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Quero a minha liberdade de volta

por Corta-fitas, em 16.04.20

A pandemia provocou o maior fenómeno de histeria de massas de que me lembro. Alguém gritou “a saúde em primeiro lugar”.  E assim foi.  Num movimento sincronizado a nível mundial. Os Chineses confinaram, os outros imitaram. As democracias quiseram provar ser tão eficazes (duras) como as autocracias. O novo slogan, “derrotar o coronavírus, custe o que custar”, foi pacificamente aceite, legitimando todas as consequências das quarentenas forçadas.

Não há dúvidas que o maremoto que nos trouxe ao ponto em que estamos, correspondeu à vontade da grande maioria da população. Eu incluído. A vertigem do medo autorizou-nos permitir e fomentar o absolutismo e a aceitar graves violações às liberdades e direitos individuais.

Na discussão do essencial, o isolamento,  as respostas não alinhadas são ignoradas ou desacreditadas, lembrando o Estalinismo nos seus melhores dias. A Suécia é histericamente atacada por não seguir o isolamento, apesar de resultados sanitários normais, apresentando custos económicos, sociais e políticos muito inferiores aos impostos pela globalidade dos outros países. O comprovado sucesso de alguns países Asiáticos (Coreia do Sul, Singapura e Taiwan) é considerado inimitável no Ocidente e por isso liminarmente ignorado.

É imposta a primeira verdade inquestionável,  a partir da qual tudo se desenrola sem reflexão adicional: “não há vida fora do isolamento social”. Esta certeza é acompanhada de uma ignorância espantosa, em relação a aspectos vitais e básicos, para legitimar qualquer decisão informada. Ainda não sabemos a verdadeira taxa de mortalidade, o número real de infectados, a estimativa das consequências sanitárias das políticas de isolamento (piores condições de vida, fome, subnutrição ou aumento de distúrbios psiquiátricos). Desconhecemos os verdadeiros custos económicos da estratégia seguida, quando (e se) teremos vacina ou tratamento. Não sabemos se, ao fim de 8 semanas, a severidade da infecção não desaparece simplesmente, com ou sem confinamento, como os dados existentes parecem indicar, se o calor diminui o surto ou se vamos ter réplicas ou não. Os pressupostos que justificam o dogma hoje instituído são frágeis, pelo que é no fundamentalismo, na recusa em discutir ou admitir diferentes realidades e dados, que nos refugiamos, concentrando todas as nossas energias na acção preconizada: isolar, isolar, isolar!

Apesar de fortes duvidas sobre a pertinência sanitária das medidas que se impuseram como verdades indiscutíveis, não é esse o meu tópico de hoje.

A minha intenção é partilhar a minha angustia pela facilidade com que aceitamos o fundamentalismo e, com base neste, nos deixamos embalar na aceitação do absolutismo.

Os Estados de Emergência são um dos novos normais na Europa. E quando acabarem, tudo indica, serão substituídos por outros estados de excepção que limitam a liberdade dos cidadãos, até á erradicação definitiva do vírus. Há apenas uma verdade absoluta: o combate ao coronavírus parece  justificar tudo.  Até limitações severas às liberdades do cidadão e á suspensão dos seus direitos básicos.

Acredito firmemente que o confinamento é um bloqueio eficaz á contaminação. Sem contactos com contaminadores parece difícil existir Infecção. 

Acredito, também, que as pessoas são (ou deviam ser) livres de decidir se pretendem aceitar o confinamento ou, pelo contrario, decidem prosseguir com a sua vida. Há vários argumentos racionais para justificar uma escolha deste tipo. Mas a única  justificação necessária é o direito de cada individuo decidir livremente o que quer fazer, desde que não prejudique gravemente terceiros. A critica fácil ao argumento apresentado é a de enfatizar o prejuízo para terceiros do não confinamento. Mas os confinados não precisam de se encontrar com os não confinados,  pelo que não podem ser infectados por eles. Onde está então o prejuízo?  Porque é maior o direito de quem quer ficar confinado do que o direito de quem não pretende abdicar da sua liberdade de movimentos e de acção? Os direitos das populações são suspensos por técnicos não eleitos ou políticos que não foram eleitos na expectativa de tolherem injustificadamente as liberdades dos cidadãos?

