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Que fazer?

por henrique pereira dos santos, em 10.07.20

A pergunta de Lenine continua muito útil.

Com a regularidade de um relógio suíço lá veio o aviso semanal do Secretário Geral da Organização Mundial de Saúde: "a pandemia "não está controlada na maior parte dos países, está a piorar"".

Penso que já terei deixado claro que não percebo esta insistência na ideia de que está tudo a ficar muito pior, que se baseia nestes dados de casos diários notificados à OMS:

casos mundo.jpg

E a razão de não perceber esta insistência, está nestes dados, de mortes diárias

mortes mundo.jpg

Ou seja, os menos de 100 mil casos diários de Abril resultavam em mais sete mil mortos diarios, e os mais de 200 mil casos de agora resultam em pouco mais de cinco mil mortos diários, e todas as semanas a OMS omite os últimos dados para repetir, pela enésima vez, que está tudo muito mau e vai ficar ainda pior.

No país que reporta mais casos diários (USA) os 40 mil casos diários de Abril resultavam em cerca de 2 500 mortos diários, e os 60 mil casos diários actuais resultam em cerca de mil mortos diários, mas parece que devemos concluir que está tudo pior.

No estado americano que mais casos reportou ontem (Texas) de Abril para agora o número de casos diários aumentou dez vezes e o número de mortos diários duplicou. Aqui sim, é possível dizer que a situação agora é pior que em Abril, mas está longe de ser uma situação dramática (150 mortos num pico de mortalidade de uma doença, numa população de 30 milhões, não é irrelevante, mas deve ser vista no contexto da mortalidade diária média que anda acima dos 500. Note-se que estou a usar um número claramente excessivo, a média dos últimos sete dias para mortalidade anda pelos 65 mortos) e, sobretudo, podemos dizer que estamos a lidar cada vez melhor com casos positivos, do que resulta uma mortalidade proporcionalmente mais baixa.

Mas admitindo que nada disto tem importância, e que a OMS tem totalmente razão para dizer o que diz, o que não entendo é como se responde então à pergunta de Lenine: que fazer?

Ou posto de outra maneira, o que quer mais a OMS que se faça?

O normal, para mim, seria dizer que é preciso ser mais eficaz na protecção dos grupos mais frágeis, que a coabitação é o principal factor de aumento de novos casos e que portanto é preciso olhar com especial atenção para as grandes infraestruturas onde coabita muita gente por muito tempo - dormitórios de trabalhadores, hospitais, lares, quarteis, prisões, residências estudantis, etc., sabendo que é muitíssimo difícil impedir a entrada deste vírus em estruturas destas. E deixarmos de gastar recursos a combater moinhos de vento, porque sabemos perfeitamente que é aqui que está o problema.

Se houvesse dúvidas, para o caso português, os recentes surtos em hospitais, lares e residências de estudantes seriam suficientes para demonstrar a dificuldade em impedir a entrada do vírus, mesmo em estruturas como hospitais e localizações fora dos grandes focos de casos, como Reguengos ou a Guarda, ou seja, o máximo que podemos fazer é trabalhar para reduzir a probabilidade mas sabendo que nunca haverá possibilidade de impedir que aconteça aqui e ali.

Mas não, como um pai severo a OMS continua a acusar os estados de não fazerem o suficiente e irmos todos arder no fogo do inferno se não fizermos o que temos de fazer que, por sinal, a OMS na realidade não diz o que é e onde estão os exemplos que demonstram a eficácia das generalidades que diz.

Esta peça do Observador é exemplar no que mostra das consequências institucionais da loucura instalada: um general cuja única preocupação é repetir vezes sem conta que não tem responsabilidade nenhuma e que os soldados é não são exemplares, numa demonstração de cobardia institucional deprimente.

Tudo gira à volta de uma suposta festa que ninguém demonstra que tenha tido nada de relevante (o que não impede o Ministério Público de a investigar), sem que ninguém, nem a jornalista, se pergunte de onde apareceu o vírus na festa.

A coisa é extraordinária: uma rapariga tem sintomas sem nenhum problema, testa positivo, desata toda a gente a ser testada e, milagre, aparecem não sei quantos testes positivos (27, para ser mais preciso), dos quais 17 estão internados.

17 internados já é um número de respeito e surpreendente para um surto com poucos dezenas de testes positivos em gente bastante nova, mas só é surpreendente até ao momento em que se percebe que os 17 internados nem sintomas têm, mas como são estudantes maioritariamente de São Tomé e Príncipe, a viver em residências colectivas - universitárias ou não, mas aparentemente universitárias na sua maioria - estão internados porque é a maneira de cumprirem o isolamento que foi determinado.

