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A.S. Embora os negros da África Ocidental sub-saariana sejam dos mais negros dos negros, os fulas que têm o seu epicentro nessa zona, serão conhecidos exactamente pelo inverso. Não sei, fizeram-me este reparo e não vou estar a perder tempo com este pormenor, que é irrelevante
"os herdeiros dessa história têm a responsabilidade colectiva - e não a culpa - de dar os passos possíveis e necessários para reparar o passado.
...
Embora os portugueses brancos tenham de admitir que usufruíram (e usufruem) de toda uma estrutura que tem origem, em parte, nas receitas coloniais e que se deixaram levar, vezes de mais, pela ideia de superioridade civilizacional e étnico-racial, não foi o "português comum" quem beneficiou a escravatura e do colonialismo".
Cristina Roldão, na sua crónica habitual do Público.
Comecemos pelo, aparentemente, mais simples: o que é um português branco e por que razão deve ser distinguido de um português não branco?
Usemos os meus netos para tentar perceber de que fala Cristina Roldão.
Aparentemente são todos brancos, portanto, têm de admitir que usufruem de toda uma estrutura que tem origem parcial nas receitas coloniais e que se deixaram levar pela ideia de superioridade civilizacional e étnico-racial.
Vamos esquecer que a mais velha acho que tem oito anos (e lá onde vive acho que nem é classificada como branca mas como hispânica) e vai daí para baixo até às poucas semanas da mais nova, mas Cristina Roldão, ainda assim, acha que têm de assumir isso tudo e se deixaram levar por uma ideia qualquer porque existe uma responsabilidade - não é culpa - colectiva que decorre da cor da sua pele.
Essa responsabilidade e o resto virá da sua história, de que falo agora.
Andando para cima das gerações, aparentemente a geração dos meus filhos, genros e noras são também todos brancos, portanto, responsabilizáveis.
O problema começa a fazer-se notar quando chegamos à geração dos avós dos meus netos, que é a minha: aparece uma avó mulata, bastante clara, talvez seja preciso olhar com atenção, mas inequivocamente mulata (não sei se Cristina Roldão, seguindo o exemplo dos antropólogos da segunda metade do século XIX e primeira do século XX, quer andar a medir outras características fenológicas, como a grossura dos lábios ou o encrespamento do cabelo, ou se prefere ficar-se pela cor de pele para atribuir responsabilidades diferenciadas a pessoas).
E continuando a andar para trás nas gerações, naturalmente vai-se encontrar gente com cada vez mais melanina, até entroncar nalguma bisavó fula, dos mais negros dos negros.
Portanto, a tese de Cristina Roldão tem um problema prático: como se define a responsabilidade desses meus três netos em relação aos meus netos restantes?
Até aqui, nada de especial, é uma conversa que foi frequente ali pelo século XIX e princípios do século XX, com os resultados conhecidos, e que levou a um imenso esforço de catalogação de grupos sociais em função de características fenotípicas.
Francamente, talvez também por desde há anos ouvir o meu cunhado João Zilhão a argumentar a favor da tese, antes maldita e hoje dominante, da miscigenação entre neandertais e homens modernos, dizendo que grande parte das distinções que existiam na catalogação de espécies de hominídeos se baseava em poucos exemplos de diferenças fenotípicas que cabem dentro da natural variabilidade da espécie actual, estou-me completamente nas tintas para a dificuldade prática de distinguir entre o que é um branco e um não branco (para uma visão mais completa da demonstração da idiotice que é esse esforço, é ler "Portugal na idade do gelo, território e habitantes").
O que não deixo de assinalar é o evidente racismo de se pretender atribuir responsabilidades colectivas em função da cor da pele, como faz Cristina Roldão.
Quer isso dizer que Cristina Roldão é racista?
Em rigor, não, quer apenas dizer que faz afirmações inequivocamente racistas, mas isso não decorre, forçosamente, de um sentimento racista, mas de uma necessidade absoluta de torcer o que for preciso para contrabandear a ideia de que a discussão da história do colonialismo é um instrumento essencial da luta anti-racista, e não apenas aquilo que é: a discussão da história do colonialismo.
O racismo combate-se hoje, com os factos de hoje, com a realidade (e a responsabilidade) das pessoas de hoje, misturar isso com a história do colonialismo só tem um resultado prático: a luta pela transformação da história num panfleto político.
Não, não é aceitável que se distribuam responsabilidades colectivas e direitos de reparação de vítimas em função da cor da pele, com base em deturpações da história, isso sim, é promover o racismo.
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