Dirão os partidários do confinamento que os libertários irão sobrecarregar o sistema nacional de saúde e implicar um custo de tratamento superior. Se fosse esse argumento castrador, a sociedade, no limite,  poderia advertir e isentar de tratamento medico os revoltosos. Como se pode defender a eutanásia e não permitir a liberdade a cidadãos que, apenas de forma residual, pode redundar na sua morte, depois da aceitação dos riscos?

Quando aceitamos limitações da nossa liberdade, não podemos pretender ser justo e necessário, que essas limitações atinjam outros. Já para não lembrar que,  depois de limitar uma liberdade, não seja outra qualquer, de forma também muito justificada,  a cair. Piano Piano  se va lontano. Que o digam os Húngaros e os Polacos.

O que é mais perigoso, a pandemia ou  limitações questionáveis à liberdade dos cidadãos? Eu não tenho dúvidas: quero a minha liberdade de volta.

José Miguel Roque Martins
Convidado Especial*

* As opiniões manifestadas nos textos de convidados com a assinatura "Corta-fitas" só comprometem os seus autores.



22 comentários

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De zazie a 16.04.2020 às 14:34

https://www.youtube.com/watch?v=BDQJw5FqgY4&feature=youtu.be&fbclid=IwAR376ZInfsFq4UDBJp1j0UyK8-gDJQM9jn-1oCZYjfBuVuX_hlhA596l8QU
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De joae miguel a 16.04.2020 às 20:07

adorei! muito obrigado 
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De zazie a 17.04.2020 às 08:15

Não sei o que adorou, porque isto não se dedica a idolatrias.
É para ler o contraditório e comentários no blogue. 
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De Anónimo a 16.04.2020 às 16:21

Caro Senhor


Se em 1940 a maioria da população do Reino Unido fosse ouvida, teria feito um armísticio com a Alemanha nazi, " à la Chamberlain " , de 2 anos antes.
O que distingue um líder, com visão e coragem, é a sua capacidade de ir contra a opinião da maioria de forma a atingir os objectivos que se propõe: infelizmente não é com o manhoso do Martim Moniz, nem com o papagaio de Belém, que teremos algo que se assemelhe a uma liderança.


Cumprimentos


Vasco Silveira


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De Anónimo a 16.04.2020 às 16:59

Vale a pena ver este video com quase uma hora de duração. É com André Dias, PhD.,  Doutorado em Modelação de Doenças Pulmonare
No blog  "portadaloja"
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De joae miguel a 16.04.2020 às 19:03

obrigado!
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De joae miguel a 16.04.2020 às 20:08

acabei de ver: adorei!
muito obrigado
zé miguel 
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De EMS a 16.04.2020 às 18:31

"Como se pode defender a eutanásia e não permitir a liberdade a cidadãos que, apenas de forma residual, pode redundar na sua morte, depois da aceitação dos riscos?"
Isso é um respectiva um pouco egoísta, para não usar palavras mais assertivas. 
O senhor bem pode achar que a sua liberdade vale o risco de morte mas não lhe ocorreu consultar as pessoas que eventualmente poderá contagiar se elas estão dispostas a correr o risco de morrer pela sua liberdade.
Já a meterem a eutanásia ao barulho é extremamente ridículo. Parte-se do principio que na eutanásia consultam-se as pessoas sobre o seu interesse e o desejo de morrer. O que não seria o caso de um contagio completamente aleatório por alguém que decidiu que o seu direito á liberdade é mais importante que a vida dos outros.
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De joae miguel a 16.04.2020 às 19:03

como referi, quem prefere resguardar-se continua a faze-lo: se o senhor estiver confinado, como posso eu contamina-lo? 
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De Maria Almeida a 16.04.2020 às 19:45

Afinal estamos a brincar?
Qualquer confinado precisa de sair à rua, no limite, que alguém saia por ele para fornecimento de bens essenciais, ora o próprio ou outro vão necessariamente desconfinar e cruzar-se com outros desconfinados. Quantos menos andarem por ai (aqui bate o ponto, minimizar) menor o risco de contaminação. Os confinados também adoecem sem ser por covid e se nos Hospitais não houver condições para tratá-lo por causa de outros libertários destemidos, a coisa piora. Nem contesto outros argumentos mas este não colhe minimamente, é só estúpido.
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De zazie a 16.04.2020 às 21:40