Eu não entendo toda esta loucura, o normal seria avisar toda a gente de que havia um teste positivo e que se alguém tivesse sintomas fosse ao hospital para ser tratado e, se quiserem, testado (saber se a pessoa testa positivo ou não para a covid é clinicamente irrelevante, não existem tratamentos específicos e portanto o que se vai fazer é controlar os sintomas, sejam eles provocados por covid ou por outra coisa qualquer).

E a vida continuava naturalmente, sem grandes perturbações, com uma avaliação da situação que ajudasse a melhorar o desempenho nos contágios, sobretudo no caso de haver pessoas de maior risco.

Haver infecção sem doença sempre foi considerado bom, é preciso repetir isto vezes sem conta, até uns malucos começarem a dizer que era preciso ir atrás do vírus para resolver o problema na fonte, coisa que até hoje nunca foi feita e sobre a qual não existe a menor evidência empírica de que seja boa ideia, fora de fases muito iniciais de uma doença, quando ainda tem só um foco bem delimitado e geográficamente restrito.

Bem sei que me vão responder que não sabemos se há imunidade e se persiste, havendo alguns indícios de que talvez não perdure muito.

Este argumento tem um problema: se não há imunidade, ou se ela desaparece rapidamente, então esqueçam a vacina.

Ou seja, a famosa preparação para o pior cenário deveria ter esta base: o que fazemos se não houver vacina?

Continuamos todos a funcionar assim ad aeternum ou, na melhor das hipóteses, até que haja algum tratamento específico?

O simples absurdo desta hipótese, ou da alternativa ainda mais absurda de liquidar o vírus através de medidas sociais, deveria ser suficiente para nos deixarmos de fantasias e lidar com a doença de forma normal: estudando, identificando riscos, adoptando medidas sensatas de gestão de risco, tratando os doentes (o que não é o mesmo de internar pessoas assintomáticas que testam positivo) e "viver como habitualmente".

A menos que alguém apareça com uma resposta clara à pergunta: o que fazer se não houver vacina?

Ou, de outra maneira: qual é o plano para sair disto, no pior cenário?



18 comentários

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De António Pires a 10.07.2020 às 12:09

Inteiramente de acordo.
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De Anónimo a 10.07.2020 às 17:53

Concordo com o essencial da reflexão. Simples e não simplista, clara e assente na realidade. 
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De Anónimo a 10.07.2020 às 12:43

"...se não há imunidade, ou se ela desaparece rapidamente, então esqueçam a vacina".



Penso que ainda não percebeu qual é o objetivo desta potencial vacina (e de muitas outras que já existem). A vacina procurará criar imunidade contra o agente infeccioso que vai para além do que o sistema imunitário criaria naturalmente. Por isso, mesmo que SARS-Cov-2 não crie qualquer imunidade, não é uma razão para não procurar um vacina que o faça de maneira mais eficaz.
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De henrique pereira dos santos a 10.07.2020 às 15:23

tem toda a razão, não percebo como se cria uma vacina para uma doença que não cria imunidade, mas estou sempre a tempo de aprender: pode dar-me um exemplo de uma vacina desenvolvida para uma doença que não cria imunidade para eu poder estudar o assunto?
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De João Távora a 10.07.2020 às 16:33

Henrique: estão reportados casos de infectados recuperados que tenham voltado a contrair a doença? Como se pode afirmar que as pessoas não criem imunidade?
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De henrique pereira dos santos a 10.07.2020 às 16:50

Não, não estão (havia uns casos reportados mas é informação muito pouco segura, provavelmente eram testes mal feitos).
Daí que não me pareça que alguém possa (e penso que ninguém afirma) que não há imunidade, o que se pode dizer é que não se sabe quanto tempo dura essa imunidade, se existir.
Ou seja, ninguém verdadeiramente sabe.
Se me perguntares a mim, eu acho mais provável que haja imunidade e que dure pelo menos uns meses, mas acho, é preciso mais tempo para saber.
A questão é que se há criação de imunidade, contágio sem doença grave, é bom, se não há imunidade, também não haverá vacina e o melhor é sabermos o que fazemos, porque evidentemente não é possível viver como vivemos actualmente indefinidamente.
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De Anónimo a 10.07.2020 às 17:15

Henrique, por favor, com todo o respeito, não confunda ausência de imunidade em resposta à contaminacão "natural" pelo virus (o que para já não se sabe), com resposta imunitária provocada por uma vacina. São duas coisas diferentes: uma vacina pode estimular o sistema imunitário de uma maneira que o vírus por si só não faz.
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De henrique pereira dos santos a 10.07.2020 às 18:04

Tem exemplos de vacinas assim?
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De voza0db a 10.07.2020 às 21:06

