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Na universidade tinha um colega que em todos os projectos que desenhava punha Prunus cerasifera Pissardii (uma pequena árvore, aliás muito bonita) porque são vermelhas e as suas iniciais são PCP (nos planos de plantação eram as iniciais que constavam).
Este meu colega, dono de um agudo senso de humor, estava na sua plena e inteira liberdade de projectista ao ter este critério rígido de projecto, estaria nas mãos dos seus potenciais clientes aceitar ou não projectos com esse critério.
Já se o meu colega resolvesse prever a plantação das árvores com a raiz para cima estaria muito para lá da sua liberdade de projectista, estaria simplesmente a ser parvo, porque as árvores não se podem plantar com a raiz para cima.
Vem esta historieta a propósito de uma chamada de primeira página do Público a propósito de um manifesto que diz respeito à Catalunha.
Chama o Público na sua primeira página "BE, PS, PSD, CDU e PAN unidos num manifesto pela Catalunha", titula a peça não assinada no seu interior da mesma maneira e diz no texto de enquadramento da publicação do manifesto: "Manuel Loff, André Freire e Fernando Rosas conseguiram o que o Bloco de Esquerda e PCP não conseguiram na Assembleia da República: que elementos do PS e do PSD juntassem a sua assinatura, e consequente apoio, a um texto que exige liberdade para os presos políticos catalães".
Publicar um manifesto, qualquer que seja, está dentro da liberdade de escolha da imprensa, não referir as mentiras factuais do manifesto, é feio, mas está dentro da liberdade de escolha da imprensa, mas mentir descaradamente dizendo que porque Pacheco Pereira (o eterno candidato falhado a mártir do passismo) assina um documento isso quer dizer que o PSD se uniu aos outros para dar apoio ao manifesto, ou mentir descaradamente dizendo que na Assembleia da República não houve elementos do PS a apoiar uma coisa do mesmo tipo, está muito para lá da liberdade de escolha da imprensa, é semelhante ao projectista que pretende plantar árvores com a raiz para cima.
O que o Público fez hoje não é má imprensa, é uma fraude, é pretender enganar os seus leitores, é quebrar o vínculo de confiança com os leitores.
Espero que o Público tenha a hombridade de tornar pública a assinatura da peça e que não só assuma que errou (isso é fácil) mas que levante um processo disciplinar a quem for responsável por esta fraude: a imprensa não pode passar o tempo a pedir consequências para o facto de políticos e gestores tomarem decisões erradas, ilegais ou irresponsáveis e, ao mesmo tempo, passar o tempo com panhinhos quentes em relação aos seus jornalistas que fazem isto.
Dizer isto não é atacar jornalistas e a liberdade de imprensa, dizer isto é defender os jornalistas responsáveis que nunca fariam uma coisa destas e que, por causa dos que o fazem, correm um risco muito maior de desemprego por se quebrar impunemente o vínculo de confiança entre os leitores e o jornal.
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