Até dizer chega...
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De joae miguel a 16.04.2020 às 22:13

Cara Maria 
Há imensas formas de resolver o problema
Entre outras, supermercados que aceitam confinados ou não confinados. 
Mas o ponto é exactamente esse: a sua segurança não pode ser um valor absoluto superior a tudo o mais. Quando guia o seu automóvel poe em risco a vida de todos os que estão na estrada. Mas o risco é baixo e por isso, apesar de mortes acidentais, o uso de automóveis é idêntico. 
A Questão é que esta pandemia, apesar de efeitos clínicos pouco simpáticos, apresenta taxas de mortalidade muito semelhantes a uma gripe. Que não suscita o nível de pânico e medo que o corononavirus suscita. 
Essa é a minha tese. 
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De Anónimo a 17.04.2020 às 06:30

 Soma-se que a liberdade perdida sempre pode ser reconquistada e já o mesmo não se pode dizer da vida.
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De Aurélio Buarcos a 16.04.2020 às 21:11

Sr. José Miguel,
Nem todas as pessoas que gostariam de estar confinadas o estão.
Não pode contaminar os confinados mas pode contaminar os condenados, os condenados a trabalhar.
Por exemplo se for para uma Sauna Gay e contaminar o pessoal que está lá não se perde nada estão lá de livre vontade. Num Supermercado, numa Loja de Ferragens, num Banco, numa Farmácia, etc as pessoas não estão lá de livre vontade, estão lá obrigadas (e não é no sentido de agradecidas).
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De Maria Almeida a 16.04.2020 às 21:47

Ora aqui tem um comentário bastante em linha com o tal argumento que contrario...
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De joae miguel a 16.04.2020 às 22:16



Há imensas formas de resolver o problema. Em primeiro ligar as medidas de afastamento fisico que impede a infecção ( e que são diferentes de isolamento) ou a utilização de equipamento de protecção. 
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De simplesmente... a 17.04.2020 às 09:11

Eis um texto bem polémico. Preso por ter cão e preso por não o ter. Liberdade sem responsabilidade? Liberdade ou libertinagem? Onde começa e onde acaba a "minha" liberdade? Posso, em nome da "minha" liberdade, infectar quem quer que encontre no meu caminho, jovem, idoso, homem ou mulher? Por isso, do mal o menos: confinamento para todos! Até ver, claro. Bom fim de semana.
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De joae miguel a 17.04.2020 às 09:39

Só para esclarecer, não concordo que infectados conhecedores do seu estado andem alegremente a infectar. 
Mas gostava de lhe fazer uma pergunta: no proximo inverno, acha que devemos voltar ao confinamento quando a gripo normal aparecer? 
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De Janarlg a 17.04.2020 às 17:06

concordo perfeitamente! 
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De Janarlg a 17.04.2020 às 17:08

concordo perfeitamente com o senhor simplesmente avô
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De Anónimo a 17.04.2020 às 09:26

Chegaram a morrer mais de 2000 pessoas por ano nas estradas portuguesas e nunca foram fechadas. 
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De José Manuel Novo a 17.04.2020 às 09:43

Clarinho como água limpa. Só não percebe quem não quer perceber ou mais precisamente quem tem aquela aborrecida mania de dizer aos outros o que devem fazer. Evidentemente que quem se sente ameaçado e quem corre efectivamente risco deve proteger-se (fique em casa, use máscara, use EPI, o que quiser, está no seu direito), e quem é saudável deve fazer a sua vida normal com os cuidados básicos que se aconselham (lavar as mãos e não tossir para cima de ninguém). A protecção das pessoas idosas e das que sofrem de doenças crónicas era no que se devia ter centrado este "combate". Não é possível continuar a sacrificar uma sociedade inteira quando está perfeitamente identificado no que se deve despender recursos e energias. Tudo o mais é medo e paranóia. 

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