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Primeiro de Dezembro

por Corta-fitas, em 01.12.20
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O dia 1 de dezembro de 1640 pode ter efeitos míticos em Portugal, mas a sua realidade é histórica e a data, mais do que concreta, é uma daquelas que na história da Lusofonia merece particular atenção e respeito, pois o significado de uma data como esta é profundo e possui valor que não passa. A Restauração da Independência de Portugal representa um daqueles eventos que na história de Portugal e da Europa, para não mencionar o Brasil e largas porções da África ou da Ásia, tem um significado que, sendo histórico, merece consideração. Em primeiro lugar, porque a independência de um povo capaz de se governar, e de se afirmar no quadro das nações, é algo que mesmo em tempos de acelerada globalização deve ser comemorado, respeitado e, claro, entendido no seu significado mais profundo. Depois, porque um evento tão marcante como o do dia 1 de dezembro de 1640 e a consequente aclamação do rei D. João IV como rei de Portugal, é passível de uma leitura como esta que proponho: quando está em crise, o de Portugal é um povo que rapidamente se sente chamado a fazer o que possa, mesmo sacrificando-se, pelo Bem Comum da comunidade nacional. Para o bem ou para o mal, Portugal continua em estado de profunda crise. Não que o nosso maior problema seja hoje o da independência, pois no quadro europeu em que livremente nos inserimos esse não é mais o problema que nos preocupa, Mas como unidade sociopolítica, cultural e linguística, Portugal precisa de continuar a encontrar no interior de si mesmo uma renovada capacidade de resolver os seus problemas, sejam esses de natureza financeira, política ou social, religiosa ou cultural. Portugal precisa de ser capaz de dizer com voz que se ouça, na Europa e no concerto das nações do mundo, que a nossa história de mais de 800 anos não foi nem um engano nem um mero acidente do tempo, antes tem tudo a ver com um projeto de «Nação Fiel» às suas origens, de povo empreendedor que cruzou os mares quando estes estavam longe de serem domados e o fez para ao mundo dizer o que sem Portugal o mundo nunca tão bem teria percebido como hoje disso é capaz: que há mais na vida do que apenas prosperar; de que na vida das nações, como das famílias e dos povos, há mais a esperar do que apenas o pão de cada dia. Apesar de pequeno, e relativamente pobre, Portugal nunca deixou de mostrar em momentos cruciais da sua história, como crucial foi a data que hoje se recorda, ser uma Nação com insuspeitados recursos, capaz de se auto-superar, ou seja, de no presente voltar a fazer melhor do que fez no passado. Em 1640 as nossas elites tiveram um papel fundamental. Mas a pergunta continua a ser: que fazem, ou onde estão, as elites que nos governam? Por certo, na história de Portugal as elites nunca foram tudo, e nem sequer o nosso melhor, como de resto assim importa que seja. Mas nesta data um novo desejo para Portugal também tenho: que os Portugueses, ou os falantes da nossa língua, sobretudo se animados pela Fé que ao longo dos séculos os povos foram sendo capazes de aprender a estimar e a servir, possa continuar a assumir a responsabilidade de fazer o que nunca falhou, a saber, esforçar-se por transformar o destino coletivo que é de todos. O nosso destino é, hoje e mais do que nunca, Europeu; o nosso futuro, porém, passa pela obrigação de cuidar a memória do lugar que temos na História do mundo. Portugal nasceu como rebento da Fé em Cristo, como Utopia de uma nova civilização. Enraizado no movimento cristão, que fez a Europa, Portugal trabalha no quadro de uma civilização que se quer do Amor, da Justiça e da Paz. A ousadia de ser si-próprio foi um dom que a Restauração de 1640 nos conseguiu. Oxalá a memória de um momento histórico de tão boa e profícua fortuna nunca deixe de nos congregar. Não em torno de provincianismos sem razão de ser ou com méritos inferiores aos requisitos do tempo em que vivemos; antes sim ao serviço da Ideia que, desde a origem, fez o que é Portugal. Uma Ideia, portanto, que independentemente dos respetivos contornos coincide com uma outra, que nos é abrangente e que, se fiéis ao dinamismo e à cosmopolitização da História, não podemos deixar de continuar a abraçar: a Ideia de Europa, a de uma entidade sociocultural e política que sabe o quanto terá de permanecer fiel à matriz de onde provém caso tenha, de facto, a pretensão de ser dona do próprio Futuro.

«Amicus Plato, sed magis amica veritas!»

Imagem: Coroação de D. João IV (1908), quadro de Veloso Salgado (1864-1945); Museu Militar - Sala Restauração, Lisboa. Fonte: Wikipédia].



4 comentários

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De Anónimo a 01.12.2020 às 19:13

gostava de saber o que disse D. Duarte sobre esta xuxadeira
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De Bic Laranja a 01.12.2020 às 19:36


… na história da lusofonia…
Lusofonia?!!!
Portugal deixou de se enunciar?
Parole parole & mais clichés.




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De Octávio dos Santos a 02.12.2020 às 14:05

Este texto é notável nos seus (acertados) pressupostos e nas suas (relevantes) conclusões, mas na prática desautoriza-se a si próprio, «auto-sabota-se», ao ser escrito em sujeição ao AO90, atentatório da independência nacional e desrespeitador dos «falantes da nossa língua».
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De Anónimo a 04.12.2020 às 10:45

Estamos em "Democracia". Todos podemos dizer e escrever do modo que nos for melhor e todos temos que respeitar o modo de "estar" na política, de uns e de outros. A nossa História é feita disso tudo...

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