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Raios partam o jornalismo

por henrique pereira dos santos, em 29.01.21

"Os modelos de Carlos Antunes, um dos especialistas que tem apresentado as suas projeções nas reuniões no Infarmed com o Governo, vão no mesmo sentido: “Os indí­cios do efeito do confinamento são muito subtis, dado o curto perío­do desde o fecho das escolas, mas verifica-se uma desaceleração da incidência global. O pico está a ficar cada vez mais definido e é apontado algures entre 5 e 9 de fevereiro, com uma incidência que poderá si­tuar-se entre os 17 e os 18 mil casos diários.”"

Já escrevi que gosto de Carlos Antunes, da sua cordialidade e disponibilidade, só acho é que tem uma leitura profundamente errada desta epidemia, de como se desenvolve e de quais são as "forças modeladoras" que a estão a influenciar primordialmente (eu acho, é um achismo, não estou a dizer que sei mais que Carlos Antunes ou Manuel Carmo Gomes, acho, explico porque acho, desenho hipóteses, avalio-as contra a realidade e mudo de opinião se verificar que os dados invalidam as hipóteses de que parti).

E não me irrita nada que Carlos Antunes vá fazendo previsões sucessivas, adaptando-as em função da informação que vai havendo, é o normal para um investigador.

O que me irrita é a forma como  os jornalistas tratam estas previsões que, é bom lembrar, influenciam fortemente políticas públicas que condicionam pesadamente a vida de milhares de pessoas.

Não entendo, mas não entendo mesmo, o mecanismo mental que fez tantos jornalistas abandonarem a essência da sua actividade, que, entre outras coisas, consiste em questionar todo o discurso com base em factos verificáveis, para aceitar o papel de porta-voz do discurso do bem e das boas causas, independentemente dos factos.

Vejamos esta declaração de Carlos Antunes.

“Os indí­cios do efeito do confinamento são muito subtis, dado o curto perío­do desde o fecho das escolas"

Ao jornalista cabe perguntar o que quer dizer Carlos Antunes com esta frase. As escolas fecharam a 22 de Janeiro, os seus efeitos só podem fazer-se sentir-se nos dados a partir de cinco dias depois, logo, a 27, os dados que existem hoje, a esta hora, são os dados que dizem respeito a 27 (e dias anteriores, mas vamos esquecer isso) e portanto não se trata de efeitos mais subtis ou menos subtis, trata-se de uma impossibilidade, os efeitos do confinamento não existem ainda nos dados existentes.

"verifica-se uma desaceleração da incidência global"

Ao jornalista cabe fazer notar que se se verifica uma desaceleração da incidência global, nesta altura, isso não se deve a confinamento nenhum, nenhum de nós sabe a que se deve, o que o jornalista deveria fazer é confrontar Carlos Antunes com a impossibilidade de ligar esta desaceleração com o confinamento, em vez de meramente reproduzir um discurso contrariado por factos conhecidos.

"O pico está a ficar cada vez mais definido e é apontado algures entre 5 e 9 de fevereiro, com uma incidência que poderá si­tuar-se entre os 17 e os 18 mil casos diários.”

Ao jornalista caberia perguntar por que razão agora se faz essa previsão de casos diários (já agora, em valores pontuais ou médias a sete dias? Tenho a certeza de que Carlos Antunes fala de médias a sete dias mas a generalidade dos leitores vão pensar que está a falar de valores diários (para se perceber a importância da clareza neste ponto, ontem houve 16 432 casos mas a média a sete dias é cerca de 3 500 casos a menos, é de 12 890 casos)) quando há quinze dias, sem confinamento, a previsão apontaria muito para cima dos 40 mil casos, o que se alterou em quinze dias para reduzir a previsão para menos de metade, se os efeitos do confinamento são reconhecidamente subtis?

"Em termos médios, no final de janeiro, o matemático prevê que se chegue às 16.400 novas infeções diárias, mais de 7 mil internamentos, 860 dos quais cuidados intensivos, e um número de 300 óbitos diários."

O fim de Janeiro é daqui a três dias. Ou seja, Carlos Antunes está a dizer que dentro de três dias (quatro, considerando que os dados que vou citar são de ontem), em termos médios, o número de casos vai aumentar de 12 890 para 16 400, isto é, que nestes quatro dias a média de sete dias vai aumentar 877 casos por dia quando nos últimos quinze dias não houve um único dia com esse valor de aumento diário e a média diária de aumento desses quinze dias é de 283 casos, que nos próximos quatro dias os internamentos vão aumentar 108 internados por dia, o que é razoável para o histórico (eu tenho dúvidas de que seja assim, mas nada a dizer sobre esta previsão, que é perfeitamente razoável), e que os cuidados intensivos vão aumentar 20 internados por dia, o que me parece uma previsão razoável, embora ousada (estou convencido, e espero, que não se vá verificar esta previsão, mas não a posso contestar com nada muito objectivo, é apenas a minha visão do que se está a passar, a que falta tempo para poder ser validada ou abandonada).

Nada disto perturba jornalistas, ouvem estas previsões, não as avaliam de forma independente (quando existem previsões de várias fontes limitam-se a reproduzir as diferentes previsões, sem discutir as diferenças entre os diferentes grupos de modeladores e as respectivas fundamentações), não as confrontam posteriormente com a realidade, não as escrutinam duramente, como era sua obrigação e, com isso, abrem caminho a que uma opinião pública assustada dê o apoio a medidas maximalistas de controlo da epidemia, que visam evitar um cenário que só existe em previsões fantasistas (nem o facto das previsões mais conhecidas terem errado por um factor de dez, isto é, houve dez vezes menos mortes que as previstas, mesmo em regiões onde não foram adoptadas as medidas que os modeladores juravam que eram a única forma de diminuir esse número de mortos, nem assim o jornalismo deixa de contribuir para a confusão entre previsões razoáveis com graus de incerteza acentuados e profecias que nos apontam caminhos para a redenção).

Raios partam o jornalismo que nos calhou em sorte no meio de uma coisa tão disruptiva como uma epidemia.



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