É... essa última frase precisa de clarificação!
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De Manuel da Rocha a 11.07.2020 às 19:58

Em Pequim 630 pessoas que testaram positivo entre Janeiro e Março, voltaram a testar positivo em Junho, depois de terem testes negativos a partir de Março. Portanto, dá a pensar que a imunidade poderá não existir ou o vírus é capaz de criar mutações que evitam os anticorpos que atingem o original (é o mecanismo do Influenza). 
É uma amostra muito pequena (no caso da gripe A demoraram 6 anos a ter resultados confiáveis...) para tirar ilações. 
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De voza0db a 10.07.2020 às 21:05


Vocês gostam mesmo de perder tempo a referir números e mortes falsas!


Fica claro que não entendem patavina do que é um teste RT-qPCR nem andaram a ler os guiões para atribuição da nova etiqueta "COVID" aos mortos!
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De Anónimo a 10.07.2020 às 23:11


Neste caso, de esta pandemia, óbviamente que não se pode confiar na O. Mundial de Saúde....
Os políticos -óbviamente para não assumirem riscos numa área que demonstra ser incerta- suportam as suas decisões na OMS o que deixa o cidadão duplamente inseguro.
O que parece ser certo é que a "Bigpharma" e os políticos venais tomaram conta desta "gripézinha". E não querem largar o osso. Veja a forma como tratam a modesta HCQ, em contraste com métodos astronomicamente dispediosos quanto defecientes. Agora preparam-se para abrir as garrafas de espumante e festejar, mais uma vez, uma miríade de vacinas mais que duvidosas, como fizeram com os milhões de "testes" dramaticamente incorrectos.
Ninguém defende o cidadão. 

HPdS aparece como uma voz comedida, a impor rigor, na análise de fenómeno tão irregular. Obrigado.
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De Anónimo a 11.07.2020 às 02:18


“With COVID-19, the inflammation goes haywire, and it may be the inflammatory response that is killing the patient, more so than the virus itself,”



https://www.studyfinds.org/bats-may-have-started-the-coronavirus-pandemic-could-they-be-the-key-to-ending-it/
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De pitosga a 11.07.2020 às 12:38


As vacinas contra a gripe são, há anos, elaboradas a partir dos dados que a OMS possui e que recolhe de todo o planeta. Dados fornecidos pelos países subscritores da OMS. Que estirpes e aonde. Dados esses que são enviados aos laboratórios que produzem as vacinas. A produção começa na Primavera para estar pronta no fim do Verão (Hemisfério Norte). Estas vacinas sempre foram fabricadas tendo em conta as três estirpes com maior prevalência viral do ano anterior. Desde há uns três anos, passaram a fazer vacinas com quatro estirpes.

Como se depreende, é bom negócio, garantido... Excepto se a imunidade 'social' tiver reduzido as vendas. Sempre se pode arranjar mais uma virose 'nova'.

Que eu conheça nunca se discutiu o prazo de validade de cada dose de vacina contra a gripe.


Até o Tedros — é assim que ele disse que gostava de ser chamado, apesar de haver outros nomes — limpou um furtiva lágrima da bochecha.

'Tamos' feitos...
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De Anónimo a 11.07.2020 às 17:33

Aleluia um texto interessante. Já começava a achar que estava louco e sozinho. Factual e empírico.
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De Anónimo a 11.07.2020 às 19:31

Só gostava que alguém me esclarecesse porque raio é que isto é considerado uma pandemia quando tem metade dos mortos do ano passado?
E já agora a quem é que interessa este alarmismo social?
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De Carlos Sousa a 11.07.2020 às 20:05

A quem é que interessa esta histeria colectiva? A quem é que interessa este embuste? A quem é que interessa este alarmismo social?

Que raio de pandemia é esta em que os mortos são cerca de metade daqueles que morreram o ano passado de gripe normal?

Estão a querer enganar quem?

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De Anónimo a 12.07.2020 às 09:26


Ninguém acha estranho que após tantos meses, parece que nada se sabe sobre este vírus, e organismos oficiais são diariamente apanhados com afirmações e orientações contraditórias, ou verificadamente falsas ?
Ninguém acha estranho que andamos todos de máscara,quando uma responsável da OMS disse publicamente ser extremamente improvável o contágio por assintomáticos ?
Ninguém acha estranho que a eficácia de qualquer medicamento ou tratamento convencional (e mais barato) seja imediatamente questionada e atacada ?
Vivemos no tempo das conclusões científicas "as rãs sem pernas são surdas". Para quem não conhece, é o resultado de um estudo científico em que,após cortar as pernas à rã, ela deixa de saltar quando lhe gritam...

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