long time, instead of the strategy that means that you lock down, open up and lock down over and over again.”

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