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Progredir é absolutamente maravilhoso. Fazer com que todos beneficiem dessa possibilidade, é óptimo. Garantir que, no mínimo, alguém tenha uma ocupação para a vida aumenta a sua segurança, é tranquilizador e muito agradável. Pelo menos à primeira vista parecem conquistas extraordinárias da nossa sociedade. Na verdade existem efeitos secundários que parecem fazer com que estas ideias não sejam boas ideias.

Olhemos só para dois casos e apenas para algumas consequências.

Os militares, pelo menos oficias e sargentos, têm uma progressão de carreira, não sei se garantida, mas pelo menos próxima disso. Aliada á outra ideia simpática, que as pessoas têm direito a ter apenas uma carreira, o resultado é catastrófico.

Tal como acontece com um dos nossos maiores problemas, a inversão da pirâmide etária, temos umas forças armadas envelhecidas e uma desproporção completamente ineficiente entre mais e menos graduados (no limite muito mais oficiais  ( e  sargentos) do que deveriam existir para tão poucos praças), idades de reforma inferiores à normal, idade de trabalho incompatíveis com as necessidades em caso de guerra ( soldados a combater com 60 anos talvez não seja o ideal) . Claro que se houvesse muito mais dinheiro, poderíamos ter idades de reforma ainda mais baixas (e uma maior injustiça relativa para as profissões normais) e muitos mais soldados do que temos. Infelizmente, não há nunca mais dinheiro (a nossa ineficiência como sociedade encarrega-se disso).No final, temos apenas umas forças armadas que nem têm condições materiais para cumprir os seus objectivos, nem profissionais satisfeitos. 

Os professores do Liceu, em princípio não têm o problema que o aumento de idade tem na disponibilidade física mais exigente no caso dos militares. Do meu pequeno universo pessoal, do que conheço, o cansaço psicológico dos professores mais velhos parece também aconselhar a que a idade da reforma fosse inferior à “normal” (infelizmente, mais uma vez a malfadada falta de dinheiro impede que assim aconteça), como alias é proposta em vários estudos. A ser esta tese verdadeira, caímos no absurdo: quanto menos condições para desempenhar funções  motivadas pela idade, maiores remunerações são auferidas pelos mais velhos. Vamos, por isso, imaginar que assim não é. 

Com os professores, temos  baixos vencimentos no inicio da carreira e uma progressão ao longo do tempo ( muito mais progressiva do que nos militares) que vai corrigindo esse estado de coisas. Parece difícil defender que professores mais velhos são como o vinho do Porto, tornando-se melhores com o passar do tempo. Se assim não for, então a questão é outra: os mais jovens são incapazes de realizar a sua função ou os mais velhos são sobre qualificados? Nenhuma das duas deveria ocorrer. Nem ter professores que são incapazes de exercer a sua função. Nem ter gente sobre qualificada que não é necessária: não devemos desperdiçar recursos demasiado valiosos que poderiam acrescentar mais valor à sociedade noutras actividades, ou que custem mais do que é necessário (sim, no final do dia é o povo que paga a conta).

Vamos também assumir que assim não acontece, para não ter que assumir  que todo o sistema educativo (ou remuneratório) não faz qualquer sentido.

Resta a questão de perceber porque alguém recebe mais (ou menos) por desempenhar a mesma função, o que parece tremendamente injusto, uma clara discriminação, uma injustiça, tudo aquilo que a esquerda e direita bem pensantes criticam.

Os mais sábios poderão encontrar uma saída: é apenas a fórmula possível para que, na falta de fundos para pagar menos mal a todos, se opte por uma formula que permita o tangível beneficio da melhoria de vida ao longo da carreira e, que no final, se verifique um equilíbrio dos benefícios ( os mais jovens de hoje serão os mais velhos amanha) e uma pensão mais agradável ( que depois, o sempre premente problema de falta de fundos do povo contribuinte obrigará a corrigir de alguma forma, mais cedo ou mais tarde, defraudando as expectativas criadas e criando novas injustiças).

Dois princípios fofinhos, progressão automática na carreira (quando objectivamente não se justifica) e a carreira para a vida (que parece insustentável), acabam apenas por trazer ineficiência, injustiça, opacidade e prejuízo para os beneficiários e para a sociedade. Como sempre acontece quando ignoramos a realidade das coisas. Ou não será assim?

 

PS: os efeitos perversos destes princípios são muito mais profundos e desastrosos do que cabe num breve post.

 

PS 2: É verdade que em Portugal todos ganham menos do que idealmente deveriam ganhar (para mim consequências de maus princípios). A luta entre governo PS e professores talvez seja mais complexa do que parece, a luta entre legalidade e aspirações e o aprofundamento de injustiças relativas, face ás restrições orçamentais, também ilegais face aos princípios constitucionais. As iniciativas do PSD, neste caso, cheiram-me a claro eleitoralismo, apostando em rendas excessivas de uma classe profissional que, entretanto, foi tacticamente abandonada pelo PS em prol de outros grupos de votantes mais importantes eleitoralmente ou mais baratos de satisfazer. Distribuir injustiças pelas aldeias é um desporto político altamente científico em Portugal.


