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Reality Show Espírito Santo

por Maria Teixeira Alves, em 15.12.14

Confesso que não consigo ver na Comissão Parlamentar de Inquérito outra coisa se não um reality show. Não sei se faz muito sentido estas comissões serem transmitidas em directo. Qual é a utilidade disto? Será que fazem sentido estas comissões?

Ricardo Salgado, arguido, explica-se ao público e aos jornalistas e tenta criar uma onda de indignação política e pública contra o Governador Carlos Costa, e indirectamente contra a Ministra das Finanças e contra o Primeiro Ministro.  

Carlos Costa, que o está a investigar, viu-se obrigado a escrever uma carta para desmentir Ricardo Salgado. O banqueiro reage com carta reafirmando o que disse. Esta troca de encíclicas é um paradigma do estado de reality show a que o assunto chegou.

José Maria Ricciardi foi atirar uma pedrada ao charco, foi desmentir Ricardo Salgado, foi acusar a família de não o ter apoiado a tirar Ricardo Salgado da chefia do BES, foi desabafar com sinceridade sobre a sua mágoa e foi-se defender da acusação de traidor (limitou-se a cumprir o dever de diligência) e foi-se defender da suspeita da solidariedade enquanto administrador. 

Amílcar Morais Pires foi ajustar contas (a meu ver foi a pior prestação, mostrou facetas menos boas). Veio dizer que Ricardo Salgado diz que não mandava mas mandava. José Maria Ricciardi era do risco e tem culpa. Joaquim Goes era responsável do risco e também assinou as emissões de obrigações (a partir do BES Londres) que descapitalizaram o banco. Parecia estar sempre a dizer olhem para aqueles e não para mim que subi a pulso no banco. O CFO que queria ser o sucessor de Ricardo Salgado (apesar da "tempestade perfeita" que se aproximava) vem agora dizer que era praticamente um mero gestor da carteira de dívida soberana. Isabel Almeida, sua subordinada directa, era afinal autónoma e até reportava a Ricardo Salgado muitas vezes e até a venda do papel comercial das empresas falidas do GES aos clientes do BES era afinal culpa dos gestores dos balcões. Depois tentou rebater os deputados com a soberba do conhecimento técnico. Sabendo que os deputados não são especialistas tentou ridicularizá-los como estratégia de defesa. Lamentável.

Pedro Queiroz Pereira teve muita graça. Aproveitou a arena para revelar o que pensa de Ricardo Salgado, para explicar o quão mais esperto que o banqueiro é. Disse que avisou José Maria Ricciardi da situação dramática (ainda sem saber  o passivo escondido) que ameaçava o BES. Foi brilhante na maneira como se demarcou daquele mundo da política, e até se fez de desentendido (é tão bom passar por parvo sem ser) quando ouviu o deputado do PCP no seu melhor estilo de camarada chamar Fernando Ulrix ao Fernando Ulrich. 

Fez a piada do dia quando desmascarou as boas intenções de Ricardo Salgado quando comprou as participações da irmãs do industrial na Semapa. Ajudar as minhas irmãs? As irmãs dele ficam à noite a fazer bolos para restaurantes e ele não se preocupa com isso

Não faltou quem fizesse logo a graça de dizer que é Pêquêpê quem come os bolos todos das irmãs Salgado. 

Agora vem aí Manuel Fernando e José Manel Espírito Santo, depois Álvaro Sobrinho (que irá explicar onde pára o dinheiro do BESA, se tiver liberdade, autonomia e coragem para isso) e ainda vamos ter o contabilista Francisco Machado da Cruz que deverá dizer como é que conseguiu esconder aquelas dívidas todas.

Pelo meio surgem os deputados, verdadeiros gladiadores, autênticas estrelas deste show. As perguntas são pertinentes. O confronto é espectacular. Isto tem todos os ingredientes de um espectáculo.

É um verdadeiro circo romano esta comissão de inquérito. Um autêntico reality show. Imperdível porque tem o glamour da história de uma família de banqueiros que remonta ao século XIX. Melhor que Downton Abbey.

 

 


3 comentários

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De António Maria a 15.12.2014 às 08:47

É uma remake do "brincar aos pobrezinhos" na Comporta.
Os ricos(?) e poderosos sujeitam-se ao "vexame" de ser inquiridos pela ralé plebeia. Ao fim de 4  ou mais horas, volta tudo ao mesmo.
É giro e dá audiências.
O prejudicado é o Sócrates porque se deixa de falar tanto nele.
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De Zé Pagante a 15.12.2014 às 12:33

LOL
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De ze luis a 15.12.2014 às 19:08

Se não fosse a comissão não saberíamos nada. Aparato à parte, mais circo ou menos pão, pão, queijo, queijo, este é um momento histórico, não histérico. E com os chico-espertos - para além dos figurões chamados à liça directamente - a falarem por fora como o inefável Martelo, eis que outras verdades se descobrem e não sabíamos.


Nem acho que seja lavar roupa suja, excepto um pormenor de mais bolo ou menos farinha.


Até já sabemos, em cadeia de acontecimentos e esclarecimentos, que isto já vem desde 2000 ou 2001. E havendo quem está do lado inquisitório, com respeito, como os deputados, mas com intenções malévolas a jusante, como de culpar os poderes do momento, sabemos que de novo coisas socialistas como encobrimento de sobrinhos, afilhados e padrinhos estão a atapetar a entrada na grande sala do conhecimento.
Em vez do Carlos Costa já temos o Constâncio à baila outra vez. O dio da meada é que é longo, mas largos dias têm cem anos.
Há que aproveitar.
Não temos disto todos os dias e isto é histórico, nada igual no passado.

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