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Reforçar o preconceito

por henrique pereira dos santos, em 05.04.20

Um estudo relâmpago de três economistas muito considerados tem servido a jornalistas, comentadores e opinião pública para garantir que a evidência da gripe espanhola de 1918 sugere (estes são os cautelosos) ou demonstra (estes são a generalidade) que quanto mais cedo e mais radicais forem as medidas de contenção da covid, melhor é, não só do ponto de vista da redução da mortalidade, como do ponto de vista económico, no longo prazo.

O artigo "Pandemics Depress the Economy, Public Health Interventions Do Not: Evidence from the 1918 Flu", apesar de toda a sua roupagem académica, cheia de fórmulas e quantidades enormes de dados, parece-me um mero panfleto político para reforçar a brigada do "fecha tudo, já", que nos EUA se mistura com a militância anti-Trump.

Não estou a dizer que os autores o vejam, ou o tenham feito assim, de maneira nenhuma, o que estou a dizer é que é o que me parece: todos nós sofremos deste humano viés que é querermos confimar as nossas crenças, parece-me, aliás, que essa é uma das vantagens dos sistemas abertos sobre os sistemas fechados, o facto de sujeitarmos os nossos vieses aos vieses dos outros.

Em primeiro lugar o estudo tem uma fragilidade monumental, enquanto base para a discussão das medidas de confinamento geral que têm sido tomadas recentemente, que consiste em misturar alhos com bugalhos (a elite académica mais viajada agora fala em misturar maçãs com laranjas) na definição do que são as tais "medidas não farmacêuticas" de gestão das epidemias.

“NPIs implemented in 1918 resemble many of the policies used to reduce the spread of COVID-19, including school, theater, and church closures, public gathering and funeral bans, quarantine of suspected cases, and restricted business hours.”

Pois, mas não é nada disso que se discute e que foi aplicado a este epidemia, é o confinamento geral de populações saudáveis, é isso que está em causa e isso não se parece nada, mas mesmo nada, com as medidas tomadas em 1918, ou seja, qualquer conclusão a que se chegue, tem forçosamente, um interesse limitado para a discussão do que se está a passar hoje.

Os autores, aliás, reforçam essa confusão ao afirmarem “Anecdotal evidence suggests that our results have parallels in the COVID-19 outbreak. Countries that implemented early NPIs such as Taiwan and Singapore have not only limited infection growth.”, escolhendo dois países que não fizeram confinamentos gerais, bem pelo contrário, nem sequer adoptaram muitas das medidas descritas acima como NPIs.

Mas como a reputação deve ser protegida, os autores acabam com este parágrafo notável, que na verdade diz aquilo que eu ia pensando à medida que lia o estudo: isto não serve para nada do que temos de discutir agora:

"Finally, when interpreting our findings, there several important caveats to keep in mind. First, our analysis is limited to data on 30 states and 43 to 66 cities. Second, data on manufacturing activity is not available in all years, so we cannot carefully examine pre-trends between 1914 and 1919 for the manufacturing activity outcomes. Third, the economic environment toward the end of 1918 was unusual due to the end of WWI. Fourth, while there are important economic lessons from the 1918 Flu for today’s COVID- 19 pandemic, we stress the limits of external validity. Estimates suggest that 1918 Flu was more deadly than COVID-19, especially for prime-age workers, which also suggests more severe economic impacts of the 1918 Flu. The complex nature of modern global supply chains, the larger role of services, and improvements in communication technology are mechanisms we cannot capture in our analysis, but these are important factors for understanding the macroeconomic effects of COVID-19."

Em lado nenhum os autores dizem de forma explícita (dizem para quem souber ler "Estimates suggest that 1918 Flu was more deadly than COVID-19, especially for prime-age workers, which also suggests more severe economic impacts of the 1918 Flu.), mas digo eu.

Avaliar os impactos económicos de uma epidemia em que dois terços da mortalidade é em idades acima dos 75 anos, e em que metade a dois terços da mortalidade é sobre pessoas com altíssima probabilidade de morrer até ao fim do ano, dada a sua idade e frágil condição de saúde, a partir dos efeitos de outra doença cuja mortalidade é maior nos dois extremos etários e, ainda por cima, tem a especificade de ter uma elevada mortalidade em jovens adultos saudáveis entre os 18 e os 44 anos, não é má ciência, é fraude.



2 comentários

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De Anónimo a 05.04.2020 às 17:44

continua-se como no Lazareto do séc xix
a vantagem e na amplitude
barda merda
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De Luís Lavoura a 05.04.2020 às 18:24

Exatamente. Muito bem.
Não se pode comparar a gripe de 1918, que matou sobremaneira pessoas jovens e em idade de trabalhar (e inovar), com a atual epidemia, que mata sobremaneira pessoas adultas e já fora do mercado de trabalho.
Enquanto que conter a gripe de 1918 tem um efeito económico positivo, porque preserva a mão-de-obra do país, conter a atual epidemia tem um efeito económico negativo, na medida em que as pessoas cuja morte é evitada nenhuma (ou pouca) utilidade económica têm.

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