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Procurando ser mais preciso

por henrique pereira dos santos, em 26.03.20

Disclaimer: eu não percebo nada disto

Deu-me para esta coisa inglória e quixotesca de procurar contribuir para a racionalidade na gestão da epidemia em curso.

Como não percebo nada de epidemiologia (as minhas primeiras perguntas sobre o assunto vêm de alguma coisa que sei de biologia da evolução e a sua relação com microorganismos e afins), naturalmente fui procurando quem dava respostas que eu conseguia encaixar no que achava que sabia para, se fosse caso disso, mudar de ideias.

Durante este tempo, que tem sido de aprendizagem mais intensa do que pensei, ocupando-me muito mais tempo do que pensei (felizmente tenho de ir esvaziando o congelador que coisas que estão mais ou menos cozinhadas há algum tempo, até porque com o fim das visitas de filhos e netos tudo dura muito mais), fui ouvindo com atenção pessoas que me pareceu que tinham informação fidedigna e que me conseguiam demonstrar de onde vinha o que dizia, uns por me darem referências bibliográficas (para além de explicações coerentes e verificáveis à medida que o tempo passava), outros por experiência directa.

Desta opção resultavam duas visões paralelas que raramente se cruzavam.

Quando se olha para os dados da epidemia, enquanto epidemia, a coisa não está a ser muito diferente do que seria um forte surto gripal, sobretudo em mortalidade, que é o que interessa.

Quando se olha para a experiência de quem está na linha da frente, mesmo descontando todas as distorções que possam existir por se estar a olhar para a doença e para o doente, e não para a epidemia e para a sociedade, havia manifestamente diferenças relevantes para os surtos gripais, mesmo aqueles mais fortes de que vamos dando conta pelo caos nas urgências dos hospitais (que são recorrentes em surtos gripais fortes, quer aqui, quer em Itália e noutros países) e pelos picos de mortalidade que podemos facilmente ver aqui (os que não são daltónicos, como me fazia notar ontem um amigo). A talhe de foice, agora que fui olhar para os gráficos para pôr a ligação acima, há um aparente deslocar para a Primavera do pico de mortalidade associada à gripe e, mais interessante (mas muito mais especulativo), a subida de mortalidade dos últimos dias parece começar antes de começarem a ser atribuídas mortes ao Covid, o que poderá querer dizer (pura especulação, segundo aviso) que a epidemia já estava em curso, silenciosamente, antes de termos dado por ela, o que é coerente com o episódio dos doentes não diagnosticados com a covid em Santa Maria.

Procurando casar estas duas linhas de informação, o que me parece (eu não percebo nada disto, repito) é que se é verdade que esta epidemia não está a ter efeitos na mortalidade muito diferentes dos surtos gripais (podendo o seu efeito estar mesmo empolado pelo facto deste Inverno e o anterior terem sido bastante benignos do ponto de vista da gripe), esta doença não tem o mesmo impacto no sistema de saúde e nos profissionais de saúde por ser mais agressiva quando desencadeia pneumonias (os dois pulmões são afectados e a passagem para a falta de ar é mais rápida), a resolução do caso médico é bastante mais demorado (até por não haver medicação a que a pneumonia ceda) e a capacidade de contágio, que já de si é elevada (como a da gripe também é, não sei o suficiente para ter a menor ideia sobre se na mesma ordem de grandeza ou não), atinge especialmente os profissionais de saúde, nomeadamente porque as operações iniciais para ventilação do doente potenciam o contágio e alargam as formas de contágio.

Se isto for assim, é perfeitamente compreensível que uma doença cujo impacto na mortalidade seja semelhante ao de um surto gripal forte, tenha um impacto muito maior nos serviços de saúde (porque o tempo de ocupação de camas nos cuidados intensivos, por doente, é maior), e também no pessoal de saúde que está na linha da frente, onde existem muitos profissionais que manifestamente estão em grupos de risco, em especial os médicos homens mais velhos e experientes que têm histórias de tabagismo, hipertensão, diabetes, asma, etc..

E que isso potencie o medo social, até por esta tendência dos jornais para acharem que entrevistar bombeiros num decurso de um fogo é a melhor forma de produzir informação sobre a gestão do fogo: não é, é uma boa forma para dar emoção à informação, mas a informação não melhora com isso.

