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Recordar Eça

por Daniel Santos Sousa, em 16.08.23

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Na efeméride de hoje assinala-se a morte de Eça de Queirós. Mais do que o analista da sociedade foi o cultor primoroso do verbo, o perfeccionista da palavra, o esteta da língua. Eça esteve para Portugal como Flaubert esteve para a França. Mais do que um Zola, que ambicionou ser, todavia, não alcançando a monumentalidade: enquanto o autor da coletânea genealógica dos “Rougon-Macquart” escrevia de rajada e acumulava lombadas na ânsia de perscrutar ao ínfimo detalhe a psicologia e natureza da sociedade burguesa, como outrora Balzac também o fizera; Eça, por sua vez, trabalhava como um pintor no seu estúdio a analisar as cores, as formulações, os traços e medidas necessários para que a obra alcançasse a pureza e a sublimidade, mesmo sabendo que a perfeição é inalcançável para os comuns mortais.

Independentemente daquele primeiro Eça, absorto no positivismo, o relativista que tudo descredibilizou, há um outro Eça consagrado e realizado que novamente encontrou um sentido à sua escrita. E não tivesse morrido naquele ano (com 54 anos), tivesse assistido à pérfida transformação que se seguiria, talvez, como Ramalho em "Carta de um Velho a um Novo", tivesse finalmente consumado a transição para um patriotismo sereno, lúcido e congruente e que, na realização dos princípios, novamente reencontrasse o fio condutor do destino português.

Contrariamente ao Eça que abjurou a religião em "O Crime do Padre Amaro" e delapidou a sociedade romântica e burguesa penetrando nos vícios venéreos e psicoses, "O Primo Basílio" e "Os Maias", outro Eça emergiu. O patriota que procurou reencontrar o destino e fim do espírito português ("A Ilustre Casa de Ramires") e, ao cosmopolita internacional, que tudo vilipendiava, agora o homem reconciliado com a terra e com a província ("A Cidade e as Serras"), que nem deixou de escrever um livro sobre a vida dos Santos, sepultando um jacobino anacrónico que anunciava já a morte das certezas absolutas do cientismo de oitocentos.

Era também a evolução de uma geração. Uma evolução não apenas constatada na geração "velha", mas vivificada também na geração "nova", que cresceu entre o ultimatum e a República. Esses que seriam os "Filhos de Ramires" sentiriam no seu âmago uma igual transição - nasceu ali o Integralismo Lusitano.

Mas de resto, Eça não deixou de ser um filho do seu tempo, para o qual emprestou talento e audácia. Foi um revolucionário na arte ao mesmo tempo que conseguiu ser um esteta primoroso. Um grande artista não é aquele que petrifica no seu tempo, mas sim aquele que consegue alcançar uma elevação completa do esprito e ultrapassar a modorra da mortalidade. Assim foi Eça.


6 comentários

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De GG a 16.08.2023 às 16:59

Li e reli apenas os livros. Desconheço a biografia.
Recordo com prazer os momentos de leitura e principalmente a sua contemporaneidade após um século.
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De Anónimo a 16.08.2023 às 20:04

... que nem deixou de escrever um livro sobre a vida dos Santos.

Vidas de Santos era o que ele estava a escrever (com a Cidade a as Serras) quando faleceu. O texto sobre São Cristóvão é uma das pérolas da prosa portuguesa de oitocentos (pós-Camilo).
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De pitosga a 17.08.2023 às 12:39


Daniel Santos Sousa,
Como se começa a ver, continue no bom caminho, na boa luta.
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De Ricardo A a 18.08.2023 às 18:28

Mas o que a Cidade mais deteriora no homem é a Inteligência, porque ou lha arregimenta dentro da banalidade ou lha empurra para a extravagância. Nesta densa e pairante camada de Ideias e Fórmulas que constitui a atmosfera mental das Cidades, o homem que a respira, nela envolto, só pensa todos os pensamentos já pensados, só exprime todas as expressões já exprimidas — ou então, para se destacar na pardacenta e chata rotina e trepar ao frágil andaime da gloríola, inventa num gemente esforço, inchando o crânio, uma novidade disforme que espante e que detenha a multidão como um mostrengo numa feira. Todos, intelectualmente, são carneiros, trilhando o mesmo trilho, balando o mesmo balido, com o focinho pendido para a poeira onde pisam, em fila, as pegadas pisadas; — e alguns são macacos, saltando no topo de mastros vistosos, com esgares e cabriolas. Assim, meu Jacinto, na Cidade, nesta criação tão antinatural onde o solo é de pau e feltro e alcatrão, e o carvão tapa o céu, e a gente vive acamada nos prédios como o paninho nas lojas, e a claridade vem pelos canos, e as mentiras se murmuram através de arames — o homem aparece como uma criatura anti-humana, sem beleza, sem força, sem liberdade, sem riso, sem sentimento, e trazendo em si um espírito que é passivo como um escravo ou impudente como um histrião... E aqui tem o belo Jacinto o que é a bela Cidade! 

--- A Paris do último terço do século XIX conforme vista por Eça de Queirós em "As Cidades e a Serra" .

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De Albino Manuel a 20.08.2023 às 13:21

Diziam o mesmo nos anos trinta do século passado. Entretanto o tempo passou e Eça é o que é, um chic de periferia. Não conta na história da literatura europeia.

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