11 comentários

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De urinator a 22.11.2023 às 09:21

devido ao excesso de burocracia e de burocratas inúteis os Profs, dentro das 24h, até encontram tempo para dar aulas.
cada vez menos jovens e mais velhada nos hospitais e à frente de certos partidos
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De Anónimo a 22.11.2023 às 09:50

sargentos promovidos a oficiais em 6 meses sem fazer os 4 anos nos cursos da academia militar ou 6 anos em medicina:


https://www.dn.pt/portugal/aguiarbranco-mantem-prazo-para-promover-enfermeiros-ao-oficialato-4871739.html
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De balio a 22.11.2023 às 10:49


Compreendo e concordo que o autor do post proteste contra as carreiras com progressão automática.
Já não compreendo nem concordo que o autor proteste contra a "carreira para a vida", seja lá o que isso fôr. É claro que, exceto em certas profissões ditas "de desgaste rápido", usualmente ligadas ao desporto, a generalidade das profissões são supostas ser para toda a vida. A generalidade das pessoas não é suposta mudar de profissão aos 50 ou 60 anos de idade.
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De Anónimo a 22.11.2023 às 18:09

Mais um disparate. Voce será investigador a vida toda? Ou passara a ser professor? Ou passará um dia a trabalhar e a gerar riqueza?
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De Anonimo a 23.11.2023 às 06:48

Abaixo os professores, médicos, bombeiros, polícias, carteiros, que não criam riqueza. Esses gajos investigadores também podiam ir trabalhar, onde se viu tentar descobrir coisas novas.
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De Anónimo a 22.11.2023 às 11:57




a carreira para a vida não é uma coisa má. Aliás, a experiência em Portugal é algo altamente desvalorizado. O problema é a carreira garantida para a vida
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De Anónimo a 22.11.2023 às 13:27

Quem sabe se algum dia vai deixar de existir o mecanismo que periodicamente verifica que as pessoas estão vivas.
Caso estejam, são promovidas, tenham ou não cumprido as suas funções em termos de competência ou assiduidade. Tão pouco se verifica eventuais diferenças entre eles, são todos iguais, todos excelentes.
Quando tal ocorre convinha ter em conta se se verifica a necessidade de mais pessoas no nível para o qual estão a transitar. Na maioria dos casos, o resultado é que continuam fazer o que faziam e a ganhar mais. Depois chegamos ao que em giria é traduzido por "mais chefes que indios".
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De Luis a 22.11.2023 às 18:26

Lamento informar que as promoções nos militares há já muito tempo que não são automáticas e com o actual sistema de avaliação ainda menos o são. Depois há uma incongruência no texto: primeiro queixa-se de idades de reforma abaixo dos restantes mas depois refere que existem militares com idades incompatíveis com o desempenho das funções! Quanto à inversão da pirâmide hierárquica, é um facto de há muito conhecido, mas que acontece por não ter sido possível recrutar mais praças, e quando o foi ninguém se quis alistar dadas as miseráveis condições remuneratórias e de trabalho.
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De Jose Miguel Roque Martins a 22.11.2023 às 18:38

gostaria de esclarecer um ponto: a questão é que existem inúmeras carreiras em que não faz qualquer sentido que sejam para a vida. Porque não fazer contratos de 11 anos ( alguns exércitos é o que fazem), após os quais as pessoas vão fazer outra coisa? E porque não dar aulas uns anos e depois mudar de vida? 
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De Anonimo a 22.11.2023 às 21:34


Porque há pessoas que gostam de dar aulas, e fazem-no bem. E com a experiência acumulada podem fazê-lo cada vez melhor. Não faz sentido évum mau professor continuar a sê-lo, quanto mais ser promovido. 
Sim, realmente faz sentido investir numa profissão e mudar de vida porque sim.A Dra Catarina deu esse lamiré quando confrontada com as pessoas que perderiam emprego caso a indústria do petróleo se extinguisse. Mudavam para as renováveis. Assim.
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De Luis a 23.11.2023 às 18:17

Em Portugal isso já é possível. No entanto não há vontade (leia-se dinheiro, entre outras) para remunerar decentemente as pessoas e para lhes dar condições dignas de retorno à vida civil. Nesses países que refere ao fim um determinado tempo de serviço adquire-se o direito a uma pensão digna para o resto da vida (na Legião Estrangeira são 15 anos, nos EUA 20). Na Alemanha estão garantidos 12 anos de serviço e para o retorno à vida civil dão condições muito boas e que são entendidas pelos militares como justas. Cá o que é que dão? Em bom rigor nada. 

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