Como alguém poderia ter lido os meus posts anteriores como desvalorizando esta epidemia (e, provavelmente, teria lido com razão) achei por bem clarificar este ponto que, não alterando o meu ponto de vista sobre a gestão da epidemia numa óptica mais alargada, me faz dar mais importância ao aspecto da gestão dos serviços de saúde e dos profissionais de saúde.

Não é que eu passe a achar que é possível achatar curvas de epidemias instaladas com esta capacidade de contágio através de confinamentos sociais extensos, é simplesmente achar que, na protecção dos mais expostos, para além dos que estão nos grupos de risco que sempre identifiquei, a gestão dos serviços de saúde e dos profissionais de saúde, em especial os que estão em grupos de risco, deveria subir uns degraus na prioridade da preparação para um eventual novo surto no próximo Inverno.



8 comentários

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De Anónimo a 26.03.2020 às 10:07

só se morre uma vez
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De Luís Lavoura a 26.03.2020 às 10:11

https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/suecia-nao-impoe-limites-e-torna-se-exemplo-de-combate-ao-virus-565976

Diz que a Suécia, com casos de infeção e mortes não muito distantes dos de Portugal, ainda se mantém aberta (por enquanto!).
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De zazie a 26.03.2020 às 10:41

Há uma falácia de base neste tipo de argumentos.


Isola-se os efeitos do vírus e as estatísticas das mortes e retira-se daí a comparação de nºs de mortes com gripes.


A questão seria comparar a intensidade do vírus, facilidade de propagação e contágio geral e efeito nas pessoas que precisam de tratamento médico por MUITAS OUTRAS RAZÕES. Com doenças mais graves. Com operações e tratamentos adiados e, ainda por cima, com o facto de poderem, por acréscimo, se precisarem de se tratar, apanhar com esta gripe.


Daí que as estatísticas não são isoláveis. A única questão seria pegar nos que recuperaram e testar o tipo de imunidade que têm, ou não têm e daí usar plasma, enquanto não há vacina.
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De Anónimo a 26.03.2020 às 15:08

comparam as estatística entre o rectângulo e os EUA 33x+ população
'in oculum descansum est'
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De zazie a 26.03.2020 às 10:45

"a gestão dos serviços de saúde e dos profissionais de saúde, em especial os que estão em grupos de risco, deveria subir uns degraus na prioridade da preparação para um eventual novo surto no próximo Inverno"



Já. Devia aumentar, já e não da maneira que propõem, com ida a Centro de Saúde.
O problema já existia. Fora dos hospitais com urgência (uma minoria e com ideias malucas de criarem mega-hospitais e fecharem outros) o que se prova é que devia haver muito mais descentralização de cuidados, com infra-estruturas (análises, aparelhos, enfermeiros) de forma local e muito mais "células".
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De Anónimo a 26.03.2020 às 11:14

Já tinha alertado para a evolução do grafico da SICO há dias, desde o dia 8 que ha uma tendência que me parecia estatisticamente relevante. A confirmar-se os obitos tiveram início muito mais cedo que o anunciado  e a situação vai evoluir de modo identico a Espanha e Itália. 
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De Manuel Lourenço a 26.03.2020 às 13:09


Muito obrigado por manter a lucidez e não embarcar em preconceitos, seja de histeria, que vem aí o fim do mundo (como é a regra na comunicação social, quase sem excepção), seja de sobranceria de considerar que não se passa nada. É muito importante termos acesso aos dados em tempo real dos n.ºs de mortos, por ano, classe etária, etc.
Parece que de facto não sendo uma catástrofe em termos de vitimas - no final se fará o computo - o stress que está a causar nos sistemas de saúde é muito grande e por isso transmitido para a comunicação social. Outra coisa que se tem falado pouco, é que o SNS - que era dos melhores do mundo e o orgulho do regime - é de uma enorme fragilidade em termos de equipamentos, em especial ventiladores, em que o ratio por n.ºs de habitantes é dos menores dos 27 países da UE, salvo o erro a Alemanha tem 29 ventiladores por 100.000 habitantes, Itália 12 e Portugal tem 4 ou 5.
Os jornalistas não fazem as perguntas que devem ser feitas, especialmente qual o grau de evolução de mortes no total e não apenas causadas pelo Covid 19. Sendo que muitas das mortes nem sequer são causadas pelo Covid 19, mas sim que os defuntos tinham o Covid 19.
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De Anónimo a 26.03.2020 às 15:10

não passam de lambe-cus, é de cetra

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